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LEITURAS DA QUARENTENA (7) UM LIVRO GORDO E ENGRAÇADO

4 jul

Na verdade, não é um só: são dois, pois “O livro do Jô – uma autobiografia desautorizada” (Companhia das Letras, 2018) foi publicado em dois grossos volumes.

Somando tudo, dá cerca de 700 páginas, que li com avidez, embora demorando um pouco na leitura, pra não terminar logo.

O melhor do livro é que o autor não se limita a contar a história da sua vida. Bem mais que isso, conta o contexto dela, e assim fazendo, relata parte da História do Brasil, dos anos trinta ao presente.

Tudo bem, quando o autor de uma biografia é figura famosa, é inevitável que o privado e o público se misturem, mas, aqui acho que há um peso um pouco maior para o segundo elemento.

A rigor, o livro está repleto de – digamos assim – “minibiografias alheias” das pessoas que, direta ou indiretamente, conviveram ou tiveram contato com Jô Joares. Só para dar um exemplo, no capítulo 4 do segundo volume, cerca de 15 páginas são dedicadas a Dom Helder, onde se lê não apenas o contato entre os dois, mas uma espécie de retrospecto da vida, do trabalho e do pensamento do bispo de Olinda.

Outros dois semi-biografados são Winston Churchill e Orson Welles, figuras da mais profunda admiração do autor, sem coincidência – como ele mesmo lembra – ambos gordos. Mas nem sempre os circunstancialmente “biografados” são pessoas famosas. Há garçons, motoristas de táxi, empregadas domésticas que recebem menção e comentários generosos. Nessas histórias alheias talvez se justifique o termo “desautorizada” no subtítulo do livro.

Vindo de quem vem, o livro também é um “show”. Um show que o leitor acompanha rindo quase o tempo todo. Histórias pitorescas se sucedem, uma atrás da outra. São fatos hilários ocorridos não só com o autor, mas, de novo, e com maior frequência, acontecidos com os outros, amigos ou meros conhecidos.

Histórias que muitas vezes beiram o surreal e deixam o leitor desconfiado da sua veracidade. Uma deliciosa, com jeito de ser verídica, é aquela do amigo Max Nunes, médico competente e conceituado, que tinha medo de “todo bicho que voa”. Um dia vai pelo corredor do hospital onde trabalha e vê uma borboleta no teto. Tomado pelo pânico, não faz outra: entra no quarto mais próximo e passa lá quase a tarde inteira, conversando com o paciente, que o julga o médico mais atencioso do mundo, sem saber que ele está só com medo de um bichinho voador.

Isto para não citar casos mais ridículos e mesmo escatológicos, como o da atriz Nicete Bruno que, em pleno palco de um teatro no Rio de Janeiro, dispara na risada com um improviso ocorrido na encenação da peça, e de tanto ri, se urina e o mijo escorre pelo piso do palco em direção aos espectadores da primeira fila.

Ou o do incorrigível dom juan, cujo nome não lembro, que, havendo marcado encontro com um caso novo, num apartamento precário, emprestado de um amigo, é, no momento chave do toma lá da cá, acometido de uma incontrolável disenteria, e a cena termina com ele, sentado em um penico, diante da amante estupefata e enojada.

O livro tem uma estrutura solta, do tipo “história puxa história”, e muitos dos fatos são introduzidos por expressões como “Por falar nisso…”, “Tratando disso, lembrei que…”, “Sobre isso, me ocorre que…”. Essa descontração no gesto de escrever dá um sabor especial à leitura, como se estivéssemos conversando com o autor.

O que não quer dizer que não tenha havido um projeto de roteiro. Com todos os vai-e-vens textuais, a narração segue, no geral, uma linha cronológica que vai do nascimento do autor (ou antes disso, com a vida dos pais) até o tempo presente. Tudo devidamente ilustrado.

Enfim, uma leitura que vale a pena, mesmo para quem por acaso discorda de um ou outro posicionamento de Jô Soares ao longo de sua vida pública. Seja qual for o grau de antipatia ou simpatia pelo autor, a reconstituição que o livro faz da arte e cultura no Brasil (cinema, televisão, jornais, teatro, música, etc) e mesmo da política do século vinte… compensa.

Isto, sem contar as boas risadas suscitadas, tão necessárias nesta época de quarentena.

O sagui, King Kong e a macaca Monga

11 set

Assisti a “Cine Holiúdy” (Halder Gomes, 2013) numa noite de sábado, a sala lotada, com a plateia gargalhando do começo ao fim.

Não esbocei um único riso, porém, cinéfilo com passado, não pude deixar de me lembrar dos velhos bons tempos das chanchadas da Atlântida, quando o cinema brasileiro quase competia em bilheteria com a hegemonia americana. Com a vantagem de então me fazer rir…

Saí do cinema pensando no “fenômeno” que é o filme de Gomes e me ocorreu o seguinte: que o famoso humorismo contemporâneo cearense afinal chega ao cinema. Sim, tinha havido antes Os trapalhões em película, mas isso foi bem antes desse atual boom de humor que assola o Estado de Padre Cícero. Pois é, assistindo a “Cine Holiúdy”, a mim me pareceu estar vendo um comediante cearense desses que estão aí, de repente, sair do palco e dar uma “voadeira” para a tela. (“voadeira” do léxico do cearensês em que o filme é falado, acompanhado de legendas em português).

Ainda bem que fez isso à guisa de homenagem à sétima arte. O enredo é simples: ameaçado pela emergência da televisão nas cidades do interior cearense, o exibidor Francisgleidisson se muda, com a família, para Pacatuba e lá instala o seu pequeno cinema, cuja programação deve, inevitavelmente, competir com a avassaladora nova mídia. Na noite da estréia, com meio caminho andado de projeção, o projetor explode e ele, para não devolver os ingressos, tem que improvisar um plano B em que ele mesmo, de carne e osso, será o astro da noite.

Por causa da temática (digo: a decadência do cinema de rua), é possível que alguém associe “Cine Holiúdy” – mal comparando – ao “Cinema Paradiso” de Tornatore, mas acho que uma má comparação também é possível com “A vida é bela” do Begnini, pelo menos do ponto de vista actancial: um casal com um filho pequeno, e ainda apaixonado (a ´princesa´ de lá é a ´graciosa´ daqui), leva uma vida difícil, com o pai sempre iludindo o filho com estórias fantasiosas.

Uma dessas ilusões paternas é a de que o sagui de estimação da família vá um dia crescer e tomar as proporções gigantescas de King Kong. Por sinal, uma fábula de pai imaginativo para filho sedento de heroísmo que ilustra mais que uma relação afetiva. Notem bem como esse sagui pode ser interpretado como o cinema cearense, na mesma medida em que King Kong pode ser tomado como uma metonímia de Hollywood. O sagui virar King Kong, o que significa isto? Precisa explicar? Aliás, a esse propósito, revejam o desenlace do filme, com a cena da entrevista na televisão (!) estrangeira onde, depois de estrondoso sucesso mundial e agora em inglês correto, o exibidor cearense Francisgleidisson expressa sua alegria e seu orgulho, e, de sobra, corrige a entrevistadora, que erra o nome de sua cidade, Pacatuba. A cena inteira é a licença poética que fez do sagui um King Kong.

cine holiudy 2

Lembro que, numa das gags do filme, o sagui doméstico, sem mais nem menos, se transforma na macaca Monga – o que, afinal de contas, já é um índice de sua vocação para o crescimento.

Tive a chance de, antes de ver “Cine Holiúdy”, assistir ao premiado curta “Cine Holiúdy: o artista contra o cabra do Mal” (2004) que deu origem ao longa em cartaz e pude observar alguns dos procedimentos da transformação. Claro, acrescentou-se um pouco de enredo novo, mas o grande enchimento de lingüiça foi mesmo com mais personagens e muitas gags. Algumas boas (por exemplo: a do ´nada consta´ na repartição pública, ou a das exigências burocráticas para o pequeno empresário no tempo da Ditadura, ou, a do escorpião capaz de furar pneu de automóvel, ou ainda, o cuidado do marido para que a médica não use o martelo nos olhos da esposa); outras nem tanto (por exemplo: o homossexual dizendo à moça que ´se gostasse de coisa feia, andava com filhote de urubu debaixo do braço – uma tirada horrivelmente manjada; outra piada batida é a dita do projetor quebrado por um espectador: “o problema é de junta: junta tudo e joga no lixo”).

Em alguns casos a gag ganha estatuto de número de ´stand up comedy´, como aparenta na relativamente longa cena em que o pai explica ao garoto como se pode falar línguas estrangeiras – chinês, francês ou alemão – usando a fruta macaíba na boca, isto sem esquecer de dizer que os estúdios Disney importavam a fruta nordestina para as tais cenas “trogloditas” (leia-se: poliglotas).

Outra forma de rechear foram os acidentes ou fatos paralelos que, se não existissem, não fariam falta à estrutura básica da narrativa. O pastor curando um paraplégico é um caso, como também o do garoto pobre que é forçado a engolir um falso toddy; o flashback cinematográfico mentiroso de Francisgleydisson, contado ao filho, pode ser outro caso, bem como os pesadelos de Graciosa, tão recorrentes ao ponto de levá-la ao médico. Às vezes há pequenas excrescências que não levam a nada, como, na despedida da família, o amigo que fica esmurrando Franiscgleydisson, com o desafio ´tu gosta de porrada, né?´ ou, ainda, aquele dono de bar que tempera a comida com o suor que lhe cai do corpo.

Um elemento que o curta tem mais que o longa é o que vou chamar de “estudo de recepção”: vejam o que acontece quando “o filme dentro do filme” termina (e “o filme dentro do filme” naturalmente inclui o show de artes marciais do projecionista na frente da tela): os espectadores, assimilando o que viram, saem do cinema imitando os personagens, os ficcionais e o real, ou seja, saem dando socos uns nos outros, ou no ar. Ora, no curta isto é feito de modo bem mais sistemático e com mais efeito cômico.

Os personagens de “Cine Holiúdy” são, naturalmente, caricaturescos e nem sempre reproduzem os tipos da cidade pequena dos anos setenta. Se, por exemplo, o prefeito foi construído com certo grau de ´realismo´ estereotipado, a figura do padre assume mais o escrache que define o estilo do filme.

Com tanta gente na tela, a direção de atores deve ter sido um sufoco, mas, com certeza, o resultado neste particular foi bom, ajudado pela agilidade da montagem, sobretudo durante a sessão no cinema, quando se corta, o tempo todo, da tela ou palco para closes da plateia. Um único ator mal dirigido acho que foi mesmo o menino rico, o dono da bola de futebol e da tv telefunken 12 polegadas, sempre artificial na interpretação de seu personagem e pior (problema de roteirização), falando difícil, usando os verbos no futuro (teremos, veremos); de qualquer forma, os outros estão tão bons que o apagam.

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Por que o gênero do Cine Holiúdy tinha que ser lutas marciais? Em dado momento o proprietário Francisgleydisson ainda coloca o rolo de um ´filme de amor´, mas os protestos da plateia são unânimes e ele é obrigado a voltar ao Karatê de sempre. Uma alternativa de explicação está em que, de fato, na década de setenta – época em que a estória se passa -, com a freqüência de cinema em baixa, os filmes de karatê tomaram conta das telas brasileiras, e o Ceará com certeza, não ficou de fora; uma outra explicação – talvez somada à primeira – é de ordem biográfica: consta que o diretor Halder Gomes é mestre em lutas marciais e escolheu um ator, Edmilson da Silva, que também as pratica.

Comecei esta matéria lembrando as chanchadas dos anos 40 e 50. Eram comédias tipicamente cariocas, assim como os filmes de Mazzaropi eram comédias paulistas, em ambos os casos, tão recorrentes e codificadas ao ponto de constituírem um gênero. Apesar das eventuais (e sem continuidade!) filmagens da obra de Ariano Suassuna, o Nordeste nunca deu um gênero cômico em cinema, e o espectador de “Cine Holiúdy” pode ser deixado pensando se este é o começo de um. Será?

Ainda que não seja, o filme decididamente tem fôlego próprio. Não me fez rir, mas isso é um problema meu e não dele, tanto é assim que está faturando milhares Nordeste afora e pode repetir a façanha no Sul do país. Para voltar à isotopia animal de seu universo, se não virar um King King, já é pelo menos uma macaca Monga… como – repito – prometido por uma de sua gags já citada.