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A noite púrpura do paraíso

13 set

Tenho um amigo, Limeira, que é louco por cinema, vê um filme atrás do outro, se possível dez num dia, e, no entanto, estou em dúvida se posso chamá-lo de cinéfilo. Vou contar o caso, e vocês decidem.

Não o vejo sempre, mas, dia desses, nos encontramos e conversamos um bocado sobre cinema; ele, que fala mais que eu, foi logo me dizendo dos filmes que tem visto.

E qual foi o último que viu? perguntei.

E ele: Não lembro o nome, mas adorei aquela cena em que a Scarlett O´Hara está desnutrida e doente e Shane a arranca da cama e a põe na garupa do seu cavalo e vai pedir ajuda a Dr Jivago, que, irresponsavelmente, nada faz porque, na ocasião, está de transa com a bela Ilsa Lund, aquela que era casada com o Charles Foster Kane.

Se você não entendeu, não se preocupe: eu também não entendo quase nada que meu amigo Limeira fala.

Vivien Leigh como Scarlett O´Ohara.

Só tentando desembaralhar: Scarlett, como vocês lembram, é a protagonista de “E o vento levou”, filme de 1939, enquanto que Shane é o herói de “Os brutos também amam” (1953). Já “Dr Jivago” é um filme de 1965 sobre a revolução russa, onde não poderia estar Ilsa Lund, a heroína de “Casablanca” (1942), a qual nem conheceu o magnata da imprensa americana, chamado por Orson Welles, de “Cidadão Kane” (1941).

Tentando ordenar a memória fílmica de meu amigo Limeira, perguntei se ele sabia que “Um corpo que cai” estava sendo considerado o melhor filme do mundo pela crítica internacional. Ele disse que não sabia, mas que adorava esse filme. Não é aquele, de suspense, – perguntou – em que Elizabeth Taylor pula daquela torre alta, depois de saber que seu noivo, Montgomery Clift, tinha assassinado, afogada, a Shelley Winters?

Fi-lo ver que estava falando de outro filme, “Um lugar ao sol”, que nem torre nem pulo de torre tinha, e lembrei que a atriz de “Um corpo que cai” era Kim Novak. E ele emendou: ah, é mesmo. Então é aquele em que ela dança com William Holden, às margens do rio, numa noite de festa, mas, aí, o vilão do Robert Mitchum, que era vidrado em Kim, não gosta da dança e jura matar os dois, não sem antes tatuar nos dedos a palavra “hate” que significa ´ódio´…

Kim Novak

Tentei barrá-lo, mas ele, entusiasmado, continuou:

Ainda hoje eu vibro com aquela cena em que Mitchum estrangula Kim, naquele parque de diversão, a gente vendo o seu corpo desabar por cima da gente, até a grama, tudo mostrado pelos óculos dela, que tinham caído no chão.

E foi adiante:

Depois Mitchum foge, de trem, para uma cidadezinha do interior, para se juntar a um bando de malfeitores que o esperavam com o intento de matar o  Xerife, Gary Cooper. Com a ajuda da mulher, Rhonda Fleming, o xerife vence a querela e o episódio todo fica conhecido como ´O tiroteio no OK Curral´.

A essa altura, dei-me conta de que não adiantava consertar e que talvez fosse melhor mesmo deixar que meu amigo Limeira prosseguisse em suas viagens cinematográficas. Para ser franco, o nome dele é outro, e o chamo aqui de “Limeira” em associação ao nosso poeta do absurdo, Zé Limeira. Aliás, sua desorganização mnemônica, e talvez mental, pode ser surrealista, mas, confesso que, em certos momentos, admiro seus relatos, no mínimo, criativos.

Robert Mitchum

Gostei, por exemplo, quando ele me resumiu o roteiro de… Bem, vejamos.

