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“O destino de uma nação”: a hora mais sombria

23 jan

Winston Churchill foi, como se sabe, um dos maiores estadistas do século XX. Seu papel na II guerra mundial foi decisivo e é o que mostra o filme “O destino de uma nação” (“Darkest hour”, 2017), em cartaz na cidade.

O tempo da narrativa é curto, mas sintomático: de 3 a 29 de maio de 1940, o périplo que vai da posse de Churchill como Primeiro Ministro ao dia do seu famoso discurso, no Parlamento, sobre o posicionamento do Reino Unido no Conflito.

Desde a invasão nazista à Polônia pairava nos apavorados ares londrinos, mais especificamente no Parlamento, a ideia de uma negociação com Hitler, uma negociação que deixasse a ilha britânica fora de suas garras devastadoras. Desconfiado dos intuitos do ditador alemão, Churchill se opõe terminantemente a essa ideia, e, durante todo esse trágico mês de maio, amarga maus momentos, junto ao Parlamento, à imprensa e ao público em geral, o que está expresso no título original do filme “Darkest hour”, ´a hora mais sombria´.

Uma coisa que o filme faz bem é mesclar o público e o privado. Ao lado do embate nos bastidores da política londrina, também nos é permitido acompanhar Churchill (Gary Oldman) em sua casa, enfrentando os seus demônios pessoais, com ou sem a ajuda providencial de Lady Clementine (Kristin Scott Thomas). E mesmo no seu escritório, testemunhamos sua angústia de homem público, posto em situação de perigo extremo, situação partilhada por uma jovem datilógrafa exemplar, Elizabeth Layton (Lily James), a mocinha tímida que ouve e anota seus discursos em primeiríssima mão – ela também transformada em personagem importante.

Alias, uma das cenas mais comoventes no filme está naquele momento em que Churchill e sua fiel datilógrafa, a sós, enfrentam a questão Dunquerque. Pela sugestão do Primeiro Ministro, 4 mil soldados foram sacrificados para salvar os 300 mil perdidos no litoral de Dunquerque. Em choro contido, a jovem datilógrafa confessa que seu irmão esteve entre os que pereceram, e as lágrimas são partilhadas por um Churchill dobrado à dor alheia.

Gary Oldman como Winston Churchill

Um segundo momento de comoção especial, embora desta vez menos disfórica, vem quando um Churchill ousado vai buscar o apoio do povo à sua tão malquista proposta, e toma um metrô, coisa que ele nunca fizera na vida. Tenha ocorrido veridicamente ou não, a cena do diálogo entre os cidadãos comuns e o homem que tem o destino da nação nas mãos é um ponto alto do roteiro, com foros de turning point. Sintam como o grito do jovem negro no metrô “Eles nunca tomarão Piccadilly!” vai virar o discurso inflamado de Churchill para o Parlamento e para a nação, todos agora atentos aos seus argumentos. Antes do apoio do povo no metrô, esse atormentado Primeiro Ministro tivera o aval do ambíguo e frágil rei George VI, que o visitara na sua casa de madrugada, às escondidas, porém, é no espaço público do metrô que sentimos a virada.

Acima falei em Dunquerque. Ora, o filme “Dunkirk” (2017) também recentemente exibido entre nós, funciona como um intertexto óbvio para este “O destino de uma nação”. Ou seria vice-versa? Na verdade, o que me ocorre no momento em que redigo estas linhas é que os dois filmes são complementares, pois, historicamente falando, as duas coisas são simultâneas e, mais que isso, dependentes uma da outra, digo: a problemática presença dos 300 mil soldados ingleses nas praias de Dunquerque e a luta de Churchill para derrotar a proposta de negociação com o Eixo.

Lily James é a secretária devotada, Elizabeth Layton.

Pois bem, na minha cabeça de cinéfilo, “montei” um filme só, mais longo, em que toda a querela de Churchill com o parlamento inglês, no filme em questão, seria intercalada por cenas de “Dunkirk”. O resultado seria um longa-metragem de quatro horas de projeção, mas acho que valeria a pena ver confrontados os claustrofóbicos espaços, de um filme, com as paisagens abertas, do outro; as intermináveis discussões sobre estratégia de guerra, em um, e a violência aberta, no outro.

Segundo consta, nunca se soube ao certo por que Hitler não esmagou Dunquerque: por que, então, não imaginar que a proposta de negociação – a abominada por Churchill – teria chegado aos ouvidos do Führer, via Mussolini, ou por qualquer outro meio de espionagem, e daí haver ele hesitado, como hesitou, em atacar Dunquerque de forma definitiva? É verdade que todos os filmes sobre a II guerra mundial que tenham sido fundados em fatos reais possuem certa complementariedade, mas aqui, acho, o caso é mais direto e mais encaixável.

Para fechar, sabe-se que Winston Churchill tinha lá os seus defeitos pessoais e nunca foi um herói perfeito, mas, de todo modo, o filme de Joe Wright, sem querer ou querendo, nos remete aos dias de hoje e suscita a incômoda pergunta: onde estão os líderes no mundo atual?

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman em cena do filme.

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Secessão e rancor

19 jun

Neste ano de 2015 está se comemorando o término da Guerra Civil americana, conhecida como Guerra de Secessão (1861-1865).

Agrário e racista, o Sul queria a manutenção da escravidão negra, enquanto o Norte, mais urbano e liberal, pedia a sua abolição. Nem a clarividência de Lincoln conseguiu evitar o conflito. Propondo a separação (secessão) do país, os estados sulistas se auto-denominaram Confederação e partiram para a briga, forçando os estados nortistas a lutar pela União. A guerra foi sangrenta e fez, de lado a lado, um número apavorante de vítimas. Depois de quatro anos de lutas, a vitória, para o Norte, se pôs fim à guerra, nunca apagou o rancor sulista.

Inevitavelmente, essa guerra, junto com esse rancor, teve representações no cinema. A lista de filmes americanos sobre a guerra civil americana é enorme e aqui me limito a citar apenas alguns, os que considero mais importantes.

the birth of a nation

O primeiro a mencionar é de 1915, apenas 50 anos após o conflito. Assumidamente racista, a superprodução de três horas e meia de duração, “Nascimento de uma nação” (“The birth of a nation”) fazia a apologia do Ku klux klan e dava a presença da raça negra como a desgraça do país. Em suas exibições nos cinemas do Norte, provocou protestos, tantos e tão inflamados que o seu diretor D. W. Griffith rodou, no ano seguinte, um filme ´humanitário´, (“Intolerância”, 1916), como que para desculpar-se do erro cometido.

O segundo filme de citação obrigatória também foi uma superprodução, mas desta vez ideologicamente bem mais moderada. Baseado no romance de Margareth Mitchell, “E o vento levou” (“Gone with the Wind”, 1939) contava a estória dos efeitos da guerra sobre uma aristocrática família sulista, mas não tomava partido. Com um elenco de primeira, fotografia e música grandiosas, o filme do produtor David Selznick (assinado por Victor Fleming) fez um sucesso tão avassalador que chegou a inibir a representação da guerra civil em outras realizações hollywoodianas.

Cena de ...E o vento levou.

Cena de …E o vento levou.

Produção bem mais modesta, o terceiro filme que cito também foi baseado em literatura, no caso, o desencantado romance de Stephen Crane “The red badge of courage”, que deu o filme homônimo de John Huston, no Brasil chamado de “A Glória de um covarde” (1951). Sem endosso dos executivos de Hollywood, esse filme sombrio sobre a crueldade nos campos de batalha, foi cortado e, infelizmente, o que dele resta não corresponde ao talento do seu diretor.

O quarto filme que gostaria de citar é pouco lembrado, até pelos cinéfilos. Refiro-me a “Sublime tentação” (“Friendly persuasion”, 1956), de William Wyler, que narra o drama de uma família Quaker, no estado de Indiana, que sendo pacifista por princípio religioso, é obrigada a decidir o que fazer no dia em que, em plena guerra, tropas sulistas invadem o seu aparentemente neutro território.

Encerro minha lista com estes quatro clássicos e deixo ao leitor o exercício de lembrar os filmes mais recentes que abordaram a temática. Com certeza, o leitor não vai esquecer, por exemplo, “Tempo de glória” (1989), “Cold Mountain” (2003) e, naturalmente “Lincoln” (2012).

Afirmei, acima, que a vitória do Norte pôs fim à guerra de secessão mas nunca apagou o rancor sulista. Pois esse rancor teve talvez um número maior de representações cinematográficas que a própria guerra, representações sutis, em alguns casos, subliminares, mas, nem por isso, menos efetivas.

Audie Murphy em "A glória de um covarde"

Audie Murphy em “A glória de um covarde”

Vejam, por exemplo, o caso de todo um gênero do cinema americano, o chamado Western, ou faroeste, cujas estórias geralmente ocorrem num período histórico pós-guerra de secessão, mais ou menos em torno da década de 1880. Pois bem, muitos de seus heróis, e muitos de seus bandidos, gente de meia idade – os conhecidos conquistadores do Oeste bravio – carregam um passado que tem a ver com os tempos duros da guerra, geralmente sulistas rancorosos que nunca engoliram a derrota.

Não vou dar exemplos, pois não disponho de espaço, mas resumo tudo na figura emblemática de Ethan Edwards, o matador de índios de “Rastros de ódio” (“The searchers”, 1956), feito por um John Wayne de physique de role impecável. Se você lembrar bem o filme de John Ford, vai dar-se conta de que o amargor perene de Ethan não vem apenas da querela com os índios, mas muito mais, da frustração de estar do lado dos perdedores numa guerra que, finda, não pôs fim ao orgulho sulista de ser branco e dominador. Em alguns momentos chave do diálogo, esse rancor vem à tona, e, repito, não é só neste filme, nem só em John Ford, que ele vem à tona.

Os melhores autores de westerns tiveram a coragem de encená-lo em momentos pontuais de seus filmes, com certeza por saberem que esse rancor ainda estava vivo em, geograficamente falando, metade do país.

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, "Rastros de Ódios".

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, “Rastros de Ódios”.

X e Y sobre “Lincoln”

31 jan

Vejo “Lincoln” (2012) e saio do cinema meio às escondidas, apelando para não encontrar conhecidos e ter que de chofre emitir opinião sobre o filme de Steven Spielberg. Não se trata de um filme difícil – muito pelo contrário – mas, mesmo assim, ou por isso mesmo, precisava de um tempo para organizar minhas impressões.

A primeira impressão é certamente a de previsibilidade. Um filme de Spielberg sobre o Presidente Lincoln? Convenhamos: antes de comprar o ingresso a gente já tem uma idéia do que vai ver e, ao ver, inevitavelmente, confirma. No meu caso, antes de ouvir falar que o diretor escolhera o tema, já quase adivinhava que um dia na sua vida ele o escolheria. Ele tem o perfil para…

A segunda impressão não é uma impressão, e sim, um desejo. Não de me deter sobre o filme e analisá-lo – o que, para o meu leitor, iria também soar previsível. “João Batista de Brito escrevendo sobre “Lincoln”? Já sei no que vai dar” – antevejo meu leitor dizendo de si pra si.

Lincoln 1

O desejo, digo, não de analisar o filme, mas de proceder a uma pesquisa de campo com os espectadores e levantar opiniões. Isto, sim, seria algo que gostaria de fazer sobre “Lincoln”… e para o que diviso um resultado interessante. Como não dispondo dos meios para tanto, ponho minha imaginação a funcionar e realizo, mentalmente, um estudo de Estética da Recepção ficcional. Com certeza, vou me divertir muito mais…

Para simplificar, concebo dois espectadores que tivessem estado sentados comigo no cinema, X do meu lado direito, e Y do meu lado esquerdo.

