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O CLUBE DOS CANIBAIS

30 out

Quando criança eu sonhava em poder um dia assistir a filmes impróprios até 18 anos. Hoje sonho em ver filmes de censura livre…

“Era uma vez em Hollywood”, “Bacurau”, “Coringa”, “Pássaros de verão”… Meu Deus, quanta sanguinolência!

Pois, como se não bastasse tanto sangue espirrado na minha cara, fiz a ousadia de ir ver este “O clube dos canibais” (Guto Parente, 2018), que no título já diz tudo.

Em rica mansão, numa praia paradisíaca do Ceará, reside esse super-empresário, dono de uma companhia de seguros, que junto com a sua jovem e bela esposa costuma matar, cozer e comer os seus empregados.

Na verdade, não é só o casal Otávio e Gilda que usa dessa prática. Ele, Otávio, faz parte do tal clube do título do filme. Trata-se de uma confraria secreta, em que todos são membros da elite, com o objetivo de limpar a sociedade dessa “gentinha pobre e sem futuro”, e uma maneira efetiva e deliciosa de fazê-lo é matando e comendo.

Pois, o nosso protagonista Otávio (Tavinho Teixeira) faz isso sempre, até fora da atividade do clube, no caso, seguindo um certo ritual: a sua esposa Gilda (Ana Luiza Rios) conquista o empregado da casa, leva-o para a cama e, enquanto fazem amor, o marido, escondido, espia a cena e se prepara para o golpe. No exato momento do gozo do empregado, ele o ataca por trás e o mata com um golpe certeiro de machado bem no meio do crânio. É sangue pra todo lado.

A cena seguinte é o lauto jantar, onde o casal se delicia com a carne do empregado, devidamente assada com requintes de gourmet.

A elite brasileira comendo (literalmente) gente da classe pobre – isto, obviamente, é uma grande metáfora para a situação atual do país, e o filme, em vários níveis, está repleto de indícios comprobatórios.

Cheio dos moralismos mais conservadores, o discurso do presidente do clube, proferido com eloquência feroz em uma das reuniões dos ilustres canibais, é um exemplo ostensivo dessa metáfora diegética, como também do seu implícito grau de hipocrisia. Sem coincidência, além de empresário, o tal presidente do clube também exerce a profissão de político.

Indicia esse grau de hipocrisia, o turning point que vai dar uma direção diferente à situação estabelecida. Numa festa local, Gilda descobre o presidente do clube em relação anal passiva com um dos empregados da casa. Ela o vê e é vista por ele, e isto vai pôr em perigo o casal e levar o filme para um desenlace ainda mais drástico e mais sanguinário do que o que já se tem.

Assistindo a “O clube dos canibais” não me saiu da cabeça um famoso ensaio da literatura inglesa do século XIII que também trata de um – chamemo-lo assim – “canibalismo socialmente corretivo”, ou seja, que tem o fito de resolver problemas da sociedade exterminando a pobreza, através do extermínio dos pobres.

Acho que meu leitor, a essa altura, já matou a charada. Sim, refiro-me ao satírico e brilhante ensaio do escritor Jonathan Swift “A modest proposal” (1729).

A proposta modesta de Swift sugeria, justamente, que, em vista da grande miséria que assolava o país na época, a aristocracia começasse a comer as crianças pobres, até um ponto em que a pobreza fosse eliminada. Segundo Swift, os pobres conscientes da propriedade da medida, eles próprios ofereceriam seus filhos para o banquete dos ricos.

Não resisto em citar um trecho da sátira de Swift, que na época chocou meio mundo, até ser entendida como denúncia.

“Uma criança de um ano de idade, sadia, é um alimento delicioso e nutritivo, se cozido, torrado, assado ou guisado; e não tenho dúvidas de que pode ser servido num fricassé, ou num ragu”.

Antes de redigir esta matéria, li comentários críticos de “O clube dos canibais”, e achei estranho ninguém fazer referência ao texto de Swift, no meu entender – eu tinha certeza – um intertexto óbvio do filme.

Em entrevista à imprensa, falando de suas influências, o cineasta Guto Parente menciona os filmes de John Carpenter, Wes Craven, David Cronenberg, e outros praticantes do subgênero “gore”, e destaca o lado “sátira social” de seu filme, porém, não faz qualquer referência a Swift, demonstrando claramente desconhecê-lo.

Aparentemente estamos diante de uma curiosa coincidência de enfoques, separada por três séculos. Que seja.