Com o mesmo entusiasmo de antes, foi me contando este novo enredo: o filme agora se passa numa cidadezinha da Itália e o garotinho do lugar é ajudante do projecionista. O povo da cidade adora cinema, e a sala está sempre lotada. Pois uma certa noite, houve uma confusão danada porque – não se sabe como – o personagem do filme que estava sendo exibido, um galã hollywoodiano, simplesmente saiu da tela e foi namorar uma espectadora, uma mulherzinha pobre e desajeitada que trabalhava numa lanchonete, coitada, casada com um cara rabugento e mulherengo que só fazia explorá-la. Segundo meu amigo Limeira, o filme era dirigido por François Truffaut e, o tempo todo, a gente não assistia só ao filme; assistia também às filmagens sendo feitas na hora. Era muito interessante – disse ele – poder ver a câmera e os atores (ele lembrava bem a deslumbrante Jacqueline Bisset) em ação, e, afinal, no fundo, era uma aula de cinema em que ele próprio aprendeu, por exemplo, que certas cenas noturnas, em cinema, são filmadas durante o dia, com um filtro colocado na lente, para dar a impressão de estarmos à noite.

Quando lhe perguntei que filme era esse, ele disse que não lembrava bem o título, mas que era alguma coisa como… “A noite púrpura do paraíso”.

Jacqueline Bisset

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O espectador na tela

29 nov

Sem espectador, não há filme. Foi essa lei da recepção que os pioneiros da sétima arte sacaram e, seguindo-a, deram ao cinema do século a cara que ele tem, a de uma arte popular. Dispendiosa, difícil de fazer, mas, popular. Mercadológica, a lei também é semiótica, no sentido em que uma mensagem precisa de receptor para ser mensagem.

Tão importante é o espectador no cinema que já ganhou, há muito, um lugar na tela. Sim, se revisarmos a história da sétima arte, vamos nos deparar com um número considerável de filmes que procederam a uma representação da figura do espectador.

A maneira mais óbvia de representar o espectador na tela é quando o roteiro do filme constroi uma cena em que um personagem – ou a mais de um – está assistindo, em uma sala de projeção, a um filme. Cria-se aí a situação chamada de “o filme dentro do filme” (`the movie within the movie´).

Ninguém lembra que haja "filme dentro do filme" em "Um lugar ao sol"

Ninguém lembra que haja “filme dentro do filme” em “Um lugar ao sol”

O filme mostrado dentro do filme pode ser fictício ou ter existência real na história do cinema, porém, para nós, o que aqui interessa é que o espectador de carne e osso, que assiste aos dois, sente-se, com razão, representado na tela.

Muitos filmes fizeram isso, tantos que a gente tende a esquecer que fizeram. Querem ver? Quem é que lembra que há cenas de “filme dentro do filme” em: “Desencanto” (David Lean, 1945), em “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951) em “Bonnie e Clyde” (1966), em “A última sessão de cinema” (Peter Bogdanovich, 1971) e em “Verão de 42” (Robert Mulligan, 1971)?

Naqueles três primeiros, ´o filme dentro do filme´ é fictício, digo, inexistente na história do cinema; já nos dois últimos pode muito bem ser localizado nessa história. No filme de Mulligan, o filme dentro do filme é “A estranha passageira” (Irving Rapper, 1942), enquanto que no de Bogdanovich são dois, exibidos em dois momentos diferentes: “O pai da noiva” (Vincente Minnelli, 1952) e “Rio Vermelho” (Howard Hawks, 1948).

"Verão de 42", em imagem de pôster.

“Verão de 42”, em imagem de pôster.

Em todos esse casos, as idas a cinema são casuais, e nenhum dos personagens/espectadores se define como cinéfilo. Mas, se o protagonista é um viciado em cinema, naturalmente, a identificação com o espectador de carne e osso tende a aumentar consideravelmente, caso, por exemplo, da dona de casa Cecília em “A rosa púrpura do Cairo” (Woody Allen, 1985), onde a personagem, de tanto frequentar a mesma casa de espetáculo, termina por ´arrancar´ da tela o personagem do filme a que assiste, que, aliás, tem o mesmo título do filme a que nós assistimos.

Se multiplicarmos o número de frequentadores, multiplicaremos também a identificação. Os dois exemplos mais ostensivos são do mesmo ano, 1989, e do mesmo país, Itália. Refiro-me a “Splendor” (Ettore Scola) e “Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore).

Uma maneira menos óbvia e nem por isso menos efetiva de representar o espectador na tela consiste em incluir na estória do filme uma situação diegética em que um personagem – ou mais de um – é posto na posição de testemunha ocular anônimo, digo, na posição de alguém que, de certa distância, observa algo que acontece, sem ser visto. O que ele observa é um episódio da estória narrada, mas isso cria uma inevitável similitude com a posição do espectador de cinema.

É possível que o protótipo desta situação esteja em “Janela indiscreta” (Alfred Hitchcock, 1954), onde um jornalista de perna engessada espia, da janela de seu apartamento, o cotidiano dos seus vizinhos, e o faz praticamente durante o tempo inteiro da projeção. Não sem razão o filme de Hitchcock tem sido dado pela crítica como uma metáfora do cinema, cuja pulsão natural parece ser, justamente, a obsessão escópica, o desejo incontido de ver, ou, em termos freudianos, o voyeurismo.

L.B. Jeffries, o voyeur de "Janela Indiscreta".

L.B. Jeffries, o voyeur de “Janela Indiscreta”.

Sim, a tela é uma janela por onde espiamos a vida alheia, porém, para se representar ficcionalmente o espectador no cinema o recurso da janela não é obrigatório. Como posto, com ou sem molduras, basta ter-se no filme um personagem que, de certa distância, observa algo acontecendo. E, de novo, os exemplos são tantos que não teríamos espaço para recobri-los, e me limito a citar três casos que, espero, sirva de ilustração a todos.

Quando você reassistir a “O anjo azul” (1930) preste atenção àquele palhaço que, de certa distância e com olhar melancólico, acompanha tudo o que, no cabaré do título, se passa com o desafortunado Professor Rath, em seu dolorido caso com a dançarina Lola-Lola. Quem é esse palhaço não se sabe, mas, para nós, espectadores, ele é a testemunha ocular do drama de Rath e, assim, nos representa.

O mesmo se diga do garoto que vê Shane chegar ao rancho de seus pais em “Os brutos também amam” (1953), e praticamente não tira mais os olhos dele, até o fim do filme. Naquela cena da luta decisiva no bar, com o capataz dos latifundiários, notem como vemos tudo pelos olhos do garoto, escondido em algum vão do estabelecimento. É verdade que essa coincidência de pontos de vista nos infantiliza, a nós espectadores, mas esse efeito parece ter sido proposital, como homenagem a um gênero, o faroeste, que afinal começou “infantil”.

Cecília, a espectadora que entrou na tela...

Cecília, a espectadora que entrou na tela…

Meu terceiro exemplo é com “Testemunha de acusação” (Billy Wilder, 1958), filme que mostra um júri emocionante, onde um famoso advogado defende um réu com poucas chances de ser absolvido. Como a sessão tem plateia, isso já propicia uma analogia com a sala de projeção, mas no filme de Billy Wilder há mais: no meio dessa plateia, uma mocinha emociona-se constantemente com o desenrolar do processo, e a câmera tem o cuidado de enfocar o seu rosto espantado, depois de cada dramático desdobramento do julgamento. Claro, as emoções dela são as mesmas que sentimos, e o seu rosto aflito funciona para nós como um espelho.

Observando esses personagens a observar, nos identificamos com eles e, assim, podemos sentir que os cineastas não nos quiseram apenas nas poltronas do cinema: reservaram para nós um lugar na tela.

No já citado “A rosa púrpura do Cairo” há uma instância em que a espectadora Cecília, convidada pelo seu namorado fílmico, literalmente adentra a tela cinematográfica e lá vai viver por um tempo mágico. Não precisamos de tamanha magia para afirmar que o cinema opera uma representação ficcional do espectador, mais visível em uns casos, menos em outros. Pela assiduidade e pela consequência, os dois modelos de situação diegética aqui descritos (o do “filme dentro do filme” e o da “testemunha ocular anônima”) nos bastam para ilustrar a contento um fato que não é só recepcional, mas também sociológico.

