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Vitória e Abdul

6 fev

Embora dirigido por Stephen Frears e com Judi Dench no papel principal, o filme “Vitória e Abdul – o confidente da rainha” (2017) só de forma modesta concorre ao Oscar deste ano: nas categorias de figurino e maquiagem.

De fato, não se trata de nenhum grande filme, mas, acho que vale a pena ser visto. Nem que seja por puro entretenimento. Eu, pessoalmente, me diverti acompanhando o desenrolar dessa amizade nada provável entre uma rainha idosa e um jovem plebeu, e isto em pleno Século XIX. Aliás, como no clássico de William Wyler “A princesa e o plebeu” (1953), o tema subjacente também é aquele que se resume na expressão “noblesse oblige”.

Em cenas chave, vemos a poderosa rainha da Inglaterra confidenciando ao seu servo indiano o peso e a solidão de ser rainha. São cenas intimistas, com certeza a parte mais criativa de um roteiro que se diz baseado em fatos reais e, espertamente acrescenta “mostly”, ou sejam “em sua maior parte”… Mas não sempre, subentende-se.

Enfim, em plena Índia colonial do século XIX, o modesto funcionário público Abdul Karim é aleatoriamente escolhido para ir à Inglaterra, fazer entrega à Rainha Vitoria de uma famosa moeda pátria. Acontece que, já no ato da entrega, durante a pomposa ceia real, a Rainha põe os olhos naquele belo indiano, e não quer mais largá-lo. Para desespero da corte inteira (contando filhos, parentes em geral e serviçais) o nomeia seu guardião, e, com o desenvolvimento da amizade, seu professor e guru. Como o guru era muçulmano, daqueles que sabem o Alcorão de cor, ela vai aderindo à sua religião, esquecida do rigor de sua tradição anglicana.

Centrado na amizade dos dois protagonistas, o filme não tem tempo de mostrar o contexto histórico da chamada Era Vitoriana. Deve ter partido do princípio de que o espectador o conhece muito bem das aulas de história.

Seja como for, sabemos bem que foi uma época puritana de falso moralismo, e pior, de improdutivo marasmo, onde tudo girava em torno do conceito mais retrógrado de lar. É pelo menos assim que está descrita no livro “Orlando” de Virginia Woolf, ou, se for o caso, nas páginas poéticas de um Robert Browning. E o pior é que essa atmosfera conservadora e mesquinha é, normalmente, associada à própria figura da Rainha Vitória, a mãe de nove filhos, supostamente estimuladora do conceito mais careta de família.

Ora, é exatamente por causa desse contexto não explicitado que o filme de Frears se torna interessante – pelo fato de negá-lo, apresentando-nos uma rainha, como já dito, cansada de ser rainha, e, aos 81 anos de idade, de mente aberta às novidades, ao exotismo e à aventura; cheia de projetos de uma vida nova que nada tinham a ver com a conservadora tradição inglesa, muito pelo contrário.

Em sua primeira metade – possivelmente de propósito – o filme nos faz crer que o interesse da Rainha Vitória no seu súdito seja amoroso, mas, a certa altura, tem o cuidado de corrigir a impressão, ou pelo menos, deixá-la suspensa. É no suave turning point em que ela fica sabendo que o rapaz é casado. E o que faz? Imediatamente e com todo gosto, manda buscar, da Índia, a tal esposa, que vai nos aparecer sem que a vejamos realmente, o corpo todo, incluindo o rosto inteiro, escondido por uma indumentária de cor negra.

Evidentemente, as diferenças entre a Inglaterra e a Índia eram – e são – muitas e o diretor Frears não perde a oportunidade de as acentuar com lances de humor.

Um exemplo já está no quase início, com a prolongada cena do pomposo jantar na corte, os dois novatos indianos observando, estupefatos, o ridículo cerimonial em que cerca de cem comensais ocupam uma mesa sem fim, servidos por cerca de cem serviçais atarantados… Um outro exemplo, catado ao acaso: no dia em que o médico da corte é obrigado a examinar a esposa do indiano, e não pode fazê-lo porque – o marido explica – ela não pode retirar a burka, a solução é que a mulher, por um buraquinho pequeno do pano, lhe estire, em close, a sua grossa, vermelha e molhada língua.

Mas, visivelmente, o forte em “Vitória e Abdul” não é o enredo. Ele é muito mais, como se diz, “um filme de personagem”, e, neste aspecto, quem nele reina, soberana, é a grande Judi Dench. Afinal de contas, num filme que parece ter sido concebido para ela.

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O céu em teu amor

29 maio

 

Estórias de casais apaixonados pululam na literatura e no cinema. O caso é mais empolgante se os dois amantes são poetas. Mais ainda se o caso é verídico.

