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1917

30 jan

Concorrendo em dez categorias diferentes do Oscar, o filme “1917” (2019), de Sam Mendes, está em cartaz, conquistando espectadores no mundo todo. Que um “um filme de guerra” tenha uma recepção tão franca e ampla pode parecer estranho.

Ocorre que “1917” só é um “filme de guerra” até certo ponto. Na verdade, consiste, sim, num libelo contra o absurdo da guerra, de qualquer guerra, mas é um libelo pessoal, quase lírico.

Embora se enfatizem os intermináveis corredores das trincheiras, as cenas de batalha, com enfrentamento dos exércitos inimigos são mínimas. A rigor, é uma história individual com muito sentimento envolvido.

O enredo não poderia ser mais simples. Os cabos Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay) recebem a missão de ir a um assentamento distante, onde 1600 soldados ingleses estão, sem saber, na condição de vítimas de uma armadilha do inimigo alemão. O problema mais grave é que para chegar lá com a mensagem salvadora precisam cruzar, sozinhos e sem qualquer cobertura, toda uma longa área pertencente ao inimigo. E o filme inteiro é a descrição/narração desse perigoso e doloroso percurso.

Pensando bem, “1917” é pessoal em dois níveis. Numa instância porque é a visão de um cineasta sobre a guerra, como já disse, qualquer guerra. Noutra, porque seus personagens são – não um batalhão, como ocorreria num épico – mas apenas dois, para ser mais exato, no final das contas, apenas um.

Sim, há mesmo, digamos assim, um ludíbrio actancial na estrutura narrativa, que consiste numa troca de protagonistas. Lembrem que até a metade do filme o espectador tem certeza que o protagonista é o cabo Blake, o mais empenhado em chegar ao assentamento indicado, entre outras razões, porque lá está o seu irmão. Schofield, ao contrário, não apenas não tem parentes a salvar, como não acredita na missão.

Aos 58 minutos de projeção, com o espectador completamente envolvido com o Cabo Blake, o que ocorre? Um soldado alemão o esfaqueia e, para espanto e dor da plateia, … o mata. A partir deste ponto narrativo, o protagonista passa a ser o amigo Schofield que, este sim, chegará ao final da linha e, com o empenho e o heroísmo que antes não demonstrava, salvará o irmão de Blake e o batalhão inteiro.

Conversando com espectadores, um me disse que gostou muito, entre outras razões “porque parece que a gente está dentro do filme”.

Esse efeito de envolvimento decorre de um certo procedimento narrativo, bastante ousado para um filme de longa metragem, com ambientação em campos de batalhas. O procedimento é o chamado pelos técnicos de “plano-sequência”, aquele em que a ação prossegue do começo ao fim, sem cortes. Esse procedimento é o mais diegético de todos os procedimentos narrativos, e, de fato, o que mais envolve o espectador na história narrada.

Mas “1917” é mesmo um filme rodado inteiramente em plano-sequência? Claro que não. Não, mas foi rodado para parecer que sim. Há nele, vários planos sequência combinados, e um espectador mais atento divisa claramente os muitos cortes que separam as ambientações e as ações. De qualquer forma, a “impressão de filme-sequência” predomina e é muito bem sucedida em nos colocar “dentro do filme”, como disse o meu ingênuo espectador na saída do cinema.

Falei acima em filme pessoal. Este aspecto se torna ostensivo naquela fantasmagórica cena intermediária, cujo núcleo narrativo é o encontro de Schofield com a mulher francesa e a criança de colo – toda encenada com escuridão, luminosidade instantânea, sombras, sons estranhos, música extradiegética, enquadramentos inusitados, ritmo acelerado, cada elemento destes casado com o seu oposto… Em toda a sequência, o realismo cede lugar ao delírio e o efeito é surreal, em parte para endossar a tese de que a guerra, toda guerra, é pesadelo e insanidade.

Inevitavelmente, “1917” nos remete a outros filmes sobre a guerra e seus efeitos deletérios. Um com quem possui visíveis pontos em comum é “Glória feita de sangue” de Stanley Kubrick (1957), mas também lembra o remoto “Sem novidade no fronte” de Lewis Milestone (1930), ambos retratando a Primeira Guerra Mundial. Pelo lado pessoal (nos dois sentidos acima referidos) também me fez lembrar o belo e inesquecível “A balada do soldado” (Grigoriy Chukhai, 1959).