Tag Archives: Romeu e Julieta

Cadê Fellini?

19 dez

Um filme com um título desses, “Em busca de Fellini” (“In search of Fellini”, 2107), eu iria ver de todo jeito. Ainda que tivesse lido comentários desfavoráveis. Pois li e fui.

O argumento é igualmente convidativo: uma garota de uma pequena cidade interiorana de Ohio vai a Cleveland, e cai, por acaso, dentro de um Festival Fellini; apaixona-se subitamente pelo cineasta de “A estrada da vida” e, com o consentimento da mãe doente, se dana para a Itália no encalço dele.

Inspirado pela genial mistura felliniana entre realidade e fantasia, o filme do diretor novato Taron Lexton conta a história de Lucy (Ksenia Solo), apostando que pode fazer o mesmo: misturar realidade e fantasia. Ocorre que nem todo mundo é Fellini, e…

Lucy, a garota de Ohio, usa a camisa listrada de Gelsomina – personagem de “La Strada” – e quer ter a inocência da mesma, mas isso não ajuda muito. Literalmente, perde-se na Itália, e o filme junto com ela, também se perde. E vejam que, para o bem ou para o mal, é baseado “numa aventura real”… Pensando bem, talvez por isso mesmo se perca.

Que Fellini não será encontrado (vários sentidos para esta expressão!), a gente adivinha desde a chegada da moça a solo italiano. Onde posa o avião dela? Não em Roma, mas em Verona, a cidade de Romeu e Julieta. É, portanto, fácil prever o desenlace: a viagem vai lhe dar, não Fellini, mas, um amor. E é aí que o filme ganha a cara de “sessão da tarde”.

A sequência final, em que Lucy, já em Roma, tem, conosco, e por algum instante, a ilusão de estar na presença de Fellini, quando a figura masculina à sua frente é, na realidade, o namorado veronês, só não decepciona mais porque, como disse, já estava implícita desde sempre. Sintomática e convenientemente, a jornada de Lucy acontece em 1993, ano da morte de Fellini.

O filme é cheio de desperdícios, que os espectadores de maior boa vontade podem, se quiserem, chamar de ´pistas falsas´.

Um caso é o dos aparecimentos, em momentos e locais os mais variados, daquele rapaz forte com correntes amarradas no busto (para lembrar o Zampano de “La strada”)… aparecimentos que não vêm a dar em nada. Outro desperdício é a existência do segundo ´interessado´ em Lucy, aquele desconhecido que a conduz a uma orgia supostamente felliniana, e depois a maltrata…

Engraçado é que um problema que Lucy teve, também o teve o filme. Refiro-me ao fato de que não há um Fellini só: há muitos Fellinis, e aquele de “La strada” e “Noites de Cabiria” é bem diverso do de “A doce vida”, que por sua vez, é diverso do de “Satyricon” e “Roma”.

Mas, os atrapalhos semióticos do diretor Lexton, não ficam por aí.

Vejam bem: depois de meia hora de projeção, eu, pessoalmente, comecei a me indagar se um título mais apropriado ao filme não seria “Em busca de Capra”. Pois é, são tantas e tão enfáticas as cenas mostradas de “A felicidade não se compra” (1946) onde se veem a bela Donna Reed e James Stewart em conversas amorosas ou trocando beijos…

O que, aliás, me conduz a uma questão mais genérica, mas também pertinente ao filme de Lexton. Como casar o cinema clássico americano com o cinema de arte europeu? A dicotomia é um lugar teórico comum da crítica, mas que aqui, suponho, vem bem ao caso.

Lucy e a mãe doente, ainda em Ohio.

Em alguns momentos do filme, as personagens americanas tentam explicar aos outros o que é Fellini. Antes de viajar, Lucy faz isso para a tia, sem sucesso, e, mais tarde, essa mesma tia, tenta explicar à irmã, mãe de Lucy. O que ela diz é o seguinte: “Peitos, bundas, você sabe, arte”. Por sua vez, assistindo na televisão a “A doce vida”, a mãe de Lucy reclama: “Cadê o enredo?” E é consolada pela irmã: “Não há enredo”.

No momento em que redijo estas linhas me ocorre que a justificativa para a insistente presença intertextual de “A felicidade não se compra” seria para lembrar que o cinema clássico americano, ao contrário, tinha enredo e não tinha peitos e bundas… Será? Pode até ser, mas não melhora a impressão de confusão estilística e estrutural que “Em busca de Fellini” nos passa. Sem falar da impressão, mais grave, de inutilidade.

O cinema clássico americano, com suas regras e limites, e o cinema de arte europeu, com suas liberdades e ousadias, estão “casados”, e muito bem casados, nas obras concretas, consumadas e consumidas, de grandes diretores como Billy Wilder, Otto Preminger, Fritz Lang, William Wyler, e tantos outros.

Satisfaçamo-nos, portanto, com o que já foi feito.

Fellini, buscado, mas não encontrado…

Anúncios

Incorpóreos

6 mar

 

Sendo uma arte simultaneamente narrativa e plástica, o cinema faz corresponder a cada personagem de um filme a figura física de um ator. Assim é, mas a regra, como toda regra, tem e exceção.

A exceção se coloca quando, na estória narrada, um dado personagem tem, e mantém no filme inteiro, a condição de ausente. Neste caso, naturalmente, a estrutura narrativa não lhe permite representação gráfica, ou seja, embora referido na estória, ele nunca aparece na tela. Os realizadores, portanto, não precisam de um ator para desempenhar o tal papel, pois o personagem – embora diegeticamente existente – é um inexistente plástico, ao que estou dando aqui o nome de “incorpóreo”.

Na verdade, o recurso de contar uma estória escondendo um personagem da visão do espectador é velho e vem do teatro grego. Deste passou ao Renascimento e, depois, ao teatro moderno.

Três dos casos mais óbvios que lembro são: o de Rosalina, a primeira amada de Romeu, na peça de Shakespeare, “Romeu e Julieta”; o do conquistador Protopopov, na peça “Três irmãs”, de Chekov; e – talvez o caso mais ostensivo, se é que a palavra cabe – o do personagem-título da peça de Samuel Beckett “Esperando Godot”, que nunca comparece ao palco.

James Stewart em "Harvey", 1950.

James Stewart em “Harvey”, 1950.

Mas, fiquemos no cinema.

Como o Godot de Beckett, o personagem-titulo do filme “Meu amigo Harvey” (1950) também não tem existência plástica, sendo pouco relevante, do ponto de vista técnico, se se trata de uma pessoa, ou, como quer o seu amigo James Stewart, de um coelho.

Na comédia romântica “A loja da esquina” (1940), a Senhora Mutuschek só é conhecida de nós pelas conversas dos outros personagens. Não há uma atriz que a interprete, ou seja, ela é, para nós, “incorpórea”, embora perfeitamente existente na estória contada.

Em "Sangue de pantera", 1942, o mais temido é o que não se vê.

Em “Sangue de pantera”, 1942, o mais temido é o que não se vê.

Em “A tortura do silêncio” (1953), a vítima do crime cometido, o Sr Villette, embora referido tantas vezes, nunca aparece na tela, nem vivo nem morto.

No primeiro filme de Steven Spielberg, o thriller “Encurralado” (1971), um tempo enorme de tela é dado ao caminhão que persegue o protagonista. O motorista, porém, permanece invisível para nós em toda a extensão da estória. Atenção: para a produção não foi necessário ter um ator para o papel, mas um dublê.

Em “Dr Fantástico” (1964) vemos todos os poderosos envolvidos nessa trama bélica de fim de mundo, menos o Primeiro Ministro soviético, Dimitri Kissov, cuja existência só nos é garantida pela repercussão de sua voz ao telefone.

No desenho animado “Bambi” (1942), vemos todos os bichinhos da floresta, mas nunca a figura ameaçadora, sempre referida pelo nome de ´the man´, ´o homem´.

Em “Sangue de pantera” (1942), o diretor Jacques Tourneur tira um proveito dramático enorme do fato de que os personagens mais temidos nunca são vistos. E suas ausências provocam mais calafrios do que o fariam se tivessem existência física.

Nem todos do júri são vistos, em "Doze homens e uma sentença", 1957.

Nem todos do júri são vistos, em “Doze homens e uma sentença”, 1957.

Um caso particular é o de “Doze homens e uma sentença” (1957), já que nele os ausentes são muitos – todas as testemunhas do júri já acontecido e não presenciado por nós – isto para não falar nos advogados que acusaram e defenderam o réu. Lembro que, em breve cena inicial, divisamos apenas o juiz, os jurados e o réu.

Um dos casos mais clássicos e mais comentados é certamente o do filme “Rebeca, a mulher inesquecível” (Hitchcock, 1940). Vocês lembram bem: não há, no diálogo do filme, ninguém mais referida do que essa mulher de nome Rebeca e, no entanto, não houve uma atriz que a tenha interpretado, pela razão óbvia de que, “inesquecível” ou não, a essa personagem não é dado o estatuto da fisicalidade. Vejam bem, quando o filme, começa ela já é morta: poderia ter havido um flahsback mnemônico em que ela aparecesse, mas não há.

Quase todos esses filmes assumem a premissa de que o ausente, o não visto, o apenas sugerido, pode ter mais força expressiva do que o visto. Como na literatura, estimula a sensibilidade do espectador e o faz criar a sua própria imagem do personagem oculto.

O caminhão cujo motorista ninguém vê em "Encurralado", 1971.

O caminhão cujo motorista ninguém vê em “Encurralado”, 1971.

Se quisermos estender a premissa, seria o caso de se dizer que ela também vale para outros elementos, além dos personagens. Quantos filmes não nos escondem objetos, lugares ou acontecimentos (só referidos no diálogo) que são decisivos na compreensão do enredo, e na apreciação do filme todo…

Um adendo: se a ocultação não for extensiva à duração do filme, não vale para o conceito aqui defendido pelo termo ´incorpóreo´. Por exemplo, em “O sol é para todos”, o personagem do vizinho débil permanece ausente o tempo quase inteiro, mas não inteiro. No desenlace ele nos aparece, uma vez só mas aparece, com seu ar frágil de ´sabiá´,  segundo o título original do filme, pássaro que ninguém ousaria matar.

Enfim, os filmes com personagens incorpóreos que lembrei são estes. Com certeza, o leitor lembrará outros, porventura mais expressivos e/ou mais relevantes para um estudo da narratologia cinematográfica.

A ausente mais famosa está em "Rebeca, a mulher inesquecível". 1940.

A ausente mais famosa está em “Rebeca, a mulher inesquecível”. 1940.

Shakespeare e o cinema

3 jun

No ano do aniversário de morte de William Shakespeare (1564-1616) vale perguntar: quantas vezes foram as suas 37 peças adaptadas à tela?

Tantas que os órgãos responsáveis pelas estatísticas perderam a conta. O livro Guiness de Recordes registra 410 vezes, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) o aumenta, e afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

Segundo consta, a primeira adaptação shakespeariana aconteceu no remoto 1900, uma produção francesa de “Hamlet” em que o herói atormentado pela dúvida é interpretado por uma mulher: Sarah Bernhardt.

Desse ano em diante não se parou mais de filmar Shakespeare. E vejam que as estatísticas citadas – suponho – só computam as adaptações das peças, ficando de fora filmes inspirados nos sonetos shakespearianos, como o “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation’, 1985) de Derek Jarman.

"Hamlet", de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

“Hamlet”, de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

E mesmo tratando-se de peças, o conceito de adaptação fica elástico para caber experiências as mais díspares. Nem todos são fiéis ao texto original, como o foi o cineasta Kenneth Branagh, no seu “Hamlet” (1996), que – único caso conhecido – reproduz o diálogo inteiro da peça, palavra por palavra, por isso tendo que estender seu tempo de projeção para quatro horas (Vide cópia em DVD).

Um caso inusitado é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Cena de "Ran", de Akira Kurosawa, 1985.

Cena de “Ran”, de Akira Kurosawa, 1985.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) são homens e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

Estes são casos especiais. No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Aqui não pretendo analisar as adaptações da obra de Shakespeare, até porque não vi todas e não teria espaço para tratar das muitas que vi. Ao invés disso, prefiro encerrar esta matéria tentando lembrar quando foi, ou quando foram meus primeiros contatos com os filmes shakespearianos.

Shakespeare em versão soviética: "Otelo", 1955.

Shakespeare em versão soviética: “Otelo”, 1955.

Acho que minha primeira vez foi a produção soviética de “Otelo”, que é de 1955, dirigida por Sergei Yutkevich, exibida no Cine Sto Antônio por volta de 1957. Um filme tenebroso que, nos meus onze anos de idade, não entendi muito bem. Pelo mesmo tempo, o mesmo Sto Antônio, re-exibiu o “Romeu e Julieta” de Renato Castellani (a primeira exibição inaugurara o cinema, em 1955), com Laurence Harvey e Susan Shantall no elenco, filme bem mais digerível para meu espírito infantil.

Não sei o que veio em seguida, mas desconfio que foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewics que é de 53, mas deve ter chegado em João Pessoas com anos de atraso. Eu já estava mais crescidinho e me impressionei com a cena do assassinato no Senado romano, e com as interpretações de James Mason como Brutus, e Marlon Brando como Marco Antônio.

Até então, eu nunca havia lido Shakespeare, e na medida em que assistia a novas adaptações de sua obra, fui construindo uma visão cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema. No dia em que, pela primeira vez, final dos anos sessenta, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos.

Claro, era teatro, mas que teatro poético!

Marlon Brando como Marco Antônio, em "Júlio César", 1953.

Marlon Brando como Marco Antônio, em “Júlio César”, 1953.

Shakespeare é só um nome

7 jul

Tenho a impressão de que não existe um grande escritor em que as noções de vida e obra estejam mais separadas do que em William Shakespeare (1564-1616).

Tudo que se sabe do autor de “Romeu e Julieta” resume-se a mais ou menos vinte e cinco parcos itens, em si mesmos, insuficientes para rechear uma biografia. Um deles, por exemplo, nos informa que esse tal de Shakespeare comprou um dia um veado e não pagou a conta. Um outro – que poderia ser mais significativo e não é – consiste no seu exíguo e dúbio testamento, onde não faz uma só menção a seus próprios escritos e onde lega a sua esposa, Anne Hathaway, tão somente a sua segunda melhor cama.

Não é questão de saber quem teria herdado a melhor cama do Bardo de Stratford-Upon-Avon, mas, para muita gente boa, vale a indagação sobre o mistério dessa exiguidade de informação, quando, de outros autores da mesma época, o Renascimento Inglês, se conhecem bem os dados biográficos.

Deem uma olhada em uma biografia de Shakespeare – qualquer uma – e vão ver que praticamente não há uma só página onde não se encontrem expressões hipotéticas do tipo: “é provável que”, “supõe-se que”, acreditamos que”, etc… Simplesmente porque os dados históricos não ajudam, o que às vezes leva muitos biografistas a tomarem certas seções das obras, peças e poemas, como fontes.

Não admira que, ao longo dos séculos, tantas “teorias” tenham sido aventadas, ou inventadas mesmo, sobre a vida de William Shakespeare e, particularmente, sobre a autoria de seus escritos, eventualmente atribuída a outros.

Alguns dos candidatos a essa autoria foram contemporâneos do autor de “Macbeth”, como: Francis Bacon, Christopher Marlowe, Henry Neville e, o de maior consequência, Edward De Vere, o conde de Oxford, apontado pelo estudioso Thomas Looney, em livro de 1920, como o definitivo autor dos escritos shakespearianos, uma “teoria” que chegou a, momentaneamente, convencer gente do calibre de Orson Welles, Charles Chaplin e dizem que até Sigmund Freud

Quem, agora, vem reforçar essa “teoria” é o cineasta Roland Emmerich, no seu mais recente filme “Anônimo” (“Anonymous”, 2011). Para quem não lembra, Emmerich é autor de sucessos de bilheteria, como “Independence Day” (1996) e “Godzilla” (1998).

Segundo o filme de Emmerich, as trinta e sete peças, cento e cinquenta e quatro sonetos e demais poemas que a historiografia atribui a Shakespeare teriam sido compostos, sim, por De Vere, que, pertencendo à nobreza como pertencia, preferiu não assumir a autoria desses escritos e veiculá-los sob uma outra assinatura.

Tendo, na juventude, vivido um caso de amor com a jovem Rainha Elizabeth, De Vere teria, por conveniências familiares, sido forçado a casar-se com outra, e, ao longo da vida, teria desperdiçado a fortuna da família e a chance de ser rei, em vista de sua obsessão com as palavras. Como ele, em grave momento de crise familiar, revela, entre raivoso e desesperado, à esposa antagônica a seu labor de escritor, “esses fantasmas me perseguem e eu enlouqueceria se não escrevesse”.

Quanto a William Shakespeare – bem entendido, o do filme! – este foi só um atorzinho mesquinho e de extremo mau caráter que, sem quaisquer escrúpulos, tentou, e conseguiu, subornar o gênio anônimo do teatro elizabetano.

O roteiro do filme mescla pura ficção com personagens verídicos (De Vere, a rainha Elizabeth, o dramaturgo Ben Jonson, o conde de Essex, o Lorde William Cecil, o Duque de Southampton, o ator Burbage, o Rei James I, os escritores Marlowe, Spencer e Pope, etc), com fatos históricos (as intrigas na corte sobre a mudança do trono inglês, de Elizabeth para James) e com costumes da época (o ´bear baiting´, por exemplo, aquele sangrento divertimento público onde um urso era devorado ou devorava cachorros).

E essa mesclagem, repito, de ficção com história real, é feita com tal sagacidade que, creio eu, até o autor de “Ricardo III” (seja lá quem tenha sido!) aplaudiria; tudo isso para que a sua hipótese soe viável ao espectador. Digo “hipótese” porque o filme abre e fecha com um prólogo e um epílogo em que um ator da atualidade, num palco atual, “propõe” a estória a uma platéia moderna, com quem o espectador do filme, em princípio, deveria se identificar.

Para dizer a verdade, ninguém sabe se Emmerich, ele mesmo, acredita no que narra em “Anônimo”, mas, o fato é que o seu filme acredita. O que não significa dizer que o espectador deva acreditar no filme. Afinal, como se sabe, um filme não precisa ser – historicamente, ou de qualquer outro modo – crível para ser bom. E, crível ou não, “Anônimo” é um ótimo filme.

Evidentemente os “Shakespearean scholars” vão torcer o nariz para “Anônimo”, ou, então, vão assistir com atenção, só para poder apontar improbabilidades históricas.

Uma que salta aos olhos está nas datas. Edward De Vere faleceu em 1604, ano em que, como se sabe, pelo menos treze peças do Bardo ainda estavam por ser escritas e encenadas, entre as quais, “Otelo”, “O Rei Lear”, “Antônio e Cleópatra”, “Coriolano” e “A tempestade” – peças só encenadas mais tarde pela companhia teatral “The King´s Men” (´os homens do Rei´) e o rei em questão era James I, que só passou a reinar sobre a Inglaterra, em 1603, com a morte de Elizabeth. Antes disso a companhia tinha um patrono menos importante e se chamava “Lord Chamberlain´s Men”.

O caso “Macbeth” (1607) deve ser, para os estudiosos de Shakespeare, o calcanhar de Aquiles do filme de Emmerich. Seu fólio já aparece nas mãos de De Vere, como se previamente escrito, e, no entanto, a peça, como é sabido, só tem a estrutura que tem por causa do Rei James I que, adorando bruxaria, levou o autor da peça (seja lá quem seja este!) a atrelar toda a tragédia do protagonista aos desígnios das três bruxas, quando, na verdade, não havia bruxa alguma na história original recriada. Se James ainda não era rei da Inglaterra no tempo de De Vere, como foi possível essa criativa bajulação? (Claro, com mais propriedade, atribuída a Shakespeare, que viveu até 1616!).

Não sou scholar, mas, de minha parte, estranhei um pouco que uma personalidade sempre amarga como o De Vere do filme tivesse disposição para escrever tantas comédias, algumas das quais parcialmente encenadas no filme, e, outra questão: no contexto da sua vida fílmica não houve praticamente espaço diegético para a produção dos 154  sonetos, e – outra pergunta mais embaraçosa – caso tivesse havido, onde caberiam aqueles tantos, sensualmente dirigidos a “um belo mancebo”?

Suponho que, se realizado nos primórdios do século XX, “Anônimo” teria dado o que falar, pela ousadia e pela suposta polêmica que instaura. Nestes tempos pós-modernos de hoje em dia, ele é só – em que pese o seu brilhantismo – um exercício criativo, muito bem feito, porém, relativamente esperável. Afinal, desde que Roland Barthes anunciou a ´morte do autor´, que se romperam irreversivelmente todos os elos entre criador e obra.

Em suma, que importa quem realmente escreveu “Hamlet”? Ao leitor ou espectador da peça, importa o que ficou: a textualidade. O resto é silêncio.

Shakespeare é só um nome, e isto a gente já sabia antes de ver “Anônimo”.

Em tempo: esta matéria é dedicada a W. J. Solha.

Graças a Deus

24 jan

Hoje não, mas nos velhos tempos quase todo espectador tinha o seu cinema preferido, aquele que mais frequentava e onde, por razões privadas, melhor se sentia.

O meu “cinema de estimação” foi o Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe. Não era só o mais perto de casa, mas também o que mais alimentou o meu imaginário de cinéfilo, num tempo em que a palavra ´cinéfilo´ nem existia. Passei parte da minha infância e adolescência entre suas paredes e ainda hoje tenho sonhos com ele. Fui também aos outros cinemas de João Pessoa, porém, nenhum foi tão importante para a minha formação cinematográfica quanto o Sto Antônio.

Pois bem, o que eu não sabia na época, mas sei hoje, é que minha formação cinematográfica parcialmente se deveu a um Papa que já era falecido quando nasci, o Pio XI, autor de uma encíclica fundamental para a história do cinema nos países católicos do mundo.

Promulgada em1936, aencíclica se chamou “Vigilanti Cura” e, à parte o tom de censura, chamava a atenção do mundo para a importância do cinema, e mais que isso, estimulava as paróquias a fundarem casas de exibição, para o cultivo da arte cinematográfica. Numa expressão feliz, Pio XI definia o efeito do cinema sobre as platéias, conceituando o filme como uma lição de coisas. “O poder do cinema consiste no fato de que ele fala por meio de vívidas e concretas imagens, as quais a mente recebe com alegria e sem fadiga – explicava Pio XI, e continuava: “o cinema é na realidade uma “lição de coisas” (“rerum schola” no latim original). que, para o bem ou para o mal, ensina a maioria das criaturas muito mais efetivamente do que o faz o pensamento abstrato.” E este deslumbramento papal com a sétima arte se estendia à bula inteira. (Com certeza, foi daí que o poeta Drummond retirou o título do seu bem conhecido livro de 1962).

Pio XI faleceu em 39, mas o seu sucessor, Pio II, deu continuidade a esse interesse pelo cinema e, claro, dentro do mesmo espírito cristão, prosseguiu incentivando, com novas encíclicas, a reflexão sobre o cinema e a construção de novas casas de exibição. Sua encíclica de 1957 sintomaticamente se chamava “Miranda Prorsus”, em bom latim, “coisas absolutamente maravilhosas”, e uma dessas coisas maravilhosas era o cinema.

Ora, foi justamente dentro dessa orientação do Vaticano que os padres da paróquia da Igreja do Rosário tiveram a iniciativa de construir o “meu” Cine Sto Antônio, inaugurado em 1955.

Nessa época eu era garoto e cursava o primário no Grupo Escolar Sto Antônio, vizinho ao recém-surgido cinema, e, claro, não tive idade para a exibição do filme inaugural, que foi, segundo os residentes do bairro, “Romeu e Julieta”, certamente a versão de 1954, de Renato Castellani, com Laureence Harvey e Susan Shentall, que vi depois. Como se percebe, embora projeto do Vaticano, o Sto Antônio não limitou sua programação a filmes de conteúdo religioso.

O primeiro filme que vi no Sto Antônio foi um documentário colorido sobre a vida agrícola na Tailândia, que os padres do Rosário julgaram ser instrutivo para os alunos do Grupo: as aulas foram, assim, interrompidas e fomos, em fila, todos fardados, assistir a essa sessão matinal.

Acho que foi nessa sessão matinal que descobri o que a gente chama de prazer do escurinho.

Logo logo, descobri também que não precisava dos padres do Rosário para ir ao Sto Antônio. Para meu deslumbramento, qualquer criatura podia entrar naquele templo de imagens: era só ter o dinheiro do ingresso, e, claro, o consentimento dos pais. Para mim, essa descoberta era a própria epifania – o paraíso estava ali, do meu lado, e custava pouco.

Comecei com as matinais de domingo, sessão das nove e meia, depois de devidamente purificado pela missa no Rosário: Tarzan, as comédias (em reprise) de Chaplin e do Gordo e o Magro, ou as mais recentes, de Bob Hope ou Jerry Lewis, ou os filmes de aventura, como “As minas do rei Salomão”, “Aliança de aço”, “A volta ao mundo em oitenta dias”, ou os faroestes da vida, como “Gatilho relâmpago”, “Duelo de titãs” e “O passado não perdoa”… O cardápio era enorme e variado.

Depois, mais crescidinho, me meti nas sessões noturnas, agora assistindo a películas mais adultas, que não poderia arrolar, em vista da extensão. Cito apenas alguns exemplos ao acaso de filmes com que o Sto Antônio me presenteou e que marcariam minha formação, a maior parte deles tendo pouco a ver com religião: “Um corpo que cai”, “Meu tio”, “A fonte da donzela”, “A balada do soldado”, “Quanto mais quente melhor”, “O último hurra”, “Duas mulheres”…

Se eu puder dizer que o Cine Sto Antônio me fez espectador, quem me fez crítico? Pois é, o papel da Igreja na minha formação cinematográfica poderia ter ficado por aí, no Sto Antônio. Mas, a rigor, não ficou.

Acompanhem-me. Lembrem que a orientação do Vaticano junto às paróquias, como já dito, não foi apenas para a construção de salas de exibição, mas também, para a instituição e difusão de Associações locais que pensassem e discutissem cinema, sua linguagem, sua temática, sua ética, e que dessem às platéias do mundo parâmetros de apreciação e avaliação. Os parâmetros eram os católicos, sim, mas já eram um primeiro esforço de análise fílmica – coisa na época chamada de “filmologia”.

Ora,em João Pessoauma Associação desse tipo já havia surgido, no início dos anos cinqüenta, um pouco antes da criação do Cine Sto Antônio. Foi o primeiro cineclube da cidade, chamado justamente de “Cineclube de João Pessoa”, fundado por um grupo de pessoas religiosas, uns laicos como o prof. José Rafael de Menezes, outros do clero, como os padres Antônio Fragoso e Luis Gonzaga Fernandes – mas todos orientados pelos desígnios papais. Em depoimento, o historiador Wills Leal me relata o quanto foi decisivo para os cinéfilos de então – católicos ou não – o acesso a toda uma rica bibliografia sobre cinema, trazida da Itália e da França pelos padres que encabeçavam esses estudos fílmicos. “Padre Fragoso – conta Leal – era dono de uma enorme biblioteca privada de cinema, que líamos com voracidade.”

Que essa orientação católica sobre o estudo da sétima arte não era propriamente castradora comprova o programa da primeira mostra do “Cineclube de João Pessoa”, acontecida nas dependências da Rádio Tabajara, em outubro de 1953: desse programa fazia parte, por exemplo, o filme “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945), como se sabe, um pesado e – para a época – ousado melodrama sobre relações conjugais em que uma mulher casada se apaixonava por um homem também casado. (Para o programa inteiro da mostra, consultar o livro de Leal. “Cinema da/na Paraíba, Vol 1).

Obviamente, não tive acesso ao Cineclube de João Pessoa, já que era criança nessa época, mas, foi ele que deslanchou todo o movimento cineclubista pessoense que viria em seguida, e que, algum tempo depois, iria fazer minha cabeça, mudando-a da mera espectação passiva para a apreciação ativa, crítica e analítica.

Para dar um exemplo da importância desse cineclube católico, foi dele que indiretamente saiu o primeiro livro de autor paraibano sobre cinema, o precioso “Caminhos do cinema” (Editora Agir, 1958) do saudoso Prof. Rafael de Menezes, um livro com distribuição nacional, que li com admiração no começo dos anos sessenta e nunca esqueci. Sua investigação da psicologia do espectador, por exemplo, já era um estudo de Teoria da Recepção quando esta disciplina, esboçada no âmbito literário, nem havia sido cogitada para o âmbito fílmico.

Sim, do bojo do Cineclube de João Pessoa sairia um grupo dissidente que, mais tarde e junto com outros, formaria a ACCP (Associação de críticos cinematográficos da Paraíba), porém, de todo jeito, não há como escapar: a semente da militância critico-cinematográfica pessoense foi plantada por mentalidades ligadas à Igreja. No meu caso particular, via ACCP ou não, foi essa semente cinéfila que brotou.

Não sei por quê (na verdade, sei), os intelectuais que atuaram na imprensa e na cultura nos anos sessentaem João Pessoa, quase todos situados na faixa etária entre eu e o grupo de Rafael de Menezes, e quase todos de forte formação marxista, fizeram o que puderam para sonegar a influência da igreja católica na formação da cinefilia local. Como não podiam negar, calaram. Tolice…

De minha parte posso, portanto, afirmar que, por incrível que possa parecer, devo, indiretamente que seja, à Igreja Católica, não apenas a minha condição de espectador, mas também a de crítico.

O que mais posso dizer sobre o assunto, se não “Graças a Deus”?

Cinema em 68

27 maio

Se considerarmos que no ano de 1968 estrearam, no mundo todo, cerca de 5.289 filmes, a idéia seria a de que não houve, em termos cinematográficos, nada de especial nessa data. Afinal de contas, esta era a média de filmes por ano no planeta, pelo menos a média da década…

E mesmo em termos qualitativos não parece haver uma distinção a fazer. Cinematograficamente falando, o ano de 68 só se distingue dos outros anos da década por um aspecto de alguma maneira irônico: marcava o fim dos grandes movimentos de cinema, eclodidos entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta.

O mais badalado de todos, a Nouvelle Vague francesa, estava nos seus estertores em 1968. O que se viu nos cinemas parisienses quando os estudantes e os operários tomaram as ruas da cidade eram filmes, se importantes nas carreiras de seus autores, sem grande expressão cultural e com pouca relação com o momento histórico. Para citar apenas os (ex)nouvellevaguistas: de François Truffaut estreava “Beijos roubados” (“Baisers volés”) uma comédia leve sobre um jovem sem vocação para o trabalho e o amor; de Claude Chabrol “As corças” (“Les biches”), um drama homossexual passado em Saint-Tropez; de Resnais “Eu te amo, eu te amo” (“Je t´aime, je t´aime”), um science-fiction sobre regressão temporal. A bem da verdade, dentre os fundadores da Nouvelle Vague, somente Jean-Luc Godard dava – evidentemente, sem o saber – uma resposta à inquietação reinante com o seu “Weekend”, que mostrava um engarrafamento de tráfego quase tão grande quanto a revolução estudantil.

O Free Cinema inglês, outro movimento da década, parecia igualmente diluído em 68. Os seus mentores, como Richard Lester, Tony Richardson (de “A carga da brigada ligeira” em refilmagem) e Karel Reizs (de “Isadora”, sobre a vida de Duncan) tomavam outros rumos estilísticos, e nesse ano, um dos seus participantes, John Schlesinger se mudara para Hollywood onde estava rodando – é verdade – um dos filmes que viriam a definir o perfil da década: “Midnight cowboy” (“Perdidos na noite”). Sobre a revolta radical num colégio inglês, o filme mais próximo do momento histórico foi o “Se…”  (“If…”) de Lindsay Anderson, pela temática análoga, com certeza o mais relevante a ser citado a propósito de 1968.

No Brasil, o Cinema Novo vivia as suas últimas experiências, logo sufocado pelo AI-5 de 13 de dezembro. O enfurecido Glauber Rocha tentava lançar “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”; Paulo César Saraceni operava uma adaptação de Machado de Assis em “Capitu”, Roberto Santos filmava “O homem nu”, Gustavo Dahl mostra o seu “Bravo guerreiro, e Rogério Sganzerla, por outro caminho, se saía com o seu “underground” e ainda hoje tão pouco conhecido, “O bandido da luz vermelha”, porém, no mais, era o cinema comercial que o povo consumia, como o sucesso do ano “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias.

Quem mantinha uma certa vitalidade era o cinema italiano, tão vigoroso nos primeiros anos da década, mesmo sem um nome que o definisse como movimento. Michelangelo Antonioni dera o que falar com o seu “Blow up” no ano anterior e, neste ano de 1968, estava preparando o seu “Zabriskie point”. Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini estavam ocupadíssimos com os seus respectivos “Satyricon” e “Teorema”, que só estreariam em 69. E a Cinecittà continuava investindo nesse novo gênero, o western spaghetti de Sergio Leone, o qual, neste 68, lançou o elaborado e hoje clássico “Era uma vez no Oeste”.

Abalada pela televisão e, mais ainda, pelas mudanças comportamentais, Hollywood clássica já não era mais clássica havia muito tempo. Os grandes cineastas do passado, como John Ford, Frank Capra, Raoul Walsh, George Cukor, etc, estavam aposentados ou em vias de, e os que ainda atuavam não tinham mais o velho pique. Lançado no ano, “Funny girl” de William Wyler não significava grande coisa. Nem o “Eldorado” de Howard Hawks, nem o “Topázio” de Alfred Hitchcock, aliás, rodado na Inglaterra. “A noite dos generais” de Anatole Litvak era um filme de guerra interessante, mas só isso – aliás, com a curiosidade de que era o título em cartaz nos cinemas brasileiros na noite em que os generais deram o golpe do AI-5. Quem ainda inquietava era esse teimoso John Huston, neste ano com o seu perverso “Reflections in a golden eye”, onde Marlon Brando encarnava um militar que se descobria homossexual, filme que no Brasil teve um título estranhamente comprometedor: “O pecado de todos nós”.

Enquanto isso, fora dos estúdios, um independente John Cassavettes continuava dando o seu recado, neste ano com “Faces” (“Rostos”). Mas, claro, mesmo com todas as vicissitudes, Hollywood não entregava os pontos, e um certo sangue novo surgia no Arthur Penn de “Bonnie e Clyde”; no Mike Nichols de “A primeira noite de um homem”, e nos westerns sanguinários de Sam Peckimpah, que neste ano estava rodando o marcante “Meu ódio será tua herança”, para estrear no ano seguinte. Isto para não falar no acontecimento cinematográfico que foi o longo e delirante “2001 uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, provavelmente o filme mais importante de 1968.

Se quisermos insistir nos termos qualitativos, penso que a coisa certa a dizer é que o ano de 1968 vai encontrar, no mundo, um cinema de autores isolados, gênios individuais, pensando o século, sim, mas, cada um de acordo com o seu imaginário mais privado. Nesse rol, perfilo os já citados Fellini, Glauber, Kubrick, Antonioni, Godard, e figuras como Bergman (“A hora do lobo” e “Vergonha”, dois filmes em 1968) e Buñuel, que em 67 nos dera “A bela da tarde”, e, em 69 daria “O estranho caminho de São Tiago”. No contexto cinematográfico, são desses cineastas que lembramos quando paramos para pensar no ano em questão, ou nos seus arredores, temporais e/ou espaciais. Nem todos os filmes destes cineastas tiveram a ver, diretamente, com os avassaladores acontecimentos de 1968, mas, em termos históricos, a eles se integraram e, hoje, deles por tabela fazem parte.

Em tempo: como o espaço é pequeno e os filmes são muitos, acrescento uma relação de 10 títulos de 1968 que, por uma razão ou por outra, tiveram considerável repercussão junto ao público:

As sandálias do pescador (Michael Anderson)

Barbarella (Rober Vadim)

Inferno no pacífico (John Boorman)

Meu nome é Coogan (Don Siegel)

O bebê de Rosemary (Roman Polanski)

O planeta dos macacos (Franklin Schaffner)

O submarino amarelo (George Duning)

Primavera para Hitler (Mel Brooks)

Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)

Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards)