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Página de jornal velho

12 out

Em suas pesquisas iconográficas sobre o passado da cidade de João Pessoa, o poeta Águia Mendes nos brindou, recentemente, com fotografias das páginas do extinto jornal O Norte, em edição de março de 1960. (Vide: FaceBook).

Uma dessas fotografias mostra a programação do Cine São José, e isso me enviou ao passado, quando eu, garoto e morador de Jaguaribe, frequentava os três cinemas do Bairro.

Incrível como a fotografia de uma página antiga de jornal pode mexer com suas emoções. Olhando a foto, de repente, estou no Jaguaribe do comecinho dos anos sessenta. Nos meus treze anos de idade, ajudava meu pai na padaria que sustentava a família, rua Primeiro de Maio com Senhor dos Passos. Tanto despachava no balcão, como entregava as sacolas de pão nas mercearias do bairro, que eram muitas. A mesada que recebia desses serviços me permitia ir ao cinema e ver o que bem entendesse e a censura permitisse.

cine-sao-jose-1960

Ao Cine São José fui com assiduidade, tanto às superlotadas soirées de final de semana, como a outras, em outros horários. Lembro com melancolia as matinées de domingo, em que vi tantos filmes de aventura que o tempo apagou da memória.

Na página fotografada de O Norte estão alguns dos filmes que vi no São José: a chanchada brasileira “O homem do Sputnik”, com Oscarito; a comédia americana “O bamba do regimento” com Jerry Lewis; o drama bíblico “O filho pródigo”, com Lana Turner; mas, nenhum desses teve a repercussão de “Sissi, a imperatriz”, o segundo filme da trilogia sobre a imperatriz austríaca, tão inesquecivelmente interpretada pela jovem e bela Romy Schneider.

Ainda hoje recordo a noite em que fui ao São José para ver esse filme. Eu havia me submetido a uma grave cirurgia de hérnia e estava saindo de casa pela primeira vez. Levaram-me minha irmã Genilda e o namorado Jackson, e a sessão estava cheia, com espectadores da vizinhança trazendo suas cadeiras de casa para completar a lotação do cinema – um costume que nunca vi, em nenhum outro cinema da cidade.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São  José.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São José.

A programação fotografada que se vê na página de O Norte deve ser de um dia de semana, pois o filme em cartaz, anunciado para as 19:45 horas, “Sob a lei da chibata”, só será exibido em um “único dia”. Calculo que esse único dia seria uma segunda-feira, dia sem prestígio para filmes sem prestígio. Para “amanhã” (provavelmente para a terça-feira e quarta) está anunciado “Rua dos fracassados”, outro filme para o qual não se conta um grande público, provavelmente bolado e exibido para uma plateia específica, fã de policiais ou filmes de ação.

As bilheterias mais promissoras ficavam para o fim de semana, e o anúncio já está dado, um pouco abaixo: “A partir de sexta feira”, “O bamba do regimento”, do qual – como nos casos anteriores – se oferece um miolo de enredo: “Ele era um problema para o sargento, um pesadelo para o capitão, e uma catástrofe para o general”. Com os nomes no elenco: Jerry Lewis e Phyllis Kirk. E com um “Vem aí!” exclamativo, sem datas especificadas, se anunciam ambos, o filme austríaco e a chanchada brasileira. Para a Semana Santa fica “O filho pródigo”, com o aviso de “cinesmascope”.

Para quem não lembra, ou não sabe, o Cine São José ficava na rua Senador João Lira, número 697, esquina com a rua Floriano Peixoto. Fundado em 1952, funcionava no prédio do Círculo Operário e tinha sessões diárias. Segundo dados deixados pela Companhia exibidora de Luciano Wanderley junto aos distribuidores, o cinema fazia uma média de 410 sessões por ano, que recebiam 51.635 espectadores.

Uma cena de "Sissi, a imperatriz", visto em 1960, no Cine São José.

Uma cena de “Sissi, a imperatriz”, visto em 1960, no Cine São José.

O Cine São José não era uma construção autônoma: fazia parte de um bloco maior, o prédio do Círculo Operário, este ocupando todo um quarteirão da Senador João Lyra. Mesmo sem individualidade arquitetônica era aconchegante, pelo menos para mim o foi. Tinha uma boa sala de espera, com uma escadaria curva que dava acesso ao setor superior, preferido pelos casais com intenções não propriamente cinematográficas. Seu salão de exibição era vasto, de dimensões mais ou menos quadradas. Se não me falha a memória, as últimas filas de assentos eram interrompidas, em dois pontos, por pilares redondos que sustentavam o setor superior da plateia.

Anos mais tarde, o Cine São José, não sei com que auspícios (possivelmente do pessoal do Círculo Operário), passou a incluir filmes de arte em sua programação e, num tempo em que, maiorzinho, já me interessava por crítica cinematográfica, lembro de ter visto lá raridades do cinema internacional, como o filme japonês Não deixarei os mortos, e outros de nacionalidades igualmente remotas.

Mas, volto a vista para a velha página de O Norte, e torno a ser criança, e assim permaneço por mágica fração de tempo.

Obrigado, poeta Águia Mendes pela visita ao Cine São José.

A jovem e bela Romy Schneider...

A jovem e bela Romy Schneider…

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Casablanca ou Cidadão Kane?

