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“Eu, Daniel Blake”: pobres no Primeiro Mundo

2 maio

Na Inglaterra de hoje, o viúvo Daniel Blake, marceneiro de 59 anos, residente em Newcastle, foi acometido de um problema cardíaco e, segundo seu médico, não poderia trabalhar. Legalmente como fica a sua situação profissional?

Ao ir atrás de seus direitos de cidadão que paga impostos, Daniel vê-se metido em um sistema mais confuso e perverso do que aquele que está descrito em certo livro de Franz Kafka – situação agravada pelo fato de pertencer ele a uma geração que não se familiarizou com computadores, celulares e demais recursos eletrônicos.

A frieza dos atendentes nas repartições públicas, só comparadas às das vozes gravadas nos telefones, ou às das páginas virtuais nos computadores, vai minando sua paciência, até um ponto insuportável para um homem de idade e doente. Ninguém o ajuda e quem tenta – como uma certa funcionária, também idosa, que dele se compadece – é admoestado pelos superiores.

Ninguém ajuda Daniel, e, no entanto, ele ajuda outros, aparentemente mais desesperados que ele, caso dessa jovem que perdera o teste para emprego porque, arrastando dois filhos pequenos, chegara atrasada. Mãe solteira, Katie já vem de Londres onde morava num albergue público insalubre. Agora em Newcastle, a situação de penúria continua, mas, o encontro casual com Daniel lhe sugere que nem tudo está perdido. Pelo menos que ainda existe solidariedade humana.

Apesar da solidariedade recíproca, os casos de Daniel e Katie, cada um a seu modo, vão se agravando até um ponto… Bem, não conto o resto para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme do veterano diretor inglês Ken Loach “Eu, Daniel Blake” (2016)

Como vivem os pobres no Primeiro Mundo? Claro, um dos aspectos interessantes do filme de Ken Loach é que estamos num país supostamente rico, e, mais, numa das democracias mais consolidadas do planeta. Para o espectador desavisado, constatar como os sem teto e, sobretudo, os idosos, são tratados pelo sistema inglês pode ser estarrecedor. Se a estória se passasse no Brasil…

À parte esse tom, aliás, bastante forte, de denúncia, o filme convence como cinema, envolve e empolga. Ainda que de modo simples e direto, o enredo é efetivo em desenvolver a estória por etapas, cada nova etapa com uma pitada de gravidade acrescentada, e, isto feito em paralelo: de um lado, o drama de Daniel (um atrapalho no uso do computador, um não recebido de um funcionário…), do outro, o de Katie e seus filhos (um azulejo quebrado, um sapato puído…). Naturalmente, com pontos de toque em momentos sintomáticos, para indiciar bem a construção de uma amizade.

Os personagens são desenvolvidos com inspirada competência, e nos passam com naturalidade a verdade humana que encarnam. Novato no cinema, o ator Dave Johns está excelente no papel-título, e a atriz Hayley Squires não fica a dever como a sofrida mãe Katie. Até dos atores mirins se conseguem bons desempenhos.

Dois momentos particularmente dramáticos constituem turning points que, na mão de um cineasta menos experiente, se tornariam, um piegas, o outro, ridículo. Refiro-me primeiramente àquela cena em que Daniel, descobrindo, indignado, a opção de Katie pela prostituição, a visita no bordel e os dois, constrangidos entre as quatro paredes de um quarto, mal falam oprimidos pelas lágrimas.

O segundo momento é quando Daniel, completamente desiludido com relação à (im)possibilidade de resolver seu caso burocraticamente, e insanamente movido por puro desespero, toma a atitude drástica de pichar a parede do prédio da repartição com palavras de ordem, entre as quais a que intitula o filme.

A ninguém escapa o jeito documental de “Eu, Daniel Blake”. Consta que, bem antes da concepção do argumento, Ken Loach e o seu comparsa de sempre, o roteirista Paul Laverty, procuraram o auxílio de empregados do Sindicato de pensão e trabalho. As entrevistas e as informações fornecidas por esses empregados – cujos nomes, evidentemente, não puderam aparecer nos créditos – é que serviram de base para a estrutura narrativa ficcional do filme. Algumas cenas foram mais ou menos improvisadas, caso da visita de uma Katie faminta ao Banco de alimentos: a senhora que a atende sabia que estava sendo filmada, mas não sabia o que ia acontecer com Katie logo em seguida: o gesto extremo de abrir a lata de conservas, engolir o conteúdo e desesperar-se, envergonhada.

Em Cannes, 2016, “Eu, Daniel Blake” foi ovacionado durante quinze minutos. Levou a Palma de Ouro, aliás, a segunda na carreira brilhante de Ken Loach, cineasta idoso ele mesmo (81 anos) que sempre soube resistir aos encantos de Hollywood. E convites não lhe faltaram.

Um filme comovente, sobre vários tópicos que se tocam: a terceira idade, a exclusão social, o desemprego, a desigualdade, a miséria, a humilhação, o desespero, a perda da dignidade, o protesto impotente, mas, sobretudo, a solidariedade.

Recomendo.

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Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

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Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

5 uma dona de casa

Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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La dolce vita

26 ago

 

Era abril de 1953, dia 9, quando o corpo de Wilma Montesi foi encontrado. Seminu, era arrastado pelas ondas nas areias da praia de Torvaianica, a uma certa distância de Roma. Com 21 anos de idade, Wilma Montesi era uma moça humilde: filha de marceneiro, morava num subúrbio romano. Como fora parar naquela praia distante, e mais importante, de que morrera?

Em seguida veio o escândalo. Aparentemente a moça estaria envolvida com rapazes da elite que costumavam se divertir em orgias movidas a drogas. Um deles era o músico Piero Piccione, amante da atriz de cinema Alida Valli, e filho do ministro Attilio Piccione. Piero e um de seus companheiros de farra, Ugo Montagna chegaram a ser julgados, na Corte de Veneza, porém, por falta de provas, foram absolvidos, e o caso foi arquivado, tudo indica que para sempre.

Marcello Mastorianni e Anita Egberg em cena de La Dolce Vita.

Mas, claro, nem todo mundo esqueceu o caso: o cineasta Federico Fellini, por exemplo. Segundo consta, foi nele que pensou ao bolar, junto com Pasolini, o enredo de “A doce vida” (1960).

Assim, teria sido o dúbio papel da imprensa da época o que motivou a construção do personagem de Marcello Rubini (Marcello Mastroiani), esse jornalista que se divide entre o compromisso profissional com a informação e o fascínio pela ´doce vida´ da burguesia italiana.

De fato, várias cenas no filme costuram pobreza e riqueza de modo irônico. A primeira noitada de Marcello com a ricaça Madalena é bem sintomática: os dois dão carona a uma pobre garota de programa (certamente inspirada em Wilma) que termina abrigando-os por uma noite em seu mais que modesto casebre, usado pelo casal como motel.

Uma segunda cena a citar dessa mistura entre pobreza e riqueza é a da mocinha loira (parecida com um anjo renascentista, segundo Marcello) que o protagonista conhece quando se isola, com sua máquina datilográfica, para escrever o livro que nunca escreverá. No final, esse ´anjo renascentista´ vai reaparecer, na praia, mas Marcello não lhe escuta a voz, porque dele está distanciado, no espaço e, principalmente, no espírito.

A famosa cena Fontana di Trevi.

A famosa cena Fontana di Trevi.

Aliás, é nessa cena final, depois de uma noite de orgia com direito a striptease ao som de “Patricia”, que Marcello e seus companheiros de farra se dirigem ao mar e, nas areias da praia, se deparam com aquele peixe disforme que os fita com ar hostil. Para o resto do mundo nem tanto, mas para muitos espectadores italianos da época, esta cena era – se indiretamente o filme todo não já fora – uma remissão direta ao caso Wilma Montesi. Uma metáfora grotesca que fechava o filme com ar de indagação acusativa.

Com o passar do tempo, o intertexto Montesi foi ficando para trás no filme de Fellini… até quase que desaparecer. Hoje ninguém mais – se um dia dele teve notícia – o recorda. O filme foi, aliás merecidamente, ganhando estatuto de cult, e, por ironia, o lado atrativo, fascinante, da ´doce vida´ se sobrepujou ao seu caráter de crítica. E, inevitavelmente, o filme entrou no imaginário cinéfilo muito mais como um doce fornecedor de imagens amadas. Há muito tempo, o que vem à memória do espectador a propósito de “A doce vida”? Não são os seus eventuais pobres, mas os seus tantos ricos. Não é sem razão que a cena mais revisitada – aliás, uma das mais citadas na história do cinema – é a do banho de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni na Fontana di Trevi.

Marcello e

Marcello e “o anjo renascentista”

Sim, a idéia de que o filme de Fellini fazia uma crítica à alta burguesia italiana, de óbvia, foi se tornando secundária. De algum modo, afinal de contas, o filme era a definitiva despedida do diretor do espírito crítico do neo-realismo e, com ou sem enfoque social, era o seu início de mergulho na fantasia que viria em seguida.

Para dar um toque pessoal a este comentário, a reprise atual de “A doce vida”, no programa “Cinema de Arte” do Cinespaço, me remete a sua estreia em João Pessoa, início dos anos sessenta. Foi a minha introdução ao chamado cinema de arte europeu. Como todos em meu convívio doméstico, eu estava habituado ao modelo de cinema de Hollywood, e o filme de Fellini me deixou confuso. Aliás, quase o perdia: um irmão mais velho, que o vira a contragosto, deu o aviso para todos de casa: “uma merda”. Apesar do diagnóstico escatológico fui ver e, depois, vi todas as outras maravilhosas “merdas” de Fellini; não apenas de Fellini, mas de quase todo o brilhante cinema italiano dos anos sessenta.

Rever “A doce vida” agora, em tela grande, é, confesso, uma experiência saudosista; mais do que qualquer outra coisa, uma viagem no tempo.

Um tempo que só se repete em coisas tristes, já que ainda hoje, a gente sabe, outras Wilmas Montesi, na Itália e aqui, são vítimas de garotos da doce elite. Enfim.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Orson Welles centenário

15 maio

Data importante para o cinema: neste ano de 2015 comemora-se o centenário de nascimento de Orson Welles (1915-1985), um dos maiores gênios da sétima arte, talvez o maior.

O Wonder Boy teve uma carreira atípica. Começou do topo e de lá foi caindo, sem nunca praticamente soerguer-se. Começou com a obra prima “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”, 1941) e nunca mais fez nada tão grandioso, sequer parecido.

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A história de Orson Welles é bem conhecida e não vou detalhar. Em 1940, cheio da grana da RKO, o jovem dramaturgo e radialista (25 anos) chegou a Hollywood para fazer o filme que quisesse, com os recursos que quisesse, do jeito que quisesse… e fez. Teve opções (uma delas a filmagem de “No coração das trevas” de Conrad), mas, preferiu esse roteiro que, com um bocado de malícia, ficcionalizava a vida do magnata da imprensa americana William Randolph Hearst. O “rosebud” – a última palavra pronunciada pelo protagonista Charles Foster Kane – era só um pretexto para contar, toda em longos flashbacks, a estória de uma queda. E que queda.

Com a má “influência” de Hearst, o filme foi um fracasso de público, mas, em compensação, um sucesso de crítica. A Academia de Hollywood lhe deu apenas um Oscar de roteiro, mas isso não quis dizer nada, porque, “Cidadão Kane” logo se transformaria num cult. Infelizmente, também se transformaria numa maldição. Depois dele, Orson Welles nunca mais teve os privilégios que a RKO lhe dera de mão beijada, e nunca mais repetiu o milagre. Um pouco como a de Charles Foster Kane, sua queda foi definitiva.

O "rosebud" procurado...

O “rosebud” procurado…

Os primeiros sintomas vieram de imediato. O seu filme seguinte, “Soberba”, foi drasticamente cortado pelas tesouras de Hollywood, enquanto ele, meio perdido num país tropical, o Brasil, não sabia ao certo o que fazer com essa estória de jangadeiros cearenses que navegam até o Rio de Janeiro para falar com o presidente Getúlio Vargas (“It´s all true”, 1942). Farras no cassino da Urca e o afogamento do jangadeiro protagonista nas águas de Copacabana, afogaram o projeto que nunca foi completado…

Depois disso, triste ironia: enquanto um Welles sem prestígio peregrinava mundo afora tentando financiamentos para novos projetos, e, para se sustentar, trabalhando como ator em películas alheias, muitas das quais irrisórias, “Cidadão Kane” era considerado pelo consenso da crítica internacional “o filme mais perfeito já feito”.