O filme da minha vida

8 ago

Interessante notar como, no cinema de hoje em dia, está se tornando cada vez mais comum a referência ao cinema do passado. Quem faz isto, e o faz muito bem, é o filme de Selton Mello “O filme da minha vida” (2017). Nele o western clássico “Rio Vermelho” (Howard Hawks, 1948) desempenha o papel de intertexto, e um intertexto importante, uma vez que partilha uma porção de sua temática, a saber, o conflito entre pai e filho, no caso, feitos por John Wayne e Montgomery Clift.

Narrado em primeira pessoa, o filme conta a estória desse rapaz de 23 anos, Tony (Johnny Massaro), professor de francês na pequena Remanso, RG, que vive entre a saudade do pai desaparecido (o francês Vincent Cassel) e os conflitos sexuais de seus alunos, conflitos que também são seus, sempre indeciso entre duas irmãs, tão ambíguas quanto ele mesmo. Nessa busca de maturidade, ninguém o ajuda, muito menos o criador de porcos Paco (o próprio Selton Mello), amigo da família, figura sempre presente, meio “candidato a pai”, e que um dia, a contragosto, o leva à Fronteira, para uma experiência com prostitutas. Conduzido pelo trem de um maquinista meio filósofo (Rolando Boldrin), Tony termina por descobrir o paradeiro paterno e isso tem a ver com cinema, especialmente com o sempre citado “Rio Vermelho” de Hawks.

O filme adapta o livro do escritor chileno Antonio Skármeta, “Um pai de filme” (2010), porém, a adaptação é relativamente livre. Por exemplo, o filme referido no livro também é um western de Howard Hawks, mas não é o tão adequado à estória “Rio Vermelho”, e sim, “Rio Bravo” (1959) cujo título brasileiro foi, na verdade, “Onde começa o inferno”.

De qualquer forma, podemos dizer que ambos, livro adaptado e filme adaptador têm intertextos fílmicos. Para dizer a verdade, desconfio que em ambos, digo, no livro e no filme, há mais de passado cinematográfico do que a gente pensa.

Com o risco de fornecer spoilers, faço um breve resumo da estória, na perspectiva de um personagem que não é o narrador Tony. Vejam bem:

Um pai de família, que sempre foi querido e correto, comete, inadvertidamente, um grave deslize por causa de uma mulher, e, assim, desaparece do seio da família e vai viver, anônimo, noutro lugar. Ora, esse argumento está lá atrás, num filmezinho de 1940 que fez meio mundo chorar, chamado no Brasil de “Seu único pecado” e no original “The way of all flesh” (Louis King, 1940).

Em “Seu único pecado” o pai desditoso nunca volta à família, enquanto que no livro de Skármeta e no filme de Mello a narrativa providencia um final meio feliz para todos, porém, o argumento (digo, não o roteiro) é o mesmo.

Os atores Vincent Cassel e Selton Mello

O que desconfio é que, bem antes do filme de Mello, o livro de Skármeta teve, conscientemente ou não, influência de “Seu único pecado”, o que não é nada improvável, já que, ele próprio professor de cinema, Skármeta é um grande conhecedor do passado desta arte. Não é de admirar, portanto, que o filme de Mello – via livro adaptado – carregue um certo cheirinho de melodrama antigo. Vendo-o, senti esse cheirinho e foi ele que me trouxe à lembrança as lágrimas que derramamos, eu e toda uma gama de espectadores, quando assistimos a “Seu único pecado”.

Com esse passado nas costas, ou não, de todo jeito o filme de Mello agrada a todos pelas qualidades intrínsecas que possui. Uma delas é a primorosa fotografia de Walter Carvalho. Lembro que da fotografia de “Rio vermelho”, a crítica americana Pauline Kael dizia que “elevava a paisagem à categoria de personagem”. E eu pergunto, não acontece o mesmo aqui? Não me admiraria se me dissessem que Carvalho inspirou-se no preto e branco do fotógrafo Russell Harlan, pra fazer o seu colorido melancólico que nos encanta.

Em primeiro plano, Johnny Massaro no papel de Tony.

Como no livro, a estória do filme de Mello se passa em 1963, mas a direção não se preocupou muito com o rigor de datas. Alguns exemplos: uma das muitas canções que compõem a rica trilha musical do filme é “Coração de papel”, de Sérgio Reis, como se sabe um sucesso de 1967, quatro anos após o ano em que a estória ocorre. Francesas ou americanas, as outras canções tampouco obedecem a cronologias. E às vezes, assumido ou não, esse anacronismo está no diálogo: conversando com a amiga sobre cinema, Tony a escuta dizer que a atriz hollywoodiana Elizabeth Taylor já ia no terceiro casamento. Ora, o terceiro casamento de Taylor (com Michael Todd) acabou em 58, ou seja, cinco anos antes de 63.

