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LEITURAS DA QUARENTENA (5) GAYS CLÁSSICOS

9 maio

Sobre a questão da homossexualidade no cinema, tenho um amigo, da minha faixa etária, que costuma dizer que no cinema de hoje não há tantos gays assim. E completa: gays aos montes havia nos velhos tempos em que éramos crianças, ou nem tínhamos nascido.

A boutade de meu amigo vem da leitura de um livro que tenho nas mãos agora mesmo: “Bastidores de Hollywood – a influência exercida por gays e lésbicas no cinema 1910-1969” de William J. Mann, Editora Landscape, 2012.

De fato, é surpreendente a quantidade de homossexuais (homens e mulheres) que fizeram a história do cinema americano da primeira metade do século XX, desde o período mudo até os anos sessenta. Com certeza, muito maior e muito mais efetiva do que pensamos. Não apenas atores e atrizes, mas também produtores, diretores, roteiristas, fotógrafos, figurinistas, maquiadores, cenógrafos, etc. Isto para não falar dos periféricos, como, publicitários, empresários, colunistas sociais e jornalistas.

Em pesquisa exaustiva e abrangente, o autor investiga a vida e a obra de profissionais da área que deixaram suas marcas homo, na tela ou por trás das câmeras. Uns enrustidos, outros escancarados, são pessoas que deram sua contribuição para o que hoje chamamos de cinema clássico.

Na verdade, o autor não se detém nos nomes já conhecidos e prefere centrar-se naqueles casos mais obscuros e eventualmente mais influentes ou mais interessantes. Assim, vamos encontrar poucas linhas dedicadas a astros e estrelas cuja homossexualidade a imprensa já divulgou e vulgarizou, como Rock Hudson, Cary Grant, Randolph Scott, Montgomery Clift, James Dean, Marlon Brando, Anthony Perkins, Tab Hunter, Tyrone Power, Laurence Olivier, Charles Laughton, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Claudette Colbert, etc…

Em muitos casos atores ou atrizes coadjuvantes recebem, no livro, mais espaço que os principais, casos especiais, por exemplo, de Clifton Webb, Laird Cregar, Vincent Price, Farley Granger, John Dall, Tallulah Bankhead, e outros tantos.

Um capítulo inteiro é dedicado aos diretores, como se sabe, nem sempre nomes conhecidos do grande público. Em “Teorias autorais” vamos conhecer mais de perto a influência de sete cineastas gay, estigmatizados como “The magnificent seven” (“Os sete magníficos”), expressão que, ironicamente ou não, serviria de título para o faroeste de John Sturges (no Brasil: “Sete homens e um destino”, 1960). Na ordem citada são: George Cukor, James Whale, Edmund Goulding, Mitchell Leisen, Irving Rapper, Arthur Lubin e Charles Walters.

O primeiro da lista, Cukor, teve, como se sabe, uma importância enorme na formação do cinema e, dos anos 30 aos 60, rodou filmes que se tornaram clássicos incontestáveis. Não tratou do tema da homossexualidade, mas seus filmes trazem um clima gay que não escapa aos olhos mais sagazes. Pessoalmente era assumido e sua luxuosa mansão era conhecida como o reduto de farras homéricas onde a comunidade gay se sentia à vontade para todas as práticas. Cineasta de renome, Cukor não era podado pelos estúdios, já que seus filmes davam bilheteria e não incomodavam a censura.

E, claro, não deixam de ser referidos os cineastas que se mantiveram no armário, como Vincente Minnelli e Nicholas Ray, bissexuais discretos que esconderam seus casos o quanto puderam.

Ironicamente, ou não, uma das fases mais sexualmente libertinas da história do cinema foram os seus primórdios, anos vinte, mais ou menos até 1934, ano em que o “código de produção cinematográfica” virou lei e impôs uma (auto) censura mais ou menos rigorosa. Dessa fase primitiva conhecemos pouco, mas o livro destaca ídolos, tão famosos quanto Valentino, os atores J. Warren Kerrigan e Edward Everett Horton, galãs gay que nem a censura segurou.