1 abr

A Semana Santa está aí e o casal arruma as malas para um feriadão na casa de praia da família, a essa época do ano desocupada e inteiramente disponível. Na maior parte do tempo, vão estar a sós, os dois pombinhos, curtindo o sol ou chuva – o que der e vier, pouco importa! – livres de compromissos e problemas.

Na quinta-feira santa, porém, já está combinado, receberão um grupo de amigos, que, segundo a promessa feita, vai levar – tudo já pronto pra servir à mesa – os ingredientes de uma ceia larga – vinho, pão, queijo, peixe e tudo mais.

Depois da ceia, um filme! – assim foi sugerido e ficou decidido.

Quando o casal perguntou, no telefone, que filme, a resposta dos amigos – todos, como o casal, cinéfilos de carteirinha – foi: “um clássico, claro”. E com uma alegação mais que justa: é que neste ano de 2015 a sétima arte está completando redondos 120 anos!

“Mas que clássico?”

“Vocês dois decidem: a surpresa vai ser o aperitivo” – responderam.

Depois de um papozinho privado, o casal concordou em que o filme a levar tinha que ser, no mínimo, marcante.

casablanca

Casablanca foi a opção dela.

Teria tudo sido fácil se a opção dele não fosse outra, bem diferente: Cidadão Kane.

E durante dias ficou o impasse.

Agora estavam de partida, arrumando as malas, e o impasse continuava.

Ela alegou que Casablanca agradaria à maioria. Ele alegou que não via por que Cidadão Kane não agradaria a essa maioria de que ela falava, afinal seriam apenas umas onze ou doze pessoas, todas apaixonadas por cinema.

Entre uma peça de roupa jogada na mala e outra, entre um par de sapato empacotado e uma escova de dente catada no banheiro, a discussão continuava.

Ela: Amor, apesar do lance da data comemorativa, a gente vai ver um filme pra se divertir, pra curtir, e não para racionar. Casablanca dá mais certo.

Ele: Pois Casablanca me faz refletir tanto quanto Cidadão Kane. Não vejo diferença. Aliás, se o critério é diversão, Casablanca me deixa mais pra baixo. O final sempre me dá vontade de chorar, com Ilsa indo embora e Rick sozinho no aeroporto com aquele delegado cretino”.

Ela: E Cidadão Kane, que já começa com morte? Não me diga que é alegre a estória de um homem que subiu na vida só pra despencar lá de cima, perdendo esposa, negócios, eleições, sei lá o que mais, pra viver com uma mulher que ele nem ama, só por teimosia, num castelo assombrado, sem amigos nem parentes.

kane

Ele: Acho que você só ´tá vendo os aspectos negativos da vida de Kane…

Ela: E você por acaso não ´tá fazendo o mesmo com Ilsa e Rick? Entre eles pelo menos houve uma grande estória de amor, mesmo que…

Ele: Essa conversa tá meio tola: nenhum dos dois filmes é melhor ou pior por causa das infelicidades dos personagens.

Ela: Pois é, e a gente volta ao mesmo ponto de partida.

Ele: O pior é que ´tá na hora de fechar as malas e não quero viajar de noite.

Ela: O que é que você sugere?

Ele: Um par ou impar?

Ela: Ah, não, isso não!

Depois de uma pausa para fechar portas e janelas do apartamento, novas arguições:

Ela: Francamente, eu acho que Cidadão Kane é uma escolha meio óbvia, sabe como é, (e falseando a voz para soar prepotente) “o filme mais perfeito já feito, segundo a crítica internacional”… essas coisas.

Ele: E Casablanca, que é o queridinho do público em todos os tempos e lugares, acho que o filme mais reassistido em toda a história do cinema… Isso não é obviedade? O filme mais selado em VHS, DVD e Blue Ray.

Ela: Tão selado quanto Cidadão Kane!

Ele: E daí?

Ela: É, assim a gente não chega a lugar nenhum.

Ele: Também acho. E a hora ´tá passando.

casablanca poster

Ela: Uma saída seria pensar noutro filme…

Ele: Outro filme? (e demorando a digerir a sugestão) tudo bem, e o que seria? Filme não falta…

Ela: Mas nada que se compare a Casablanca.

Ele: Nem a Cidadão Kane.

Ela: O que ´tou querendo dizer é que, para uma ocasião dessas, encontro de amigos, em data especial, os 120 anos do cinema…

Ele: Sim, isso mesmo. Cidadão Kane resume a história do cinema.

Ela: Casablanca resume a história do amor ao cinema.

Ele: Só se a gente fizer o seguinte: bota os dois filmes na mala. Na hora de assistir, a gente pede a opinião da turma toda.

Ela: Ih, isso vai dar zebra. A discussão vai se estender e a sessão vai começar de meia noite. Não dá certo, não. Além do mais, eu concordei em que ia haver o elemento surpresa.

Ele: E aí, o que é que se faz?

Ela, colocando na mala superlotada um par de calcinhas: Continuo achando que devia ser Casablanca.

Ele, enfiando no meio das roupas, um tubo de creme de barbear: Continuo achando que devia ser Cidadão Kane.

citizen kane poster

 

Em tempo: a Chico Vianna dedico esta crônica, que imita o seu estilo.