No meu entender, esses e outros anacronismos têm uma justifica convincente. E ela ocorreu, ainda na elaboração do roteiro, no momento em que se teve o bom senso de substituir o “Rio Bravo” do livro por “Rio vermelho”. Como já dito, estória de conflito entre pai e filho, “Rio vermelho” tem tudo a ver com a temática de “O filme da minha vida”, ao passo que “Rio bravo” era, no livro, uma mera ilustração. O problema é que, enquanto “Rio Bravo”, sendo de 1959 era viável no tempo, “Rio vermelho” é de 1948, quinze anos antes da estória contada. Parece-me que essa distância temporal abriu caminhos para outras distâncias, retroativas ou prospectivas.

E, afinal de contas, nada disso atrapalha a curtição de “O filme da minha vida”, o terceiro precioso item na filmografia de um jovem talentoso cineasta que, cada vez mais, e merecidamente, conquista público e crítica.

O fotógrafo Walter Carvalho e o cineasta Selton Mello, durante as filmagens.

Divinas divas e o Fest Aruanda

17 dez

De 8 a 14 deste mês tivemos, em João Pessoa, a décima primeira versão do Fest Aruanda, festival de cinema e vídeo que divulga e celebra a atividade cinematográfica, local e nacional.

Com longas, médias e curtas, documentais e/ou ficcionais, concorrendo em mostras competitivas, ou não, a programação do festival foi, como sempre, extensa, e aqui não cabe repassá-la.

Registro apenas as homenagens, duas delas póstumas: a Péricles Leal e ao recém falecido cineasta Manfredo Caldas. Sobre aquele primeiro, foi reprisado o documentário de João de Lima “Péricles Leal – o criador esquecido”, e mais que isso: o personagem de gibi Falcão Negro, criação de Péricles, foi adotado como a logomarca desta edição do festival. Daquele segundo foi reapresentado o longa “Romance do vaqueiro voador”.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Já o mais que vivo Wills Leal recebeu o Troféu Aruanda e a Comenda da Academia Paraibana de Cinema, pela compleição de seus bem curtidos oitenta anos de idade. Além disso, foi exibido o filme “Wills Leal, mais que oitenta – La dolce vita” homenagem especial e afetiva do cineasta Mirabeau Dias.

Debates, workshops e lançamentos de livros completaram o programa desse festival que já se impôs como o grande evento cinematográfico do Estado.

A versão deste ano teve dois aditivos oportunos: o completo ineditismo dos filmes a serem exibidos nas Mostras competitivas, e mesmo daqueles exibidos fora da Mostra, no caso o da abertura “Axé – canto do povo de um lugar” e o do fechamento do festival “Pitanga”. O segundo aditivo foi a introdução de uma interessante rubrica, de nome ´Sob o céu nordestino´, exclusiva para a exibição alternativa de produções realizadas nesta ou sobre esta região do país. Um dos filmes mostrado dentro desta rubrica foi “Cícero Dias – o compadre de Picasso”, documentário do cineasta paraibano Vladimir Carvalho.

2-2

Meu modesto contributo foi estar entre os co-autores do livro “100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), livro organizado pela ABRACCINE (Associação brasileira de críticos de cinema) que foi lançado no festival, na tarde de sábado, dia 10 deste mês.

Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes exibidos no Fest Aruanda, mas, na Mostra Competitiva de Longas, um que me chamou a atenção foi esse “Divinas Divas” (2016) da estreante diretora Leandra Leal.

Com leveza, simplicidade, descontração e bom humor, o filme (re)agrupa oito artistas que fizeram estrondosos sucessos nos palcos do Rio de Janeiro dos anos sessenta e setenta, cada um a seu modo, mas todos quebrando tabus e driblando a rigorosa censura da ditadura militar. Hoje idosos, os travestis Rogéria, Jane di Castro, Valéria, Fujica de Holliday, Camille K, Eloína, Brigitte de Búzios e Marquesa nos contam suas histórias pessoais, relatando, sem papas na língua, seus casos privados, seus episódios mais pitorescos, mas, sobretudo, a difícil luta para a afirmação profissional.

Ao roteiro foi dada uma estrutura bem definida, com prólogo e epílogo formalmente estabelecidos: a narração propriamente dita decorre no entremeio destes dois momentos, e nela acompanhamos os ensaios para um show que o grupo todo fará no desenlace. Ao longo desse processo preparatório, intercalam-se os depoimentos dos artistas, sempre somados a uma performance individual de cada um dos depoentes.

