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Tarantino, cinéfilo como nunca

28 ago

Muitas leituras suscita o último filme de Quentin Tarantino, e não tem importância se elas não coincidirem. O que vale é a inquietação provocada.

Para começo de conversa, “Era uma vez em… Hollywood” (2019) é um filme abarrotado de intertextos, tantos que o espectador quase se perde ao meio das referências ao mundo do cinema, especialmente o dos anos sessenta. São tantas que ninguém de bom senso ousaria listá-las por inteiro. Só pra esquentar, menciono algumas, mais ou menos óbvias.

Tarantino e um poster do filme

De passagem por um dos cinemas de L.A. vê-se em cartaz um dos sucessos da época, final dos anos sessenta, o “Romeu e Julieta” de Zeffirelli. Em dado momento ouve-se no rádio a canção “Mrs Robinson”, do filme “A primeira noite de um homem”, da mesma época. Saindo da festa, as garotas de Charles Manson passam aos pés de um outdoor gigante de “Assim caminha a humanidade”, certamente reprisado na ocasião. Em suas eternas lamentações, Rick Dalton, o protagonista, vê-se a si mesmo (e assim nos é mostrado) desempenhando o papel que foi de Steve McQueen em “Fugindo do inferno”, sem contar que o próprio McQueen já aparecera ao lado de Sharon Tate, em cena anterior. Isto pra não dizer que a expressão inicial no título do filme relembra dois filmes do cineasta Sergio Leone, de quem Tarantino é um fã assumido. E ainda há o que nem os especialistas adivinhariam – que o Rancho Spahn, ocupado pelos hippies assassinos, foi, nos anos quarenta, locação do faroeste “O proscrito” (1943), cult movie do cinéfilo Tarantino…

Bem, encher a tela de referências fílmicas não faz milagre estético, mas aqui o efeito é particularmente benéfico para casar o clima da época (final dos anos sessenta) com o clima do filme – um ponto chave na concepção e realização da obra. Não é que Tarantino não tenha sido cinéfilo nos seus filmes anteriores, mas agora sua cinefilia é – no bom sentido – abusiva e, como se não bastasse, engraçada.

Esse abuso, se é deleite para o espectador igualmente cinéfilo, pode vir a ser um problema para aquele espectador sem idade, ou formação cinematográfica, que não curtiu os anos sessenta com a intensidade devida. Especialmente o final da década, quando Hollywood clássica capengava e um novo cinema surgia das cinzas. E se esse espectador não conheceu os escândalos da época, pior então.

Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, ator e dublê…

Para fazer o que ele mesmo chama de “uma saudosa carta de amor a Hollywood”, Tarantino conta, com humor e ironia, a história meio patética da grande amizade entre um ator canastrão de seriados de tv, decadente, melancólico e chorão, e seu fiel escudeiro, um dublê coroa, igualmente lascado, que vive conversando com seu cachorro, quando não está quebrando a cara de quem lhe faz cara feia.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) não tem mais o prestígio que tivera nos seus papéis televisivos, e hoje, o que lhe resta de bom é apenas ser vizinho do cineasta Roman Polanski e sua jovem e bela esposa Sharon Tate, vizinhos, aliás, com quem mal tem contato.

Um novo produtor que aparece a Dalton com novas propostas, um tal de Marvin Schwarz (Al Pacino), só agrava a sua crise e lhe provoca mais lágrimas. Uma dessas propostas é fazer “spaghetti western” na Itália onde ele, sem muita convicção, termina casando com uma italiana, e voltando para Hollywood mais deprimido que nunca, inclusive, sem condição financeira de manter o seu sempre tão providencial dublê, Cliff Booth (Brad Pitt). Este, por sua vez, se envolve com uma turma de hippies que fizera residência numa ex-locação de cinema, o afastado Rancho Spahn, o que desencarrilha um ataque violento à casa de seu patrão, só vencido com a ajuda de seu cachorro feroz e um lança-chamas que Rick Dalton usara um dia em um de seus seriados televisivos.

Resumido assim, o enredo parece porcaria, mas, juro, não é. Sim, tem a breguice proposital de Tarantino, com todos os seus ingredientes (personagens caricatos, violência, diálogos impertinentes, muita música, etc…), mas também tem o seu charme sedutor de sempre, e nos mantém interessados e atentos, perguntando, a cada cena, onde isso vai dar… E, claro, o que mais esquenta essa expectativa é a mistura que se constata de fatos ficcionais e … fatos reais, verídicos, históricos.

Rick Dalton e sua esposa italiana

Aparentemente disperso, o enredo conta várias estórias ao mesmo tempo, pelo menos três. A terceira é a da vizinha, Sharon Tate, vista em várias ocasiões diferentes, aparentemente sem qualquer relação ao caso Rick/Cliff, salvo a coincidência casual da vizinhança. Por exemplo, enquanto Rick se lamenta de seu fracasso, e Cliff enfrenta a turma de hippies no rancho, Sharon entra num cinema da cidade para assistir ao filme “Uma arma secreta contra Matt Helm”, que acabara de estrear, e onde ela trabalhara ao lado do astro Dean Martin, nessa estória hilária sobre esse herói do título, uma espécie de James Bond invertido.

Tudo, no entanto, vai se juntar no final, ou, eu diria melhor, mais do que no final, no pós-tela, pois, claro está que, após o massacre ficcional na casa de Rick Dalton, está na iminência de acontecer um outro massacre, este na mansão vizinha –  e quem nos diz isto não é o filme: é a História – a História da década de sessenta nos Estados Unidos. Esse segundo massacre nos é sonegado e essa lacuna diegética é um grande lance de roteiro. Depois de termos estado, várias vezes, em contato com a angélica Sharon Tate, o crime de Charles Manson e sua turma fica assim mais eloquente, do que se tivesse sido encenado onscreen.

Ou seja, a maior curiosidade – e talvez motivo de confusão no entendimento do enredo de “Era uma vez em… Hollywood” – é que as estórias ficcionais se fecham (têm desenlaces, por precários que sejam), enquanto que a história, real, não. Como a gente conhece a predileção de Tarantino pela violência, e lembra muito bem o caso Sharon Tate, o filme inteiro funciona como uma grande, uma enorme pista falsa.

O fato de que, num último momento, Rick Dalton seja convidado à casa de seus vizinhos, é uma maldadezinha a mais de Tarantino, caprichosa como as outras.

“Once upon a time in… Hollywood” – uma sacada fílmica genial, pra se ver muitas vezes.

Atores e diretor em Cannes

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Macbeth in Brazil

19 nov

Está em cartaz na cidade “A floresta que se move” (2015), filme brasileiro que adapta ao nosso tempo e espaço o enredo da peça shakespeariana “Macbeth” (1606).

Dirigido pelo global Vinicius Coimbra, o filme faz do protagonista um executivo ambicioso que mata o presidente da Empresa para ocupar o seu posto. Em Shakespeare, vocês lembram, o personagem título é, na Escócia dos anos 1400, um vassalo do Rei Duncan, que ouve umas profecias de três bruxas, todas favoráveis à sua ascensão, e nelas acredita.  No filme de Coimbra, é só uma bordadeira que dá a dica a esse Elias ambicioso, e ele, como Macbeth, faz o resto acontecer.

Convenhamos que adaptar ao mundo atual texto tão remoto não deve ter sido fácil. E, de fato, os problemas aparecem. Um deles é o seguinte: até certa altura da projeção, o filme tem feição de um mero thriller, como os que vemos tanto hoje em dia. Um casal ambicioso assassina o presidente da Empresa para que o marido ocupe o seu cargo. Esfaqueia-o, joga o corpo num lago, e fica esperando pelo resultado. Que, naturalmente, não vai ser bom.

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Esse jeitão de thriller nos afasta do clima trágico da peça original, e a ele só voltamos, bem mais tarde, quando o casal assassino oferece um jantar ao corpo executivo da Empresa, e no meio da janta, o fantasma de Banquo, digo, de César (a segunda vítima do ambicioso Elias), aparece, todo ensanguentado. E o desenrolar do filme vai assim: ora thriller, ora tragédia, sem equilíbrio entre as duas coisas.

