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“MANK” – SÓ PARA CINÉFILOS

15 dez

Assisti a “Mank” (2020) e gostei muito.

Gostei, mas não consegui me livrar de um certo incômodo. Fiquei pensando qual seria, ou será, a reação do espectador comum ao filme de David Fincher.

Com efeito, se você por acaso não tem a mínima ideia de quem foi, na história do cinema clássico americano, figuras como Ben Hecht, Irving Thalberg, John Houseman, Charles Lederer, Louis B. Mayer, William Randolph Hearst, Marion Davies, os irmãos Joseph e Herman Mankiewicz, e, claro, Orson Welles… fica difícil entender as tensões que estão por trás de falas, gestos, e cenas inteiras em “Mank”.

No grosso, o filme conta a conturbada história da redação do roteiro do filme “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941), mas, dá-se ao luxo de não ser – digamos – “didático”, e parte do princípio de que o seu espectador conhece a fundo o contexto da época (final dos anos trinta, em Hollywood).

Alguns exemplos: em dado momento, o beberrão Herman Mankiewicz (apelido: Mank) pede à secretária que leia um trecho do roteiro já escrito e ela o faz – o trecho fala de uma mulher de branco, vista de longe, num barco que passa… etc”. Creio que, para o espectador comum que não tem “Cidadão Kane” na cabeça, a leitura desse trecho do roteiro nada diz, e não ajuda a entender a riqueza do drama narrado. Já o cinéfilo, vai lembrar que ele prediz uma fala famosa no filme de Welles.

A cena em que Orson Welles se irrita e fica violento no quarto de Mankiewicz, é, para o espectador comum, só mais uma cena, como outras, vistas em tantos filmes. Para o cinéfilo ela vai gerar em “Cidadão Kane” aquela cena violenta em que Kane, depois de abandonado pela esposa, destrói a luxuosa alcova do casal.

Em dado momento, alguém que lera o roteiro escrito por Mankiewicz, confessa que nunca pensara que um mero trenó pudesse ter tanta significação dramática. O que isso representa para o espectador de hoje, se não viu o filme de Orson Welles?

A atriz Amanda Seyfried como Marion Davies

Suponho que o mais desastroso, para o espectador, seria desconhecer o imbróglio verídico que envolveu o magnata da imprensa William Randolph Hearst, sua amante Marion Davies e o modo como estão retratados no roteiro escrito por Mankiewicz e no filme de Welles. Aquele momento do diálogo em que se sugere que o misterioso “rosebud” (ao pé da letra: ´botão de rosa´) seria uma denominação erótica que Hearst dava à genitália de sua amante, Marion Davies, perde o sentido para quem ignora o imbróglio referido.

Para complicar o entendimento da intriga, os personagens são tratados pelos seus apelidos verídicos, alguns, como William Randolph Heart, com dois: ora “Willie”, ora “Pop”. O importante diretor Joseph Mankiewicz – irmão de Mank – é sempre referido apenas como “Joe”.

Poderia dar dezenas de exemplos de falas, gestos, situações, cenários, personagens, e cenas que são altamente pertinentes para o mundo sofisticado da cinefilia, e que são – suponho – incomodamente impertinentes para o grande público, mas, me limito a estes.

Enfim, posso estar enganado, mas, parece-me que o freguês desavisado do Netflix (que comprou o filme de Fincher) vai talvez se aborrecer com “Mank” e subestimar o seu valor estético, que é grande.

O ator Gary Oldman no papel de Mank

O filme decorre o tempo quase todo no quarto, a rigor, na cama de Mank, esse alcoólatra decadente que, entediado da profissão e da vida, tem prazo curto para aprontar um roteiro encomendado pelos produtores da RKO, para ser filmado por um cara do Leste, de 24 anos, que nunca pisara em Hollywood e não tinha a menor ideia de como se dirigia um filme.

Tudo em expressivo preto-e-branco e cortado por flashbacks que, ironicamente, remetem à estrutura narrativa de “Cidadão Kane” – com a diferença de que neles estão indicados locais e datas, o que, mui apropriadamente, sugere a composição de um roteiro.

No papel de Mank, Gary Oldman está perfeito, e, aliás, todo o elenco está muito bem, e se não há tanta gente famosa é porque, com certeza, a semelhança física com os personagens reais deve ter sido exigência de um cineasta caprichoso como é Fincher. Se bem que, aqui pra nós, o ator Tom Burke tem muito pouco do charme pessoal de Orson Welles. De qualquer forma, consta que Fincher levou o elenco à exaustão, com dezenas e mais dezenas de repetições de tomadas de uma mesma cena, procedimento que, até nisso, sugere o cinema dos grandes mestres do passado.

Só lembrando: independente das querelas entre os envolvidos na produção de “Cidadão Kane”, o roteiro de Mankiewicz deu origem ao filme mais famoso do mundo – aquele que, durante meio século (de 1952 a 2012), manteve, na lista da crítica internacional, a invejável posição de “o mais perfeito já feito”.

Ironicamente, o único Oscar de “Cidadão Kane” foi para o roteiro de Mankiewicz, que – como fica claro no filme de Fincher – por pouco não teve seu nome fora dos créditos…

“Eu, Daniel Blake”: pobres no Primeiro Mundo

2 maio

Na Inglaterra de hoje, o viúvo Daniel Blake, marceneiro de 59 anos, residente em Newcastle, foi acometido de um problema cardíaco e, segundo seu médico, não poderia trabalhar. Legalmente como fica a sua situação profissional?

Ao ir atrás de seus direitos de cidadão que paga impostos, Daniel vê-se metido em um sistema mais confuso e perverso do que aquele que está descrito em certo livro de Franz Kafka – situação agravada pelo fato de pertencer ele a uma geração que não se familiarizou com computadores, celulares e demais recursos eletrônicos.

A frieza dos atendentes nas repartições públicas, só comparadas às das vozes gravadas nos telefones, ou às das páginas virtuais nos computadores, vai minando sua paciência, até um ponto insuportável para um homem de idade e doente. Ninguém o ajuda e quem tenta – como uma certa funcionária, também idosa, que dele se compadece – é admoestado pelos superiores.

Ninguém ajuda Daniel, e, no entanto, ele ajuda outros, aparentemente mais desesperados que ele, caso dessa jovem que perdera o teste para emprego porque, arrastando dois filhos pequenos, chegara atrasada. Mãe solteira, Katie já vem de Londres onde morava num albergue público insalubre. Agora em Newcastle, a situação de penúria continua, mas, o encontro casual com Daniel lhe sugere que nem tudo está perdido. Pelo menos que ainda existe solidariedade humana.

Apesar da solidariedade recíproca, os casos de Daniel e Katie, cada um a seu modo, vão se agravando até um ponto… Bem, não conto o resto para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme do veterano diretor inglês Ken Loach “Eu, Daniel Blake” (2016)

Como vivem os pobres no Primeiro Mundo? Claro, um dos aspectos interessantes do filme de Ken Loach é que estamos num país supostamente rico, e, mais, numa das democracias mais consolidadas do planeta. Para o espectador desavisado, constatar como os sem teto e, sobretudo, os idosos, são tratados pelo sistema inglês pode ser estarrecedor. Se a estória se passasse no Brasil…

À parte esse tom, aliás, bastante forte, de denúncia, o filme convence como cinema, envolve e empolga. Ainda que de modo simples e direto, o enredo é efetivo em desenvolver a estória por etapas, cada nova etapa com uma pitada de gravidade acrescentada, e, isto feito em paralelo: de um lado, o drama de Daniel (um atrapalho no uso do computador, um não recebido de um funcionário…), do outro, o de Katie e seus filhos (um azulejo quebrado, um sapato puído…). Naturalmente, com pontos de toque em momentos sintomáticos, para indiciar bem a construção de uma amizade.

Os personagens são desenvolvidos com inspirada competência, e nos passam com naturalidade a verdade humana que encarnam. Novato no cinema, o ator Dave Johns está excelente no papel-título, e a atriz Hayley Squires não fica a dever como a sofrida mãe Katie. Até dos atores mirins se conseguem bons desempenhos.

Dois momentos particularmente dramáticos constituem turning points que, na mão de um cineasta menos experiente, se tornariam, um piegas, o outro, ridículo. Refiro-me primeiramente àquela cena em que Daniel, descobrindo, indignado, a opção de Katie pela prostituição, a visita no bordel e os dois, constrangidos entre as quatro paredes de um quarto, mal falam oprimidos pelas lágrimas.

O segundo momento é quando Daniel, completamente desiludido com relação à (im)possibilidade de resolver seu caso burocraticamente, e insanamente movido por puro desespero, toma a atitude drástica de pichar a parede do prédio da repartição com palavras de ordem, entre as quais a que intitula o filme.

A ninguém escapa o jeito documental de “Eu, Daniel Blake”. Consta que, bem antes da concepção do argumento, Ken Loach e o seu comparsa de sempre, o roteirista Paul Laverty, procuraram o auxílio de empregados do Sindicato de pensão e trabalho. As entrevistas e as informações fornecidas por esses empregados – cujos nomes, evidentemente, não puderam aparecer nos créditos – é que serviram de base para a estrutura narrativa ficcional do filme. Algumas cenas foram mais ou menos improvisadas, caso da visita de uma Katie faminta ao Banco de alimentos: a senhora que a atende sabia que estava sendo filmada, mas não sabia o que ia acontecer com Katie logo em seguida: o gesto extremo de abrir a lata de conservas, engolir o conteúdo e desesperar-se, envergonhada.

Em Cannes, 2016, “Eu, Daniel Blake” foi ovacionado durante quinze minutos. Levou a Palma de Ouro, aliás, a segunda na carreira brilhante de Ken Loach, cineasta idoso ele mesmo (81 anos) que sempre soube resistir aos encantos de Hollywood. E convites não lhe faltaram.

Um filme comovente, sobre vários tópicos que se tocam: a terceira idade, a exclusão social, o desemprego, a desigualdade, a miséria, a humilhação, o desespero, a perda da dignidade, o protesto impotente, mas, sobretudo, a solidariedade.

Recomendo.

Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

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Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

5 uma dona de casa

Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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