As protagonistas de "Divinas Divas".

As protagonistas de “Divinas Divas”.

Só no fechamento – ou seja, no epílogo – o grupo atuará junto, no palco, em grande estilo, cantando e dançando a marchinha carnavalesta de Braguinha e Alberto Ribeiro “Yes nós temos banana”, com plumas e paetês, comme il faut. O contraponto desse grand finale já estava na abertura do filme – o prólogo -, quando, ao som da voz potente de Nelson Gonçalves, ouvimos a canção “Escultura” de Adelino Moreira, ao mesmo tempo em que vemos – por sobreimpressão de imagem – cada rosto masculino de cada artista transformar-se aos poucos no seu respectivo personagem feminino.

Originária de família desde sempre ligada ao mundo do show business (o seu avô, Américo Leal foi o criador e dono do teatro Rival), a atriz e diretora Leandra Leal teve lá suas razões sentimentais para conceber e realizar um filme desses, porém, isto, para o espectador não importa. Importa o resultado, que está aí e que é bom.

Descontraído como os seus personagens, mas ao mesmo tempo, intenso, o filme de Leandra Leal arrebatou o público presente na Sala 6 do Cinépolis, e recebeu aplausos calorosos que, visivelmente, não eram aqueles apenas formais, que são praxe em todo festival de cinema.

E para fechar, parabéns mais uma vez ao coordenador do Fest Aruanda, o incansável batalhador Lúcio Vilar, por mais esta.

A atriz e diretora Leandra Leal.

A atriz e diretora Leandra Leal.

“Aquarius”: a música ao redor

5 set

Afinal em cartaz o tão esperado “Aquarius” (2016), filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho que, se não ganhou a Palma de Ouro, de todo jeito fez bonito no Festival de Cannes.

Estamos mais uma vez em Boa Viagem, Recife, e o cenário é um determinado edifício. Digo mais uma vez porque tivemos isto no anterior “O som ao redor” (2012). Agora, porém, o prédio é antigo e está à venda. Ou estaria, se uma moradora não estivesse mantendo o firme propósito de não vender o seu apartamento, o único ainda habitado no prédio todo.

A rigor, o filme é a estória dessa brava mulher, viúva e sexagenária, e começa anos atrás, em 1980, quando ela, ainda jovem, fora acometida de um câncer de mama. Ao câncer ela resistiu e, parece, trinta anos depois, resistirá à venda do apartamento.

A moradoura e seu edifício Aquarius

A moradoura e seu edifício Aquarius

A pressão é grande e vem de toda parte, até dos filhos, mas Clara resiste e, parece, resistindo fica mais forte. Naturalmente, a poderosa firma compradora – que quer construir um espigão modernoso no lugar – tem meios de atacar… e ataca. Uma figura expressiva desse poder é o jovem executivo Diego, (´mestrado em business nos Estados Unidos´) em sua juventude e agressividade, o principal antagonista de Clara.

Clara vencerá ou não? Bem, quem mais torce por ela é o roteirista do filme, construindo-a como uma verdadeira heroína, na acepção ´heroica´ da palavra. Como se não bastasse, a câmera (leia-se: o diretor) está “apaixonada” por ela, e não a larga, lhe dando todo o tempo de tela. E, a gente sabe que neste caso, roteirista e diretor são a mesma pessoa.

Para completar, a atriz é Sônia Braga, e o filme parece ter sido concebido para ela, que, depois de tanto tempo ausente das telas, soube, de fato, responder ao papel – diga-se de passagem – um papel, apesar do heroísmo, nada simples.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

Com efeito, um dos pontos altos do filme está na sinuosidade dos diálogos, uma boa saída para evitar maniqueísmo nas caracterizações dos personagens. Em várias ocasiões, as falas contêm vai e vens intrigantes mas oportunos. Exemplos: ao amante gigolô Clara diz, quase ao mesmo tempo, ´vá embora´ e ´me coma´. Ao salva-vidas sugere uma atração e nega. O empregado que vem avisar sobre a devastação do prédio refere-se à beleza de Clara e recua, deixando-nos sem saber se era mesmo assédio ou não. Etc…

Essa boa recusa de ser retilíneo estende-se à estrutura do filme como um todo e deságua no desenlace. Mesmo vencendo a causa contra os empresários construtores, quem garante que Clara poderá permanecer residindo num edifício destruído pelos cupins?