Fico pensando como receberão o filme, as pessoas sem familiaridade com a peça de Shakespeare. As que têm essa familiaridade eu sei, pois “Macbeth” acontece de ser um dos meus Shakespeares favoritos. Acho que posso dizer que aquelas primeiras vão estranhar a psicologia fantasmagórica, enquanto que estas segundas estranham o investimento no gênero policial. E ninguém sai satisfeito do cinema. Sobretudo, como já disse, por causa da falta de equilíbrio entre os dois tons.

Apesar da ação constante e dos crimes hediondos, “Macbeth” é uma tragédia reflexiva, psicológica, onde a construção dos personagens tem um peso enorme. Não tanto quanto “Hamlet”, mas é. Um exemplo, o assassinato de Duncan é todo circundado dos delírios culposos de seu algoz que, antes do crime, vê adagas no ar guiando ao quarto da vítima, e, depois do ato feito, gasta um tempão atormentado com a ideia de que “assssinou o sono” e nunca mais vai conseguir dormir.

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Não é sem razão que Shakespeare fez com que tudo, no destino dos protagonistas, dependesse das predições das três bruxas, investindo assim na fantasia (ou fantasmagoria), e por tabela, no psicológico, em detrimento do meramente factual. Como em todas as suas peças, o bardo de Stratford foi atrás das fontes históricas, porém, no caso presente, ele deu esse empurrão maior ao fantasioso, e dizem que o fez por interesse. É que o Rei da Inglaterra, James I – sem coincidência o patrono da sua companhia, “The King´s Men” – era apaixonado por bruxaria, e Shakespeare não hesitou em inventar as motivações sobrenaturais para o destino do tirano Macbeth. Se foi mesmo bajulação, foi tão bem feita que virou o melhor da peça.

No filme, os personagens parecem rasos, sem a grandeza trágica do original. Um ou outro trecho da peça vem a suas bocas (´nunca pensei que o velho tivesse tanto sangue´, sussurra e depois escreve Clara, a esposa do empresário), mas o conjunto não funciona a contento. Cheio de investigações e interrogatórios policiais (coisas inexistentes na época de Shakespeare), o filme, como já dito, se afasta temporariamente do espírito da peça, e o que dela tem, quando o tem, não é suficiente para compor uma obra uníssona e fluente. Esforços são feitos neste sentido, mas não diria que com bons resultados. A mim, me veio a ideia de acochambro.

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Dou um exemplo. No filme, uma certa frase de Macbeth (“ela podia ter morrido outra hora”) provoca um erro de montagem. O espectador sai da cena mais dramática, aquela em que o marido Elias, desesperado, encontra o corpo da esposa na banheira, e passa, imediatamente, para um Elias eufórico, no escritório, surpreendendo a secretária – e a nós – com a tal frase, como se feliz da vida. Ele faz isso porque tivera notícias alvissareiras da bordadeira, mas, a mudança brusca no comportamento do personagem é, no mínimo, inverossímil.

Em alguns casos, sente-se mesmo que a infidelidade ao original teria sido melhor opção, caso da famosa cena do porteiro (na peça, o da Fortaleza, no filme, o do Banco), ridiculamente inoportuna na diegese do filme.

Enfim, devo recomendar “A floresta que se move”, ou não? Não sei. Fica a seu critério. Agora, se você está interessado no assunto, não deixe de checar como foi que três “bruxos” geniais trataram a peça de Shakespeare: pela ordem, Orson Welles em “Macbeth, reinado de sangue”, 1948; Akira Kurosawa em “Trono manchado de sangue”, 1957; e Roman Polanski em “Macbeth”, 1971.

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A pele de Vênus

1 out

Com algum atraso, está em cartaz na cidade o último filme do cineasta Roman Polanski, “A pele de Vênus” (“La Vénus à la fourrure”), realização francesa de 2013.

À primeira vista trata-se de teatro filmado, mas só à primeira vista. De fato, o cenário é um só, o palco, e a duração é o de uma ´audition ´, o teste que se faz para a escolha da atriz principal de uma peça. Contudo, o cineasta é Polanski e dele ninguém esperaria teatro filmado.

