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Sobre meninos e medos

21 ago

Que bons que eram os anos cinqüenta! Tudo bem, eu sei, tinha ocorrido, havia pouco tempo, o nazismo, o holocausto, a bomba atômica, e estávamos em plena guerra fria, mas, para um garoto brasileiro de dez anos de idade, isso era só notícia de jornal. Não dava medo.

 Ameaças temíveis mesmo só nas telas dos cinemas. Uma que tirou o sono da meninada foi “A guerra dos mundos” (“The war of the worlds”, Byron Haskin, 1953). Quanto pesadelo!

Vocês lembram, não é? Nos arredores de uma cidadezinha americana, que, em nossa imaginação infantil, bem poderia ser Piancó ou Guarabina, cai um meteoro fumegante e, para o pavor de todos, logo se descobre que se tratava de uma nave espacial vinda de Marte, com o propósito de dizimar os humanos e apossar-se do planeta. As nossas armas não surtem efeito contra os invasores e até a bomba atômica se revela ineficaz. O que fazer?

Imagino que, para a meninada da época, o momento mais apavorante deve ter sido aquele em que o padre da localidade, rezando e de crucifixo na mão, convicto de que a fé removeria alienígenas, dirige-se em pessoa ao disco voador e é sumariamente fulminado pelos raios radioativos dos inimigos. Esse é o clímax do enredo, para não deixar dúvidas a ninguém quanto às intenções malignas e ao poder insuplantável dos invasores.

Para aliviar a tensão – ou seria para aumentá-la? – há um subplot amoroso entre uma mocinha do lugar (Ann Robinson) e o jovem cientista (Gene Barry) que comparece ao local para enfrentar o problema. Ao casal, dedicam-se várias cenas interiores em que os assédios dos extraterrestres são quase sempre metonímicos – focos de luz e sons – e nem por isso menos horripilantes.

O providencial happy end vem na forma de nossas bactérias – inofensivas a nós, mas letais para os extraterrestres, que desfalecem ao pisar o nosso solo e respirar o nosso ar.

Revi o filme agora e dou razão a quem o considera um dos melhores do gênero science-fiction. Para os parâmetros atuais parece infantil e tolo, mas imagino que os “meninos antigos” de 1953 – entre os quais me incluo – discordariam.

O enredo é magro e as interpretações são, de fato, pobres (alguns atores parecem figuras de cartolina, é verdade), mas, em compensação, a plástica!

Por acaso ou não, juntaram-se, na produção, talentos raros: a direção de arte do grande Hal Pereira, a fotografia de George Barnes, e os efeitos especiais de toda uma equipe de técnicos que, aliás, levaram o Oscar do ano, tudo isso somado ao intenso technicolor da Paramount! Sem coincidência, o diretor Byron Haskin tinha um passado, não de cineasta, mas de iluminador, daí possivelmente o investimento na plástica, em detrimento, por exemplo, da direção de atores.

Baseada livremente no livro de H. G. Wells, a estória é parcialmente narrada em voz over, o que dá ao filme um tom documental, como se estivéssemos assistindo a uma reportagem. São três longas sequências “noticiosas” que se intercalam à diegese, na abertura, no meio, e no final do filme.

O que hoje me leva a indagar se porventura os roteiristas não quiseram pegar carona numa certa famosa transmissão radiofônica de quinze anos atrás: recontando o conteúdo do livro de H. G. Wells como se verídico e atual, o jovem radialista e homem de teatro Orson Welles provocara, na Nova Iorque de 1938, uma calamidade escandalosa que rendeu a CBS processos e mais processos, e que, por outro lado, catapultou o jovem locutor a Hollywood.

De uns tempos para cá, todo filme de ficção científica dos anos cinqüenta é, invariavelmente, lido pela crítica e historiografia como um comentário sobre a Guerra Fria. Nesse sentido, os extraterrestres seriam uma representação americana do comunismo, e as providenciais bactérias terrestres que os eliminam, uma espécie simbólica de anticorpus ideológico, do tipo, fé na democracia, ou coisa do gênero.

Isso pode ter feito sentido na época, porém, neste milênio em que nos encontramos, prefiro me dar ao luxo de ler “A guerra dos mundos” só como cinema. Menos objetivo, o medo que ele tematiza é um pouco mais interno e habita os desvãos mais obscuros do espírito humano – o medo do desconhecido que qualquer criatura, em qualquer circunstância de perigo, experimenta. Aquele mesmo que tirou o sono dos ingênuos meninos de 1953…

Soube que o casal de protagonistas, Gene Barry e Ann Robinson, já idosos, fizeram uma ponta no recente “Guerra dos mundos” de Steven Spielberg (2004), ao qual me reservei o direito de não assistir.