Nesse ponto, o fotograma final é emblemático: os cupins em plena atividade, justificando o nome desta terceira – e não da primeira! – parte do filme, ´o câncer de Clara´. A sugestão, naturalmente, é que o câncer esteve para Clara, assim como o cupim está para o edifício Aquarius. Sugestão que, bem apropriadamente, iguala a personagem à sua residência. Clara é Aquarius. Aquarius é Clara. Aliás, a sua atitude de não sair do prédio é a única, no filme todo, que tem direito a ser retilínea.

Os comentaristas de “Aquarius” têm feito comparações com “O som ao redor, e quase todas vêm ao caso. Uma pertinente está no território da trilha sonora. Vejam bem, ou melhor, escutem bem. Antes o “som” era poluição sonora; agora ele é música, muita música. E esta é uma diferença fundamental entre os dois filmes. Sem coincidência nenhuma, a profissão da agora aposentada Clara é qual? Crítica de música! Seu apartamento está repleto de discos em vinil, e ela vive dando conselhos musicais aos parentes, como faz com o sobrinho, de namorada nova: “Leve Bethânia pra ela”.

Sônia Braga é Clara.

Sônia Braga é Clara.

O belo “Hoje” de Taiguara abre e fecha o filme, que está cortado por músicas brasileiras e internacionais em praticamente todas as sequências. E, não deixemos de notar, até no diálogo a música insinua-se. Lembro ao leitor/espectador aquele momento extremamente tenso em que mãe e filha discutem, e o tema da venda do apartamento conduz perigosamente a questões de natureza particular. No clímax da discussão, diante de uma tirada ferina da filha, Clara detém-se e começa a solfejar uma cançãozinha que diz assim: “Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração…” E ela mesma acrescenta: “É Lupicínio Rodrigues”.

Ainda a propósito de música, uma curiosidade minha: em “O som ao redor” os personagens de Mendonça cantam, para a aniversariante, não o comum “Parabéns pra você”, mas as “Canções de cordialidade” de Villa-Lobos e Manuel Bandeira, e fazem isso, todos juntos, na ponta da língua, como se em Recife isto fosse habitual, quando se sabe que não é. Aqui ele repete a dose e não é uma vez só.

Enfim, “Aquarius” é apenas o segundo longa de Kleber Mendonça, e, claro, deixa-nos na ansiosa expectativa de mais.

Kleber Mendonça dirigindo...

Kleber Mendonça dirigindo…

Prostitutas clássicas

12 ago

Da era muda até hoje, a prostituta sempre foi uma personagem recorrente na história do cinema mundial. Vilã ou heroína, sempre marcou presença em pequenos e grandes filmes que nos ajudam a entender a natureza humana.

Ao leitor cinéfilo, sugiro um passeio mnemônico por filmes clássicos que ficcionalizaram a situação dessas mulheres as quais – sejam quais tenham sido suas razões pessoais – optaram pela “profissão mais antiga do mundo”.

Seguindo a cronologia, começo com Lulu (Louise Brooks) a exuberante e demoníaca protagonista de “A caixa de Pandora” (Pabst, 1928), mulher má que não vê outros bens a sua frente que não sejam os materiais.

Louise Brooks am "A caixa de Pandora", 1928.

Louise Brooks am “A caixa de Pandora”, 1928.

Em “A dama das camélias” (George Cukor, 1936) a protagonista (Greta Garbo) também é uma cortesã, mas, com outro coração: o da mulher apaixonada que é abandonada e, só depois, enferma e decadente, receberá de volta o afeto que perdera.

Acho que poucos lembram que uma figura essencial entre os viajantes de “No tempo das diligências” (John Ford, 1939) é a prostituta Dallas (Claire Trevor), hostilizada durante a viagem, mas, de fato uma mulher do coração de ouro, afinal, a pretendente do herói Ringo Kid, feito por John Wayne.

Em “A ponte de Waterloo” (Mervyn Leroy, 1940) Vivien Leigh faz Myra, a mocinha que, durante a guerra foi obrigada a prostituir-se, e no retorno do seu amado (Robert Taylor) dos campos de batalha, vê-se no impasse de revelar seu passado sujo, ou… Bem, sua opção é a mais drástica.

"No tempo das diligências" (1939), Claire Trevor e John Wayne.

“No tempo das diligências” (1939), Claire Trevor e John Wayne.

O filme não deixa muito claro, porém, em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953) aquelas mocinhas do Clube Social são de fato prostitutas, entre elas Lorene (Donna Reed) por quem o soldado Prew (Montgomery Clift) desenvolve afeto e é correspondido.