Orson Welles é Kane

Orson Welles é Kane

A primeira votação da crítica foi em 1952. Com divulgação da revista Sight & Sound, gente de cinema de todo o mundo escolhia os melhores filmes de todos os tempos, e a lista, sempre de dez, tinha pertinência na ordem, ou seja, o primeiro citado era o melhor: sempre “Cidadão Kane”. Essa colocação se repetiria por meio século, de dez em dez anos, até 2012, quando o hitchcockiano “Um corpo que cai” (1958) tomou o seu lugar.

Claro que essa eventual descida para o segundo lugar, na lista da crítica internacional, não mudou nada no conceito mundial do filme.

Segundo o cineasta e cinéfilo François Truffaut, “Cidadão Kane” é o filme mais influente na história da sétima arte, em outras palavras, aquele que mais estimulou neófitos a partirem para fazer cinema.

Orson Welles e Joseph Cotten em momento dramático.

Orson Welles e Joseph Cotten em momento dramático.

E, afinal de contas, o dado mais importante, confirmado pelas estatísticas: trata-se da obra fílmica com a maior fortuna crítica do planeta, o que, em miúdos, significa dizer que é o filme mais estudado por scholars, historiadores, críticos e pensadores do cinema em geral – enfim, aquele sobre o qual mais se escreveu.

Querem mais? Mais que isso não há.

Mas, para não dizer que só falei de “Cidadão Kane”, acrescento uma seleção de dez títulos da breve filmografia de Orson Welles. Se porventura você não os conhece, eis um bom exemplo de como um gênio trabalha em condições adversas.

 

Soberba (The magnificent Ambersons, 1942)

Jornada do pavor (Journey into fear, 1943)

O estranho (The stranger, 1946)

A dama de Shangai (The lady from Shangai, 1947)

Macbeth, reinado de sangue (Macbeth, 1948)

Otelo (Othello, 1952)

Grilhões do passado (Mr Arkadin, 1955)

A marca da maldade (Touch of evil, 1959)

O processo (Le procès, 1962)

Verdades e mentiras (F for fake, 1973)

 

Fotograma famoso de "Cidadão Kane".

Fotograma famoso de “Cidadão Kane”.

Tarja branca

24 jul

Que brincar é essencial à vida das crianças todo mundo sabe. Que também o seja à vida dos adultos, poucos sabem… ou acreditam. É do que trata o documentário brasileiro “Tarja branca – a revolução que faltava” (Cacau Rhoden, 2014), em cartaz na cidade.

É claro que o título é uma ironia com os remédios chamados de ´tarja preta´. E, neste sentido, tarja branca seria a brincadeira que nos livra das doenças. Das doenças que nos levam às tarjas pretas.

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Recolhendo depoimentos de pessoas que trabalham, ou trabalharam, em atividades as mais diversas – algumas famosas, outras, nem tanto – o autor do filme montou um painel de opiniões sobre a pulsão lúdica na natureza humana. Ficasse nisso e “Tarja branca” seria um filme convencional, manjado, talvez chato. Para fugir à convenção dos documentários tradicionais, o seu autor inventou uma fórmula própria de abordar os seus depoentes, que pode ser resumida na tríade: verbo, conceito, imagem.

Assim, tem-se primeiramente a recordação, em palavras, das brincadeiras infantis dos entrevistados; depois disso vem a discussão de questões conceituais sobre o gesto de brincar, seu significado e seu papel na vida infantil e adulta; e, por fim, em terceiro lugar, o retorno à infância dos entrevistados, agora de forma visual, através da remissão a fotos desses entrevistados quando eram crianças, sem dispensar suas respectivas interpretações dessas fotos.

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cada depoente, cada um em três turnos, recobre as três etapas citadas, o que concede ao filme uma estrutura narrativa extremamente simétrica e – no bom sentido da palavra – fechada, mais fechada ainda, na medida em que as conceituações, sem exceção, convergem ideologicamente para uma mensagem inequívoca: brincar é essencial a todos, e, consequentemente, não brincar é nocivo à saúde mental e física… do indivíduo e da sociedade.