X achou o filme excelente, seguramente merecedor das tantas indicações ao Oscar. A reconstituição de época é impecável, a direção perfeita, o roteiro fiel à história, as interpretações soberbas, sobretudo a titular, de Daniel Day Lewis. Mas X tampouco esquece a de Sally Field no papel da Sra Lincoln, angustiada com o destino do filho e o peso moral nas costas do marido; e ainda a de Thomas Lee Jones como Thaddeus Stevens, o líder dos republicanos, a de David Strathairn como William Seward, o Secretário de Estado, e a de Lee Pace como Fernando Wood, o grande rival democrata na tribuna. X gostou imensamente da fotografia quase sempre escura, centrada em ambientes fechados, para dar ideia do sufocamento do protagonista, premido entre sustar a guerra civil, onde centenas morriam por dia, ou fazer passar, por fim e à força, uma lei que sabia decisiva para o futuro do país. A música de John Williams, como esperado, veio a contento, na opinião de X, e fez o discreto comentário do temário. No geral, o esperado da confluência de um grande diretor, um grande ator, um grande personagem e um grande tema – a abolição da escravatura na primeira democracia do mundo. Em especial, X achou o final interessante, quando o roteiro evita a famosa (tantas vezes reconstituída) cena do assassinato do Presidente no Teatro Ford, fazendo a notícia chegar ao filho menor, Tad, que, noutro teatro, assistia a uma outra peça. Para X, a licença poética do discurso pos-mortem foi uma maneira bem adequada de fechar a homenagem a esse imenso vulto. Enfim, um filme inesquecível.

Lincoln 2

Já Y não gostou: achou que o filme só está com tantas indicações porque o presidente enfocado é o americano – fosse o de um outro país e neco. Y cansou-se com as duas horas e meia de projeção. Pensou que fosse assistir à narrativa da empolgante vida desse proeminente americano e, para sua decepção, tudo girou em torno de intermináveis e cansativas discussões políticas sobre a aprovação, ou não, da Décima Terceira Emenda que abolia a escravidão no país. Até pareceu que a abolição foi o tema do filme, e não Lincoln, um mero coadjuvante em relação a ela. No filme todo, se se contarem empregados domésticos e eventuais soldados, são mais de cem personagens, todos com direito a voz, e numa situação em que quase tudo no desenvolvimento da estória depende da argumentação oral, pró ou contra, uma mesma questão. Republicanos, democratas, líderes de partidos, figuras secundárias… são tantos envolvidos no tema da escravatura que Y os confundiu e nem depois do filme findo foi capaz de reconstituir o quadro político descrito. Foi falação em excesso, para Y, que ficou de vista fatigada de ler a legenda. De Lincoln só se tem mesmo alguns momentos breves de seus últimos meses e mesmo assim nada que dê a dimensão de sua grandeza, nem as querelas com os familiares, muito menos aquelas piadinhas deslocadas que ele conta. Y achou a fotografia exageradamente escura e a música de John Williams foi somente correta. Em especial, o final lhe soou decepcionante – tão decepcionante quanto o filme, aliás – quando se substitui o cenário na noite do assassinato, de um teatro para outro, o que lhe pareceu gratuito. Para Y aquele discurso final, depois de Lincoln morto, é uma licença sem poética, óbvia e desnecessária. Enfim, um filme perfeitamente esquecível.

Caro leitor, quem lhe parece mais certo: X ou Y? Ou sua impressão do filme equivale a uma outra letra, Z talvez?

Lincoln 3

Ninguém dirigiu

5 nov

Nos anos cinquenta e sessenta, o pessoal da Nouvelle Vague lutou, com unhas e dentes, para instituir e defender o conceito de ´autor´ no cinema. E quem seria o autor de um filme? Obviamente o diretor, aquele cujo nome aparece no final da lista de créditos do filme, assim como, na capa de um livro de poesia, aparece o nome do poeta.