Marlene Dietrich e Charles Laughton em "Testemunha de Acusação" (1958)

Marlene Dietrich e Charles Laughton em “Testemunha de Acusação” (1958)

Hud, o “car boy”

11 mar

Foi nos anos 1950 que o filme faroeste amadureceu, e tanto que, no processo, gerou uma espécie de parente agregado: o filme que tinha o mesmo cenário, o Oeste, mas o tempo era outro; era o presente, contemporâneo às filmagens. Nesse novo modelo de ´western´, o cavalo cedeu lugar ao automóvel, e o ´mocinho´, subtraído de seu mítico heroísmo de cowboy – bem que poderia ser chamado de ´car boy´.

Não sei dizer quem foi, na cronologia, o primeiro “parente agregado” do faroeste, mas, lembro pelo menos três filmes nesse modelo: “Assim caminha a humanidade” (George Stevens, 1956), “Os desajustados” (John Huston, 1960) e “Hud, o indomado” (Martin Ritt, 1963). hud poster Sobre os dois primeiros já escrevi alhures, e aqui me atenho a “Hud, o indomado”, recentemente circulando na programação da televisão paga, um filme de boa qualidade que teve cinco indicações ao Oscar e levou três.

Nessa fazenda de gado, no Oeste americano de hoje em dia (ou seja, de 1963) vivem três homens de faixas etárias diferentes: o proprietário e idoso Homer, seu filho Hud e o neto adolescente Lon. De pais falecidos, este último é sobrinho de Hud, de forma que a única presença feminina na casa fica por conta da empregada, a simpática e atraente Alma Brown.

O velho Homer representa o passado e todos os seus valores; nele o espectador pode ler claramente o perfil de todos os rancheiros ou criadores de gado dos velhos faroestes e, por tabela, a bravura dos que conquistaram o Oeste bravio.

Já no cínico e inescrupuloso Hud, seu filho, ao contrário, divisamos o novo western man, – o nosso “car boy” – aquele que dirige seu cadillac em alta velocidade, que namora todas as mulheres casadas do lugar, que enche a cara nos prostíbulos da cidade, e que pensa em vender a fazenda para escavação de petróleo, algo bem mais rentável do que a atividade pecuária. É o novo tempo chegando, com sua nova moral, ou seria mais apropriado dizer, falta de moral.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Entre os dois personagens, e também entre os dois modelos éticos, se equilibra o adolescente Lon, aquele a quem a câmera concede mais tempo de tela. Para dramatizar o contraste entre passado digno e presente corrupto, dois lances de roteiro são básicos.

O primeiro é a doença – em si mesmo simbólica – que acomete o gado. Quando morre a primeira rês, Hud sugere ao pai que venda a manada toda e repasse o problema para outrem, o que, naturalmente, deixa o genitor indignado – e se for o caso, também o espectador – com a sugestão de contaminar o gado no país inteiro, meramente por conta do lucro. Ponto dramático que completa as caracterizações dos personagens e define o caminho actancial da narrativa, o segundo lance de roteiro a que me refiro é a cena em que Hud tenta estuprar a emprega, e só não o faz porque o sobrinho interfere.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Trata-se, evidentemente, de um filme contundente, só possível depois de estar fora de validade o Código Hays de censura, aliás, extinto para sempre no ano seguinte, 1964. Seu diretor, Martin Ritt, era um dos jovens novatos, como Sidney Lumet ou Sam Peckimpah, com vontade explícita de quebrar barreiras e impor novos conceitos, estéticos e de outra ordem. Por exemplo, numa data em que a cor já era praxe, o seu preto e branco impressiona, especialmente pelos criativos dotes fotográficos do grande mestre James Wong Howe, sem coincidência, um dos três Oscars recebidos.

Um comentário obrigatório sobre o filme de Martin Ritt diz respeito ao elenco. No papel do imoral e “indomado” Hud, Paul Newman está ótimo, e melhor ainda está a sempre soberba Patricia Neal, como a empregada Alma, vítima de suas garras, mas não de todo inocente: quando ela decide ir embora do rancho, uma alegação é a de que não resistiria por muito tempo aos sedutores ombros largos de Hud.

No terraço: avô, neto e filho...