Um capítulo sobre os anos trinta (“Garotas com imaginação”) é dedicado às lésbicas, a começar pela grande cineasta pioneira que foi a Dorothy Arzner. E aí vem o rol das atrizes: Ethel Barrymore, Judith Anderson, Janet Gaynor, Kay Francis, e, claro, Garbo e Dietrich. Um caso particular analisado é o da atriz negra Hattie McDonald (a jovem empregada de Vivien Leigh em “…E o vento levou”).

Naturalmente, a imposição do Código Hays de Censura – vigente de 1934 a 1964 – arrefeceu um pouco os ânimos homossexuais. Se não nos bastidores, pelo menos nas telas. Num tempo em que os beijos cinematográficos eram cronometrados e uma cama de casal era uma imagem obscena, evidentemente se redobravam os cuidados para não se sugerir intimidades entre sexos iguais.

O que não impediu certas ironias curiosas. Por exemplo, nos anos cinquenta o censor que, em Hollywood, determinava o que podia ou não podia aparecer nas telas era um jovem e charmoso general do exército chamado Frank McCarthy, que – todo mundo sabia – era um discreto mas ativo gay. (Nada a ver com o senador McCarthy do anti-comunismo).

Outra ironia curiosa. Nos mesmos anos cinquenta, o produtor gay Ross Hunter era o mais conservador da época, formal e tematicamente falando. Indo no sentido contrário da nova geração de cineastas realistas e violentos que estava surgindo na época, (Kubrick, Aldrich, Brooks, Kramer, Pekimpah, etc), Hunter primava por um cinema “clássico”, limpo, delicado e inexplícito, geralmente melodramas luxuosos da Universal, dirigidos pelo sofisticado Douglas Sirk, e interpretados – com ou sem ironia – por Rock Hudson.

Não fica de fora do livro o lado porventura desumano e cruel da prática homossexual na Meca do Cinema. No capítulo sobre os empresários bissexuais, por exemplo, o autor cita um longo, detalhado e pungente testemunho de um de seus depoentes sobre os rapazinhos que, vindos do Interior tentar a sorte em Hollywood, eram usados sexualmente por uma rede de empresários, um passando para o outro como um favor de amigo, e, no final das contas, sendo descartados como lixo.

De qualquer forma, não custa dizer que “Bastidores de Hollywood” não é um livro dirigido apenas a homossexuais ou simpatizantes. Em que pese seu viés particular, é um livro sobre a história do cinema clássico, e neste aspecto, é um livro do interesse de todo e qualquer estudioso da sétima arte. Seu capítulo sobre a melancólica queda dos grandes estúdios nos anos 60/70, por exemplo, é, independente de inclinações sexuais, uma preciosa página de história. Como, aliás, o é o livro inteiro.

Recomendo.

INDIANARA

10 dez

Nenhum país do mundo mata mais LGBTs que o Brasil. Segundo as estatísticas, só no ano de 2018, foram 320 (trezentos e vinte) assassinatos, quase um por dia. Situação vergonhosa que deve piorar, se considerarmos a linha visivelmente homofóbica e armamentista do governo em vigência.

Daí a importância de um filme como Indianara (2019), exibido (e premiado) entre nós na décima quarta versão do Fest-Aruanda, festival anual de cinema paraibano.  Mas não só daí.

Bem roteirizado, bem montado e bem dirigido, o documentário da dupla Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel acompanha o dia a dia dessa líder transgênero Indianara Siqueira que, com heroísmo admirável, mantém, no Rio de Janeiro, uma espécie de ONG para auxiliar toda uma população LGBT a sobreviver ao meio do preconceito e da violência.

A chamada “Casa Nem” acolhe e abriga prostitutas, gays, lésbicas, trans e bissexuais, gente sem recursos para se manter por conta própria ou, se for o caso, para progredir e profissionalizar-se. Muitos deles foram expulsos de seus lares – ou deles fugiram por não aguentar maus tratos – e, não fosse Indianara e seu projeto filantrópico – estariam nas ruas, em condição de mendicância.

