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BREVES ENCONTROS

4 maio

O cineasta Billy Wilder e o roteirista I. A. L. Diamond fizeram vários filmes juntos. Mas, com certeza, o trabalho mais curioso da dupla foi a feitura de “The apartment” (“Se meu apartamento falasse”, 1960).

Wilder tinha visto, anos atrás, o filme do inglês David Lean “Brief encounter” (“Desencanto”, 1945) e, desde então, uma ideia o perseguia. Na verdade, Wilder não gostava do filme de Lean. Achava-o meloso, naquele estilo “filme pra mulherzinha ver e chorar”, e pior, com uso exagerado de música clássica, no caso, o segundo concerto para piano, de Rachimaninof, que, aliás, outros melodramas de Hollywood também estavam usando. O próprio Wilder, em um de seus filmes, havia já satirizado grosseiramente o uso de Rachimaninof no cinema, colocando algumas tiradas maldosas sobre o compositor russo na voz over do protagonista da comédia “The seven year itch” (“O pecado mora ao lado”, 1955)

A ideia que perseguia Wilder vinha, tão somente, de uma cena particular em “Desencanto”. Num dos últimos encontros furtivos do casal adúltero, Alec e Laura, na Estação de Milford, ele, Alec, convida a amante a ir ao apartamento de um amigo seu, para um raro momento de amor. O apartamento era emprestado e o amigo estaria ausente naquela noite. Ela, Laura, reluta, mas termina aceitando. Mal o casal se acomoda no apartamento, o dono por azar chega e…

A Wilder o que interessava era o lance de um apartamento ser emprestado para encontros amorosos. O resto ele jogava no lixo.

O cineasta Billy Wilder.

Foi então que ligou pra Diamond e o chamou pra conversar sobre essa ideia de bolar o roteiro de um filme que girasse, todo ele, em torno do empréstimo de apartamento para tal finalidade. Como sempre faziam, conversariam, tomariam notas, e escreveriam, primeiramente o argumento, que depois Diamond transformaria em roteiro.

Diamond achou a ideia extravagante e não viu muito futuro no projeto de roteiro.

Diamond – Quem é que vai emprestar um apartamento? E mais pra transas?

Wilder – Vamos pensar, vamos pensar… Te chamei aqui pra isso.

D – E outra coisa: todo mundo vai associar a “Desencanto”.

W – Que nada. O filme de Lean foi esquecido. Está enterrado. E, além do mais, a cena lá é curta e se perde no meio da história toda.

D – E quem é o babaca que dispõe de um apartamento extra pra emprestar a tarados? E por que emprestaria?

W – Vamos supor o seguinte: o cara empresta o apartamento aos colegas de trabalho…

D – Aos colegas de trabalho???

W – Espere. A seus superiores.

D – E por quê?

W – Visando agradá-los e ganhar promoções.

D – Não é mais lógico que esses superiores, que ganham mais, tenham seus próprios apartamentos extras?

W – Não seria um apartamento extra. Este é o grande lance do filme. Seria o do cara mesmo. O nosso personagem é um pobre coitado que trabalha numa grande firma, cheia de figurões, mas ele é um pequeno funcionário, que não vê jeito de subir profissionalmente, se não for bajulando.

D – Um personagem fraco, que os espectadores vão detestar…

W – Vamos com calma. A gente inventa uma redenção pra ele…

D – Vem cá, o filme de Lean não se chama “Breve encontro” (´Brief encounter´)? Quer dizer que tu queres pôr a coisa no plural, “Breves encontros”? Até que dá um bom título!

W – (risos) Depois a gente pensa no título do filme…

D – Mas espera aí. Em que horário do dia ou da noite, esse apartamento é emprestado? O cara não vai dormir na rua, não é?

W – Acho que seria em horário pós-expediente, no máximo até dez da noite…

D – Isso seria em Manhattan, Los Angeles, ou Chicago? Uma cidade pequena não poderia ser.

W – Manhattan mesmo.

D – E esse cara é solteiro, naturalmente…

W – Claro, se não, como poderia …?

D – E não tem nem namorada? O pessoal vai querer ver algum romance…

W – Sim, claro. A história que imagino tem tudo a ver com amor, sexo e ambição. Mas quero que fique num meio tom entre comédia e drama. Vamos imaginar que há uma mocinha no trabalho com quem ele pensa que flerta…

D – Por que “pensa”?

“Desencanto” de David Lean, 1945.

W – Porque o nosso cara não é nem bonitão, nem conquistador.

D – A mocinha seria uma faxineira…?

W – Não. Deixa eu pensar.

D – Que tal a ascensorista do prédio?

W – É. Pode ser.

D – Estou gostando. É por aí que pode aparecer o conflito que toda história tem que ter. Ele pensa que flerta com ela, mas ela sabe que não. Isto porque ela é, sem ninguém saber, a amante de um dos figurões da firma… Que tal?

W – Humm… Vamos aumentar o tamanho do conflito. De um dos figurões, não. Do maior de todos, do Chefão…

D – Que é casado, naturalmente, bem casado, com mulher e filhos…

W – Certo, certo. E por isso mesmo o caso entre ele e a ascensorista é tão secreto.

D – Eu imagino o seguinte: depois de emprestar o seu apartamento a vários dos seus superiores, vai chegar o dia em que o nosso cara vai ter que emprestar ao tal Chefão. É por aí?

W – É. Mas a gente tem que pensar um pouco pra resolver isso.

D – No dia do empréstimo do apartamento ao chefão, o nosso cara vê, de longe, a ascensorista entrando com ele…

W – Não, não. Fica muito óbvio.

D – Ou então assim: depois da transa, ela esquece um objeto que o nosso cara, ao chegar,  vai encontrar e vai ficar sabendo que é ela…

W – Pode ser. Mas não vamos ser tão diretos. Outra coisa, o nosso cara não é assim tão íntimo da ascensorista, pra identificar qualquer dos seus pertences. Em princípio, são apenas amigos.

D – Tem razão. A gente podia fazer o seguinte. Vê se dá certo. No encontro do apartamento, ela briga com o tal chefão (inventar briga de amante e homem casado é fácil: deixa comigo) e joga nele o espelho de bolsa que está usando no momento. Na pancada, o vidro racha e ela deixa pra lá. Ao sair, esquece o espelho quebrado. Ao chegar em casa mais tarde (depois de o casal ter saído, naturalmente), o nosso cara encontra o espelho rachado, e – naturalmente, sem conhecer a dona – o entrega a quem? Ao chefão. Numa ocasião posterior, em que, conversando com o nosso cara, ela se maquia com o tal espelho rachado, ele vê a rachadura, e, assim começa o conflito: fica sabendo que a moça com quem flerta é amante do seu chefão. Gostou?

W – Gostei, gostei. Tá bom. Mas vamos arrumar mais as coisas. Digamos que, por ter cedido o apartamento ao chefão, o nosso cara ganhou uma promoção, e, em sua nova sala da empresa, se ajeita para o novo cargo. Enquanto conversa com a ascensorista, em sua hora de folga, experimenta um terno que comprara pra assumir o novo posto, e pergunta a ela se ficou bem nele o novo terno. Ela diz que sim, e dá o espelho pra ele se olhar e confirmar. É aí que ele toma o susto: era o espelho rachado deixado pela amante do chefão: ela.

D – É, melhorou, mas acho que um chapéu novo faria mais efeito que um terno novo, até porque solicita mais o close e, se for o caso, torna a cena mais patética e mais doída.

W – Ok, ok. Vá lá que seja: um chapéu novo.

D – E lá vai um próximo passo, pra aumentar o conflito: o chefão exige exclusividade no uso do apartamento do nosso cara que, sem alternativa, concorda, mesmo sabendo que o chefão vai lá para transar, na sua cama, com a moça que ele, secretamente, ama. Ai, que dor.

I A L Diamond e Billy Wilder.

W – E vamos ver se a gente inclui uma cena mais dramática.

D – Como o quê? Briga? Tiro? Crime?

W – Não, nada disso. Eu imagino algo assim. Numa noite, no apartamento do nosso cara, o chefão se despede da amante antes do tempo – digamos que seja noite de Natal, ou coisa do tipo – porque tem que estar com a família. Ela, que o ama sinceramente, fica arrasada, ainda mais quando ele lhe dá de presente, não um buquê de flores, mas uma certa quantia em dinheiro. Sem beijos – por causa do batom dela – ele vai embora e ela, sozinha naquele apartamento estranho, se deprime e engole um frasco inteiro de pílulas pra dormir, que encontrara no armário da cozinha.

D – Apaga e quando o nosso cara chega encontra um cadáver na sua cama: a moça do seu flerte morta.

W – Não, não. Não vamos ser tão drásticos. O que ele encontra é o corpo inerte de sua garota amada, que ele a todo custo vai tentar salvar…

D – Mas como?

W – Sei lá. Só sei que ele não pode fazer alarde do problema, pra não contrariar nem comprometer o poderoso chefão.

D – Me parece que a solução é inventar um médico que seja amigo do nosso cara, se possível vizinho.

W – É, acho que tem que ser.

D – E, embora amigo, o médico fica indignado, pois supõe que a vítima era namorada do nosso cara, o qual, ao médico, parece ser um Don Juan sem vergonha, pois toda noite, do seu apartamento, eles, o médico e sua esposa, escutam os barulhos amorosos dos visitantes da noite, e pensam serem do nosso cara, com namoradas mil…

W – (risos, risos, risos). Ótimo. Mas mesmo assim, ele ajuda a salvar a pobre da moça…

D – Bem, o médico salva a moça, mas, e daí…?

W – Ela fica uns dias com o nosso cara, digo, no seu apartamento; enquanto se recupera, ele faz umas comidinhas pra ela, os dois conversam, etc…

D – Se beijam?

W – Nada disso. Por enquanto, são só amigos, ou colegas de trabalhos unidos por um trágico acidente.

D – E daí, pra onde vamos?

W – Por hoje é só. Deixo o resto contigo. Vê se encontra uma forma decente de terminar, principalmente com uma subida de moral para o nosso cara.

D – Acho que, revoltado com essa safadeza toda, ele vai abrir o jogo com o chefão, e vai deixar o emprego.

W – Que seja. Vai pensar que tu estás sendo pago pra isso.

D – Uma coisa. Já te ocorreu o elenco? Tu sabes que gosto de desenvolver os personagens a partir dos atores. Pra o nosso cara, eu estava imaginando o Jack Lemmon.

W – Claro, tenho ele na cabeça desde que a ideia surgiu. E vou ver se a Shirley MacLaine está livre para fazer a ascensorista. Se tiver sorte, pego o Fred MacMurray pra ser o chefão, mas sei que vai ser difícil o agente dele aceitar esse papel meio canalha pra ele. Enfim, vou ver. Vai fechando o argumento o quanto antes e me manda. E aí te digo quando começar a roteirização.

breves 5

Viagem aos seios de Duília, o filme.

7 ago

A cinefilia doméstica costuma associar os anos sessenta ao movimento do Cinema Novo Brasileiro, como se, nessa década, nada mais no país, em termos de atividade cinematográfica, tivesse sido feito.

E não é o caso. Para se ter uma idéia, a década de sessenta inteira produziu nada menos que 404 películas, das quais duvido que 40 possam ser caracterizadas como realizações do Cinema Novo.  E ainda que possam, sobram 364 realizações fora do esquema do famoso movimento.

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Uma dessas “sobras” é “Viagem aos seios de Duília”, película de 1965 de Carlos Hugo Christensen, cineasta oriundo da Argentina que ninguém de bom senso enquadraria na turma de Glauber Rocha, Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Não porque fosse argentino, mas porque, desde sua chegada ao Brasil, vinha cometendo filmes com fins visivelmente comerciais, como “Matemática zero, amor dez” (1958) e “Meus amores no Rio” (1959), comédias românticas completamente antagônicas ao espírito vanguardista e político dos cinemanovistas.

Em 65 Christensen resolveu adaptar o antológico conto de Anibal Machado e se deu bem, mas não creio que isso o torne um cinemanovista. Como o conto, o filme narra a desventura desse senhor idoso, solteirão recém aposentado, que decide empreender uma viagem ao passado, em busca de uma miragem: a visão deslumbrante dos seios da jovem Duília, que nunca lhe saíra da memória. Na remota Pouso Triste de sua infância e adolescência, um dia, a moça lhe abrira a blusa e…

Agora a aposentadoria o angustia e José Maria, para surpresa de sua velha empregada, arruma as malas e se entrega a uma viagem penosa que, lamentavelmente, tem um final mais penoso ainda: professora primária e viúva idosa, a Duília de seus sonhos eróticos não tem mais nada a ver com a imagem que dela guardava, e o encontro dos dois é puro desencanto.

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Mesmo sem a perfeição do conto – considerado a obra prima de Anibal Machado – o filme de Christensen tem qualidade e merece uma espiada.

Evidentemente, o primeiro problema da adaptação foi a pouca extensão do texto. Em sua inteireza, o conto daria um curta, ou talvez um média metragem, mas dificilmente um filme de duração padrão. O problema foi resolvido com um relativamente longo preenchimento diegético, onde se narra o que não está no conto, mas, aristotelicamente falando, poderia estar: as primeiras semanas de vida aposentada de José Maria e a crise existencial dela decorrente.

Na ocasião de sua despedida da repartição, os colegas oferecem uma festa a José Maria, mas isso é tudo. O que vem depois é frieza e indiferença. Nas próximas tentativas de contato, José Maria começa a se dar conta do que é ser considerado velho, e, portanto, descartável. Vários incidentes lhe revelam a dureza de ser idoso entre os mais jovens, e aos poucos ele vai aprendendo a se manter no seu lugar de inativo e inútil.

Uma dessas decepções ocorre na noite em que aceita o convite de um dos colegas a ir a uma boate da cidade, na companhia de duas moças, amigas do ex-colega – e a cidade, não esqueçamos, é o Rio de Janeiro – e se vê passado para trás pela companheira de noitada, além de ser conduzido a pagar a conta, e depois, deixado na rua, porque, dali, os dois casais, formados na boate, iam para outras paradas, mais íntimas.

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Todo esse preenchimento diegético poderia estragar a imagem que se tem do conto de Anibal Machado, e, no entanto, não é bem assim. Não apenas ele não macula o conto, como vem a contento para o filme, ajudando a incrementar o conflito central do personagem: o seu enfrentamento da velhice.

Depois de ver o filme (eu não o vira na época de sua estréia), fiquei curioso em checar a autoria de um roteiro tão eficiente, e não tive surpresa em constatar que era de ninguém menos que o escritor Orígenes Lessa.

Um outro ponto nevrálgico da adaptação é o desenlace. Como fazer para expressar em imagens a desolação do protagonista, no encontro com Duília? A voz em off, repetindo as palavras do texto, seria um recurso manjado que, se consolaria os apreciadores do conto, não soaria satisfatório para os espectadores do filme. Sensata e criativamente, Christensen optou praticamente pelo contrário: ao invés de qualquer verbalidade, encheu a tela de imagens onde se vê uma sequência de cenários vazios, digo, sem a presença física do ator/personagem, sequência que simbolicamente refaz a vida triste de um personagem que, sem saída, se entrega à tristeza de sua condição.

Um comovente filme sobre a ´terceira idade´, rodado numa época em que sequer se conhecia a expressão.

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12 anos de escravidão

17 mar

Duas décadas antes da Guerra de Secessão, em plena Washington, D.C., um homem de bem, pai de família e cidadão respeitado, é seqüestrado e, por causa da cor, vendido como escravo no Sul do país, onde vai trabalhar nas plantações de algodão, sob o jugo pesado de vários patrões.

Com extrema contundência o filme “12 anos de escravidão” (“12 years a slave”, de Steve McQueen, 2013) exibe o lado mais perverso da escravatura negra nos Estados Unidos e o faz de forma documental, já que é fielmente baseado no livro que o cidadão em questão, o negro Solomon Northup, teve a boa idéia de publicar, ainda em 1853, nele contando todo o seu calvário de escravizado, do dia do sequestro ao instante da libertação, doze anos depois.

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À parte a premiação, o filme tem dois motivos para chamar a atenção do público, especialmente do americano. Primeiramente o fato de ser baseado em um relato real, que hoje vale como documento histórico: poucos sabiam, por exemplo, que esses sequestros de negros livres foram freqüentes no Nordeste americano.

Em segundo lugar, por tocar numa ´ferida nacional´, apesar da eleição do atual presidente negro, nunca plenamente sarada – o racismo, esse mal desastroso que, desde sempre, dividiu o país em dois, o Norte progressista e liberal, e o Sul atrasado e conservador, onde a guerra civil e a abolição, foram só detalhes, porque a derrota dos confederados – sabe-se muito bem – só fez acirrar o preconceito de cor. Não esqueçamos que há apenas cinquenta anos, em 1963, estudantes negros ainda eram barrados em portas de universidades sulistas pelos governadores de estado, e isto com apoio da população branca local (conferir o documentário “Crise”, de Robert Drew, 1963).

Mas, voltemos ao filme. Na difícil tarefa de resumir doze anos em duas horas, percebe-se que o diretor McQueen apelou para uma roteirização onde ficassem claros, para o espectador, os turning points que dão andamento à narrativa, mas sobretudo uma roteirização onde se sobressaíssem os momentos mais dramáticos da trajetória de Solomon (Chiwetel Ojiofor).

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Só para ilustrar, dois desses momentos são: (1) o instante em que, mal chegado ao seu primeiro patrão, e em conversa com outros escravos, Solomon se dá conta de que não perdeu apenas a liberdade, mas com ela, a sua identidade, perda sintomática na assunção obrigatória do novo nome, Platt; (2) a ocasião em que, traído por um empregado branco da fazenda, precisou tocar fogo na carta que, a duras penas, escrevera a Washington, sua única chance de reaver à liberdade perdida.

Um fator forte na vida dramática do filme está na amizade entre Solomon e a escrava Patsy (Lupita Nyong´o), cuja imposta posição de amante do patrão e, consequentemente, rival da dona da fazenda, a torna um alvo especial da violência racista: um ponto crítico dessa doída amizade acontece no dia em que Solomon é obrigado a chicotear a moça, esta amarrada a um tronco de árvore, o chicoteamento assistido pelos donos da casa.

As interpretações estão excelentes, especialmente as de Chiwetel Ojiofor, Lupita Nyong´o (premiada com o Oscar) e Michael Fassbender, este no papel do desequilibrado e sádico proprietário de escravos Edwin Epps. A narrativa flui sem muitos problemas e – como não? – prende o espectador do começo ao fim.

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

E, no entanto, é só isso: ao meu ver, um bom filme, sem maiores qualidades além das referidas, e que ganhou o Oscar de melhor realização de forma justa, não porque possua méritos extraordinários, mas pelo simples fato de 2013 ter sido um ano cinematográfico em que nada se sobressaiu acima da média.

A rigor, “12 anos de escravidão” é aquele tipo de filme em que o conteúdo corre o perigo de apagar a forma – e a relevância da temática tender a ser confundida com outras relevâncias.

De minha parte, posso estar enganado, mas uma impressão que me passou foi a de que faltou aprofundamento ao personagem principal, como se o empenho em descrever os horrores da escravidão tivesse levado a direção a negligenciar um pouco na caracterização psicológica do protagonista Solomon, quase sempre só ´um negro assustado que esconde sua alma´. Que ele esconda sua vida interior dos patrões, tudo bem, mas não acho que devia escondê-la tanto de nós.

Nos créditos finais do filme informa-se que, depois de reencontrar a família em Nova Iorque, Solomon Northup entregou-se de corpo e alma a uma corajosa campanha pública em prol da abolição da escravatura, dando palestras por toda parte e divulgando o seu livro. Essa força de personalidade não aparece no Solomon do filme. Enfim, uma grande estória, quase épica, cujo herói parece não possuir a grandeza correspondente.

Ou será que estou exigindo demais do filme de McQueen? Os leitores desta matéria que decidam.

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

Benditos defeitos (1)

16 dez

No cinema americano, se o protagonista faz uma ligação telefônica, a pessoa do outro lado da linha geralmente atende imediatamente, como se estivesse ao pé do aparelho, esperando que tocasse. Se esse protagonista necessita encontrar um certo objeto (uma caderneta escolar do tempo em que era estudante secundário, por exemplo) esse objeto é achado, dentro de casa, com incrível facilidade. E se, na rua, precisa de um meio de transporte, os táxis estão sempre disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite – é só estender a mão e gritar “táxi!”?

Quem é que, na internet ou alhures, já não se deparou com pelo menos uma daquelas “Listas de defeitos dos filmes americanos”, defeitos estes que parecem agredir a lógica e a inteligência do espectador?

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Espectadores assíduos e bons observadores, os autores dessas listas têm alguma razão em reclamar desses defeitos, porém, sinto muito em dizer, não têm razão completa. A rigor, se refletissem mais, ficariam gratos por esses defeitos existirem.

É verdade que, na vida real, normalmente, as pessoas não atendem seus telefones com tal presteza, ou sequer estão em casa quando eles tocam; é verdade que a gente não encontra o que procura dentro de casa com tanta facilidade, principalmente se se trata de um objeto antigo; é verdade que táxis não estão sempre disponíveis em todos os setores da cidade…

São situações improváveis que os filmes americanos assumiram como lances de roteiro que agilizam a narrativa e fazem o filme andar, e que o espectador comum engole sem prestar atenção ao seu grau de inverossimilhança.

A primeira coisa a ser dita, contudo, sobre a questão toda, e em favor desses “defeitos”, é que cinema e realidade são duas coisas completamente diferentes.

A narrativa cinematográfica – qualquer roteirista profissional sabe disso – trabalha por elipses, e o faz por uma razão simples: precisa contar uma estória em cerca de duas horas. Detalhes que não tenham uma significação especial em relação à temática do filme precisam ser pulados, descartados, subtraídos.

Para ficar nos três exemplos citados, se o roteiro fosse manter na tela o provável tempo real de cada uma dessas ocorrências, o filme se estenderia indefinidamente, se tornaria insuportável e o espectador seria o primeiro a reclamar.

Táxis sempre disponíveis.

Táxis sempre disponíveis.

Vamos supor que os nossos exemplos fizessem parte de um mesmo filme. Vamos supor que o nosso personagem – como é comum na vida real – tivesse que esperar em torno de meia hora para falar com seu interlocutor no telefone; mais meia hora para encontrar a caderneta escolar; mais meia hora para conseguir o táxi. Somando tudo, uma hora e meia teria que ser adicionada à duração normal da estória, e o filme inteiro, de – digamos – duas horas de projeção, pularia para três horas e meia.

O espectador desse filme iria morrer de impaciência e tédio, mas, isto não seria o pior. O pior é que todo esse período de espera (a ligação se completar, a caderneta ser achada, o taxi aparecer) funcionaria como “tempo morto”, ou seja, não teria nenhuma função semiótica dentro do filme – seria realismo puro, oco de sentido como todo realismo puro. Quem, na vida real, já passou três horas numa sala de consultório médico esperando para ser atendido, sabe a que me refiro com “realismo oco de sentido”.

Para fazer comparações com outras linguagens, em literatura a verossimilhança é fácil de ser obtida e não incomoda. Basta o autor de um romance escrever que “o personagem esperou ´por horas´ até a ligação telefônica se completar”, e tudo está resolvido. O leitor lê rápido a frase e não há desperdício de tempo. Em cinema, esse ´por horas´ custaria muitos metros de fita, para não dizer que custaria uma nota, além, como já posto, de torrar inutilmente a paciência do espectador.

Aqui cabe um parêntese: no cinema, uma certa demora na conclusão das três situações citadas será viável se o gênero do filme for Suspense, porém, mesmo assim, com certeza, o tempo de espera, num thriller, é geralmente bem menor do que o suposto tempo real, embora, justamente por causa do suspense, pareça enorme. A esse propósito, confiram qualquer Hitchcock.

Citamos apenas três exemplos, mas claro, os filmes estão repletos de situações semelhantes e, enfim, fosse o cinema mostrar o tempo real desses eventos diários, e de tantos outros que costumam fazer parte das estórias contadas na tela, um filme, qualquer que fosse o seu gênero, teria que durar, não horas, mas dias.

Conclusão: dispostos com tanta malícia nas listas referidas, esses “defeitos”, não deveriam ser amaldiçoados, e sim, abençoados.

Foi a sua inevitável repetição ao longo do tempo o que fez com que essas elipses temporais entrassem, indiscriminadamente, no rol dos chichês. Porém, ao contrário dos clichês propriamente ditos, elas são premências narrativas que, se fôssemos lhes atribuir um nome mais justo, poderiam muito bem ser chamadas de “licenças poéticas”. Sim, licenças poéticas, no sentido em que se quebram regras (aqui as da verossimilhança), com o objetivo estético de tornar a obra mais compacta e digerível. Uma forma mais sofisticada de denominar essas elipses seria enquadrando-as no conceito – já popular entre teóricos da linguagem narrativa – de “verossimilhança interna”.

Prosseguirei com o assunto num próximo post.

Como achar um objeto perdido dentro de casa...

Como achar um objeto perdido dentro de casa…

O terceiro velho

2 out

Apesar da expressão popular que a denomina, aquela profissão feminina – também conhecida como a mais antiga do mundo – não é nada fácil. Daí tanto render, nas artes, o seu potencial de dramaticidade, especialmente na literatura e no cinema.

Pobrezinha como Cabíria (“Noites de Cabíria”, 1957) ou sofisticada como Holly (“Bonequinha de luxo”, 1961), circunstancial como Myra (“A ponte de Waterloo”, 1940) ou vocacionada como Irma (“Irma la douce”, 1963), a figura da prostituta foi sempre uma fonte de inspiração para criadores de imagem.

É do que me lembro ao ver o belo curta de Marcus Vilar “O terceiro velho” (2013), exibido no dia 10 de setembro em João Pessoa, e ampla e merecidamente premiado no VII Comunicurtas de Campina Grande.

Marcus Vilar, autor do curta "O terceiro velho" (2013)

Marcus Vilar, autor do curta “O terceiro velho” (2013)

Claro, como se trata de um curta-metragem de 15 minutos, não há tempo para o desenvolvimento das caracterizações, nem possibilidade de aprofundamento psicológico dos personagens, nem isso é esperado do gênero. Conforme o numeral do título sugere, o enredo se limita a uma única noite na lida profissional dessa jovem prostituta da orla pessoense, que, ao contrário dos seus jovens fregueses habituais, nessa noite em particular experimenta a coincidência de acolher três homens idosos. Uma vez que velhice e sexo não são propriamente isótopos, a noite dessa jovem mulher vem a ser particularmente estranha.

Para os dois primeiros, que aparecem juntos, ela executa um strip tease na frente do carro de faróis acessos, enquanto, lá dentro, os dois se divertem e se satisfazem com o show. Já a aventura com o terceiro (notem que o titular da estória toda), é mais misteriosa. Se com os dois primeiros o caso tendera mais ao patético, agora a inclinação é para o funesto, e a performance implica, dentro de um ambiente fechado, vestidos de noivas, velas e esquifes.

Embora o maior tempo de tela seja dado a essa jovem prostituta, é esse personagem titular que ganha força temática e imaginativa, ao se fechar a narrativa. Em cena que toma a segunda metade do filme, testemunhamos o seu ritual (um prazer dolorido que beira a necrofilia) e, depois que a moça sai, ouvimos o estampido de um revólver, porém, nenhuma informação diegética nos ajuda no desvendamento do mistério.

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Para dizer a verdade, assim como o conto adaptado (“O terceiro velho da noite” do escritor sergipano Antônio Carlos Viana), o filme vive de lucunas e esse vazio mesmo faz parte de sua proposta semiótica. Quem é esse senhor idoso que paga a uma profissional do sexo para, junto com ela, executar um ritual fatal? Quem seria a mulher, amada ou não, que a jovem prostituta é obrigada a representar dentro do vestido e do esquife? Por que aquele vestido, e por que o ritual mesmo, executado daquela forma e não de outra? E – pergunta mais difícil – por que o tiro? O espectador, bem como o leitor do conto, é deixado com as mais variadas possibilidades de preenchimento da estória, da forma que mais lhe aprouver. A mais radical seria fazer um novo filme, ou escrever um novo conto. De qualquer forma, um exemplo típico daquilo que, em teoria da narrativa, se chama de final aberto.

O conto de Viana é narrado em primeira pessoa verbal, e por isso, a personagem feminina, nele, nos parece mais próxima, mais íntima. Do seu discurso, ficamos conhecendo as suas impressões sobre o que está vivenciando na ocasião, os seus temores e os seus desejos – embora, obviamente, esse discurso em nada ajude a explicar o comportamento do terceiro velho. Imagino que os roteiristas do filme, Vinicius Rodrigues e o próprio Marcus Vilar, devem ter lutado com esse nível de subjetividade na fala da personagem, para passar, na tela, e sem a chatice da voz over, a imagem de uma figura feminina que atraísse o espectador, por razões não apenas eróticas – e acho que conseguiram o equilíbrio entre as duas feições diversas que o filme assume, a documental (a vida da prostituta) e a ficcional (o núcleo temático em torno do personagem titular) – aquela primeira feição, no caso, acentuada pela modificação do cenário, de algum lugar indefinido no conto, para a orla pessoense no filme.

Todos os atores estão ótimos e o filme é um bom exemplo do nível de qualidade que o áudio-visual paraibano vem atingindo nos últimos tempos. Nele destaco, ainda, a escolha da fotografia em preto-e-branco, bem mais efetiva do que se a equipe tivesse optado por algum colorido sombrio, ou, num caso extremo, por aquele recurso chamado de “noite americana”, em que se filma de dia, escurecendo a imagem com lentes opacas. Nesse particular, não se pode deixar de notar o trabalho de câmera e iluminação de João Carlos Beltrão, fundamental num filme de ambientação noturna e, mais que isso, de certa evocação fantasmal, onde luzes e sombras ganham estatuto temático.

Acima disse que velhice e sexo não cabem dentro da mesma isotopia. “O terceiro velho” deixa a questão no ar – mais uma.

O diretor e parte do elenco do filme

O diretor e parte do elenco do filme

Tom segundo Nelson e Dora

24 jan

Ao escrever sobre o filme de Walter Carvalho “Raul: o início, o fim e o meio” fiz o levantamento dos filmes brasileiros recentes que tratam de música – cerca de 16 – e aventei a hipótese de estarmos, sem o saber, criando um gênero. (Conferir neste blog: “Raul sem fim”).

Pois, mais um para a lista é este magnífico documentário “A música segundo Tom Jobim” (Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, 2012), no momento em cartaz na cidade.

Só que, em relação à lista citada, este traz uma novidade: não gasta fotograma com biografia e o filme inteiro é música, exclusivamente música. Sabiamente, os autores decidiram que Antônio Carlos Jobim já é suficientemente conhecido do público brasileiro, para ser biografado, e que as suas composições falariam por si mesmas. O argumento, epígrafe do filme, é do próprio Jobim: “A linguagem musical me basta”.

Se pluralizarmos o pronome pessoal da frase, é justamente o que acontece em “A música segundo Tom Jobim” – uma longa e deliciosa cadeia de performances musicais, que se sucedem, sem serem interrompidas por explicações, para encanto de espectador. Tanto é que o filme, com uma hora e meia de duração, soa bem mais curto.

Quem quiser saber quando nasceu Jobim, ou onde estudou, que vá às bibliotecas ou internet: o filme não tem uma única palavra falada, só cantada, e as informações epocais, quando as há, aparecem rapidamente nos cartazes dos shows, capas de discos, ou trechos de jornais ou revistas da época.

O que há de mais próximo ao biográfico é, na verdade, contextual: na abertura do filme, as imagens de arquivo do Rio de Janeiro dos anos 50/60, cidade, como se sabe, amada e decantada por Jobim.

Na disposição dos números musicais, a linha seguida é mais estética que propriamente temporal. Por exemplo: da execução de uma canção por um cantor brasileiro, passa-se a outras por estrangeiros, ou vice-versa, sem importar o tempo real que porventura teria dividido tais interpretações.

E o espectador vai ouvir/ver quase toda a discografia de Jobim, em línguas e vozes as mais variadas – de Agostinho dos Santos a Ella Fitzgerald, de Nara Leão a Sarah Vaughan, de Elis Regina a Frank Sinatra, etc… Sem falar em interpretações francesas, italianas, alemãs, japonesas, de suas canções.

Certamente conseguidas com tenacidade extrema, as imagens de arquivo são relíquias preciosas que dão ao documentário uma dimensão histórica. A voz rouca de Maysa interpretando “Por causa de você” em closes dramáticos, ou a dicção fina de Judy Garland cantando “Insensatez” são dois exemplos entre muitos.

Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim (neta do compositor) assinam a direção, no caso presente, um conceito que merece comentário. Uma vez que não há entrevistas com os envolvidos e, menos ainda, encenações, o conceito de direção, sem apagar-se, aqui se dilui em pelos menos três atividades distintas, a saber, pesquisa, roteirização e montagem. Claro, para o resultado sair a contento, é preciso que os diretores tenham tido o filme na cabeça, antes ou durante a realização, principalmente o seu ritmo, digo, o ritmo cinematográfico, que abrange plástica e som, composição e continuidade. E não há dúvidas de que a dupla o tinha – o filme é uma delícia de se acompanhar e, como na música de Jobim, não há quebras ou sopapos, salvo os propositais.

Para não interromper esse ritmo cinematográfico, e no mesmo sentido de descartar os códigos verbi-visuais, os nomes dos intérpretes não aparecem quando das execuções, ficando tudo para o final, onde os créditos vêm ladeados por fotogramas das respectivas execuções musicais.

Em outra matéria sobre o mesmo assunto – i.é, filmes brasileiros recentes tratando de música – tive o cuidado de lembrar uma contradição curiosa da cultura e arte brasileiras do século XX– um país musical como o Brasil nunca foi bom em realizar “musicais cinematográficos”. O mais próximo que já estivemos disso foi com as Chanchadas dos anos 40/50, onde, de todo jeito, os números musicais não possuíam organicidade suficiente para determinar o gênero. Pois nessa mesma matéria, chamo a atenção para o fato de o Cinema Novo Brasileiro ter sido meio anti-musical, e, sem coincidência, cito o filme “Vidas Secas” (1963) como um protótipo disso, onde o gemido atonal do carro de boi simbolizava, na minha visão e audição, essa relativa anti-musicalidade do Cinema Novo, ironicamente um movimento coetâneo à Bossa Nova.

Ora, o que temos agora? Uma volta de 180 graus – o mesmo autor de “Vidas Secas” comete o mais musical de todos os recentes “filmes brasileiros sobre música”.

Já não era sem tempo…