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O relatório Kinsey

8 ago

 Acho que poucos séculos foram tão simetricamente duais quanto o século XX. Pelo menos do ponto de vista comportamental, as suas duas metades não poderiam ser mais antitéticas.

E, claro a “dobradiça” que mudou tudo foi a década de 60. No terreno sexual, por exemplo, se porventura na primeira metade já se pintava e bordava, era tudo por debaixo do pano. Quem levantou o pano foi sessenta, com sua badalada “revolução sexual”.

Obviamente, a coisa toda não aconteceu de supetão e houve fatores bem específicos, anteriores no tempo, que contribuíram de modo particular para o “levantamento do pano”.

Universidade de Indiana: portal de entrada

Universidade de Indiana: portal de entrada

Um dos mais decisivos foi a publicação, em 1948 e 1953, de dois livros nos Estados Unidos, que eu saiba sem tradução no Brasil, respectivamente: “Sexual behavior in the human male” (`Comportamento sexual no homem´) e “Sexual behavior in the human female” (´Comportamento sexual na mulher´).

Publicações da Universidade de Indiana, de autoria do professor e pesquisador Alfred Kinsey, os livros viraram imediatos best-sellers que, de início causaram escândalos, mas, com o tempo, foram sendo entendidos e aceitos como um trabalho científico, afinal de contas fundamentado em extensiva e séria pesquisa de campo, tudo financiado pela poderosa Fundação Rockefeller.

Dentro do maior rigor, as pesquisas de Kinsey e seu grupo de estudos entrevistavam milhares de homens e mulheres de diversas faixas etárias sobre os seus hábitos sexuais e as constatações e dados estatísticos derrubavam tabus.

Residência típica em Bloomington, cidade onde fica a Indiana University.

Residência típica em Bloomington, cidade onde fica a Indiana University.

Hoje, decorrida a segunda metade do século e um pouco mais, não seria novidade, mas, na época foi certamente constrangedor ver revelado, por exemplo, que a masturbação, em homens e mulheres, era uma prática generalizada, mesmo entre casados e/ou idosos. Que a relação sexual antes do casamento já era, na época, comum… Que um número significativo de pessoas casadas haviam tido experiências amorosas fora do casamento, etc…

Um dos pontos mais polêmicos foi, certamente, o das diversidades sexuais, quando, a partir dos relatos de seus depoentes, Kinsey desenvolveu sua famosa tabela hetero/homoerótica, segundo a qual, ao invés da polaridade conhecida e aceita, haveria uma variação de preferências que ia de 1 (heterossexualidade exclusiva) a 7 (homossexualidade exclusiva), os números intermediários indicando, com surpreendente frequência, a gradação entre os dois extremos. Numa sociedade machista, essa quebra dos limites entre as duas práticas era um problema e um escândalo.

Com uma pequena ironia: as pesquisas de campo de Kinsey foram predominantemente realizadas numa das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos, o Meio Oeste americano, onde estava situada a Universidade de Indiana.

Cena do filme "Kinsey - vamos falar de sexo" (2004)

Cena do filme “Kinsey – vamos falar de sexo” (2004)

Cientista sério, Kinsey não queria a fama e muito menos os seus efeitos deletérios. Não queria, mas teve os dois, a fama e os efeitos.

Quem relata a difícil vida profissional e privada de Kinsey é o diretor americano Bill Condon no seu filme “Kinsey – vamos falar de sexo” (2004), ainda hoje em cartaz nas redes de televisão paga.

Nele Liam Neeson faz muito bem o puritano zoólogo e sexólogo Kinsey: sua ousadia em fundar o departamento de pesquisas sexuais na Universidade de Indiana; sua determinação em conceber e executar o projeto que resultaria nos livros; as objeções e os obstáculos que enfrentou, e, pior, os muitos mal-entendidos decorrentes de seu sucesso.