O filme começa ´in media res´, com o diretor Thomas Novachek (Mathieu Amalric) exausto, depois de haver testado várias candidatas para a sua nova peça, sem nenhum sucesso. Ele está dizendo isto no telefone a sua noiva, quando entra essa moça, uma tal de Vanda Von Dunayer (Emmanuelle Seigner), ensopada de chuva e atrasada, querendo fazer o teste por fim e à força, achando-se talhada para o papel. É sumariamente recusada, mas, quando está para ir embora…

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Para surpresa do diretor, que também é autor da peça “La Vénus à la fourrure”, Vanda sabe todo o diálogo de cor e o interpreta estupendamente, além de que traz a indumentária da personagem numa sacola e tem opiniões sobre o texto. De indumentária faz parte, evidentemente, a “pele” do título.

Mas esta não é a única surpresa, nem para o diretor Thomas, nem para nós, espectadores. Encenando com o próprio Thomas, Vanda vai, aos poucos, tomando conta da situação, e de atriz em teste, passa a ser crítica, co-autora, co-diretora, personagem da peça, e muito mais. Ou seja, as boas surpresas do início, não vão ficando tão boas com o desenrolar da encenação…

Claro que, nesse processo, às vezes difícil de acompanhar, a verossimilhança deixa de vir ao caso, e, no final, quando a atriz, antes ansiosa de estar no elenco, recusa-se a trabalhar na peça e vai embora, ninguém mais se importa com fidelidade ao real. Havia algum tempo, já estávamos no reino do imaginário, onde coisas como identidade, personalidade, dependência e desejo se entrecruzam e se anulam.

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Complexo e escorregadio, o enredo simplesmente não pode ser resumido. Digamos apenas que o filme começa realista (um teste de interpretação no palco, com uma atriz novata e o diretor e autor da peça fazendo o papel masculino) e vai perdendo a linearidade, até não se saber mais quem dirige quem, ou mesmo quem é quem. Em vários momentos de comentário sobre o texto e os personagens, Vanda usa a palavra “ambivalente” e, todas as vezes em que a usa, é corrigida pelo autor/diretor/ator, que prefere o termo “ambíguo”.

E, com efeito, esta é a palavra chave. Baseada no romance homônimo do austríaco Leopold Von Sacher-Masoch, de 1870, a estória da peça gira em torno de um homem, um Severin Kushemski, que fora, na infância, chicoteado por uma tia sadista, e desenvolvera a capacidade de só sentir prazer com a dor, assim como sugere o segundo sobrenome do autor, Masoch.

Até aí tudo bem. Ocorre, porém, que ao longo do ensaio da peça a que assistimos, o diretor vai se transformando nesse masoquista, e a atriz que ele testa, mutatis mutandis, vai se metamorfoseando na Vênus do título, a provocadora da dor-prazer que ele quer sentir.

Quando, a certa altura do enredo, a situação de dominador versus dominado se inverte entre os personagens, os dois atores ensaiando no palco (digo, Thomas e Vanda) sintomaticamente trocam de papéis, e – resultado – o autor/diretor/ator (agora travestido de mulher, com batom e amarrado a um mastro fálico) continua como a vítima e, pior, abandonado.

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A estória de um autor que foi vítima de sua própria obra? O mínimo que pode ser dito de “A pele de Vênus” é que é um filme para público seleto, naquele estilo ´cultura europeia´, que os americanos, com um pouco de ironia etnocêntrica, apelidam de ´high brow´.

De qualquer forma, se você tiver a disposição de ir ver, não se levante da poltrona antes dos créditos, para não perder o passeio plástico pelas muitas Vênus, nos quadros de todos os pintores famosos que retrataram a mítica personagem central da estória, que tão bem a misteriosa Vanda/Emmanuelle Seigner encarna.

A propósito do elenco, notem como o ator escolhido Mathieu Amalric parece fisicamente com Roman Polanski, fato que, curiosamente e, com certeza, sem coincidência, ecoa certos diálogos do texto, quando o diretor Thomas Novachek protesta ao ouvir de Vanda a acusação de que essa estória masoquista-sadista meio pornográfica é autobiográfica.