Já em “Vidas amargas” (Elia Kazan, 1955) não há dúvidas de que, aquilo que a ex-senhora Trask (Jo Van Fleet) mantém é um bordel. É a ela que o filho Cal (James Dean) ousa pedir dinheiro emprestado para ajudar ao pai em dificuldade financeira… E, bem, o desastroso corolário vocês conhecem.

Suponho que a prostituta mais querida do cinema seja Cabíria (Giulietta Masina), mulher pobre e sem dotes que, apesar de todos os muitos pesares, luta por uma vida digna. Cabíria, aquela que é capaz de sorrir quando não há mais nada… (Noites de Cabíria, Fellini, 1957).

Jo Van Fleet em "Vidas amargas" (1955)

Jo Van Fleet em “Vidas amargas” (1955)

Rindo da vida e de todos, a grega Ilya (Melina Mercouri) é uma mulher pra cima que acredita piamente em ´finais felizes´ e, por isso, não hesita em modificar os tristes desenlaces da mitologia de seus antepassados. A popular canção de “Nunca aos domingos” (Dassin, 1960) ajudou a eternizar sua figura.

Trágica mesmo é a Nadia (Anne Girardot) de “Rocco e seus irmãos” (Visconti, 1960), que se apaixona por um boxeur e, por isso mesmo, é morta por outro – querela entre irmãos imigrantes em uma Milão inóspita.

Já a sensação de quem assiste a “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1961) é que Holly Golightly mantém a profissão de prostituta, mas ´o filme não sabe´. Ora, Audrey Hepburn tomando café da manhã nas calçadas do Tiffany´s, ao som de ´Moon River´… quem se importa com o resto?

O sorriso na cena final de "Noites de Cabíria" (1957).

O sorriso na cena final de “Noites de Cabíria” (1957).

O lado light e hilário da chamada ´vida fácil´ vai ganhar ênfase em “Irma, la douce” (Billy Wilder, 1963), com uma Shirley MacLaine literalmente impagável no papel-título, junto do ex-policial bobão Jack Lemmon.

Nada light é a vida do médico que se apaixona por Mildred (Kim Novak) quando ela era apenas garçonete, e continua apaixonado, mesmo depois de traições consecutivas que culminam na opção pela prostituição. O filme é “Servidão humana” (Ken Hughes, 1964).

Se eu não incluísse neste breve rol de prostitutas da era clássica a protagonista de “A bela da tarde” (Buñuel, 1967), com certeza e com razão, o meu leitor iria reclamar. Séverine (Catherine Deneuve) é diferente porque – senhora burguesa e bem casada – não faz aquilo por dinheiro, mas, e daí?

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em "Bonequinha de luxo" (1961.

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em “Bonequinha de luxo” (1961.

Garota de programa, Bree (Jane Fonda) vê-se envolvida num complicado caso policial, junto com o detetive Klute, os dois vivendo um jogo de esconde-esconde, onde crime e sexo são sinônimos. Dirigido por Alan Pakula em 1971, o filme é “Klute, o passado condena”.

E que tal fechar a lista com mais um Fellini? Refiro-me à Gradisca (Magali Noel) de “Amarcord” (1973), filme que se encerra com sua melancólica despedida, para uma vida, sim, de casada.

Não tenho espaço para mais, e, além disso, não creio que as prostitutas do cinema dos anos setenta em diante já possam ser ditas “clássicas”.

"Servidão humana" (1964):   Kim Novak é a prostituta Mildred.

“Servidão humana” (1964): Kim Novak é a prostituta Mildred.

Cinco graças

12 maio

Em Porto Alegre, ao tempo do Festival de Gramado, acontece um festival paralelo, chamado de “Os desgramados”, onde se exibem justamente os filmes que, ou não foram selecionados, ou que não ganharam o kikito.

Fico pensando se em Los Angeles não existiria um festival assim, dos “desoscarizados”.

Se houvesse, lá estaria este “Cinco graças” (“Mustang”, 2015), filme da cineasta franco-turca Deniz Gamze Ergüven, que concorreu como estrangeiro e, apesar da qualidade, perdeu.

O cenário é uma província ao norte da Turquia onde moram, com a avó, cinco adolescentes órfãs: Lale, Nur, Selma, Ece e Sonay. Brincalhonas e cheias de vida, levam a vida normal que é permitida a mulheres num país parcialmente fundamentalista e machista, até que, como diz a menor Lale, “num piscar de olho, tudo mudou”.

mustang 1

Mudou no dia em que, ao sair do colégio, as cinco irmãs, e mais uns rapazes, colegas de turma, vão se divertir um pouco na praia, caminho de casa. Entram no mar e ficam fazendo estrepolias e dando risadas ao meio das ondas, e, naturalmente, chegam em casa ensopadas.