E vejam que os problemas não vinham só dos oponentes, mas também dos concordantes, como foi o caso daquele senhor de meia idade, um dos seus depoentes, que o colocou em impasse, profissional e ético, ao relatar os seus numerosos casos de prática pedófila.

Uma depoente confessa ter sido salva por Kinsey.

Uma depoente confessa ter sido salva por Kinsey.

Uma cena comovente no filme mostra Kinsey já idoso, doente e desanimado com a falta de apoio financeiro para novos projetos. Nessa ocasião, ele recebe a visita de uma senhora que, emocionada, lhe confessa ter sido salva por ele: descobrindo-se lésbica ainda jovem, estivera à beira do suicídio, quando leu seus livros e pôde constatar que, no país, milhares de mulheres tinham as suas mesmas preferências sexuais e não eram monstros, mas seres tão humanos quanto quaisquer outros.

De minha parte, assisti a “Kinsey” com interesse particular. É que, por coincidência, fui, nos anos oitenta, bolsista-pesquisador Fulbright na Universidade de Indiana, em Bloomington, onde cheguei a fazer amizade com duas ou três pessoas de certa idade que haviam sido depoentes no hoje chamado “Relatório Kinsey”.

Fazendo gracejo, um deles me garantiu que seu relato ficou com certeza na categoria da “normalidade”, mas, ora, o que o trabalho de Kinsey pergunta é isto: no terreno sexual, o que é normal?

Liam Neeson faz bem o papel de Alfred Kinsey

Liam Neeson faz bem o papel de Alfred Kinsey

Meus dez

4 abr

Não tem jeito: cinéfilo que se preza adora fazer a sua listinha de filmes preferidos, e o número padrão é dez.

No mundo literário pode ser diferente, mas, no território do cinema, o hábito é tão generalizado que até os profissionais da crítica se entregam a ele, aproveitando para, no cruzamento dos escolhidos por muitos, elegerem os melhores filmes do mundo. A mais prestigiada dessas listas internacionais é a da Revista inglesa “Sight & Sound” que, a cada dez anos, desde 1952, apresenta os dez filmes mais perfeitos já feitos em todos os tempos e espaços, e isto em ordem qualitativa.

Mas, no caso dos espectadores comuns, digo, não-profissionais, ninguém quer saber de perfeição, e as escolhas recaem mesmo sobre o gosto pessoal… e pronto!

Todos, ou quase todos, os meus amigos cinéfilos têm a sua listinha e eu não fujo à regra. A depender do cinéfilo e de suas idiossincrasias, a lista pode ser fixa, imutável, ou pode ser mais ou menos flexível, móvel. No meu caso, acho que fico numa espécie de meio termo: entre os meus dez preferidos, uma parte é fixa e outra vem se modificando com o passar do tempo e do meu processo constante de revisitação fílmica.

Por coincidência, há poucos dias, me caiu nas mãos um número da Revista “A Tela Demoníaca”, onde, no ano do centenário do cinema, 1995, dei entrevista à jornalista Thamara Duarte, e lá ela me cobrava a minha dezena preferida. Pois, cotejando a lista que divulguei à Thamara na época – portanto, dezoito anos atrás – com a atual, a que tenho na cabeça agora, constato o que já disse acima: seis filmes permanecem os mesmos nas duas listas e quatro, saíram para dar lugar a outros. Os que saíram, não porque os ame menos, mas porque outros se impuseram ao meu afeto com maior força, são: “Luzes da cidade”, “Crepúscuplo dos deuses”, “Morangos silvestres” e “Jules et Jim”.

Em ordem cronológica (e não hierárquica), e seguidos de alguns dados da ficha técnica, eis, portanto, a quem interessar possa, a lista atual dos meus dez filmes mais amados.

Casablanca (Idem, 1942), de Michael Curtiz, com Ingrid Bergman e Humprhey Bogart.

1 Casablanca

Desencanto (Brief encounter, 1945), de David Lean, com Celia Johnson e Trevor Howard.

