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Só para relembrar Omar Sharif

14 jul

A morte do ator Omar Sharif (1932-2015) foi assunto da imprensa nestes dias. Aqui o relembramos através do seu filme mais amado, “Doutor Jivago” (1965), que por sinal, neste 2015, está completando cinquenta anos.

Se pudermos começar o nosso relato com um close, vamos nos centrar na mão iluminada de um grande poeta russo, que, debaixo da dureza do regime totalitário, rabiscava – e quando podia publicava – os seus poemas de tom místico e humanista que em nada batiam com a fechada ideologia vigente.

De repente, esse poeta inspirado, Boris Pasternak, decide escrever em prosa e produz – ironicamente – a obra pela qual ficaria internacionalmente conhecido: o romance semi-autobiográfico que conta a estória de um certo médico perdido entre a Revolução, a literatura e um amor adúltero.

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Inaceitável na URSS, “Doutor Jivago” é editado na Itália em 1957 e – surpresa! – ganha o prêmio Nobel, que Pasternak, evidentemente, é obrigado a recusar, vindo a falecer três anos depois, em 1960.

Uma estória dramática, um romance premiado, um autor injustiçado e morto… Os grandes estúdios americanos ficam de olho, até porque a grandiosidade da narrativa cabia nos parâmetros das superproduções a que a Hollywood decadente da época se agarrava com unhas e dentes.

Foi a já cambaleante MGM quem assumiu a realização da adaptação, chamada pelos comentaristas de “salada russa”, com referência à mistura das nacionalidades envolvidas: rodado na Finlândia, na Espanha e no Canadá, a companhia produtora foi a italiana de Carlo Ponti, e do elenco faziam parte alemães (Klaus Kinski), americanos (Rod Steiger), ingleses (Alec Guiness), e, claro, o egípcio Omar Sharif no papel-título. A trilha sonora foi para o francês Maurice Jarre e a fotografia para o inglês Freddie Young. Aliás, música e fotografia, as duas juntas, são um destaque estético que torna o filme memorável – acho que o leitor concorda comigo.

Omar Sharif e Julie Christie em "Doutor Jivago"

Omar Sharif e Julie Christie em “Doutor Jivago”

A direção vai para as mãos hábeis de um inglês que já provara ser bom em grandes produções. David Lean tinha feito “A ponte do rio Kwai” (1957), e em 1962 deslumbrara o mundo com o seu – também uma adaptação e também épico – “Lawrence da Arábia”, onde Sharif – vocês lembram – já estava. Ninguém melhor que Lean, sem contar que esse romântico inveterado já revelara, desde o intimista “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945) que, independente do tamanho da produção, a sua temática preferida, aquela em que mais rendia, era a da ´mulher apaixonada fora do casamento´, sim, aquela mesma dos grandes romances do século XIX.

Mas como adaptar à tela um romance tão vasto, apesar do lirismo, de escala épica, cuja narrativa se iniciava no início do Século XX e se estendia para além da Segunda Guerra Mundial? A missão do roteirista Robert Bolt (o mesmo de “Lawrence”) foi reduzir a extensão da história e centrar-se no caso de amor entre o médico Yuri Jivago e a sua bela enfermeira Lara – uma imposição dos estúdios que o diretor – imagino – deve ter abraçado de muito bom grado.

Não vou resumir o enredo de um filme que todo mundo conhece, mas, cabe referir as críticas que o filme recebeu na época de sua estreia: o de trair a dimensão lírica e mística do romance de Pasternak, de cujas páginas fazem partes muitos de seus poemas mais inspirados. O outro ponto crítico foi a exploração do lado melodramático da narrativa, no investimento que faz no desafortunado romance entre Jivago e Lara, a Revolução Russa e seus efeitos aparecendo como pano de fundo.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

O público é que não quis saber de nada disso e, não apenas acorreu aos cinemas, como, passado o tempo, incluiu o filme no imaginário da comunidade cinéfila do planeta. Hoje, quem tem dúvidas de que “Doutor Jivago” é um dos clássicos mais lembrados?