A briga de Truffaut, Godard e Chabrol era contra o cinema de estúdios, onde, na realização de um filme, todo mundo (principalmente o produtor) dava pitacos e o resultado saía impessoal e sem estilo próprio. A crítica recaía sobre o cinema clássico francês e, claro, também sobre Hollywood.

Pois bem, espécie de cúmulo do literal apagamento da direção está em um filme hollywoodiano dos anos quarenta que fico pensando se os nouvellevaguistas conheceram. Refiro-me a “Sagrado e profano” (“Desire me”, 1947), em cujos créditos (pasmem!) sequer consta o nome do diretor.

Ninguém dirigiu “Sagrado e profano”? Como seria isso possível?

Na verdade, George Cukor foi o contratado para dirigir essa estória sobre uma dona de casa francesa que, levada pelas circunstâncias da guerra, vem a cometer bigamia, uma realização da MGM, aos encargos do produtor Arthur Hornblow. Cukor dirigiu as primeiras sequências e, insatisfeito com o andamento das filmagens, desistiu de continuar no projeto, que foi passado para Melvyn Leroy. Do mesmo modo, depois de várias cenas completadas, Leroy desentendeu-se com a produção de Hornblow e foi descartado. No seu lugar entrou Jack Conway, que dirigiu outro tanto e, com problemas semelhantes, cedeu seu lugar a Victor Saville. Dizem que nem Saville foi o último a fechar as filmagens de “Sagrado e profano”, mas o fato é que, na hora H de lançar o filme ao público, a produção optou por fazer tabula rasa da direção e – quebrando uma regra cinematográfica universal – deixar o filme sem o crédito mais importante.

Algo parecido havia acontecido oito anos atrás, com as filmagens de “E o vento levou…” (1939) que, com o mesmo caos, também consumiu vários diretores, um após o outro. No final das contas, foi Victor Fleming – o último contratado – quem ganhou o crédito de direção, mas quem acredita que o sucesso do filme tenha dependido dele? No caso presente, parece que a lógica prevalecente foi a seguinte: um filme dirigido por muitos, equivale a não ter sido dirigido por ninguém.

Eu disse acima que “Sagrado e profano” é um caso exemplar de apagamento literal da direção, mas, ora, o mais interessante – e a razão de ser deste ensaio – é que, apesar disso, ele está muito longe de ser um caso de apagamento da qualidade. Muito pelo contrário.

Tive a oportunidade de vê-lo recentemente e o filme, muito bem dirigido e – incrível! – dirigido com grande coerência, é envolvente, até mesmo empolgante, e enriqueceria o currículo de qualquer um dos diretores apagados dos seus créditos, ou o de outros diretores.

Livremente baseado em uma velha peça de origem germânica, conta a estória de dois soldados franceses, presos em um campo de concentração, durante a Segunda Guerra. Um, casado (Robert Mitchum), recebe cartas da esposa e o outro, solteiro (Richard Hart), ouve essas cartas que o amigo lê para ele; além disso, o amigo lhe mostra as fotos da esposa e muito lhe fala dela, como era bela, carinhosa, forte, firme, uma mulher fascinante (Greer Garson).

Não dá noutra: o amigo solteiro vai se apaixonando pela mulher do casado e no dia em que aparece a oportunidade de fuga e o outro é baleado, ele, ao invés de socorrê-lo, o deixa morrer e escapa sozinho. Finda a guerra, esse soldado procura a esposa do amigo, na costa rochosa da Normandia onde ela, solitária e enlutada, reside e… Dá para imaginar o resto do roteiro?

