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A COCEIRA DO SÉTIMO ANO

15 maio

Das outras vezes que vi “O pecado mora ao lado” (1955) não me lembro de ter rido tanto. Reapresentado agora na tv paga, o filme de Billy Wilder me pareceu particularmente hilário.

Com seu espírito maldoso de sempre, Wilder faz gozação de tudo o que pode: dos comerciais de televisão ao uso de música clássica nos filmes românticos, passando pela psicanálise e outras coisas sérias ou nem tanto, nada escapa.

Ótimo no papel, Tom Ewell é o marido de meia idade que fica em casa quando a mulher e o filho vão aproveitar as férias de verão em Maine. Esse “solteirão temporário” entra em crise quando lhe aparece essa vizinha, loura sensual, com todos os atrativos de Marilyn Monroe. Ela está morando no andar de cima, e, da varanda dela, cai no terraço dele, um pesado jarro que quase o mata. Ele reclama mas, quando vê quem é, se desmancha em amabilidades e uma amizade perigosa começa a se formar.

Um detalhe, o jarro poderia conter flores, mas não: a plantinha era tomate, e o espectador anglófono lembra logo que “tomato” (em inglês) era a gíria que se usava na época do filme para ´uma moça sexy´.

Pois, logo em seguida, a moça sexy aparece na porta dele, pedindo gelo para aliviar o calor do verão nova-iorquino, e, ao ver que Ewell possui ar condicionado, faz o que pode para não ir mais embora. O que deixa o nosso Ewell nervoso, em grave crise de moral, coitado, tolhido entre o sincero propósito de se manter fiel à esposa ausente e a tentação de uma aventura amorosa com a bela vizinha.

Pra piorar, ele é funcionário de uma Editora e nas mãos lhe cai um livro incômodo de título “The seven year itch” (“A coceira do sétimo ano”). Segundo o autor, todo casamento passaria por uma fase crítica no sétimo ano da relação, quando os cônjuges, cansados de uma vida convencional, estariam tentados a dar um pulinho fora dos trilhos. Claro, a tese não tem sustentação científica, mas, com a ajuda da astúcia de Wilder, serve como pretexto dramático ao filme. Sem coincidência, faz justamente sete anos que ele casou, a esposa está fora, e aquela loura “tomato” está debaixo do seu teto, estirada numa poltrona com as pernas pra cima, a saia meio levantada, se refrescando no seu aparelho de ar condicionado.

O perigo aumenta quando ela, cheia de manhas, lhe pede para dormir lá e ele… embora em pânico, naturalmente consente. Nada acontece, até porque – diz ela – é muito legal que ele seja casado e tenha filho, pois não vai haver o perigo de lhe pedir em casamento, como fazem todos os homens com quem se relaciona.

Nada acontece, mas as sugestões maliciosas do roteiro são muitas. Quando Ewell decide abrir um champanhe que a moça trouxera para celebrar a amizade, o dedo dele fica preso na boca da garrafa e os dois, gastam um tempo tentando tirá-lo dali. Vejam bem, ele com o dedo enfiado no buraco do champanhe dela – a insinuação sexual é óbvia para qualquer espectador inocente.

Até o que eu antes não gostava em “O pecado mora ao lado” passei a gostar. Refiro-me ao capcioso emprego que Wilder faz do “Segundo concerto para piano” de Rachmaninoff como se fosse a trilha musical irresistível para engrossar uma relação amorosa. (E a gente sabe que, nisso, ele está criticando filmes como o “Desencanto” de David Lean).

Uma cena mostra Ewell ao piano conquistando sua vizinha com Rachmaninoff, porém, a cena é apenas fruto da fértil imaginação do personagem e logo se dissolve. A capciosa maldade com o compositor russo é, felizmente, aliviada numa cena seguinte, não mais imaginária, quando Ewell põe a mesma música na radiola e ela não surte efeito algum na moça, que prefere alguma coisa pop. Ou seja, a tese de Wilder é contradita por ele mesmo…

A cena mais lembrada do filme de Wilder é a do vento do metrô levantando a saia de Monroe numa rua da cidade, esquentando a cabeça de Ewell a um ponto máximo, mas, esta é uma cena direta, quase sem malícia.

As “malícias” de Wilder são melhores quando indiretas. Estas, como já sugeri, são muitas e não dá pra citar todas. Fechando, lembro apenas três casos: (1) em um dos seus muitos delírios eróticos, Ewell está na praia com uma colega de trabalho que o beija na areia, os dois lambidos pelas ondas do mar, dizendo ela que o amará “from here to eternity” (paródia de cena no filme de Fred Zinnemman, de três anos atrás, “A um passo da eternidade”); (2) em resposta a uma pergunta que lhe é feita, o grosseiro porteiro do prédio declama a letra de “Summertime” para justificar aventuras amorosas no verão nova-iorquino, as dele e as de Ewell; e (3) ao saírem da matinée, Marily Monroe faz uma interpretação toda romantizada da horrenda criatura de “O monstro da lagoa negra”, a qual Ewell, em sua dócil feiura, fica por tabela, comparado.

Risadas, o tempo todo.

Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

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Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

5 uma dona de casa

Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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