Espiadas pela vizinhança, são ´denunciadas´ à avó e ao tio, e é aí que o bicho pega. De garotas inocentes e descontraídas, passam a ser vistas como depravadas e indignas.

Logo a casa vira uma prisão, com grades nas janelas e chaves escondidas. Computadores e celulares, e outros objetos perigosos, são confiscados ou destruídos. Além da instituição do cárcere doméstico, a família tem mais dois cuidados: abafar o escândalo – e, claro, o espectador pergunta ´que escândalo?´ – e cuidar de casar as meninas, antes que seja tarde. Imediatamente providenciados em série, os casamentos, evidentemente, são arranjados entre as famílias do lugar, sem que os noivos sequer se conheçam. Como, de novo, diz a pequena Lale, “a casa transformou-se em uma fábrica de esposas”.

Quanto mais pressionadas aos ditames da família, mais as garotas se revoltam e a estória termina em suicídio e fuga.

mustang 2

O que falta ao meu resumo é o que mais o filme enfoca: a indomável vitalidade das meninas, só dobradas pela força das circunstâncias. Essa vitalidade está no título original do filme, “Mustang”, como se sabe, termo associado ao aspecto selvagem e indomável de certos cavalos. A reintitulação brasileira tem seu charme intertextual, porém, esconde a força das caracterizações.

Autora de alguns curtas, este é o primeiro longa da jovem (37 anos) diretora Deniz Gamze Ergüven, que quase não realiza o filme, pois, ainda na pré-produção, descobre-se grávida e os co-produtores, julgando incerto rodar um filme nessas circunstâncias, quiseram retirar-se do projeto. Ergüven, que já tinha tido um projeto anterior recusado, insiste e o filme é feito.

Na ocasião da estreia internacional, alguns dias depois da exibição e da aclamação, emocionada, ela confessa à imprensa, que de um filme assim pessoal só esperava os aplausos de praxe e nada mais; no dia seguinte, supunha, “Cinco graças” seria esquecido. Não foi e, de público, ela revela sua surpresa com o sucesso.

De fato, “Cinco graças” é um filme intimista, que passa claramente a visão particular da cineasta sobre a condição feminina, especialmente sobre essa condição no seu país de origem, a Turquia, onde a misoginia é um comportamento generalizado. Embora conte a estória de cinco mocinhas, o foco narrativo é doado a uma delas, a menor de todas e também a mais rebelde, Lale, com quem visivelmente a cineasta se identifica.

Um banho de mar pode ser perigoso...

Um banho de mar pode ser perigoso…

Uma ideia apenas implícita, e, no entanto, importante no filme é a de como a educação poderia ajudar a superar o obscurantismo comportamental da tradição.

Vejam que a primeira cena do filme é a da despedida da pequena Lale da professora do Colégio, a qual está se mudando para Istambul. Esta cena é quase esquecida ao longo da projeção, porém, muito bem relembrada na última cena do filme, onde se mostra o reencontro em Istambul, depois que Lale, bravamente, foge de casa com a irma Nur, em busca da liberdade. O abraço da professora e da aluna, que se reveem, agora em situação tão dramática, nos faz lembrar a figura e as ideias de uma Malala, e, por tabela, o filme sobre esta jovem educadora paquistanesa que há pouco comentei, nesta coluna.

Qual será o paradeiro de uma garota de catorze anos que fugiu de casa? Como em clássicos que nem “Os incompreendidos” (1959), o filme deixa isso em aberto, mas o espectador não tem dúvidas: a ex-professora foi procurada porque, em atuação de sala  de aula, deve ter dado lições de liberdade…

Lale, a menor e mais rebelde, cortando os cabelos.

Lale, a menor e mais rebelde, cortando os cabelos.

A última aventura de Robin Hood

9 abr

Quem ainda lembra Errol Flynn, o espadachim bonitão que, nas matinées de antigamente, vencia todos os inimigos, sobretudo ao encarnar a bravura de Robin Hood?

Pois é, parte de sua estória está veridicamente contada em “A última aventura de Robin Hood” (2013), filme que, se não veio ao circuito comercial de exibição, está disponível em DVD e na programação da televisão paga.