É verdade que às vezes a segunda etapa, a da conceituação, é expressa através de confissões biográficas, como a daquele senhor, ao dizer que, trabalhando em uma agência bancária, passou vinte e cinco anos carimbando mecanicamente cheques devolvidos, até descobrir que podia simplesmente abandonar o Banco… e partir para uma ocupação bem mais criativa. Ou pode ser expressa de modo metafórico, como foi o caso daquela senhora que, observando garotos empinando pipas e premiando as mais elevadas, aprendeu que brincar na vida era “usar a corda toda”.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

É verdade também que, em dado momento do filme, os esforços de conceituar conduziram – não sei se casualmente ou de propósito – a uma ideia mais genérica e menos pessoal, segundo a qual o Brasil seria um país ´brincalhão´ e que esse aspecto do nosso perfil antropológico deveria ser considerado, respeitado e preservado. Imagens de nossos folguedos são usadas como ilustração.

Outro dado que não escapou às discussões teóricas foi que, em alguns casos, certas profissões permitem o usufruto da brincadeira, e não apenas as profissões artísticas, mas também outras mais científicas, como – uma depoente a cita – a engenharia.

Os entraves à ludicidade na vida adulta, segundo a opinião de alguns dos depoentes, não ficam por conta apenas da descrença dos adultos, da desistência de permanecerem crianças, mas também, do sistema que organiza a sociedade moderna. O capitalismo, onde “negócio” é a negação do “ócio”, seria, nessa perspectiva, o grande vilão…

José Simão: um dos depoentes.

José Simão: um dos depoentes.

Engraçado, vendo “Tarja branca” me lembrei de um filme muito sério que conta a estória de um homem rico e poderoso que, ao morrer, pronuncia uma palavra misteriosa.

A palavra é ´rosebud´ e os outros personagens do filme gastam a projeção inteira tentando descobrir o que ela significava, e ninguém descobre. Nós, espectadores, por sorte, bem no finalzinho do filme, descobrimos: era o nome de um trenó com que Charles Foster Kane, em criança, brincava (grifo meu), antes de conquistar a sua riqueza e o seu poder. Ou seja, a mensagem inteira de “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) parece ser esta: não há, em toda a existência humana, nada mais importante que a infância e sua natureza lúdica.

Por tabela, isso também me fez lembrar da chegada do próprio Orson Welles a Hollywood, com vinte e quatro anos de idade, na iminência de rodar o seu primeiro filme. Eis o que, na ocasião, disse ele do cinema: “é o melhor brinquedo (grifo meu, de novo) que a humanidade já inventou!”.

Pois é, mesmo sem nada ter a ver com “Cidadão Kane” ou Orson Welles, ocorre-me que o filme do jovem diretor Cacau Rhoden também é, e foi confeccionado para ser, um brinquedo. E como todo brinquedo, de grande utilidade.

País brincalhão: folguedos brasileiros

País brincalhão: folguedos brasileiros

 

 

 

 

Limite

11 jul

Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos, o mais perfeito já feito, a nossa obra prima cinematográfica insuperável?

Os americanos têm lá o seu “Cidadão Kane”, e nós?

Se, para eleger tal filme, uma enquete fosse feita com os espectadores, não tenho a menor ideia do resultado a que chegaríamos, porém, se os votantes forem críticos, historiados e cineastas, o palpite é fácil: o nosso “Kane” iria ser “Limite”, o longa mudo que Mário Peixoto (1908-1992) lançou em 1931.

Lançou é exagero. Houve uma estreia no Cine Capitólio, na Cinelândia, Rio de Janeiro, e pronto: ninguém mais viu o filme, que continuaria desconhecido para sempre, não fossem as facilidades eletrônicas de hoje em dia.

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Restaurado por uma equipe de pesquisadores nos anos setenta, “Limite” foi, mais tarde, lançado em VHS e cheguei a comprar uma cópia, que, lamentavelmente, o fungo, inimigo da cinefilia, destruiu. Por sorte, ao montar o vídeo “Imagens amadas”, com 100 cenas de filmes, para celebrar o centenário da Sétima Arte em 1995, incluí uma cena de “Limite”. Como, mais tarde, o vídeo foi transposto para DVD, a cena está salva.

Mas, de que trata a nossa suposta obra prima?