Pois, a mais famosa estória real de amor da literatura aconteceu na Inglaterra vitoriana, segunda metade do século XIX, entre a poetisa Elizabeth Barrett e o poeta Robert Browning.

Elizabeth escrevia poesia desde pequena e quando conheceu Robert já era uma escritora consagrada. Doente de um mal espinal, vivia em casa, a maior parte do tempo numa poltrona, rodeada dos muitos irmãos e irmãs. A mãe era falecida havia muito tempo, e, desde então, o pai se tornara um tirano que, estranhamente, não permitia casamentos para nenhum dos filhos. Seis anos mais novo e menos conhecido, Robert apaixonou-se pelos seus versos… e por ela. Iniciaram uma correspondência, e as cartas, cada vez mais frequentes, foram reforçando a reciprocidade dos sentimentos.

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Um dia ele teve a coragem de ir visitá-la em sua mansão da rua Wimpole, e, a partir de então, a saúde da moça começou a melhorar, com a perspectiva de viver um grande amor. Na medida em que melhorava, pioravam as reações desfavoráveis do pai. Este proibiu terminantemente o caso e, numa tarde de setembro de 1846, o casal fugiu, casou, e foi passar a lua de mel em Paris. O pai deserdou-a, mas dinheiro não estava nos planos do casal apaixonado, que foi viver na Itália, e como se diz nos contos de fada, foram felizes para sempre.

Nenhum dos dois parou de escrever, e hoje, como se sabe, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning são dois dos grandes nomes da literatura inglesa, especialmente no terreno poético. Ela autora, entre tantos outros títulos, dos deliciosos “Sonnets from the Portuguese”, e ele, dos belos “Dramatic Lyrics”.

A vida na Itália foi essencial para os dois. Elizabeth desabrochou nos dois sentidos, o literário e o vital. Chegou a gerar um filho, o que não se esperava de seu estado de saúde. Quanto a Robert Browning, encontrou naquele país o cenário renascentista e os personagens perfeitos para os seus sombrios e irônicos ´monólogos dramáticos´ que o consagrariam como um poeta maior.

O casal poético no altar

O casal poético no altar

Sempre achei que a estória do casal dava cinema, mas nunca tive notícia da existência de um filme que contasse o caso.

Agora, meio por acaso, me deparo com este “O céu em teu amor” (“The Barretts of Wimpole Street”), uma produção de 1957 da MGM que, se foi exibida localmente, não sei dizer. Com direção de Sidney Franklin, o filme tem Jennifer Jones e Bill Travers no papel do casal de poetas apaixonados.

Leitor da poesia intensa e lírica de Barrett e da poesia desconcertante e profunda de Browning, esperei muito do filme que, lamentavelmente, não correspondeu às minhas expectativas. Em nenhum momento, vislumbra-se a grandeza dos protagonistas, que mais parecem duas pessoas comuns, vivendo o mais banal dos casos de amor, daquele tipo ´os empecilhos estimulam a paixão´. Não há referências aos poemas, e sequer se mostra Barrett em algum momento envolvida com sua produção poética, ou discutindo-a. A rigor, gasta-se mais tempo com as peripécias de seu cachorrinho de estimação do que com sua vocação poética.

Um quadro da Era Vitoriana...

Um quadro da Era Vitoriana…

A impressão é que os produtores, supondo que o público sabia quem eram os protagonistas, não investiram em nada que fosse de natureza literária. Pode ser que isto tenha valido para as plateias anglo-americanas, que estudaram os dois poetas em sala de aula, mas, suponho que no Brasil, o filme foi visto somente como mais um melodrama, dos muitos que se cometiam nos anos cinquenta, e nada mais. A outra alternativa, talvez mais provável, é que não tiveram os autores do filme a capacidade de compreender, e recriar, a dimensão superior dos personagens. O mais grave mesmo é que o filme não é poético.

Leio que a estória vem de uma peça que, nos anos 30, fez sucesso na Broadway. De fato, o filme tem mais esse pecado, o de limitar-se ao ambiente fechado da mansão Barrett. Ainda que não detenha a informação da origem do texto, o espectador nota a teatralidade das encenações, sempre limitadas por paredes e repletas de diálogos mais longos que o habitual. Esse diálogo quer, às vezes, ecoar o lirismo da poesia dos autores enfocados, mas não consegue: “I shall love you to the end – and beyond”, diz Robert a Elizabeth, em momento de enlevo. E nisso fica.

Fica longe a beleza dos versos que a poetisa dedicou ao amado, no já citado “Sonnets from the Portuguese”, livro cujo título, a propósito, nada tem a ver com a língua portuguesa: era só o apelido carinhoso que Robert dera à amada, por ter ela cabelos negros que lembravam os de uma nativa de Portugal.