Natural de Paranaguá, Paraná, a jovem Indianara saiu de casa aos dezoito anos de idade para fazer a vida e a vida não foi fácil. Sem moralismos, abraçou a profissão de prostituta, que a levou a Santos e de lá ao Rio.

Mas, atenção, o filme não é – nem pretende ser – uma biografia. Mais modesto, ele apenas registra cerca de dois anos (de 2016 a 2018) na vida de Indianara, no caso, misturando momentos privados do seu cotidiano com o esposo Maurício e cenas públicas quando a ativista trans, nas ruas e às vezes de peito aberto (literalmente) enfrenta multidões, polícia e autoridades, com seu inflamado discurso libertário e demolidor de hipocrisias. Tanto é assim que nem direita, nem esquerda, escapam de seus ataques. Seu desentendimento com o PSOL, por exemplo, vem à tona com o mesmo furor com que denuncia o falso moralismo da direita.

Esses dois anos de filmagens coincidiram com o governo Temer e, inevitavelmente, estão registrados os protestos de rua que marcaram essa fase da história brasileira. Como grita Indianara em ocasião de desabafo: “não chamem Temer de filho da puta. Putas somos nós, e ele não é nosso filho. Ele é filho de Cunha”. No meio desses protestos, dois momentos são particularmente significativos, pela sua desoladora disforia: a ocasião do assassinato de Marielle, e a vitória nas urnas de Bolsonaro – duas “mortes” recebidas pelo grupo LGBT com profunda tristeza.

E por falar em mortes, a primeira cena do filme já se dá no cemitério, onde Indianara e o pessoal da “Casa Nem” sepulta o corpo de uma amiga LGBT: em dado momento, com um travelling por sobre os túmulos, ouve-se a voz da protagonista, nos lembrando que os vermes não distinguirão entre trans, bis, homos e heteros…

O filme não é, porém, um amontoado de desolações. Ele tem seus momentos de alegria e descontração – por exemplo, nas brincadeiras com os amigos, nas farras, e nos instantes mais privados em que Indianara troca miudezas com o esposo, os dois deitados na sua cama de casal. Dois auges dessa euforia são a comemoração do aniversário da protagonista em via pública e o ritual do seu casamento com Maurício.

Em que pese a cena do anúncio da vitória de um presidente homofóbico, vista na televisão da “Casa Nem” pelos seus residentes em pranto, em que pese esta cena – uma das mais emblemáticas do filme, por apontar para um futuro incerto e temeroso, – acho que Indianara mesmo assim, nos deixa com alguma esperança. Se não for outra, a que brota da força, determinação, carisma, charme e beleza de sua protagonista.

Com sua aisance no andar, seus olhos amendoados, seus lábios grossos e seus seios generosos, a mim, ela (presente no Fest-Aruanda) me soou como uma espécie de Anita Ekberg brasileira. Torçamos para que um dia ela possa banhar-se livremente na sua Fontana di Trevi sem ser molestada. O seu Mastroianni ela já tem.

Indianara concorreu à “Palma queer” no Festival de Cannes deste ano, onde, segundo consta, foi ovacionado em três sessões especiais. Esperemos que o sucesso em festivais de cinema conduza o filme a um público maior, se possível, aos circuitos comerciais. Os parentes e amigos dos 320 LGBTs assassinados o ano passado, com certeza, agradeceriam.

O CLUBE DOS CANIBAIS

30 out

Quando criança eu sonhava em poder um dia assistir a filmes impróprios até 18 anos. Hoje sonho em ver filmes de censura livre…

“Era uma vez em Hollywood”, “Bacurau”, “Coringa”, “Pássaros de verão”… Meu Deus, quanta sanguinolência!

Pois, como se não bastasse tanto sangue espirrado na minha cara, fiz a ousadia de ir ver este “O clube dos canibais” (Guto Parente, 2018), que no título já diz tudo.