Do ponto de vista estrutural, uma mudança básica na adaptação está na escolha do foco narrativo, a estória inteira sendo contada a partir de um longo flashback, quando, tempos depois da Revolução de Outubro, o irmão do protagonista, Yevgraf (Guiness), encontra essa moça, operária nesse novo país, a URSS, que teria sido a filha do casal adúltero, Jivago e Lara.

Acho que o flashback funciona bem, agora, aqui para nós, o que nunca me pareceu apropriada foi a escolha de Rita Tushingham – uma das atrizes mais feias na história do cinema – para ser justamente a filha dos belos Julie Christie e Omar Sharif. Atriz talentosa, Rita esteve ótima naqueles filmes sobre ´gente como a gente´ do Free Cinema (Cf “Um gosto de mel”, por exemplo), porém, aqui lhe faltou o que a natureza não lhe deu: physique du rôle, ou seja, o físico apropriado ao papel.

Enfim, “Doutor Jivago”, um belo filme. Vamos ligar o aparelho de DVD e, entre outras coisas, relembrar Omar Sharif.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Meu coração é quem diz

16 abr

Eu tinha uns dez anos de idade quando li pela primeira vez a palavra OKLAHOMA. E não foi em nenhum livro de geografia, nem revista ou jornal. Li-a na fachada do Cine Teatro Sto Antônio, em Jaguaribe, João Pessoa, e a palavra era enorme, desenhada em cores numa faixa larga que tomava toda a parte superior da parede frontal do cinema.

Achei estranha a palavra, nem sabia como pronunciar, mas, deduzi, claro, que – o que quer que significasse – tratava-se de um filme em exibição, filme a que, infelizmente, não pude assistir naquela ocasião.

Algum tempo depois, fiquei sabendo que Oklahoma era o nome de um dos Estados americanos. Seria o filme um documentário? O tom festivo do cartaz não indicava isso.

Somente anos adiante, quando, já adolescente, comecei a ler sobre cinema, caí na filmografia do cineasta Fred Zinnemmann e matei a charada: o filme era um musical, baseado numa peça que fora sucesso na Broadway. Sem reprises (os filmes musicais saíram de moda, depois dos anos cinqüenta), só vim a conhecer o filme de Zinnemann nos anos oitenta, quando foi seladoem VHS. Lembroque, na ocasião, loquei a fita e assisti na telinha doméstica, fingindo que estava no Sto Antônio em 1956.

Como outras coisas em minha vida, a minha cópia VHS mofou, mas agora, me deparo, aliás tardiamente, com esta edição comemorativa que traz dois discos em DVD, um em cinemascope, o outro em TODD-AO, pois na época do lançamento do filme – me informam – estas duas versões estiveram em cartaz separadamente. Há também um extra, com um longo comentário de um crítico americano, remontando ao making of e tudo mais. Há ainda a alternativa de você cantar as canções com os atores, em estilo karaokê, seguindo as letras na tela, no inglês original.

“Oh, what a beautiful morning, oh what a beautiful day; I got a beautiful feeling, everything is going my way…!

Estas são as linhas de abertura da canção mais popular do filme e acho que nem precisa traduzir. Mesmo assim, jogo minha tradução, que é livre, para poder rimar e justificar o título desta matéria: “Oh que manhã mais bonita, oh que dia mais feliz, sei que tudo vai dar certo, meu coração é quem diz”.

O que torna “Oklahoma” (1955) um filme tão encantador? Não estou certo, e não creio que, se estivesse e o dissesse, conseguiria convencer o pessoal jovem de hoje em dia. Nem pretendo.

O enredo não poderia ser mais banal. Nos primeiros anos do século XX, quando Oklahoma, mero território, ainda não era Estado americano, um rapaz teimoso e orgulhoso, Curly McLain (Gordon MacRae), tenta conquistar uma moça, Laurie Williams (Shirley Jones), igualmente teimosa e orgulhosa. Eles se comportam como se se odiassem, e, em palavras, faladas ou cantadas, e nos gestos, naturais ou coreográficos, são irônicos e maldosos um com o outro, e por isso mesmo, nós deduzimos que, no final, ficarão juntos, pois toda essa hostilidade mútua – as nem sempre sutis entrelinhas da direção nos sugerem – é sinal de amor.

