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PEQUENOS GESTOS

1 mar

Segurar a maçaneta da porta, apertando-a ou soltando-a, sem saber se deve descer do carro ou nele permanecer, enquanto o sinal não abre.

Perfilar os chinelos no assoalho antes de deitar-se, de forma que, ao acordar, se saiba onde pôr os pés sem sequer olhar pra baixo.

Fechar bem a garrafa vazia, antes de jogá-la fora, embora isto não faça a menor diferença, no deserto árido em que a pessoa se encontra.

Ao subir a velha escada de casa, beijar o enfeite do corrimão, embora ele esteja quebrado, como quase tudo nessa precária residência.

Entrar apressada no trem, sentar-se, olhar em torno a cabine e os passageiros, e, ato contínuo, levantar-se e sair na mesma pressa em que entrou, com o trem já dando partida.

O que podem significar estes pequenos gestos na vida de uma pessoa?

No geral e em si mesmos, não sei, mas nos filmes em que eles são mostrados significam muito – embora comumente passem despercebidos para a grande maioria dos espectadores. São pequenos lances de roteiro, ou de direção, ou das duas coisas juntas, que enriquecem tremendamente os filmes em que se encontram.

A MÃO NA MAÇANETA DO CARRO

Sentada ao lado do marido, na camioneta da família, Francesca olha a chuva lá fora. Sua mão direita se move e segura a maçaneta, como se ela fosse abrir a porta do veículo e pular pra fora, em plena chuva. Em seguida sua mão recua, afrouxa um pouco, para depois voltar a apertar a maçaneta, esse movimento nervoso se repetindo por alguns segundos – enquanto o sinal não abre. Lá fora, numa das calçadas da esquina, um homem ensopado pela chuva aguarda ansioso que ela tenha a coragem de abrir a porta da camioneta da família e correr, também ensopada de chuva, para os seus braços. “As pontes de Madison” (“The bridges of Madison County”, Clint Eastwood, 1995) não tem o final feliz que Francesca e os espectadores queriam, mas essa imagem de uma mão indecisa prendendo a maçaneta da porta do carro é um detalhe extremamente feliz.

CHINELOS EM ORDEM

“Sociedade dos poetas mortos” (“Dead poets society”, Peter Weir, 1989) é a estória de estudantes secundaristas numa tradicional e rigorosa escola americana. Um deles, contra a vontade da família, uma família mais rigorosa que a escola, quer seguir a carreira teatral, o que não lhe é, sob hipótese alguma permitido. Sentindo-se frustrado no fundo da alma, o garoto toma uma atitude drástica: comete suicídio.

E onde entram os chinelos em ordem? Horas após o suicídio, a câmera nos conduz ao quarto do pai rigoroso, que, vai se levantar com o telefone tocando e (nós sabemos) vai ouvir a terrível notícia. Pois antes de focar a figura do pai na cama, a câmera de Peter Weir foca os seus chinelos debaixo da cama, bem arrumadinhos numa simetria impecável – impecável como sua mentalidade ideologicamente simétrica, tão simétrica que levou o filho ao suicídio.

GARRAFA VAZIA FECHADA

No início de “Paris Texas” (Wim Wenders, 1984) estamos em pleno deserto, acompanhando essa figura estranha, um homem de roupa surrada e boné, que, sujo de poeira, caminha em linha reta, como se tivesse um destino. Logo saberemos que não tem um destino, sequer tem consciência de si mesmo. Mais tarde conheceremos seu drama (um lar desfeito, uma esposa devassa, um filho que não o reconhece), mas, por enquanto, é só um louco que observamos com curiosidade e talvez um pouco de impaciência. A certa altura da caminhada, ele toma o último gole de água de uma garrafa de plástico que carrega. Olha em torno a paisagem árida e inóspita, confere o vazio da garrafa e a joga fora, mas, atenção, não sem antes ter o cuidado e fechá-la com cuidado, girando a tampa até o fim.

O espectador pragmático pode se indagar por que, em pleno deserto, o cuidado de fechar a garrafa descartada, sobretudo partindo de uma pessoa que – visivelmente – não tem o mínimo cuidado consigo mesmo. Se esse homem está louco, tudo indica que (como em “Hamlet”) há método nessa loucura. O método veremos no desenrolar do filme de Wim Wenders, que, suponho, não preciso  reconstituir.

BEIJO NO CORRIMÃO

George Bailey entrou numa fria. Pai de família em séria dificuldade financeira, não vê saída pra seus problemas e decide pelo suicídio. Na hora do gesto drástico, ao invés de morrer, salva um afogado. Ocorre que o afogado era um anjo que lhe mostra que o mundo seria terrível se George Bailey nunca tivesse existido. E lhe dá a prova, prendendo-o dentro desse mundo sem George Bailey. Ao conseguir voltar ao mundo real – o seu precário mundo real – George passa a achar tudo maravilhoso, até o enfeito de corrimão quebrado, que, subindo as escadas para rever os filhos e a esposa, ele … beija. A cena é de “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946), mas duvido que os espectadores se detenham nesse beijo.