No terraço: avô, neto e filho…

Mas, quero me referir a dois atores cujas simples presenças trazem, para o filme, significações adicionais. Sim, para o espectador da época (e se for o caso, para o de hoje também) Melvyn Douglas, como o velho rancheiro deprimido com o seu legado carnal, era o símbolo da Hollywood clássica, anos 30 e 40, agora decadente como a vida no Oeste. (Lembram dele como o galanteador de Greta Garbo em “Ninotchka”, 1939?).

E, do mesmo modo, Brandon De Wilde simbolizava o auge do gênero faroeste, aquele adolescente que todo mundo lembrava como o garotinho amigo de Shane em “Os brutos também amam” (1953): e sintam a ironia intertextual, na infância seu amigo era não apenas um herói, mas a encarnação de todos os mitos do faroeste; agora, na adolescência, seu “amigo” não passa de um cínico e devasso que enterra o Oeste, como o velho Homer foi obrigado a, literalmente, enterrar uma manada inteira, contaminada por uma doença – repito – simbólica em vários sentidos.

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro...

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro…

Aos amigos, com afeto

17 jul

Não sei se vocês lembram, ou sabem, mas este domingo, dia 20 de julho, é o Dia do Amigo. Para celebrar a data, repasso aqui filmes que tiveram a amizade como tema.

Vamos começar com crianças? O primeiro dentro desta faixa etária que me ocorre é um filme francês, o comovente “Brinquedo proibido” (Jeux enterdits, 1952), onde duas crianças – um menino e uma menina – matam o tempo envolvidos num jogo muito triste. O outro, também muito tocante, é o americano “Conta comigo” (“Stand by me”, 1986) em que um grupo de garotos adentra a floresta em busca de aventura e amadurece amargamente na jornada.

Conta comigo (Stand by me, 1986)

Conta comigo (Stand by me, 1986)

A amizade da criança também pode ser por um adulto, caso para o qual cito três filmes. Se você prestar bem atenção, “Os brutos também amam” (“Shane, 1953) é um exemplo apropriado, tanto assim que, na Alemanha, ele foi chamado de “Meu grande amigo Shane” (“Mein grosser Freund Shane”). Um segundo exemplo é o poético “Sempre aos domingos” (“Les dimanches de Ville D´Avray”, 1962), filme em que uma amizade brota entre essa pequena órfã e esse piloto desiludido, dois solitários em busca de afeto. E o meu terceiro exemplo nesse modelo, claro, tinha que ser “Cinema Paradiso” (1989), a estória da amizade de vida inteira entre o pirralho Totó e o projecionista do cinema Alfredo.

Sempre aos domingos: a amizade entre um adulto e uma criança

Sempre aos domingos: a amizade entre um adulto e uma criança

Aumentando um pouco a idade dos protagonistas, abro espaço para os filmes que trataram da amizade juvenil. Um dos mais famosos é, com certeza, “Juventude transviada” (“Rebel without a cause”, 1955): quem esquece a cena de James Dean chorando sobre o corpo inerte de Sal Mineo?

Com o que passo aos adultos.

No terreno feminino, me ocorrem dois filmes marcantes, cada um para a sua década: “Júlia” (1977), estória verídica de duas mulheres destemidas que, cada uma a seu modo, combateram a opressão política; e “Tomates verdes fritos” (1991) onde se enfocam, na verdade, duas relações de amizade em dois tempos, uma no presente, entre uma senhora idosa e uma mulher de meia idade, e outra, no passado, entre duas jovens.

Tomates verdes fritos: duas estórias de amizade, em dois tempos.

Tomates verdes fritos: duas estórias de amizade, em dois tempos.

A amizade entre homens é, pelos meus cálculos, a mais recorrente no cinema. Ela já estava nos policiais e comédias da era muda, e esteve, quase sempre, nos grandes westerns. Eis os filmes que me ocorrem no momento em que redijo este texto.

No policial “Anjos de cara suja” (1938) dois ex-amigos de infância, um gangster e um padre, devem lidar com a disparidade profissional que o acaso lhes deu, e, como for possível, administrar as diferenças. Por falar em diferenças e suas superações, há também as raciais e as culturais. Vejam os casos de “Acorrentados” (1958), onde um homem branco e um homem negro se tornam amigos apesar dos grilhões e das cores; e o de “Dersu Uzala” (1975), estória que liga um cavalheiro civilizado a um homem rudimentar, com essencial troca de aprendizados.