Em rica mansão, numa praia paradisíaca do Ceará, reside esse super-empresário, dono de uma companhia de seguros, que junto com a sua jovem e bela esposa costuma matar, cozer e comer os seus empregados.

Na verdade, não é só o casal Otávio e Gilda que usa dessa prática. Ele, Otávio, faz parte do tal clube do título do filme. Trata-se de uma confraria secreta, em que todos são membros da elite, com o objetivo de limpar a sociedade dessa “gentinha pobre e sem futuro”, e uma maneira efetiva e deliciosa de fazê-lo é matando e comendo.

Pois, o nosso protagonista Otávio (Tavinho Teixeira) faz isso sempre, até fora da atividade do clube, no caso, seguindo um certo ritual: a sua esposa Gilda (Ana Luiza Rios) conquista o empregado da casa, leva-o para a cama e, enquanto fazem amor, o marido, escondido, espia a cena e se prepara para o golpe. No exato momento do gozo do empregado, ele o ataca por trás e o mata com um golpe certeiro de machado bem no meio do crânio. É sangue pra todo lado.

A cena seguinte é o lauto jantar, onde o casal se delicia com a carne do empregado, devidamente assada com requintes de gourmet.

A elite brasileira comendo (literalmente) gente da classe pobre – isto, obviamente, é uma grande metáfora para a situação atual do país, e o filme, em vários níveis, está repleto de indícios comprobatórios.

Cheio dos moralismos mais conservadores, o discurso do presidente do clube, proferido com eloquência feroz em uma das reuniões dos ilustres canibais, é um exemplo ostensivo dessa metáfora diegética, como também do seu implícito grau de hipocrisia. Sem coincidência, além de empresário, o tal presidente do clube também exerce a profissão de político.

Indicia esse grau de hipocrisia, o turning point que vai dar uma direção diferente à situação estabelecida. Numa festa local, Gilda descobre o presidente do clube em relação anal passiva com um dos empregados da casa. Ela o vê e é vista por ele, e isto vai pôr em perigo o casal e levar o filme para um desenlace ainda mais drástico e mais sanguinário do que o que já se tem.

Assistindo a “O clube dos canibais” não me saiu da cabeça um famoso ensaio da literatura inglesa do século XIII que também trata de um – chamemo-lo assim – “canibalismo socialmente corretivo”, ou seja, que tem o fito de resolver problemas da sociedade exterminando a pobreza, através do extermínio dos pobres.

Acho que meu leitor, a essa altura, já matou a charada. Sim, refiro-me ao satírico e brilhante ensaio do escritor Jonathan Swift “A modest proposal” (1729).

A proposta modesta de Swift sugeria, justamente, que, em vista da grande miséria que assolava o país na época, a aristocracia começasse a comer as crianças pobres, até um ponto em que a pobreza fosse eliminada. Segundo Swift, os pobres conscientes da propriedade da medida, eles próprios ofereceriam seus filhos para o banquete dos ricos.

Não resisto em citar um trecho da sátira de Swift, que na época chocou meio mundo, até ser entendida como denúncia.

“Uma criança de um ano de idade, sadia, é um alimento delicioso e nutritivo, se cozido, torrado, assado ou guisado; e não tenho dúvidas de que pode ser servido num fricassé, ou num ragu”.

Antes de redigir esta matéria, li comentários críticos de “O clube dos canibais”, e achei estranho ninguém fazer referência ao texto de Swift, no meu entender – eu tinha certeza – um intertexto óbvio do filme.

Em entrevista à imprensa, falando de suas influências, o cineasta Guto Parente menciona os filmes de John Carpenter, Wes Craven, David Cronenberg, e outros praticantes do subgênero “gore”, e destaca o lado “sátira social” de seu filme, porém, não faz qualquer referência a Swift, demonstrando claramente desconhecê-lo.

Aparentemente estamos diante de uma curiosa coincidência de enfoques, separada por três séculos. Que seja.