Sim, crente que o marido está morto e enterrado nos campos de batalha, a mulher vai sendo, aos poucos, conquistada por esse desconhecido, que não é propriamente um desconhecido, já que sabe tudo sobre ela, e pior, ou melhor, o sabe porque ouviu da boca do seu esposo, como se tudo não passasse de um prévio consentimento. Em confiança, esse marido contara ao colega toda uma gama de pequenos segredos conjugais que, ironicamente, vão facilitar a conquista, mas um há que é sintomático: contara-lhe como a mulher tinha o hábito de manter a porta da casa sem chave, alegando ela que as pessoas pudessem entrar quando quisessem – se amigas, seriam bem-vindas, se não, também o seriam, pois haveria a oportunidade de se tornarem. Ora, não vai ser esta a situação do soldado que chega? E, claro, a porta da casa sem chave é uma metáfora para a porta do coração!

Quando a situação está mais ou menos firme entre a suposta viúva e o seu novo companheiro, eis que reaparece o marido, que, evidentemente, não tinha morrido coisa nenhuma. E o filme termina com um duelo entre os dois homens, no qual um deles perece, nem precisa dizer qual, não é?

Toda a sequencia do retorno do marido é impressionante. A morada do casal ficava no topo de uma colina rochosa, batida pelas ondas do mar e logo que o marido reaparece, a paisagem inteira, antes ensolarada, é tomada por uma névoa que torna tudo embaçado. O embate dos dois rivais se dá ao meio dessa névoa e ao som de um repetido e langoroso apito de navio que mais parece um som de agouro. Quando a luta se consuma, ninguém sabe, por um tempo, quem venceu, quem morreu, até…

Aliás, não apenas essa sequência é impressionante em “Sagrado e profano”.

O filme quase inteiro é narrado em flashback e o uso do recurso é feito com extrema competência. Na primeira sequência, e começando pelo fim, vê-se Marise (a mulher) no consultório do médico, achando que está doente, e o médico lhe explicando que o seu mal é emocional. É que, depois do duelo, Marise ficara com certa dificuldade em aceitar Paul (o marido), que matara Jean (o outro). E é aí que ela começa a rememorar os eventos para o médico, e só então ficamos conhecendo a estória toda, desde o início e na ordem dos acontecimentos.

Embora na ordem dos fatos, essa recapitulação mnemônica está cheia do que os teóricos da linguagem chamam de paralepse – o que equivale a dizer que Marise tanto conta ao seu médico o que viu como o que não pôde ter visto. Como já coloquei em outros ensaios, este é talvez o mais cinematográfico dos recursos narrativos de todos os tempos.

Por exemplo, as primeiras cenas desse flashback já são paralépticas – nelas mostram-se Paul e Jean no campo de concentração, aquele falando sobre a esposa, este segundo, ouvindo, embevecido, inclusive, escutando a música preferida do casal, solfejada pelo marido – fato que Marise não poderia ter testemunhado. Mas, vai mais além: em dado momento, Paul, meio delirante, começa a descrever ao amigo como será provavelmente o seu retorno ao lar, na Normandia, e sua fala passa a narrar a sua própria chegada, hipotética e futura, nos mínimos detalhes, logo que desce do caminhão na estrada até a entrada nessa casa de porta aberta, passando pela praia, suas areias e suas rochas. Neste instante, a câmera reconstitui em imagens o seu percurso, só que o personagem que se vê chegando não é ele, e sim, o amigo. E a cena não é mais premonitória e delirante, mas real. Um recurso narrativo genial, na medida em que coloca o gesto de Paul dentro daquele paradigma de ´dádiva ao inimigo´, como conhecido em lendas e histórias em quadrinho.

Outro recurso narrativo muito bem usado é a “construção em abismo” (aqui flashback dentro de flashback), por exemplo, quando Marise retrocede um passo dentro de sua recapitulação do passado, para reconstituir, em sua memória, a cena de seu casamento com Paul, e depois disso, retornar ao “presente” da sua vida cotidiana com Jean, agora já seu novo companheiro – vida esta, por sua vez, também uma recordação.