Resumir seu enredo é tarefa a que não me arrisco, até porque não parece existir, em “Limite”, uma estória com começo, meio e fim. Há, no melhor das hipóteses, uma extensiva situação dramática: num barco à deriva, em extremo desolamento, um homem e duas mulheres, sem aparente relação entre si, relembram momentos passados de suas vidas. Quase tudo se resume a um conjunto de imagens que mostram essas pessoas desoladas, sem rumo num mar misterioso, por fim parando de remar e aceitando um fim comum. E isso, durante quase duas horas de silêncio. A fotografia preto e branco de Edgar Brasil é bela, mas, para o espectador acostumado com o cinema narrativo, a suprema e difícil abstração plástica e filosófica de “Limite” – convenhamos – pode se tornar pouco digerível.

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Contam que, ao escrever o criativo e inovador roteiro, Peixoto teria procurado gente do mundo cinematográfico para dirigir o filme, e todos (entre eles, Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga) lhe disseram que um roteiro com aquele nível de invenção, só poderia ser rodado pelo próprio autor. E foi o que ele fez: com apoio financeiro da família, juntou uma pequena equipe, e se mandou para os lados de Mangaratiba, praia fluminense que lhe serviu de cenário.

Recém chegado da Europa, onde passara praticamente toda a sua juventude, o inquieto Mário havia bebido nas fontes vanguardistas que eclodiam naquele tempo no velho mundo, e o roteiro de “Limite” brotou de sua imaginação com a força de uma brain storm. É ele mesmo quem explica a temática do filme, alegando que o realizou para provar que o tempo não existe. Aliás, é o que afirma literalmente a epígrafe: “Em nenhum lugar existe tempo algum”.

Mário Peixoto fez “Limite” em 1931, e nunca mais fez mais nada em cinema. Não que não tenha tentado.

Quem conta toda a frustrada trajetória do cineasta carioca, é Sérgio Machado no seu filme de 2001, “Onde a terra acaba”.

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Esse título, “Onde a terra acaba”, foi, na verdade o nome do filme que Peixoto tentou rodar depois de “Limite”. A atriz principal e produtora era a então famosa Carmem Santos, cujo estrelismo serviu primeiramente de estímulo à produção, e em seguida, de empecilho. É que, no meio das filmagens, a atriz, afundada em problemas pessoais, afastou-se e sua ausência terminou por instaurar o desânimo, de forma que o filme nunca foi concluído, dele restando hoje breves tomadas.

O filme de Sérgio Machado relata as outras poucas e frágeis tentativas cinematográficas de Peixoto, seu isolamento no “Sítio do Morcego”, a partir de 1966, e suas igualmente frustrantes experiências com outras artes, entre as quais a literatura. O seu romance “O inútil de cada um”, por exemplo, só veio a ser publicado em 1984, e apenas o volume I.

Pelo menos três cineastas – Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Walter Salles – depõem sobre Mário Peixoto no filme de Machado, todos ressaltando sua importância para a história do cinema brasileiro, mas, quem sugere uma boa pista para o sentido de “Limite” é Diegues, ao formular a suposição de que “aquele era o rumo que o cinema teria tomado, não fosse o advento do som”.

Voltando à questão do melhor filme brasileiro de todos os tempos, faltou dizer que, na verdade, “Limite” já foi agraciado com este prêmio duas vezes: em 1988, concedido pela Cinemateca Brasileira, e em 1995 – ano do centenário do cinema – concedido a partir de um inquérito nacional do jornal Folha de São Paulo.

Em tempo: este post é oferecido a Glória Gama.

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Benditos defeitos (1)

16 dez

No cinema americano, se o protagonista faz uma ligação telefônica, a pessoa do outro lado da linha geralmente atende imediatamente, como se estivesse ao pé do aparelho, esperando que tocasse. Se esse protagonista necessita encontrar um certo objeto (uma caderneta escolar do tempo em que era estudante secundário, por exemplo) esse objeto é achado, dentro de casa, com incrível facilidade. E se, na rua, precisa de um meio de transporte, os táxis estão sempre disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite – é só estender a mão e gritar “táxi!”?

Quem é que, na internet ou alhures, já não se deparou com pelo menos uma daquelas “Listas de defeitos dos filmes americanos”, defeitos estes que parecem agredir a lógica e a inteligência do espectador?

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Espectadores assíduos e bons observadores, os autores dessas listas têm alguma razão em reclamar desses defeitos, porém, sinto muito em dizer, não têm razão completa. A rigor, se refletissem mais, ficariam gratos por esses defeitos existirem.