Talento visível

24 abr

Cinematográfico ou literário, todo gênero tem seus altos e baixos. O Horror Picture, por exemplo, que hoje parece em alta, mas amanhã pode baixar, teve um pique bem lá para trás, nos tempos mudos do Expressionismo alemão.

Em Hollywood, pode se dizer que esse pique se deu nos anos trinta, e um mestre incontestável da época foi o cineasta anglo-americano James Whale (1889-1957) que perpetrou alguns dos melhores filmes do gênero, como os clássicos “Frankenstein” (1931), “A casa sinistra” (1932) e “A noiva de Frankenstein” (1935).

Mas aqui quero tratar de um filme seu que me parece especial. Refiro-me a “O homem invisível” (“The invisible man”) que Whale, baseando-se livremente no livro de H. G. Wells, rodou em 33, pelo meu gosto, o melhor de sua carreira “horrorista”.

Não que seja um filme amedrontador. Afinal de contas, o seu enredo não envolve nada de sobrenatural propriamente dito.

É só que um cientista, o Dr Jack Griffin (papel de Claude Rains) descobre a fórmula química para uma criatura ficar invisível e a aplica a si mesmo. O resultado é um sucesso, com apenas um problema: o agora invisível Dr Griffin não consegue chegar a uma segunda e importante fórmula: a que reverta o processo e o torne visível de novo.

 Essa impossibilidade de voltar ao que era faz com que Griffin fuja dos seus, e, de óculos escuros, o rosto todo envolto em ataduras, o corpo todo agasalhado, se esconda numa pensão provinciana. Nem precisa dizer que os proprietários da pensão e seus freqüentadores desconfiam desse vulto misterioso que exige ficar sozinho em seu aposento.

Como previsto, Griffin se desentende com os proprietários, age violentamente e quando a polícia aparece, ele se vinga retirando, diante de todos, os óculos e as ataduras para mostrar (mostrar?)… uma cabeça – para os apavorados presentes – inexistente, gesto mais apavorante ainda porque acompanhado de uma horripilante gargalhada.

Frustrado pelo fracasso e irritado com a incompreensão alheia, a partir daí, digo, a partir dessa gargalhada, Griffin vai deixar de ser o sério, responsável e compenetrado cientista que sempre foi, para ser um ente mau, provocador de distúrbios e gerador dos mais traiçoeiros males. Completamente despido, e, portanto, invisível para todos – inclusive para nós, espectadores – escapa facilmente dos pensionistas e da polícia, e passa a atacar as pessoas na cidade, sobretudo as que tentam capturá-lo.

Como mostrar a invisibilidade na tela? Eis um paradoxo técnico que o filme enfrenta, e muito bem. Até hoje as trucagens são insuperáveis, levando a dois efeitos opostos, às vezes deliciosamente simultâneos: o terror e a comicidade.

Neste sentido não pode deixar de ser comentada a atuação de Claude Rains, quase sempre envolto em ataduras e só visível na cena final quando o seu personagem, afinal morto, reganha a visibilidade perdida.

Como muitos do gênero science-fiction, o filme parece conter aquela velha lição retrógrada de que brincar com o fogo da ciência é perigoso, porém, é tão bem construído que, no final, ninguém se lembra de lição nenhuma: fica apenas a vontade de ver de novo.

Dizem que o cineasta James Whale envelheceu renegando o seu passado “horrorista”, pelo qual, ironicamente todos queriam lembrá-lo. Nos anos quarenta tomou um rumo temático diferente e, aliás, parou de filmar em 1949, para dedicar-se exclusivamente à pintura.

Algo que Whale nunca renegou foi sua condição de homossexual. Numa época em que homossexualidade era civicamente inviável, viveu, sem quaisquer subterfúgios, de1930 a1952, com o seu assumido companheiro David Lewis. Sim, à boca miúda, era chamado de “a rainha de Hollywood”, mas, segundo consta, sem ser por isso rechaçado.

Whale morreu tragicamente, afogado na piscina de sua mansão de Santa Mônica, onde a essa altura residia sozinho. A causa da morte nunca ficou clara (ele tinha medo d´água), sabendo-se apenas que o jardineiro – um homem rude que lhe servira de modelo para a pintura – se tornara seu amante.

Aos interessados: a estória misteriosa dos últimos dias de vida de Whale está contada no filme “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), realização de 1998, de Bill Condon – infelizmente, um filme sem a dimensão do seu protagonista. De forma que, se você não conseguir assistir, não se incomode: não é nele que está a “visibilidade” do talento de James Whale, e sim neste “O homem invisível”, a propósito, disponível em DVD, como também na programação da televisão paga.