2 brief encounter

A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, 1946), de Frank Capra, com Donna Reed e James Stewart.

3 its a wonderful life

Um lugar ao sol (A place in the Sun, 1951) de George Stevens, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift.

4 a place in the sun

Matar ou morrer (High Noon, 1952) de Fred Zinnemann, com Grace Kelly e Gary Cooper.

5 high noon

Janela indiscreta (Rear window, 1954) de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly e James Stewart.

6 rear window

Vidas amargas (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, com James Dean e Raymond Massey.

7 east of eden

Noites de Cabíria (Le notti di Cabíria, 1957) de Federico Fellini, com Giulietta Masina.

8 le notti di cabiria

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960) de Billy Wilder, com Shirley MacLaine e Jack Lemmon.

9 the apartment

O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) de John Ford, com Vera Miles e James Stewart.

10 the man...

Como se percebe, não são os filmes mais destacados na história do cinema, e não foram escolhidos pela importância, e sim, por motivos subjetivos. Que motivos são estes, nem eu mesmo sei, e acho que até meu analista – se eu tivesse um – teria dificuldade em dizer. Em uma coisa ao menos creio que todos concordam: a nenhum deles falta qualidade artística. O que deve chamar a atenção do leitor desta matéria são as datas. De fato são filmes antigos, quase todos da primeira metade do Século XX. Nisso sou, sim, um assumido “classicista” que encontra certa dificuldade em empolgar-se com a produção contemporânea.

Uma angústia de quem elabora sua lista é, pressionado pela restrição numérica, ter que deixar de fora tantos filmes maravilhosos. Como pude retirar, da lista anterior, “Crepúsculo dos deuses”? Meu pretexto é que o substituí por outro do mesmo autor, “Se meu apartamento falasse”. Como manter fora filmes como “Aurora”, “O anjo azul”, “Os incompreendidos”, “A balada do soldado” “Rocco e seus irmãos”, “Vidas secas”? Em outras palavras, não dá para escapar do efeito “escolha de Sofia”.

Enfim, os meus dez escolhidos são estes, com tendência – confesso – a tornar-se esta lista imutável a partir de agora.

E você, caro leitor, quais são os dez filmes que você mais ama? Comente esta matéria, apresentando a sua lista. Que tal?

Entre Auguste e Jean

8 maio

Filho de peixe é peixinho… Será? Bem, no caso da família francesa Renoir não foi exatamente assim. Auguste Renoir foi pintor, um dos maiores do mundo, e o filho, cineasta, também um dos maiores do mundo. E sem o diminutivo do dito popular!

Incrível é que uma jovem mulher tenha estado na transição familiar entre pintura e cinema, como uma espécie de elo amoroso e mesmo de musa inspiradora.

É do que trata o filme “Renoir” (Gilles Bourdos, 2012), entre nós exibido na recente terceira versão do Festival Varilux de Cinema Francês.

renoir poster

Em plena Primeira Guerra Mundial, no verão de 1915, chega de bicicleta à mansão dos Renoir, em Cagnes-aux-mer, na Riviera francesa, a jovem Andrée, com o intuito de ser modelo para o grande Auguste Renoir. E o convite fora um dia, curiosamente, ideia da esposa do pintor, agora falecida.

Pesaroso com a morte da esposa e com o alistamento militar de um dos filhos, o velho pintor, aos 74 anos de idade, carrega a cruz dos anos como pode, sem o entusiasmo que fizera dele o mestre do impressionismo pictórico no seu país.

A modelo é aceita (“uma desconhecida enviada por uma morta” – diz Auguste dela) e quando o idoso pintor está se reanimando, voltando a erguer o pincel e espalhar suas tintas, eis que retorna da guerra, ferido e em muletas, o filho Jean. A partir daí a atenção da moça vai se dividir entre pai e filho, o primeiro em fim de carreira e vida, o segundo, a iniciar-se, não na pintura, mas nesse novo meio que é o cinema. Sim, o cinema, embora tenha lhe garantido o irmão mais velho, que: ´na França essa coisa de cinema não dá certo´.