O xerife Wyatt Earp e dentista Doc Holiday em "Paixão dos fortes" (1946)

O xerife Wyatt Earp e o dentista Doc Holiday em “Paixão dos fortes” (1946)

No caso do faroeste, ninguém pode deixar de fora a amizade entre o xerife Wyatt Earp e o forasteiro e tuberculoso Doc Holiday, contada e recontada em tantos filmes, dos quais destaco dois: “Paixão dos fortes” (“My Darling Clementine”, 1946) e “Sem lei e sem alma” (“Gunfight at the OK Corral”, 1957). Já o faroeste que mais celebra a amizade masculina deve ser “Butch Cassidy” (1969) que, no título original tem os nomes dos dois amigos “Butch Cassidy and the Sundance Kid”, feitos, vocês lembram, por Paul Newman e Robert Redford.

A celebração da amizade masculina no Oeste: "Butch Cassidy and the Sundance Kid".

A celebração da amizade masculina no Oeste: “Butch Cassidy and the Sundance Kid”.

Saindo do western, outro grande filme sobre a amizade entre homens que tem os nomes dos amigos no título é o belo drama francês, de François Truffaut, “Jules et Jim” (1962). Lembremos ainda filmes que, ao meio de suas tramas, abordam a relação entre grandes amigos: “A um passo da eternidade” (1953), “Benhur” (1959), “Zorba, o grego” (1964) e “Um sonho de liberdade” (1994). Mas esta matéria ficaria lacunosa se eu não citasse o magnífico “Perdidos na noite” (“Midnight cowboy”, 1969), do qual, à guisa de ênfase, recordo a cena final, uma das mais tocantes que o cinema já concebeu: aquela dentro do ônibus que chega a Miami, com os dois amigos sentados lado a lado, embora só um veja a paisagem…

"Midnight Cowboy" ("Perdidos na noite", 1968, de John Schlessinger)

“Midnight Cowboy” (“Perdidos na noite”, 1968, de John Schlessinger)

Misturando os gêneros, e para não esquecer os idosos, que tal “Conduzindo Miss Daisy”, a comovente amizade entre o motorista negro e sua patroa judia? Lembram da cena final, o toque de mãos?

Meu último exemplo, já que o post já está longo, refere aquela situação mista em que um grupo de homens e mulheres se encontra em local e tempo especiais, casos de: “O reencontro” (1983), “O declínio do império americano” (1986) e o recente filme brasileiro “Entre nós” (2013).

Devo estar esquecendo grandes filmes sobre o tema da amizade. O que é bom, para que o leitor, por conta própria, participe da listagem.

Em tempo: este post é dedicado a todos os meus amigos…  com gratidão ao amigo e conterrâneo Ednaldo da Silva, que me lembrou a data, e com carinho especial,  a Silvino Espínola, no momento hospitalizado.

Cena de "Conduzindo Miss Daisy" - a amizade na terceira idade.

Cena de “Conduzindo Miss Daisy” – a amizade na terceira idade.

Quase “Shane”

14 nov

Lembremos a cena. Estamos no velho Oeste selvagem e a câmera nos mostra, numa paisagem desolada, um rancho modesto, com um pequeno lago onde um garoto brinca. Lá no fundo se veem as montanhas, de onde parece vir esse forasteiro que se aproxima, misterioso. Mas vamos além da cena: adiantemos que o forasteiro vai se hospedar no rancho por algum tempo; que vai ajudar no conflito com os outros habitantes do território; que o garoto vai tornar-se seu admirador e que a mãe do garoto vai ter uma queda pelo forasteiro, visivelmente correspondida.

Pela descrição, tenho certeza que você, leitor, está pensando em “Os brutos também amam” (“Shane”, George Stevens, 1953). Pois bem, até que poderia ser… se não se tratasse de um outro faroeste, por sinal, do mesmo ano, também colorido e também com trilha musical de fundo.

O forasteiro que chega no rancho

O forasteiro que chega no rancho

Estou falando de “Caminhos ásperos” (John Farrow, 1953), cujo título original – mais uma coincidência – também é uma única palavra, o nome do protagonista: “Hondo”.