ENTRANDO E SAINDO DO TREM

Estamos na estação de Milford, Inglaterra. O trem noturno já apitou e a partida, para Ketchworth, está anunciada. Às pressas, entra essa mulher descabelada, senta, olha em torno, a cabine e os passageiros, e, ato contínuo, se levanta e sai, com a mesma pressa que entrara, ao som do derradeiro apito que indica a partida. Quando a cena acontece – em “Desencanto” (“Brief encounter”, David Lean, 1945) – já estamos na metade da estória de Laura, essa senhora bem casada, com dois filhos, que teve o infortúnio de se apaixonar fora do casamento. Em algum apartamento furtivo o amante a espera, enquanto, longe dali, na vizinha Ketchworth, o marido e os filhos aguardam, tranquilos, a sua habitual chegada, como ocorre toda quinta-feira.

PAPICHA

27 nov

Uma das vantagens de se frequentar o Cine Banguê: o aceso a cinematografias fora do circuitão. Quando, em tela grande, veríamos em João Pessoa um filme argelino?

Baseado em fatos reais, ocorridos na Argélia dos anos noventa, “Papicha” (2019) nos introduz à vida dessa jovem estudante universitária que sonha trabalhar com moda numa cidade e país dominados pelo terrorismo religioso.

O campus universitário onde Papicha passa parte do dia é um quase oásis ideológico. Ali ela estuda, se diverte com as amigas e faz planos ousados.

Mas, mesmo nesse âmbito acadêmico as agressões acontecem, pois, vez por outra, ele é invadido por hordas de mulheres mulçumanas, todas vestidas de preto, da cabeça aos pés, proibindo que se fale francês (língua oficial) e exigindo das estudantes um comportamento menos liberal. No caminho para casa, não é raro que o táxi seja parado e violentamente revistado por milícias religiosas, com ameaças constrangedoras.

O namorado de Papicha tenta convencê-la a fugirem para a França e, em Paris, levarem uma vida de paz e liberdade, mas, ela não se encanta com escapatórias. Em Paris, tudo já foi feito, argumenta ela – sobretudo na sua área da moda – e ela quer inovar onde ainda não houve inovações. Em outras palavras, com todos os perigos circundantes, ela prefere a sua Argélia a qualquer outro lugar no mundo.

Nem o crescente clima de terror, cada vez mais invasivo e violento, dobra o espírito dessa Papicha (apelido de Nedjma, personagem magnificamente interpretada pela jovem atriz Lyna Khoudri) que, inspirada no gosto da mãe pela costura, pretende organizar, na universidade, um desfile de moda arrasador, em que as modelos, suas colegas de curso, vestiriam roupas por ela criadas, que encarnariam uma proposta de renovação no tradicional vestuário argelino/islâmico. Por exemplo, ao invés da cor preta dos impostos hijabs, a generalizada brancura exuberante do desfile.

Ocorre, contudo, um terrível acidente que faz o espírito de Papicha arrefecer. Isso se dá no dia em que sua irmã, Linda, é brutalmente assassinada por umas das fanáticas religiosas de Argel, e isto na porta da casa materna, com o agravante de que, sem saber com quem falava, ela, Papicha, fornece à agressora, a identificação da irmã.

Mas, como esperado, tal arrefecimento não dura para sempre. Mais tarde, convencida pelas colegas e amigas, termina levando adiante o – para o contexto da Argel da época – corajoso projeto do desfile, embora…

Bem, dizer mais seria estragar o prazer do espectador que ainda não viu o filme.

Em vista do nosso pouco acesso ao cinema argelino, não é possível colocar “Papicha” dentro de seu contexto, porém, pode se dizer, sim, que, em seu primeiro longa-metragem, a diretora Mounia Meddour domina a narrativa cinematográfica e, com seu estilo fundado em closes, cenários metonímicos, cortes bruscos e trilha sonora expressiva, sabe dizer a que veio. Em tempo: a insistência dos closes no belo e sensual rosto de Papicha nos soa como uma contrapartida aos rostos encobertos das fanáticas mulçumanas.

Só para ilustrar o talento da cineasta, relembro a terrivelmente eloquente cena do assassinato da irmã, tudo acontecido a poucos metros de Papicha que, no meio da rua e de costas, ouve o disparo, deduz a tragédia e, de frente para a tela, por um tempo interminável – para ela e para nós – não tem a coragem de olhar para trás, e ver o que nós avistamos. Aliás, uma cena extremamente exigente, para a atriz Lyna Khoudri.

De alguma maneira, poderia se dizer que “Papicha” é uma espécie de “Sociedade dos poetas mortos” argelino, só que nele a opressão é mais apavorante, pois, ao invés de vir do mero âmbito doméstico-escolar, vem praticamente de toda parte.

Palavras e imagens

17 mar

Fazia tempo que não ouvia falar de Fred Schepisi, aquele cineasta australiano que despontou lá pelos anos oitenta e logo chamou a atenção da América.