É verdade que, na vida real, normalmente, as pessoas não atendem seus telefones com tal presteza, ou sequer estão em casa quando eles tocam; é verdade que a gente não encontra o que procura dentro de casa com tanta facilidade, principalmente se se trata de um objeto antigo; é verdade que táxis não estão sempre disponíveis em todos os setores da cidade…

São situações improváveis que os filmes americanos assumiram como lances de roteiro que agilizam a narrativa e fazem o filme andar, e que o espectador comum engole sem prestar atenção ao seu grau de inverossimilhança.

A primeira coisa a ser dita, contudo, sobre a questão toda, e em favor desses “defeitos”, é que cinema e realidade são duas coisas completamente diferentes.

A narrativa cinematográfica – qualquer roteirista profissional sabe disso – trabalha por elipses, e o faz por uma razão simples: precisa contar uma estória em cerca de duas horas. Detalhes que não tenham uma significação especial em relação à temática do filme precisam ser pulados, descartados, subtraídos.

Para ficar nos três exemplos citados, se o roteiro fosse manter na tela o provável tempo real de cada uma dessas ocorrências, o filme se estenderia indefinidamente, se tornaria insuportável e o espectador seria o primeiro a reclamar.

Táxis sempre disponíveis.

Táxis sempre disponíveis.

Vamos supor que os nossos exemplos fizessem parte de um mesmo filme. Vamos supor que o nosso personagem – como é comum na vida real – tivesse que esperar em torno de meia hora para falar com seu interlocutor no telefone; mais meia hora para encontrar a caderneta escolar; mais meia hora para conseguir o táxi. Somando tudo, uma hora e meia teria que ser adicionada à duração normal da estória, e o filme inteiro, de – digamos – duas horas de projeção, pularia para três horas e meia.

O espectador desse filme iria morrer de impaciência e tédio, mas, isto não seria o pior. O pior é que todo esse período de espera (a ligação se completar, a caderneta ser achada, o taxi aparecer) funcionaria como “tempo morto”, ou seja, não teria nenhuma função semiótica dentro do filme – seria realismo puro, oco de sentido como todo realismo puro. Quem, na vida real, já passou três horas numa sala de consultório médico esperando para ser atendido, sabe a que me refiro com “realismo oco de sentido”.

Para fazer comparações com outras linguagens, em literatura a verossimilhança é fácil de ser obtida e não incomoda. Basta o autor de um romance escrever que “o personagem esperou ´por horas´ até a ligação telefônica se completar”, e tudo está resolvido. O leitor lê rápido a frase e não há desperdício de tempo. Em cinema, esse ´por horas´ custaria muitos metros de fita, para não dizer que custaria uma nota, além, como já posto, de torrar inutilmente a paciência do espectador.

Aqui cabe um parêntese: no cinema, uma certa demora na conclusão das três situações citadas será viável se o gênero do filme for Suspense, porém, mesmo assim, com certeza, o tempo de espera, num thriller, é geralmente bem menor do que o suposto tempo real, embora, justamente por causa do suspense, pareça enorme. A esse propósito, confiram qualquer Hitchcock.

Citamos apenas três exemplos, mas claro, os filmes estão repletos de situações semelhantes e, enfim, fosse o cinema mostrar o tempo real desses eventos diários, e de tantos outros que costumam fazer parte das estórias contadas na tela, um filme, qualquer que fosse o seu gênero, teria que durar, não horas, mas dias.

Conclusão: dispostos com tanta malícia nas listas referidas, esses “defeitos”, não deveriam ser amaldiçoados, e sim, abençoados.

Foi a sua inevitável repetição ao longo do tempo o que fez com que essas elipses temporais entrassem, indiscriminadamente, no rol dos chichês. Porém, ao contrário dos clichês propriamente ditos, elas são premências narrativas que, se fôssemos lhes atribuir um nome mais justo, poderiam muito bem ser chamadas de “licenças poéticas”. Sim, licenças poéticas, no sentido em que se quebram regras (aqui as da verossimilhança), com o objetivo estético de tornar a obra mais compacta e digerível. Uma forma mais sofisticada de denominar essas elipses seria enquadrando-as no conceito – já popular entre teóricos da linguagem narrativa – de “verossimilhança interna”.

Prosseguirei com o assunto num próximo post.

Como achar um objeto perdido dentro de casa...

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