Como diz o título, é sua última aventura o que nos conta o filme, mas uma aventura predominantemente amorosa. Em 1957, já cinquentão e decadente, Flynn andava entregue ao álcool e outras drogas, quando conheceu essa mocinha, aluna de um curso de dança, chamada Beverly Aadland. Saem e, num momento mais íntimo, acontece o inevitável; afinal o apelido de Flynn, nos meios artísticos, sempre foi sintomático: “pênis ambulante”. Complicações se avolumam quando Flynn vem a saber que Beverly não tinha os 18 anos que dizia ter, e sim, 15. Ocorre, porém que o ator se apega à garota e chega a convencer a mãe de que poderia lhe dar uma carreira de atriz de cinema, e, que, portanto, poderia também ficar com ela. A contra gosto, a mãe acede e a farsa sobre a idade da garota é mantida até que…

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930...

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930…

O affair Errol/Beverly não durou muito, pois ele vem a falecer em 1959, mas digamos que foi eterno enquanto durou. O apego desse casal improvável foi recíproco e vingou, ao meio de tramas e escândalos hollywoodianos. Na verdade, a roupa suja só veio a público, depois da morte do ator, quando o mundo do show business, a imprensa e, consequentemente, a justiça descobriram a idade de Beverly e outros detalhes do acordo sigiloso entre Flynn e a mãe, a qual perde a guarda da filha e, mais tarde (sem o consentimento desta) publica um livro contando o caso todo.

Dedicado a Beverly Aadland, o filme claramente toma seu partido e mostra como, nos seus 15 a 17 anos, ela era uma pessoa mais madura que a mãe. Vivendo no meio fútil de Hollywood, não entregou-se à busca da fama, e, de Errol Flynn, só quis o melhor, seu lado descontraído e engraçado, e claro, o seu amor e sua dedicação. Depois de sua morte, não lutou por herança e não se importou quando soube que o testamento dele, que a beneficiaria, não possuía validade jurídica.

Embora trate-se apenas de um filme mediano, “A última aventura de Robin Hood” prende o espectador,  um pouco mais se porventura ele for um cinéfilo, interessado nos bastidores da era clássica. Algumas cenas desses bastidores são impagáveis, por exemplo: é curioso saber que o primeiro nome cogitado para ser o Humbert Humbert no “Lolita” de Stanley Kubrick foi justamente Errol Flynn, o qual fez o que pôde para empurrar Beverly Aadland como a protagonista. Não deu certo porque o próprio Kubrick se opôs, mas teria sido interessante ver na tela um caso que já tinha existência na vida real.

Cena de "A última aventura de Robin Hood" (2013),

Cena de “A última aventura de Robin Hood” (2013),

Dirigido pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland (a mesma de “Para sempre Alice”, 2014), o filme tem pelo menos dois pequenos trunfos: a agudez do diálogo e as interpretações de Kevin Kline, como Flynn, e Susan Sarandon, como a mãe da menor. Já a atriz Dakota Fanning, no importante papel de Beverly Aadland, não passa a emoção esperada.

Com relação ao diálogo, os roteiristas parecem se divertir, contrapondo a saudável ingenuidade de uma mocinha de menor à suposta experiência de um ator profissional cinquentão. É o que ocorre, por exemplo, naquela cena na cama quando, já tendo feito amor, Beverly quer mais e Flynn não consegue. “Esta é a monstruosidade no amor – justifica ele – que o desejo seja ilimitado e que o ato seja escravo do limite”. “Quem disse isso, William Shakespeare?” pergunta ela. “Sim, responde ele, como você adivinhou?” E ela, sincera: “Pareceu brega”. Flynn estava citando “Troilo e Créssida”, mas Beverly não era familiarizada com o inglês semi-arcaico do Bardo.

Para quem não sabe, Flynn também foi um destacado ator de teatro, só que, em final de vida, especialmente na fase Bervely, entre um escândalo e uma crise de alcoolismo, nem a ribalta lhe devolvia as glórias do passado. Sintomaticamente, seus últimos papéis na tela foram de alcoólatras, como se viu em “E agora brilha o sol (1957), “O gosto amargo da glória” (1958), e “Raízes do céu” (1958). Faleceu numa tarde fria de outubro de 1959.

Mas, convenhamos, no final dos anos cinquenta não era só Errol Flynn que caía. Aos poucos os grandes estúdios de Hollywood desabavam, um após o outro, como em série de dominó. Da Europa e de outras partes do mundo surgiam os grandes movimentos de vanguarda e os gostos dos espectadores, no mundo todo, se adaptavam a novos conceitos.

Para trás, muito para trás, ficou o audaz espadachim das matinées de domingo.

O ator americano Errol Flynn em foto antiga...

O ator americano Errol Flynn em foto antiga…