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Tarja branca

24 jul

Que brincar é essencial à vida das crianças todo mundo sabe. Que também o seja à vida dos adultos, poucos sabem… ou acreditam. É do que trata o documentário brasileiro “Tarja branca – a revolução que faltava” (Cacau Rhoden, 2014), em cartaz na cidade.

É claro que o título é uma ironia com os remédios chamados de ´tarja preta´. E, neste sentido, tarja branca seria a brincadeira que nos livra das doenças. Das doenças que nos levam às tarjas pretas.

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Recolhendo depoimentos de pessoas que trabalham, ou trabalharam, em atividades as mais diversas – algumas famosas, outras, nem tanto – o autor do filme montou um painel de opiniões sobre a pulsão lúdica na natureza humana. Ficasse nisso e “Tarja branca” seria um filme convencional, manjado, talvez chato. Para fugir à convenção dos documentários tradicionais, o seu autor inventou uma fórmula própria de abordar os seus depoentes, que pode ser resumida na tríade: verbo, conceito, imagem.

Assim, tem-se primeiramente a recordação, em palavras, das brincadeiras infantis dos entrevistados; depois disso vem a discussão de questões conceituais sobre o gesto de brincar, seu significado e seu papel na vida infantil e adulta; e, por fim, em terceiro lugar, o retorno à infância dos entrevistados, agora de forma visual, através da remissão a fotos desses entrevistados quando eram crianças, sem dispensar suas respectivas interpretações dessas fotos.

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cada depoente, cada um em três turnos, recobre as três etapas citadas, o que concede ao filme uma estrutura narrativa extremamente simétrica e – no bom sentido da palavra – fechada, mais fechada ainda, na medida em que as conceituações, sem exceção, convergem ideologicamente para uma mensagem inequívoca: brincar é essencial a todos, e, consequentemente, não brincar é nocivo à saúde mental e física… do indivíduo e da sociedade.

É verdade que às vezes a segunda etapa, a da conceituação, é expressa através de confissões biográficas, como a daquele senhor, ao dizer que, trabalhando em uma agência bancária, passou vinte e cinco anos carimbando mecanicamente cheques devolvidos, até descobrir que podia simplesmente abandonar o Banco… e partir para uma ocupação bem mais criativa. Ou pode ser expressa de modo metafórico, como foi o caso daquela senhora que, observando garotos empinando pipas e premiando as mais elevadas, aprendeu que brincar na vida era “usar a corda toda”.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

É verdade também que, em dado momento do filme, os esforços de conceituar conduziram – não sei se casualmente ou de propósito – a uma ideia mais genérica e menos pessoal, segundo a qual o Brasil seria um país ´brincalhão´ e que esse aspecto do nosso perfil antropológico deveria ser considerado, respeitado e preservado. Imagens de nossos folguedos são usadas como ilustração.

Outro dado que não escapou às discussões teóricas foi que, em alguns casos, certas profissões permitem o usufruto da brincadeira, e não apenas as profissões artísticas, mas também outras mais científicas, como – uma depoente a cita – a engenharia.

Os entraves à ludicidade na vida adulta, segundo a opinião de alguns dos depoentes, não ficam por conta apenas da descrença dos adultos, da desistência de permanecerem crianças, mas também, do sistema que organiza a sociedade moderna. O capitalismo, onde “negócio” é a negação do “ócio”, seria, nessa perspectiva, o grande vilão…

José Simão: um dos depoentes.

José Simão: um dos depoentes.

Engraçado, vendo “Tarja branca” me lembrei de um filme muito sério que conta a estória de um homem rico e poderoso que, ao morrer, pronuncia uma palavra misteriosa.

A palavra é ´rosebud´ e os outros personagens do filme gastam a projeção inteira tentando descobrir o que ela significava, e ninguém descobre. Nós, espectadores, por sorte, bem no finalzinho do filme, descobrimos: era o nome de um trenó com que Charles Foster Kane, em criança, brincava (grifo meu), antes de conquistar a sua riqueza e o seu poder. Ou seja, a mensagem inteira de “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) parece ser esta: não há, em toda a existência humana, nada mais importante que a infância e sua natureza lúdica.

Por tabela, isso também me fez lembrar da chegada do próprio Orson Welles a Hollywood, com vinte e quatro anos de idade, na iminência de rodar o seu primeiro filme. Eis o que, na ocasião, disse ele do cinema: “é o melhor brinquedo (grifo meu, de novo) que a humanidade já inventou!”.

Pois é, mesmo sem nada ter a ver com “Cidadão Kane” ou Orson Welles, ocorre-me que o filme do jovem diretor Cacau Rhoden também é, e foi confeccionado para ser, um brinquedo. E como todo brinquedo, de grande utilidade.

País brincalhão: folguedos brasileiros

País brincalhão: folguedos brasileiros

 

 

 

 

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Intocáveis

27 ago

Uma comédia sobre um rapaz negro que se faz de enfermeiro para cuidar de um paraplégico branco? Não se trata do filme de Billy Wilder, de 1963, “The fortune cookie” (“Uma loura por um milhão”)?

Não. Trata-se agora de “Intocáveis” (“Intouchables”, 2011), filme da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, exibido entre nós no Festival Varilux do Cinema Francês, e tão procurado que entrou na programação comercial normal.

Vivendo na periferia de Paris, filho adotivo de uma família pobre, o jovem afro-descendente Driss vira, meio por acaso, acompanhante desse senhor rico, Philippe, que, em sua luxuosa mansão, vive entre cadeiras de rodas e camas, e cujo corpo só tem sensibilidade do pescoço para cima. Ganhando o emprego para candidatos competentes, ele mesmo inapto e truculento, Driss aproveita a oportunidade rara para usufruir de um luxo que nunca conhecera.

Entre muitos atropelos e alguns acertos, a dupla vai se afinando e, para surpresa de parentes e aderentes, tudo termina dando certo, embora de um modo nada fácil e nada convencional.

Para o espectador, talvez a pergunta venha a ser: por que esse tipo desajeitado, pouco sutil e comprovadamente incompetente foi o escolhido para o serviço? O filme quer nos fazer crer que, entediado com tratamentos clínicos, o paciente Philippe, conscientemente ou não, desejava uma companhia que lhe cheirasse à vida, e não a medicamentos, e, no seu contexto, ninguém cheirava mais à vida que esse jovem negro, lascivo, extrovertido e meio selvagem.

Embora baseado em caso real, “Intocáveis” parece ser um filme para muitas leituras. Numa instância mais óbvia, narra a estória do desabrochar de uma amizade improvável entre dois homens completamente diferentes: um negro, pobre, inculto, ingênuo e saudável; o outro, branco, rico, erudito, maduro e doente. Creio que do contraste entre cada par de adjetivos listados pode-se deduzir uma interpretação para o filme.

Fiquemos com um deles, aquele entre culto e inculto. Nesta perspectiva, Philippe poderia talvez ser entendido, de alguma maneira abstrata, como uma representação da França atual (e por extensão da Europa), empanturrada de cultura e arte, mas um tanto e quanto paralisada pelo peso mesmo dessa bagagem secular. Ao passo que, simetricamente, Driss simbolizaria o frescor do primitivo que vem de uma África inculta e cheia de vida. Se a isotopia escolhida for esta, é claro que os outros contrastes (saudável vs doente, por exemplo) se incorporam à leitura e a enriquecem.

Um contraste adicional está, naturalmente, no próprio gênero do filme, situado entre comédia e drama, terreno perigoso em que a direção transita com impressionante aisance.

Aqui lembro alguns exemplos de comicidade ao meio do drama, no caso, relativos ao meu par de adjetivos escolhido e à temática etno-cultural que ele implica. No teatro, assistindo a uma ópera moderna, Driss não consegue conter o riso diante de um ator vestido do que lhe lembra uma macieira, e sua interpretação da cena desmonta a autenticidade da peça, do mesmo jeito que aquela criança, na famosa lenda, desmontou a falsidade do rei nu. O mesmo se diga de sua leitura daquele quadro de pintura abstrata em que uma mancha de vermelho sobre um fundo branco parece só um gesto escatológico e nada mais. Idem para a sua sugestão do alegre ritmo dançante, no lugar da triste e pesada música clássica a que estava habituado o seu erudito paciente.

É claro que a mensagem do filme não pode ser reduzida a um descarte da cultura clássica em favor do absolutamente naif, porém, é esse viés – e o que ele trás consigo de vitalidade – que conquista o erudito Philippe e o faz aceitar de bom grado (para usar uma palavra da moda) a alteridade. E não esqueçamos que o processo é recíproco: mais tarde vamos ver o próprio Driss pintando e, no final, reconhecendo, na ante-sala de uma empresa, obras de pintores famosos.

Se, no início, “intocáveis” (vários sentidos) um para o outro, os dois personagens vão se tocando, até o nível das transformações interiores…

E vejam que a influência de Driss vai bem mais além, já que esse “Nature Boy” de carne e osso termina por desempenhar o papel de cupido, ao literalmente forçar o seu paciente a ligar para uma pretendente anônima que – sabe-se depois – virá a ser a namorada de um paraplégico que se dava por terminal. Que importa se a única zona erógena de Philippe são as orelhas?

No filme de Billy Wilder com que abro esta matéria a paraplegia do protagonista é só uma farsa para extorquir a companhia de seguros. Em “Intocáveis” não há lugar para falsidades e até o ovo de pedra preciosa um dia furtado por Driss será devolvido, num gesto de amizade verdadeira em que não entra o conceito de piedade, e muito menos o de afinidades obrigatórias, a não ser que a afinidade seja o desejo de viver.