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Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.

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Robert Wise centenário

3 mar

Neste 2014 o mundo vai estar celebrando o centenário de nascimento de um dos grandes cineastas do século XX, o americano Robert Wise (1914-2005), e aqui me adianto na celebração, já que Wise é um dos meus diretores favoritos.

Nascido na pequena Winchester, Indiana, o jovem Robert queria mesmo era ser jornalista, mas, a Depressão em que o país se encontrava o obrigou a interromper os estudos e, aos dezenove anos de idade, rumou Oeste para Los Angeles, no encalço de um irmão mais velho, ligado ao mundo do cinema, que lhe arranjou emprego de operador de som na RKO, onde, logo mais, ele seria alçado à condição de montador.

O diretor Robert Wise

O diretor Robert Wise

Montou dezenas de filmes (muitas das comédias de Fred Astaire dos anos trinta, por exemplo), porém, claro, sua montagem mais famosa foi a de “Cidadão Kane” (1941), embora sua relação com Orson Welles já fosse ficar abalada com o filme seguinte, “Soberba” (1942), quando o Wonder Boy, sem rumo no Brasil, perdeu prestígio com os estúdios e, assim, Wise foi forçado a, na sua ausência, cortar o seu filme em sequências que ele não queria. E, dizem, até mesmo fazer acréscimos de sua própria autoria.

Fato é que a Wise apareceu a chance de dirigir, uma atividade que não mais largou, até a aposentadoria. Inicialmente foram produções B de terror, a exemplo de “A maldição do sangue da pantera”, a sua primeira direção, em 1944, até se revelar um grande autor com estilo próprio e muito forte, no excelente “Punhos de campeão” (“The set up”, 1949) onde – vocês lembram – Robert Ryan fazia um pugilista em crise.

Suponho que Robert Wise seja mais conhecido e lembrado do público em geral pelos seus grandes sucessos de bilheteria, que são ao menos três, dois musicais e um science-fiction: o drama social “Amor sublime amor” (“West Side Story”, 1961) que dirigiu junto com o coreógrafo Jerome Robbins, o romântico “A noviça rebelde” (“The sound of music”. 1965) e o interplanetário “Jornada nas estrelas, o filme” (“Star Trek: the motion picture” 1979).

"The sound of music", um dos Oscars de Wise

“The sound of music”, um dos Oscars de Wise

De minha parte gosto de lembrá-lo em realizações mais modestas e, por isso mesmo, mais livres das imposições dos estúdios e mais pessoais. São três filmes dos anos cinqüenta que sempre que posso revejo com carinho especial.

O primeiro, “O dia em que a terra parou” (“The day the earth stood still”, 1951), é um sentido libelo pela paz universal, simples mas extremamente competente e, mais que isso, cativante. O segundo, “Marcado pela sarjeta” (“Somebody up there likes me”, 1956) é um drama contando a estória mais ou menos verídica do lutador Rocky Grazziano (papel de Paul Newman), retorno consolidado de Wise ao contexto do boxe. O terceiro, “Homens em fúria” (“Odds against tomorrow”, 1959, é um noir mais ou menos obscuro, sobre um assalto a banco, que vi no meu querido Cine Teatro Sto Antônio, e nunca esqueci os desempenhos do trio: Ed Begley, Robert Ryan e Harry Belafonte.

Cena de "West Side Story"

Cena de “West Side Story”

De gêneros diversos, outros filmes de Wise que porventura o leitor pode ter visto e que, por razões artísticas e/ou comerciais, merecem ser mencionados são:

“Entre dois juramentos” (1950); “Ratos do deserto” (1953); “Um homem e dez destinos” (1954); “Helena de Tróia” (1956); “Honra a um homem mau” (1956); “O mar é nosso túmulo” (1958); “Quero viver” (1958); “Dois na gangorra” (1962); “O enigma de Andrômeda” (1971); “O dirigível Hindenburg” (1975).

Com quatro Oscar, num total de vinte e uma indicações, Robert Wise envelheceu coroado de louros, um dos quais foi sua nomeação para Presidente da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, função que exerceu de 1985 a 1988.

Reavaliando sua filmografia, a crítica alega que seus filmes da segunda metade do século perderam o vigor que ainda existiu até “A noviça rebelde”, mas, a esse respeito, a pergunta poderia ser: que grande cineasta do passado clássico não decaiu junto com a queda do sistema de grandes estúdios, no final dos anos sessenta? Não cabe responder, para não entrarmos em discussão paralela ao que aqui interessa: a comemoração do centenário de um mestre da sétima arte.

Harry Belafonte, Robert Ryan e Ed Begley em "Odds againts tomorrow" ("Homens em fúria', 1959)

Harry Belafonte, Robert Ryan e Ed Begley em “Odds againts tomorrow” (“Homens em fúria’, 1959)