Enfim, calculadamente o melhor filme que fez Roman Polanski neste novo milênio, se não contarmos “O pianista” (2002).

A bela Emmanuelle Seigner, esposa do cineasta.

A bela Emmanuelle Seigner, esposa do cineasta.

Ida (English version of the previous post)

27 mar

A Polish friend of mine once told me that, in communist Poland, the most revolutionary thing for young people to do was to get married in Church, with veil, wreath, nuptial hymn and all. The country being, by tradition, deeply Catholic, the communist regime imposed, by force, an atheism which was not welcome at all.

So, in the fifties and sixties, as juvenile rebellion, in the capitalist world,  consisted of drinking, smoking, playing rock´n´roll, and eloping, in Poland church wedding was the great gesture of extreme courage for young people who were dissatisfied with the status quo.

But, why am I talking about this?

The reason is I´ve just watched “Ida” (2014), the Polish movie that received the best foreign film Oscar this year, and, which, somehow, has something to do with the situation once evoked by my friend.

ida 1

In 1962, in this faraway convent, there lives this novice Anna who, together with other novices, will soon take her vows and become a nun. Before this happens, she is sent to town by Mother Superior, to stay some days with an aunt she had never seen, nor known she existed, for, according to her novitiate documents, she was an orphan who had no relatives whosoever.

Open-minded and libertine, Aunt Wanda shows to a surprised Anna some pictures of her parents, Jews who were killed during the war. It turns out that Anna – now identified as Ida – is convinced by her aunt to go for what was left of the family, an old house in the rural area, nowadays occupied by strangers.

It is in the cow barn of this house that Anna will see the stained glasses which – her aunt so said –  her mother had put in the windows, so that the cows could feel happier. A small detail that gives the girl an idea of who her mother was, probably an artistic and anti-conventional soul and a person full of life.

Aunt and niece suffering together

Aunt and niece suffering together

Questions asked all around, the two women are finally led, in the middle of a humid, dark forest, onto a painful truth which I prefer not to reveal to the reader who hasn´t seen the movie yet.

Let me just say that, back in the Convent, Anna  realizes she is not yet ready for the vows. When she returns to town, for her aunt´s funeral, she decides she must for a moment try life as it is. She puts on her aunt´s dress and high-heel shoes, she smokes and drinks like her aunt used to do, and gives her body to a boy they had met on their way to town.

While still in bed, the boy suggests they should elope, and she asks “And next?”. The boys says they could get married and have children; and she asks again: “And next?”. Not knowing what else to say,  he says: “Whatever, life”.

All these “sins” committed, Ida/Anna puts back on her veil and heads back for the Convent, to lead a life of religious reclusion forever. And the movies ends up with a frontal take of her face, clearly determined not to have the “life” the boy had mentioned.

Without the novice veil

Without the novice veil

This ending considered, it might look a bit ironical – or doesn´t it? – that the movie is called “Ida”, and not “Anna”.

Anyway, it must be stressed that, in this movie, we are very far away from any kind of manicheistic schedule that might separate the two entities, Anna and Ida. That´s why, in the previous paragraph, I was careful enough to use quotation marks for the word “sins”.

I guess that, watching “Ida”, makes one recall “The nun´s story” (1959), a movie with a similar issue, where the nun Audrey Hepburn hesitates between faith and the world. In Fred Zinnemann´s film the choice is other, but, anyway, similarities persist.

Except for Andrzej Wajda, Roman Polanski and krzysztof Kielowski, the Polish cinema is hardly known amog us. I recently  wrote about Wajda (See my post “Walesa”), and, as to the other two, they are far more active outside their country, than inside.

“Ida” is directed by Pawel Pawlikowski and the young actress Agatha Trzebuchowska is very good as the main character. I call attention, however, to the beautiful black and white cinematography (by Lucasz Zal), a chromatic choice that, very appropriately, causes the viewer to bring to mind the many shades of grey of the European art cinema shot more or less at the fictional time of “Ida”, late fifties, early sixties. I mean films like “The 400 blows”, “Breathless”, “Rocco and his brothers”, “La dolce vita”, “Persona”, and so many others…

P.S: This article is dedicated to my Polish friend Jack Slosky, at present living in the United States.

