Tag Archives: Robert Ryan

Robert Wise centenário

3 mar

Neste 2014 o mundo vai estar celebrando o centenário de nascimento de um dos grandes cineastas do século XX, o americano Robert Wise (1914-2005), e aqui me adianto na celebração, já que Wise é um dos meus diretores favoritos.

Nascido na pequena Winchester, Indiana, o jovem Robert queria mesmo era ser jornalista, mas, a Depressão em que o país se encontrava o obrigou a interromper os estudos e, aos dezenove anos de idade, rumou Oeste para Los Angeles, no encalço de um irmão mais velho, ligado ao mundo do cinema, que lhe arranjou emprego de operador de som na RKO, onde, logo mais, ele seria alçado à condição de montador.

O diretor Robert Wise

O diretor Robert Wise

Montou dezenas de filmes (muitas das comédias de Fred Astaire dos anos trinta, por exemplo), porém, claro, sua montagem mais famosa foi a de “Cidadão Kane” (1941), embora sua relação com Orson Welles já fosse ficar abalada com o filme seguinte, “Soberba” (1942), quando o Wonder Boy, sem rumo no Brasil, perdeu prestígio com os estúdios e, assim, Wise foi forçado a, na sua ausência, cortar o seu filme em sequências que ele não queria. E, dizem, até mesmo fazer acréscimos de sua própria autoria.

Fato é que a Wise apareceu a chance de dirigir, uma atividade que não mais largou, até a aposentadoria. Inicialmente foram produções B de terror, a exemplo de “A maldição do sangue da pantera”, a sua primeira direção, em 1944, até se revelar um grande autor com estilo próprio e muito forte, no excelente “Punhos de campeão” (“The set up”, 1949) onde – vocês lembram – Robert Ryan fazia um pugilista em crise.

Suponho que Robert Wise seja mais conhecido e lembrado do público em geral pelos seus grandes sucessos de bilheteria, que são ao menos três, dois musicais e um science-fiction: o drama social “Amor sublime amor” (“West Side Story”, 1961) que dirigiu junto com o coreógrafo Jerome Robbins, o romântico “A noviça rebelde” (“The sound of music”. 1965) e o interplanetário “Jornada nas estrelas, o filme” (“Star Trek: the motion picture” 1979).

"The sound of music", um dos Oscars de Wise

“The sound of music”, um dos Oscars de Wise

De minha parte gosto de lembrá-lo em realizações mais modestas e, por isso mesmo, mais livres das imposições dos estúdios e mais pessoais. São três filmes dos anos cinqüenta que sempre que posso revejo com carinho especial.

O primeiro, “O dia em que a terra parou” (“The day the earth stood still”, 1951), é um sentido libelo pela paz universal, simples mas extremamente competente e, mais que isso, cativante. O segundo, “Marcado pela sarjeta” (“Somebody up there likes me”, 1956) é um drama contando a estória mais ou menos verídica do lutador Rocky Grazziano (papel de Paul Newman), retorno consolidado de Wise ao contexto do boxe. O terceiro, “Homens em fúria” (“Odds against tomorrow”, 1959, é um noir mais ou menos obscuro, sobre um assalto a banco, que vi no meu querido Cine Teatro Sto Antônio, e nunca esqueci os desempenhos do trio: Ed Begley, Robert Ryan e Harry Belafonte.

Cena de "West Side Story"

Cena de “West Side Story”

De gêneros diversos, outros filmes de Wise que porventura o leitor pode ter visto e que, por razões artísticas e/ou comerciais, merecem ser mencionados são:

“Entre dois juramentos” (1950); “Ratos do deserto” (1953); “Um homem e dez destinos” (1954); “Helena de Tróia” (1956); “Honra a um homem mau” (1956); “O mar é nosso túmulo” (1958); “Quero viver” (1958); “Dois na gangorra” (1962); “O enigma de Andrômeda” (1971); “O dirigível Hindenburg” (1975).

Com quatro Oscar, num total de vinte e uma indicações, Robert Wise envelheceu coroado de louros, um dos quais foi sua nomeação para Presidente da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, função que exerceu de 1985 a 1988.

Reavaliando sua filmografia, a crítica alega que seus filmes da segunda metade do século perderam o vigor que ainda existiu até “A noviça rebelde”, mas, a esse respeito, a pergunta poderia ser: que grande cineasta do passado clássico não decaiu junto com a queda do sistema de grandes estúdios, no final dos anos sessenta? Não cabe responder, para não entrarmos em discussão paralela ao que aqui interessa: a comemoração do centenário de um mestre da sétima arte.

Harry Belafonte, Robert Ryan e Ed Begley em "Odds againts tomorrow" ("Homens em fúria', 1959)

Harry Belafonte, Robert Ryan e Ed Begley em “Odds againts tomorrow” (“Homens em fúria’, 1959)

Rancores cruzados

9 maio

Hoje pouca gente lembra dele, mas Edward Dmytryk (1908-1999) foi um dos grandes cineastas da época áurea do cinema americano, aquela que a historiografia denomina de Hollywood Clássica. (Conferir, abaixo, uma seleção de sua filmografia).

Pois, disponível em dvd está um dos seus filmes mais cultuados até hoje, o noir “Rancor” (“Crossfire”, 1947), sempre elogiado pelo emprego dos recursos expressionistas e pela corajosa primeira abordagem do tema do anti-semitismo nos Estados Unidos.

Como se dá no típico noir, o enredo é meio frouxo e nem sempre verossímil, as caracterizações, ambíguas, e o cenário claustrofóbico, mas isso não impede o espectador de envolver-se na trama.

Um crime é cometido e os suspeitos são ex-combatentes que, a guerra finda, vivem de jogatina e boemia nos arrabaldes de Washington. A vítima, o Sr Joseph Samuels, é um cidadão de bem que nada fez, a não ser convidar três dos soldados farristas ao seu apartamento.

O mais suspeito é o jovem Mitchell que, segundo os colegas Montgomery e Floyd, estando bêbado na ocasião, deixou o apartamento de Samuels, e deve ter retornado, depois que os dois foram embora.

O Cap. Finlay está encarregado da investigação, mas ninguém ajuda no desvendamento porque ninguém acredita que Mitchell, uma figura suave e inofensiva, seja o culpado. O primeiro a não acreditar é o seu maior amigo, o Sgt Keeley, o qual, preocupado com a gravidade da situação, resolve investigar por conta própria.

O roteiro nos conduz a uma surpresa, mas o que mais interessa não é tanto a autoria do crime, e sim, o motivo. E o motivo foi o ódio a judeus que – o filme alerta – não era coisa apenas de nazistas, mas doença malsã que estava enraizada também na sociedade americana.

Na verdade, o filme mais conhecido por tocar nessa tecla do anti-semitismo americano é o “A luz é para todos” de Elia Kazan, que estreou no mesmo ano, só que alguns meses depois do de Dmytryk. O filme de Kazan levou os Oscar que poderiam ter sido de “Rancor”, porém, isto não foi entrave para o reconhecimento da sua qualidade. Críticos rigorosos como o francês George Sadoul e o inglês Leslie Halliwell o têm em alta conta. Segundo Sadoul, é o melhor filme de Dmytryk, e Halliwell lhe concede o grau de excelente.

Uma curiosidade que pode interessar é que “Rancor” adaptou o romance “The brick foxhole” (´A toca de alvenaria da raposa´) do escritor Richard Brooks, este que, a partir de 1950, começaria a dirigir, tornando-se um cineasta de renome. Curiosidade maior ainda é que, publicado em 37, o romance de Brooks não tinha nada a ver com anti-semitismo: lá, a vítima era homossexual e o crime foi cometido por homofobia – uma palavrinha que então não existia, embora o seu conteúdo, sim, e como. Como Brooks assinou o contrato sem direito a interferir na adaptação, a produção da RKO achou que anti-semitismo era assunto mais viável de ser aceito pelo Código Hays de Censura do que homossexualismo.

Eu disse acima que Kazan, tratando do mesmo tema no mesmo ano, comeu os Oscar de Dmytryk. O interessante é que estes dois diretores têm mais em comum: foram, ambos, vítimas do maccarthysmo e pegaram, ambos, a mesma pecha de traidores.

Ao eclodir a caça às bruxas do senador McCarthy, em 1947, Dmytryk foi dado como herói: ele foi um dos famosos “dez de Hollywood”, que corajosamente se negaram a abrir a boca na presença do HUAC, a Comissão de Investigação de Atividades Anti-americanas. Por esse heroísmo pagou caro: foi sumariamente demitido da RKO. Sem trabalho e mal quisto, viajou para a Inglaterra onde viveu dois ou três anos; ao voltar, para renovação de passaporte, foi preso, e aí, sim, compareceu de novo ao HUAC e renegou o seu passado de membro do partido comunista, revelando o nome de colegas que tiveram os mesmos compromissos ideológicos com a esquerda.

Só depois da delação, foi Dmytryk (re)aceito por Hollywood, onde voltou a filmar, continuando uma carreira ininterrupta e prolífica até o final dos anos sessenta. Obviamente desde a delação, sua vida se tornou (para recorrer aos títulos brasileiro e americano do filme aqui discutido) um ´cruzamento de rancores´ – o dele para com Hollywood, o dos delatados para com ele.

De todo jeito, estas são questões de bastidores que o espectador não precisa considerar para apreciar “Rancor”, esse expressivo exemplar do gênero noir, engrandecido pela presença de três Roberts: Robert Mitchum (Keeley), Robert Ryan (Montgomery) e Robert Young (Finlay). E de sobra, a grande Gloria Graham, no papel da prostituta que poderia ter sido álibi do soldado Mitchell.

Faço seguir uma seleção de dez filmes de Edward Dmytryk, e, para facilitar a identificação, incluo os títulos originais, as datas de produção e alguns nomes do elenco:

 

“Os filhos de Hitler” (“Hitler´s children”, 1943, Tom Holt e Bonita Granville)

“Até a vista, querida” (“Murder, my sweet”, 1945, Dick Powell e Claire Trevor)

“O preço de uma vida” (“Give us this Day”, 1949, Sam Wannamaker e Lea Padovani) (rodado na Inglaterra).

“A nave da revolta” (The Caine Mutiny”, 1954, Humphrey Bogart, Van Johnson e Fred McMurray)

“A lança partida” (“Broken lance”, 1954, Spencer Tracy, Richard Widmard e Robert Wagner)

“Pelo amor de nosso amor” (“The end of the affair”, 1955, Deborah Kerr e Van Johnson)

“Do destino ninguém foge” (“The left hand of God”, 1955, Humphrey Bogart e Gene Tierney)

“A árvore da vida” (“Raintree County”, 1957, Elizabeth Taylor e Montgomery Clift)

“Os deuses vencidos” (“The Young lions”, 1958, Marlon Brando e Montgomery Clift)

“Minha vontade é lei” (“Warlock”, 1959, Henry Fonda, Anthony Quinn e Dorothy Malone).