Michel Bouquet, Christa Theret e Vincent Rottiers em cena do filme

Michel Bouquet, Christa Theret e Vincent Rottiers em cena do filme

Sem coincidência, Auguste morre em 1919, ano em que Jean e Andrée contraem matrimônio. A última modelo de Auguste Renoir, que está em alguns de seus quadros mais famosos, como “As banhistas”, vai ser – agora com novo nome artístico, Cathérine Hessling – a atriz de vários dos filmes mudos de Jean Renoir.

Se a pintura de Auguste Renoir dispensa apresentações, chamo a atenção de quem não lembra, ou não sabe, para o fato decisivo de que Jean Renoir teve, na área cinematográfica, o mesmo destaque que o pai teve nas artes plásticas, isto para a França e para o mundo. Sua filmografia é rica e vasta e recobre fases diferentes do cinema francês, de modo que, para não me estender, ressalto um único filme seu, aquele que, em torno de um privilegiado segundo ou terceiro lugar, vem constando, há meio século, da lista dos dez filmes mais perfeitos já feitos, segundo a crítica internacional: “A regra do jogo” (“La règle du jeux”, 1939).

Como se percebe, o filme de Gilles Bourdos detém uma importância histórica enorme, na medida em que retrata essa passagem delicada na arte francesa, da grande pintura do século XIX, para o grande cinema do século XX. Como dito, com o charme adicional, biográfico e dramático, de ter havido um elo feminino ligando as duas coisas.

Mas, se o filme porventura atrai a quem conhece de perto as dimensões artísticas dos dois Renoir, fico pensando o que ocorre, em termos recepcionais, com quem não dispõe desse conhecimento. Sim, me indago como a ele reage um espectador sem familiaridade com as histórias respectivas da pintura e do cinema.

A bela Andrée, elo entre pintura e cinema

A bela Andrée, elo entre pintura e cinema

Sem dúvida, trata-se de um filme que, para funcionar a contento, precisa de uma “muleta referencial”, sem a qual praticamente não anda. Sua diegese não se completa sem o contexto histórico a que só faz referência por tabela, como um significante cujo significado escapasse à imanência da mensagem. Quase sem desdobramentos, toda a narrativa se centra numa situação única (uma bela modelo e dois homens, pai e filho, dentro de um mesmo cenário), cujos tempos (passado e futuro) estão off-screen.

Assim, o seu roteiro é – ou soa, para o espectador desavisado – exíguo, escasso, minguado, e o conflito é indireto, inexplícito, pouco evidente, às vezes obscuro. A narração é extremamente lenta e cheia de elipses, e a estória termina abruptamente, aos 110 minutos de projeção, quando menos se esperava. Os atores (o veterano Michel Bouquet, o jovem Vincent Rottiers e a bela Christa Theret) estão bem nos seus respectivos papéis (Auguste, Jean e Andrée)… se não contarmos o fato de que não tiveram tempo de tela para maior aprofundamento.

Tenho a impressão de que até para os apreciadores das obras de Auguste e Jean Renoir o filme é frustrante, se não como cinema, ao menos nesse particular de contar tão pouco, quando havia tempo suficiente para estender-se em tema tão fascinante.

Tudo bem, o título com uma palavra só, “Renoir”, é proposital para sugerir que o assunto do filme não é, nem Auguste nem Jean, e sim a interface (existencial, histórica, estética) entre os dois personagens, porém, não sei se isso justifica a escassez de tempo de tela, e outras exiguidades mais.

Cena de "A regra do jogo" (1939), filme assíduo na lista dos dez melhores do mundo

Cena de “A regra do jogo” (1939), filme assíduo na lista dos dez melhores do mundo