Dele lembro bem de Um grito no escuro (1988), a estória da uma mulher cujo bebê é, durante um piquenique, devorado por um dingo, e que é acusada pelo acidente, papel dramático de uma ainda não tão famosa Meryll Streep. Mais ou menos da mesma época são outros filmes seus também interessantes como: Roxane, A casa da Rússia e A teoria do amor.

Agora nos chega esse Palavras e imagens (Words and pictures, 2013), para se perfilar no rol dos filmes sobre sala de aula.

poster

E a sala de aula é bem americana. O nível é o secundário, mas os alunos são todos bem dotados e os professores, sortudos, não têm os problemas de disciplina que, por exemplo, tiveram os pobres mestres de Sementes da violência (1955) ou de Infâmia (1961). Sim, a coisa é muito mais para Sociedade dos poetas mortos

A trama toda é montada em cima de uma dicotomia docente bem particular: um professor de inglês e uma professora de arte. Ele, arrogante e agressivo, defende a primazia da palavra sobre a imagem; ela, igualmente arrogante e agressiva, defende a primazia da imagem.

Uma imagem vale por mil palavras, ou, uma palavra vale por mil imagens? A guerra está declarada e os coitados dos alunos e alunas são praticamente obrigados a tomar partido e pegar em armas na defesa de um ponto de vista do qual nem têm essa convicção toda.

Palavras...

Palavras…

No meio do fogo cerrado, o que acontece? Inevitavelmente, os dois inimigos mor se descobrem apaixonados um pelo outro e a briga termina na cama. Sim, tal e qual está nos roteiros das velhas comédias românticas do passado que a Hollywood clássica fez aos montes…

Mas esperem: se, no enredo, este foi porventura uma espécie de “casamento” literal entre palavra e imagem, o filme seria muito curto, se ficasse só nisso.

Pois é, depois do ápice amoroso tinha que vir o turning point que desse existência à segunda metade da estória: numa crise de humildade, o prepotente e cheio de si professor revela à amada que o poema enviado à revista da Escola, para publicação, não era de sua autoria.

Entre artistas, o fake é um crime: a hostilidade entre o casal é imediatamente retomada e, de sua parte, o ´forlorn´ professor também retoma o que vinha atrapalhando seu desempenho profissional havia tempos: o alcoolismo.

Imagens...

Imagens…

Eu disse ´forlorn´ porque é o termo arcaico que a professora usa para seu colega e este, como sempre faz, se apressa em fornecer a sua etimologia e sentido original de ´abandonado´, ´perdido´, ´miserável´. As explicações etimológicas são um hábito seu, que, infelizmente, o espectador monoglota vai encontrar dificuldade em apreciar, já que as legendas em português não dão conta das acepções dos termos ingleses e muito menos de suas idades. Vocábulo medieval, `Forlorn´, por exemplo, é simplesmente traduzido como ´infeliz´, como se se tratasse de uma palavra de uso atual.

Voltando à querela básica, a esperada segunda e definitiva reconciliação só acontece com a ajuda dos alunos, os quais promovem, num evento de final de curso, o matrimônio entre palavra e imagem, agora de modo didático e público. Como é comum acontecer em “filmes escolares”, a resolução do roteiro é uma cena com discursos repletos de sábias considerações filosóficas sobre a diversidade dos meios e o bom senso de saber lidar com ela.

Naturalmente, é interessante que o defensor da palavra seja um homem e que justamente uma mulher defenda a imagem. A dicotomia deixa pano para as mangas aos pensadores dos gêneros, especialmente os que ainda lidam com a idéia de que, historicamente, os machos seriam mais logopáicos, isto é, mais racionais, cerebrais, objetivos, e as mulheres mais fanopáicas, ou seja, mais imagéticas e intuitivas. Por aí.

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Uma coisa é certa: os atores que desempenham a dupla são muito bons e dão o melhor de si para enfatizar a dicotomia tematizada, e, ao mesmo tempo, a sua problematização: Clive Owen é o professor de língua e literatura Jack Marcus, que vive explicando a si aos outros, a etimologia das palavras e seu potencial poético, e Juliette Binoche é a professora de artes Dina Delsanto, que, insatisfeita com sua própria produção plástica, critica os alunos com a dureza de quem estivesse fazendo autocrítica.

No mínimo, um filme inteligente e instrutivo, que vai inquietar meio mundo de cinéfilos, especialmente os que, mais de perto, lidam com literatura e/ou com pintura. Sem dúvida, um daqueles filmes cuja qualidade estética será sempre aumentada pelos olhos – e ouvidos – dos espectadores. Já o antevejo circulando em universidades, em cursos de currículos ligados ao seu temário.

Fora desse contexto, não sei até quando será lembrado, pois, como cinema em si, creio eu que fica apenas no nível mediano dos filmes de seu gênero – o chamado ´filme sobre artes´.

De qualquer forma, não posso deixar de recomendar.