Sem contar que o “flashback dentro do flashbac”, mais ousadamente, pode ser alheio, no que se misturam as duas técnicas referidas, paralepse e “construção em abismo”. Um pouco mais adiante, quando já devidamente instalado na residência de Marise, e depois de lhe ter narrado a (falsa) morte de Paul, Jean é deixado a sós em seu quarto e, de si para si, recorda o real acontecido na hora da fuga dos dois, Paul lhe implorando socorro e ele fugindo, deixando o amigo à mercê de sua sorte. Ora, fazendo parte do longo flashback de Marise como faz, esta cena é paraléptica em grau elevado, no sentido em que Marise – ao contrário de nós, espectadores – não sabe a verdade: que Jean tentou matar o seu esposo para um dia poder tê-la.

Outro elemento de destaque são os diálogos, sempre expressivos do drama. Para citar apenas um exemplo, lembro quando Jean, na cidade, é informado por alguém de que Paul estava de volta e se dirigia à casa. “Melhor enfrentar um homem que um fantasma” afirma ele, decidido, com isso sugerindo não apenas que vai resolver o problema de modo prático (com um revólver), mas também que, enquanto Paul estava “morto” (como acreditava Marise), o seu fantasma já vivia entre eles, Jean e Marise.

As interpretações são ótimas, principalmente do trio de protagonistas. Houve problemas de bastidores, sim, mas qual a produção de cinema que não os tem? Robert Mitchum não gostava do filme e Richard Hart entrou no elenco substituindo Robert Montgomery. Consta que Greer Garson sofreu, em uma cena de barco com Mitchum, acidente feio: quase morre afogada e feriu-se ao ser jogada pelas ondas fortes contra as pedras, passando meses hospitalizada. Nada disso impediu de se ter um bom resultado, os três parecendo incrivelmente convincentes em seus respectivos papéis.

Outro ponto alto é a fotografia do mestre Joseph Ruttenberg, que banha o filme de sombras misteriosas e luzes oblíquas, para sublinhar sua atmosfera noir, quase expressionista. Do ponto de vista plástico, o máximo é retirado da casa inscrustada na colina, de onde se avista a paisagem rochosa e, no fundo, o mar bravio, tudo filmado, claro, não na França, mas em Monterey, costa da Califórnia. Já mencionei o efeito da névoa no retorno do marido Paul, com certeza, escolha ao mesmo tempo plástica e temática de Ruttenberg, para uma cena decisiva, em vários sentidos da palavra.

Homologando fotografia e interpretações, e nisso, também contribuindo para a mistura de gêneros (drama, romance, noir, thriller) a trilha sonora do maestro Herbert Stothart vem a calhar. Como parte dela, destaca-se a bela composição para piano que funciona, no enredo, como tema amoroso do casal Paul-Marise, sim, aquela mesma solfejada por Paul no campo de concentração, para os ouvidos do colega. Imagino que os espectadores da época devem ter saído do cinema com essa música na mente, tantas vezes tocada ao longo do filme, em cenas diegéticas (no piano caseiro) ou não (em cenas mnemônicas idílicas entre Paul e Marise). Saber executá-la no piano da casa é um dos trunfos de Jean, e um investimento especial na conquista de Marise, embora ela, no momento, tenha se recusado a escutá-la, ao que Jean argúi, mais para si que para ela, que “é só uma questão de tempo”. E era.

 Apesar de suas qualidades, “Sagrado e profano” nunca recebeu elogios da crítica. Creio que ninguém quis arriscar-se a elogiar um filme que ninguém dirigiu, ou, pior, que muitos dirigiram.

Sobre esta questão, de minha parte, me ocorre aquela brincadeira que vi tantas vezes feita por amigos poetas – cinco, seis ou sete -, geralmente em mesas de bar: uma mesma folha de papel circula no grupo e cada um escreve um verso; a folha corre de mão em mão, até o poema se completar… de autoria múltipla, porém, ele mesmo inteiriço e íntegro. Nem sempre o resultado é um bom poema, mas, se todos os participantes da brincadeira tiverem talento, quem sabe?

Acho que foi o que aconteceu com “Sagrado e profano”.