Nada mais previsível e nada mais agradável, com o adicional de que tudo isto acontece na fotogênica amplitude da área rural, entre milharais, currais, córregos, montanhas de feno, prados muito verdes e um céu muito azul.

Sim, há o vilão Jud (um Rod Steiger ainda jovem, cantando e dançando, juro!), o empregado forte e entroncado da casa de Laurie, que pensa ser o dono dela. E o final tinha que ter uma espécie de duelo entre o mocinho e o vilão, só para lembrar que estamos, sim, no Oeste.

Há ainda um sub-enredo de tom cômico, que é aquele entre um segundo trio amoroso meio desajeitado, formado pelo cowboy Will Parker (Gene Nelson), o mascate Ali Hakim (Eddie Albert) e essa mocinha cabeça de vento que não sabe dizer não, Ado Annie (Gloria Grahame, com voz empostada, em desempenho impagável).

Mas o acontecimento central é mesmo o grande baile, na cidade vizinha de Claremore, que à noite vai juntar toda a população das redondezas, num folguedo que inclui, leilão, comida, bebida, muita música e dança. É nessa ocasião que se performatiza a canção e coreografia “Oklahoma”, com todo mundo dançando e cantando.

Mas é nessa ocasião também que se deflagra o conflito mocinho/vilão: no leilão, Curly e Jud fazem seus lances, cada vez mais altos, para ter direito a Laurie e sua cesta de doces; sem dispor de muitos meios, Curly vende tudo o que possui para ficar com a amada e poder pedi-la em casamento – o que insufla os rancores de Jud que, despeitado, partirá, mais tarde, para um gesto incendiário, por causa do qual será, acidentalmente, morto.

Ao que se segue um júri popular, e quem faz o papel do juiz? Sim, o “imortal” Roy Barcroft – os espectadores mais coroas devem lembrar: aquele que desempenhou o coitado do malfeitor em centenas de faroestes B, servindo de saco de pancada para centenas de intrépidos heróis, a cada vez que perdia a luta, ou morria (o que sempre acontecia) sendo estrondosamente vaiado por milhares de espectadores infantis em todo o mundo, eu incluído.

Eu perguntava onde está o encanto de “Oklahoma”. O segredo talvez esteja no clima de euforia predominante, ajudado pela beleza das canções da dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein, mais a coreografia de Agnes de Mille, turminha talentosa que, com tremendo sucesso, havia encenado a peça nos palcos da Broadway em 1943.

Tal euforia é coisa dos anos cinqüenta – concordo – e acho que é isso que dá ao filme um jeito ´datado´, difícil de engolir para as gerações de hoje em dia, o que é agravado pelo fato de que a estória narrada ocorre bem mais para trás, em 1906.

A esse propósito, um dado importante na diegese é o modo como o filme, meio ambiguamente, combina passado com futuro, vida rural atrasada e progresso, conservadorismo e modernidade.

Uma das canções mais aclamadas, “Surrey with the fringe on top” (´charrete com franjas no teto´) sugere um luxo do passado, no caso, o veículo que vai conduzir o casal à felicidade, bem antes da chegada do moderno automóvel.

Mas, em compensação, toda uma gama de outros elementos, nas outras canções, vai apontar para o futuro: por exemplo, “Kansas City” é uma canção que celebra os valores urbanos e mundanos, inclusive através de um pequeno detalhe sintomático: a luneta pornográfica que alguém traz dessa cidade, adiantada para os padrões matutos locais. Até a coroa Tia Eller (Charlotte Greenwood) espia os slides imorais da luneta e, surpreendentemente, aprova. E quando Jud se vê derrotado no leitão, tenta comprar Curly com a luneta.

Uma representação bem óbvia da modernidade é, com certeza, a figura de Ado Annie, essa garota libidinosa que contradiz todos os valores românticos em cima dos quais a estória está montada: é que ela sempre está apaixonada pelo homem que, no momento, esteja ao seu lado, lhe fazendo carícias, e, sem o menor escrúpulo, estará apaixonada por outros, em momentos diferentes, cada um em sua hora e sua vez. Até porque ela não sabe dizer não, conforme está dito na canção que a descreve: “I can´t say no”.

O número, encenado por todos, “The farmer and the cowmen” (traduzindo livremente: ´o patrão e os peões´) é um comentário social sobre a luta de classes, aliás, encenado dentro daquele esquema “prós e contras”, nisso prefigurando o famoso balé “America” que, seis anos mais tarde, vai estar em “Amor sublime amor” (1961).

Um dos momentos chave do filme é o número onírico “Out of my dreams”,em que Laurie, no meio de situações sensuais e/ou violentas, é perseguida por Jud e salva por Curly – uma sequência imaginativa e avançada que deve ter impedido o filme de ser exibido em censura livre.

Uma coisa impressionante em “Oklahoma” é, não tanto a temática, como a integração entre enredo, música, letra e coreografia. Tudo parece tão natural e fluente que, mesmo sabendo, ninguém lembra que o original adaptado é uma peça teatral. O ritmo todo é de cinema, e não da ribalta. Com certeza, não foi sem razão que Fred Zinnemann, e não um cineasta ligado ao teatro (Vincente Minnelli ou Joshua Logan, por exemplo), foi contratado para dirigir, ele que era, até então, basicamente um autor de dramas. A câmera se move pouco e a montagem é discreta, e contudo, a idéia de teatralidade passa longe de qualquer espectador exigente.

Um saborzinho a mais está na impressão de realismo, até onde isto é possível num musical. As discussões e as querelas soam verídicas, mesmo quando cantadas, e um dos elementos favoráveis a isso é a linguagem, tudo em inglês “incorreto”, do jeito que supostamente se expressariam oralmente os habitantes de Oklahoma. Um pequeno exemplo: uma das canções é enunciada como “All er nuthin”, forma popular para o correto “All or nothing” (´tudo ou nada´).

Como a peça, – e provavelmente no seu encalço – o filme foi um sucesso de público e crítica e levou o Oscar de trilha musical. Curiosamente, não foi uma produção de Hollywood. Os próprios Rodgers e Hammerstein, via a companhia teatral Magma, o produziram, embora a MGM tenha concordado em colaborar, permitindo que as cenas de interior fossem rodadas em compartimentos de seus estúdios. Já a distribuição foi feita em conjunto por várias empresas, incluindo a RKO e a Fox.

Já industrializado naquela época, e portanto, pouco idílico em sua paisagem rural, o estado de Oklahoma não viu sequer o azul de uma câmera: foi tudo filmado bem distante, no Arizona. O que não impediu o governador do Estado de comemorar a estréia local do filme, providenciando, segundo consta, dezenas de charretes com franjas no teto.

Verdadeira ou não, essa estória deve ter feito sentido. Numa década sombria para a produção cinematográfica, de censura, maccarthysmo e competição televisiva, os filmes musicais (contra o baixo astral dos filmes noir, science-fiction, ou de guerra) seguravam o otimismo do povo americano. Esta foi, afinal, a década de “Sinfonia de Paris” (51), “O barco das ilusões” (51), “Meu coração canta” (52), “Cantando na chuva” (52), “A roda da fortuna” (53), “Carmem Jones” (54), “Sete noivas para sete irmãos” (54), “Natal branco” (54), “Um estranho no paraíso” (55), “Carousel” (56), “Alta sociedade” (56), “Meias de seda” (57), “South Pacific” (58), e tantos outros…

A próxima década já não receberia tão bem os musicais. De minha parte, lembro-me de ter assistido a “Amor sublime amor” (1961) no Cine Municipal, ao som de vaias da platéia, toda vez que a narrativa se interrompia para Natalie Wood e Richard Beymer cantarem.

Os comentaristas de “Oklahoma” reclamam que dois números da peça original ficaram de fora do filme. Eu mesmo nunca tive a oportunidade de assistir à peça, que foi reprisada várias vezes ao longo do século, na Broadway e alhures. Quando estiveem Nova York, em 1986, sua última encenação havia sido em 1979, e a próxima – leio hoje – só aconteceu em 1998.

Em entrevistas, costumam me perguntar que condição em mim pesa mais, se a de crítico ou a de fã. Geralmente respondo que as duas se misturam e têm o mesmo peso, porém, aqui confesso: com relação a “Oklahoma” (continuo encontrando prazer em pronunciar a palavra), prevalece – como talvez tenha ficado claro nestas linhas – a minha faceta de fã. Sorry.