The actress Agatha Trzebuchkowska as the protagonist.

The actress Agatha Trzebuchkowska as the protagonist.

Ida

24 mar

Um amigo polonês certa vez me contou que, na Polônia dos tempos comunistas, o ato mais revolucionariamente corajoso que os jovens cometiam era casar na Igreja, de véu e grinalda, com hino nupcial e tudo mais.

É que, sendo o país de tradição católica, o regime comunista lhe impunha, na força, um ateísmo mal vindo. Assim, enquanto, no mundo capitalista dos anos, digamos, cinquenta/sessenta, a rebeldia juvenil consistia em beber, fumar, dançar rock e fugir de casa, na Polônia de então casar na Igreja era o grande gesto de extrema coragem para jovens insatisfeitos com o status quo.

E por que estou falando disso?

É que acabei de ver “Ida” (2014), o filme polonês que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, e que, de alguma forma, tem a ver com a situação evocada por meu amigo.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

Em 1962, nesse convento afastado, vive a noviça Anna, que, junto com outras noviças, está prestes a receber os votos que a tornarão uma freira. Antes disso, ela é enviada pela madre superiora à cidade, para passar uns dias com uma tia que nunca vira, nem sabia que existia, pois, nos seus documentos de noviça do convento, constava que fosse órfã e sem parentes nem aderentes.

Meio alcoólica e de vida libertina, a tia Wanda mostra a uma Anna surpresa, fotos de seus pais, judeus exterminados pela guerra. Anna – agora identificada como Ida – termina sendo convencida pela tia a ir ao encalço do que restou da família, numa aldeia no campo, uma velha casa, onde hoje residem outras pessoas.

É no estábulo dessa casa que Anna vai ver os vitrais coloridos que, segundo a tia Wanda já lhe contara, a mãe colocara nas janelas, para as vacas se sentirem mais alegres. Um pequeno detalhe que dá à moça uma ideia de quem havia sido a sua genitora, uma figura certamente anti-convencional, criativa e cheia de vida. Indaga daqui, indaga dali, as duas mulheres são finalmente conduzidas, no meio de floresta densa e úmida, a uma verdade dolorosa, que prefiro não revelar ao leitor que ainda não viu o filme.

Tia e sobrinha partilhando dores

Tia e sobrinha partilhando dores

Deixem-me só dizer que retornando ao convento depois do choque, Anna dá-se conta de que não está preparada para os votos. Volta à cidade, para os funerais da tia, e decide que deve experimentar a vida como ela é. Põe os sapatos de salto e o vestido sensual da tia, fuma e se embriaga como ela fazia e se entrega sexualmente ao rapaz que conhecera no percurso.

Ainda na cama, o rapaz lhe sugere que fujam juntos, e ela pergunta “E depois?”. O rapaz responde que casariam e teriam filhos, e ela repete “E depois?”. E o rapaz, sem saber o que mais dizer, responde: “Sei lá, a vida”.

Cometidos todos os “pecados”, Ida repõe calmamente seus trajes de noviça e volta ao convento para toda uma existência de reclusão religiosa, e o filme se conclui com seu corpo em marcha e, bem frontal, seu rosto decidido a não ter “a vida” de que o rapaz falara…

Tirando o capuz de noviça

Tirando o capuz de noviça

Neste sentido, parece irônico – ou seria o contrário? – que o filme tenha recebido o título de “Ida”, e não de “Anna”.

De todo jeito, é bom frisar que estamos, neste filme, muito longe de qualquer esquema maniqueísta que, esquizofrenicamente, separe Anna de Ida. Por isso, no parágrafo anterior, tive o cuidado de por a palavra “pecados” entre aspas.

Acho que assistindo a “Ida” todo mundo vai lembrar-se de “Uma cruz à beira do abismo” (“The nun´s story”, 1959), filme que também narra a estória de uma freira (Audrey Hepburn), em certo momento, hesitante entre a fé e o mundo. No filme americano de Fred Zinneman, a freira escolhe o mundo; aqui a escolha é outra, mas, as semelhanças persistem.