Dizem que há uma outra versão fílmica, mais antiga, da estória. Espero um dia lhe ter acesso e me decepcionar um pouco menos.

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

 

O Hitchcock de nossos dias

6 abr

Entediado com a pasmaceira da sua época, a Era Vitoriana, o idoso poeta Robert Browning lamentava a esterilidade de seu tempo e suspirava por um passado de ousadia criativa, aquele que os historiadores já estavam chamando de Romantismo.

Num de seus poemas, ele chegou a esboçar a figura de um poeta sem fôlego que, para mais ridicularizar, apelidou de “o Byron de nossos dias”, querendo dizer, com a expressão, que do grande poeta romântico esse poetinha atual não tinha nada.

Mudando século, país e assunto, – pergunto – não é o que acontece hoje com quem, com décadas e décadas de curtição cinéfila nas costas, conheceu de perto os bons tempos do cinema clássico e é obrigado a engolir os filmes irrisórios da atualidade?

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Pois é. Assisti a este “As duas faces de Janeiro” (“The two faces of January”, 2014) e, automaticamente, ocorreu-me adaptar a expressão pejorativa de Browning para o seu diretor: “o Hitchcock de nossos dias”.

E vejam que, em sua primeira experiência cinematográfica, o anglo-iraniano Hossein Amini bem que tentou. Digo, bem que tentou ser Hitchcock. O seu primeiro passo foi tomar como fonte uma escritora, Patricia Highsmith, que já fora adaptada por Hitchcock. (Dela o velho Hitch filmara “Strangers on a train” (“Pacto sinistro”, 1951).

Se você adaptar o que X adaptou, você fica igual a X: infelizmente a regra não funciona. O mestre Truffaut já tentara e não deu certo, com sua filmagem de “A noiva estava de preto” (1968).

Kirsten Dunst é Colette, a esposa.

Kirsten Dunst é Colette, a esposa.

De fato, pela trama “As duas faces de janeiro” tem traços hitchcockianos.

Nas belas paisagens da Grécia de hoje, esse jovem americano poliglota trabalha como guia turístico. Seu nome é Rydal (Oscar Isaac) e ele vive de pequenos golpes. Agora, de golpes grandes quem vive é o turista Chester (Viggo Mortensen), que Rydal vai conhecer por acaso, a ele e sua bela esposa (Kirsten Dunst).

Mas, por enquanto, Rydal – como nós – não sabe de nada… Até que, sem querer, avista, no corredor do hotel, Chester fazendo algo muito estranho: arrastando o corpo inerte de um homem que – logo ele saberá – acabou de matar, dentro do quarto do hotel.

Um homem arrastando um morto num corredor de hotel, avistado por um outro, cujo olhar voyeur coincide com o do espectador… A cena é bem htichcockiana, porém, infelizmente o restante do filme não segura o clima.

Oscar Isaac e Viggo Mortensen

Oscar Isaac e Viggo Mortensen

Chester é um alto negociante que vive de dar trambiques em investidores incautos, e Rydal, em parte fascinado pelo charme de sua esposa, o ajuda a driblar a enrascada em que, no momento, está metido, e, assim fazendo, se torna seu cúmplice. Como se vê, as linhas gerais do enredo também evocam Hitchcock, mas apenas evocam… Como aliás, o faz qualquer página de Highsmith.

Forçoso e demorado, o desenlace não interessa, mas vale uma alusão ao título do filme.  Janeiro é o mês de Janus, o deus romano de duas caras, porém, esse fundo mitológico não tem muita funcionalidade dentro do filme, que, muito pouco tem da dualidade esperada, e, menos ainda, de uma possível tensão gerada no contraste entre as duas faces.

Três perdidos na Grécia.

Três perdidos na Grécia.

O contraste poderia ser actancial, digo, relativo aos personagens, entre aparência e realidade, entre passado e futuro… e não é. Tanto Rydal quanto Chester são o que são, desde o começo e assim permanecem até o final, respectivamente, um pequeno escroque e um grande escroque.

Enfim, deixo para lá o filme e volto a Browning e seu saudosismo. Ou melhor, volto a Hitchcock, o próprio, e ponho no aparelho de DVD, para ver pela décima vez, “Pacto sinistro”: Patricia Highsmith nas mãos hábeis do mago do suspense.

De volta a Hitchcock: cena de "Pacto sinistro".

De volta a Hitchcock: cena de “Pacto sinistro”.

O Cassavetes de nossos dias

16 maio

Por que fui ver “Mulheres ao ataque” (“The other woman”, 2014), filme em cartaz na cidade? Acho que foi por teimosia.

Explico-me. O diretor é Nick Cassavetes, filho de um cineasta que muito admiro, John Cassavetes (1929-1989), o mentor do que um dia foi o “cinema independente americano”, aquele movimento novaiorquino que, nos anos sessenta, deu aos Estados Unidos o seu equivalente às vanguardas que então eclodiam em outros países, como a Nouvelle Vague francesa e o Free Cinema inglês.

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Eram filmes produzidos fora dos estúdios, no caso de John Cassavetes, feitos com um encantador tom autoral, quase invariavelmente estórias de casais em crise amorosa, sempre com a musa do diretor, sua esposa Gena Rowlands. Sem fôlego comercial, muitos desses filmes, como A canção da esperança (1961), Minha esperança é você (1963), ou Faces (1968), não frequentaram o circuitão e, no geral, são pouco conhecidos do grande público. Mas todos grandes filmes.

Só que eu já sabia – e nisso reside a minha teimosia – que nem sempre filho de peixe é peixinho, pois, dez anos atrás, eu havia visto o Nick em seu início de carreira, com o seu terceiro filme “Diário de uma paixão” (“The notebook”, 2004). Vira, não gostara e escrevera sobre, dizendo que não gostara e por quê. Era um filme com bons ingredientes (inclusive, com a ainda bela e talentosa Gena Rowlands, mãe de Nick), mas, uma estória melodramática pouco plausível, e não muito hábil no gesto de envolver o espectador.

Agora, com este “Mulheres ao ataque” a decepção de dez anos atrás é dez vezes maior. Não há dúvida de que “o Cassavetes de nossos dias” debandou para o besteirol, sem se incomodar de fazer uma comediazinha idiota, como as que comete em série a Hollywood eletrônica dos tempos atuais.

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Um parêntese literário: em poema conhecido, “Dis aliter visum”, o poeta inglês Robert Browning reclamava da burrice da sua época, a paradona e pouco fértil Era Vitoriana, diminuindo pejorativamente o poeta contemporâneo seu com o subtítulo maldoso: “o Byron de nossos dias”. Desculpem-me, mas é neste mesmo sentido que sublinho a expressão acima, “o Cassavetes de nossos dias”…

O enredo do filme até que é interessante: o tratamento dado é que não é.

Uma jovem esposa (Leslie Mann) descobre que o marido gostosão tem uma amante (Cameron Diaz) e, ao invés de procurar o cônjuge para os devidos acertos de conta, procura a amante, a qual, não sabendo que o cara era casado, sente-se tão traída quanto a esposa. Depois de muitos mal-entendidos, as duas se tornam amigas e quando estão planejando algo, descobrem, estupefatas, que na vida do cara há uma terceira mulher (Kate Upton), a qual, por sua vez, experimentando a mesma sensação de traição, termina por se juntar às outras duas e, como está no título brasileiro do filme, partem ao ataque.

Cheio de gags desnecessárias e ridículas, o filme apela para o riso fácil e, como dito, tome besteirol! Quedas de batentes, jarros quebrados, vômitos dentro de bolsas, farsas inviáveis com pernas e braços alheios, perseguições desastradas, brigas truculentas… a lista não termina mais, porém, o pior de tudo é um cachorro sabido que se faz onipresente, como um personagem incomodamente indispensável.

No cinema, ouvi pessoas rindo, divertidas com as gags e ainda quis me convencer de que estava sendo exigente demais com o filme, porém, confesso, não aguentei o desperdício de película e – coisa rara – deixei a sala de exibição antes de o filme terminar.

A atriz Cameron Diaz é uma das mulheres atacantes.

A atriz Cameron Diaz é uma das mulheres atacantes.

Saí e fui tomar uma taça de vinho lá fora, lembrando por contraste, não tanto os dramas pesados do pai de Nick, mas, por causa da temática de “Mulheres ao ataque”, as comédias de amor dos velhos tempos.

Entre um gole e outro, vieram-me à mente a elegância e o charme de filmes como “Levada da breca” (Howard Hawks, 1938), “A costela de Adão” (George Cukor, 1939), “Núpcias de escândalo” (Cukor, 1940)… – todos eles comédias repletas de situações realmente hilárias, algumas bastante surrealistas, e que, no entanto, não ofendiam a inteligência de ninguém, muito pelo contrário, a estimulavam.

Os diretores não eram filhos de gênios: eram gênios eles próprios, e – pelo menos nesses três casos que me ocorreram diante da taça de vinho – tínhamos, na cabeceira do elenco, ninguém menos que Katherine Hepburn…

Hoje quem temos? Cameron Diaz…

Saudades do nariz arrebitado de Katherine Hepburn

Saudades do nariz arrebitado de Katherine Hepburn