Capciosamente, fiz a descrição acima de forma a que fossem levantados somente os pontos que os dois filmes têm em comum. Evidentemente, a partir daí as igualdades desaparecem. O que não nos impede de prosseguirmos com a comparação, agora de forma contrastiva.

Primeiro dado diferenciador: o forasteiro que se aproxima do rancho (John Wayne, e não Alan Ladd) não vem a cavalo, mas a pé, pois seu cavalo fora baleado em conflito pré-tela. Em sua companhia vem um cachorro, ao passo que em “Os brutos” o cachorro existente é da casa, companheiro do garoto Joey nos momentos mais críticos. Os inimigos do rancho não são os latifundiários do gado, e sim, os índios Apache. Diferentemente do enigmático personagem de Shane, o nosso Hondo exibe uma vida sem segredos: passou parte de sua existência entre os índios, foi casado com uma Apache, e hoje pertence à cavalaria dos Estados Unidos, que combate os mesmos índios.  E, um dado mais sintomático: em “Caminhos ásperos”, o dono da casa está ausente, desaparecido há algum tempo.

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Pois é, se porventura uma frustração do espectador em “Os brutos” consiste em que Shane, o forasteiro amado por todos, não fica com a esposa do rancheiro, “Caminhos ásperos” parece resolver o problema: a ausência do marido e, mais tarde, a sua morte, e mais que isso, a descoberta de seu mau caráter, possibilitam a união amorosa que não fora possível no filme de George Stevens. De tal modo que, em termos de desenlace, se “Os brutos” tem um final feliz parcial (a querela com os latifundiários do gado foi vencida, mas Shane vai embora sozinho…), em “Caminhos” a felicidade final é plena: os apaches foram dominados e o casal, Hondo e Angie (Geraldine Page) ficam juntos para sempre, o garoto sendo levado pelas circunstância a abraçar esse novo pai.

Fiz o cotejo entre “Hondo” e “Shane” (mantenhamos os títulos originais) com alguma culpa, pois, o filme de John Farrow não precisa de comparações: é um bom filme em si mesmo. Evidentemente, nunca teve a fama de seu semelhante, e o próprio John Wayne alegava que, sendo do mesmo ano e tão “parecido”, “Shane” atrapalhou a carreira crítica e recepcional do seu filme. Eu mesmo não o conhecia e só cheguei a ele por indicação de amigos cinéfilos.

Os inimigos agora são os índios Apache

Os inimigos agora são os índios Apache

Wayne deve ter razão, mas, vale lembrar que, com o passar do tempo, o filme reabilitou-se junto à crítica, pelo menos isso. Com efeito, “Hondo” tem méritos inegáveis que podem colocá-lo entre os bons westerns da sua década. Narrado com fluência e boas interpretações, amarra bem os conceitos de ´filme de amor´ e ´bang-bang´. Um ponto seu extremamente favorável é a fuga ao maniqueísmo, e o melhor exemplo está na construção do personagem-título, ao mesmo tempo grosseiro e violento, terno e compreensivo; astuto e ardiloso na luta, mas desprendido e entregue na amizade.

Num filme sobre o conflito entre brancos e índios, sua origem é sintomática, pois se diz mestiço, e faz questão de resguardar, em palavras e gestos, o que há de típico nas duas raças. Numa situação crítica, Hondo hesita, como o faria qualquer ser humano, como é o caso quando precisa (por questões morais) confessar à companheira Angie que foi ele quem – por legítima defesa – matou o esposo dela, pai de seu filho. E sua justificativa para a confissão é orientada pelos inimigos que o torturaram, os Apaches, gente que – segundo ele – não conhece o conceito de mentira.

Enfim, com ou sem comparações com “Shane”, uma raridade cinematográfica que merece ser conhecida e apreciada.

Em tempo (1): autor de vasta e diversificada filmografia, John Farrow também é lembrado por ser o pai da atriz Mia Farrow.

Em tempo (2): esta matéria é dedicada ao amigo Joaquim Inácio de Brito, que me apontou o caminho a “Hondo”.

Apaches por toda parte.

Apaches por toda parte.