Com exceção de Andrzej Wajda, Roman Polanski e krzysztof Kielowski, o cinema polonês é pouco conhecido entre nós. Sobre o primeiro escrevi, aqui, há pouco tempo, a respeito do seu filme “Walesa”, e quanto aos outros dois, como sabemos, são mais atuantes fora que dentro de seu país.

Na cama, mas...

Na cama, mas…

A direção de “Ida” é de Pawel Pawlikowski,  e a jovem atriz Agatha Trzebuchowska, que faz a personagem-título, o faz muito bem. Dou destaque, porém, à belíssima fotografia em preto-e-branco (Lucasz Zal), uma escolha cromática que, mui apropriadamente, faz o espectador recordar os muitos tons de cinza do cinema de arte europeu da época ficcional do filme em questão, final dos anos cinquenta, começo dos sessenta. Filmes como “Os incompreendidos”, “Acossado”, “Rocco e seus irmãos”, “A doce vida”, “Oito e meio”, “Os companheiros”, “Persona”, e tantos outros…

Esta matéria é dedicada a Jack Slosky, meu amigo polonês, hoje residente nos Estados Unidos. ida 1

Cinema em 68

27 maio

Se considerarmos que no ano de 1968 estrearam, no mundo todo, cerca de 5.289 filmes, a idéia seria a de que não houve, em termos cinematográficos, nada de especial nessa data. Afinal de contas, esta era a média de filmes por ano no planeta, pelo menos a média da década…

E mesmo em termos qualitativos não parece haver uma distinção a fazer. Cinematograficamente falando, o ano de 68 só se distingue dos outros anos da década por um aspecto de alguma maneira irônico: marcava o fim dos grandes movimentos de cinema, eclodidos entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta.

O mais badalado de todos, a Nouvelle Vague francesa, estava nos seus estertores em 1968. O que se viu nos cinemas parisienses quando os estudantes e os operários tomaram as ruas da cidade eram filmes, se importantes nas carreiras de seus autores, sem grande expressão cultural e com pouca relação com o momento histórico. Para citar apenas os (ex)nouvellevaguistas: de François Truffaut estreava “Beijos roubados” (“Baisers volés”) uma comédia leve sobre um jovem sem vocação para o trabalho e o amor; de Claude Chabrol “As corças” (“Les biches”), um drama homossexual passado em Saint-Tropez; de Resnais “Eu te amo, eu te amo” (“Je t´aime, je t´aime”), um science-fiction sobre regressão temporal. A bem da verdade, dentre os fundadores da Nouvelle Vague, somente Jean-Luc Godard dava – evidentemente, sem o saber – uma resposta à inquietação reinante com o seu “Weekend”, que mostrava um engarrafamento de tráfego quase tão grande quanto a revolução estudantil.

O Free Cinema inglês, outro movimento da década, parecia igualmente diluído em 68. Os seus mentores, como Richard Lester, Tony Richardson (de “A carga da brigada ligeira” em refilmagem) e Karel Reizs (de “Isadora”, sobre a vida de Duncan) tomavam outros rumos estilísticos, e nesse ano, um dos seus participantes, John Schlesinger se mudara para Hollywood onde estava rodando – é verdade – um dos filmes que viriam a definir o perfil da década: “Midnight cowboy” (“Perdidos na noite”). Sobre a revolta radical num colégio inglês, o filme mais próximo do momento histórico foi o “Se…”  (“If…”) de Lindsay Anderson, pela temática análoga, com certeza o mais relevante a ser citado a propósito de 1968.

No Brasil, o Cinema Novo vivia as suas últimas experiências, logo sufocado pelo AI-5 de 13 de dezembro. O enfurecido Glauber Rocha tentava lançar “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”; Paulo César Saraceni operava uma adaptação de Machado de Assis em “Capitu”, Roberto Santos filmava “O homem nu”, Gustavo Dahl mostra o seu “Bravo guerreiro, e Rogério Sganzerla, por outro caminho, se saía com o seu “underground” e ainda hoje tão pouco conhecido, “O bandido da luz vermelha”, porém, no mais, era o cinema comercial que o povo consumia, como o sucesso do ano “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias.

Quem mantinha uma certa vitalidade era o cinema italiano, tão vigoroso nos primeiros anos da década, mesmo sem um nome que o definisse como movimento. Michelangelo Antonioni dera o que falar com o seu “Blow up” no ano anterior e, neste ano de 1968, estava preparando o seu “Zabriskie point”. Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini estavam ocupadíssimos com os seus respectivos “Satyricon” e “Teorema”, que só estreariam em 69. E a Cinecittà continuava investindo nesse novo gênero, o western spaghetti de Sergio Leone, o qual, neste 68, lançou o elaborado e hoje clássico “Era uma vez no Oeste”.

Abalada pela televisão e, mais ainda, pelas mudanças comportamentais, Hollywood clássica já não era mais clássica havia muito tempo. Os grandes cineastas do passado, como John Ford, Frank Capra, Raoul Walsh, George Cukor, etc, estavam aposentados ou em vias de, e os que ainda atuavam não tinham mais o velho pique. Lançado no ano, “Funny girl” de William Wyler não significava grande coisa. Nem o “Eldorado” de Howard Hawks, nem o “Topázio” de Alfred Hitchcock, aliás, rodado na Inglaterra. “A noite dos generais” de Anatole Litvak era um filme de guerra interessante, mas só isso – aliás, com a curiosidade de que era o título em cartaz nos cinemas brasileiros na noite em que os generais deram o golpe do AI-5. Quem ainda inquietava era esse teimoso John Huston, neste ano com o seu perverso “Reflections in a golden eye”, onde Marlon Brando encarnava um militar que se descobria homossexual, filme que no Brasil teve um título estranhamente comprometedor: “O pecado de todos nós”.

Enquanto isso, fora dos estúdios, um independente John Cassavettes continuava dando o seu recado, neste ano com “Faces” (“Rostos”). Mas, claro, mesmo com todas as vicissitudes, Hollywood não entregava os pontos, e um certo sangue novo surgia no Arthur Penn de “Bonnie e Clyde”; no Mike Nichols de “A primeira noite de um homem”, e nos westerns sanguinários de Sam Peckimpah, que neste ano estava rodando o marcante “Meu ódio será tua herança”, para estrear no ano seguinte. Isto para não falar no acontecimento cinematográfico que foi o longo e delirante “2001 uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, provavelmente o filme mais importante de 1968.

Se quisermos insistir nos termos qualitativos, penso que a coisa certa a dizer é que o ano de 1968 vai encontrar, no mundo, um cinema de autores isolados, gênios individuais, pensando o século, sim, mas, cada um de acordo com o seu imaginário mais privado. Nesse rol, perfilo os já citados Fellini, Glauber, Kubrick, Antonioni, Godard, e figuras como Bergman (“A hora do lobo” e “Vergonha”, dois filmes em 1968) e Buñuel, que em 67 nos dera “A bela da tarde”, e, em 69 daria “O estranho caminho de São Tiago”. No contexto cinematográfico, são desses cineastas que lembramos quando paramos para pensar no ano em questão, ou nos seus arredores, temporais e/ou espaciais. Nem todos os filmes destes cineastas tiveram a ver, diretamente, com os avassaladores acontecimentos de 1968, mas, em termos históricos, a eles se integraram e, hoje, deles por tabela fazem parte.

Em tempo: como o espaço é pequeno e os filmes são muitos, acrescento uma relação de 10 títulos de 1968 que, por uma razão ou por outra, tiveram considerável repercussão junto ao público:

As sandálias do pescador (Michael Anderson)

Barbarella (Rober Vadim)

Inferno no pacífico (John Boorman)

Meu nome é Coogan (Don Siegel)

O bebê de Rosemary (Roman Polanski)

O planeta dos macacos (Franklin Schaffner)

O submarino amarelo (George Duning)

Primavera para Hitler (Mel Brooks)

Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)

Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards)