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Recomendação de neto

9 jul

Fui assistir “Divertida mente” (“Inside out”, 2015) e, no meio da sessão, descobri que o filme tinha mais a ver comigo do que com toda aquela criançada inquieta e barulhenta que lotava a sala.

Vejam bem, psicologia em desenho animado sempre houve, desde os velhos tempos do Gato Felix, Mickey Mouse e Tom e Jerry, mas aqui há um pouco mais, ou melhor dizendo, muito mais.

A rigor, “Divertida mente” é um ´filme psicológico´, na acepção técnica da expressão. Nele, há dois mundos paralelos: o mundo exterior de Riley, essa garotinha de doze anos, e o mundo subjetivo, interior, mental, da mesma Riley. Os personagens do primeiro mundo são Riley, ela mesma, de carne e osso, e seus pais; no outro mundo, os personagens são emoções, personificadas pela narração: Alegria, Tristeza, Medo, Ódio e Enjoo. 0 inside out A estória no primeiro mundo é simples: de Minnesota, a família de Riley se muda para a distante e diferente São Francisco, na California, o que obriga Riley a uma forçada adaptação. No segundo mundo, a estória não é nada simples: as emoções entram em conflito e empurram o equilíbrio psicológico de Riley para um torvelinho perigoso, cujo corolário pode ser a depressão. Nem precisa dizer que as emoções se emocionam, e, emoção emocionada é um problema sério que nem psicanalista resolve.

Aparentemente tão diferentes, esses dois mundos se revezam na tela, o tempo inteiro, um explicando ou determinando o outro, e, vice-versa. Aquele primeiro, o exterior, é, visualmente falando, mais figurativo, em suas configurações plásticas mais parecido com o real; o segundo, interior, é mais fantástico em seu perfil de cartum. Uma criança inadaptada a um novo habitat seria supostamente uma coisa de pouca monta, mas, os desvãos mentais de Riley provam que não é bem assim. Alegria, a protagonista nesse mundo obscuro e misterioso, é a encarregada de administrar o bem estar da garota, porém, quem foi que disse que bem estar seja coisa administrável? Seus colegas de trabalho, os já referidos Tristeza, Medo, Ódio e Enjoo são os primeiros a atrapalhar e…

Riley, a garota inadaptada

Riley, a garota inadaptada

As atribulações em que os colegas a metem levam Alegria a uma viagem labirintosa, em que nem um personagem adicional, Bing Bong, o ex-amigo imaginário de Riley, ajuda muito. Engraçado é que quem vai de fato encaminhar tudo para um desenlace menos drástico é justamente aquela de quem menos se espera: Tristeza. Neste sentido, o filme se revela didático, pedagógico, instrutivo, quase auto-ajuda, mas nunca, nunca jamais, chato.

Acima falei em dois mundos. Acho que também há duas maneiras de apreciar “Divertida mente”. Uma é diegética, seguindo a sua estrutura narrativa, a estória de uma menina que, de tão decepcionada com a vida, rouba dinheiro da bolsa da mãe e foge de casa. A outra é mais “discurso” e fica na curtição de sua expressão formal e seus muitos delírios plásticos que representam essa crise e essa fuga. Talvez possamos falar de uma terceira leitura, mais sábia, a que mantém diegese e discurso presos um ao outro, como assim quiseram os autores do filme, essa dupla extremamente criativa, os diretores Pete Docter e Ronaldo Del Carmen.

De qualquer maneira, uma coisa é certa: bem mais ´tempo de tela´ foi dado ao mundo subjetivo de Riley, às vezes com desenvolvimentos que beiram a sofisticação plástica. Por exemplo, há uma cena em que, guiadas pelo desastrado amigo imaginário da menina, Alegria e Tristeza entram onde não deviam e ficam ´abstratas´, sim, no sentido visual que tem o termo na pintura moderna. Eis um intertexto que torna o filme uma delícia para adultos intelectualizados, mas que – suponho – escapa ao espectador infantil.

Riley com a família

Riley com a família

Merece comentário o título que o filme recebeu no Brasil, muito sugestivo do gênero, porém, não muito fiel à temática: afinal de contas, todo o seu sequenciamento mental (de ´mente´) é puro sufoco, nada divertido. No original, o filme se chama “Inside out”, ou seja, ´às avessas´, expressão talvez mais prosaica que sugere a exposição emocional a que a narração submete Riley.

Por falar em Riley (pronúncia: /ráili/) com o /r/ forte do inglês), a única coisa que não me agradou no filme foi o nome da protagonista, que mais parece nome de tenista americano. Não podia ter sido algo mais universal, e mais facilmente traduzível, do tipo, Alice, Helen ou Lucy? Vi o filme dublado e notei como a pronúncia do nome soava difícil para a criançada memorizar.

Enfim, justificando o título desta matéria: “Divertida mente” me foi recomendado pelos meus dois netos, Caio Eduardo (17) e Enzo Guilherme (7), de quem – garanto – nunca mais vou perder uma recomendação.

Sem

Sem “Tristeza” não pode haver alegria.

Uma rosa para o cinema

5 fev

Um filme que fosse uma declaração de amor ao cinema: eis algo que Hollywood, nem a clássica nem a moderna, estranhamente, nunca fez.

Nos Estados Unidos, essa declaração apaixonada teria que vir do Leste, na forma perfeita de “A rosa púrpura do Cairo” (“The purple rose of Cairo”, 1985, de Woody Allen), filme que, aliás, está completando agora trinta anos, boa ocasião para uma reprise caseira.

Nos anos trinta, em plena depressão americana, essa pobre dona de casa, Cecília (Mia Farrow), trabalha para sustentar a si mesma e um marido vagabundo, Monk (Danny Ayello), que, ao invés de procurar emprego, vive jogando com seus pareceiros nos becos da cidade.

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A coitada não sabe o que seria de si se não fosse o cinema. Vai todo dia, desacompanhada, mas vai, porque ali, naquela sala escura, está o seu único meio de sonhar e compensar as agruras da vida – principalmente agora que, para cumular, foi despedida da lanchonete onde trabalhava.

Cecília assiste tantas vezes ao filme em cartaz (e o filme em cartaz do momento se chama ´A rosa púrpura do Cairo´) que um dia o personagem principal sai da tela e vem estar com ela no mundo real. Pode? Claro que não, ou melhor, claro que pode, pois o filme de Allen tem a lógica dos contos de fada, aqueles para os quais o leitor/espectador é convidado a empreender – como propunha o velho poeta inglês Samuel Taylor Coleridge – uma suspensão da descrença. Sem essa suspensão, o filme não anda e, sem ela, seria melhor desligar o aparelho de dvd.

Ter Tom Baxter (Jeff Daniels), o belo protagonista ao seu lado, lhe falando de amor, é, para Cecília, um encantamento. Bem ao contrário do seu marido grosseiro, o cara é o homem perfeito, utópico, mítico. O problema é que, mítico como é, ele não tem condição de sobreviver na realidade. Seu dinheiro, por exemplo, é falso, para não dizer que nada na sua figura elegante e maravilhosa se encaixa na dureza que é a vida fora da tela.

Para complicar as coisas, aparece na cidade o ator que fez o papel de Tom. É que, preocupados com a fuga do personagem, os produtores de `A rosa` mandaram ao local do acidente, Gil Shepherd (o mesmo Jeff Daniels), o ator do filme, para tentar convencer o seu personagem a voltar à tela.

Cecília: o olhar dirigido à tela.

Cecília: o olhar dirigido à tela.

Cecília e Gil se conhecem e, inevitavelmente, os dois têm um certo envolvimento, e, de repente, fica ela dividida entre o mítico Tom e o Gil de carne e osso. O amor de Tom a levara para dentro da tela, o de Gil lhe promete talvez Hollywood. Para quem, até pouco tempo atrás, só tinha a grossura e a cafajestice de Monk, ser agora o centro da atenção de um personagem fílmico e de um ator hollywoodiano famoso… é muita coisa para a pobre Cecília, que, forçada a fazer a escolha entre os dois, escolhe Gil e, no final, fica sem ninguém.

E o filme termina como começou, com Cecília sentada numa poltrona do mesmo cinema local, agora deslumbrada com o bailado celestial (“Heaven, I´m in Heaven…”) de Fred Astaire e Ginger Rogers.

Para quem anda atrás de interpretações, o filme todo pode ser entendido como um devaneio de Cecília: sufocada pela dureza da vida, ela teria imaginado tudo e, portanto, tudo o que nós, espectadores, vemos seria de natureza onírica.

Na lanchonete, sonhando com outras coisas...

Na lanchonete, sonhando com outras coisas…

O limite dessa interpretação está nas cenas realistas em que Cecília, a suposta devaneante, não está presente. Os exemplos que inviabilizam a ideia de devaneio são mais numerosos do que se pensa, mas cito apenas três sintomáticos: a irônica e deliciosa visita de Tom Baxter ao prostíbulo local, onde as garotas lhe falam de sexo e ele lhes fala de amor; as negociações dos empresários em Hollywood para encontrar uma solução técnica para o problema de ´A rosa´; e, quase no final, a cena que mostra o ator Gil Shepherd dentro do avião, de volta à Meca do cinema, com aquela cara triste de quem está constrangido de haver passado a perna em Cecília.

A verdade é que, se o filme de Allen parte da lógica dos contos de fada, depois do ´milagre´ acontecido (um personagem sair da tela), o restante vai ter outra lógica, a saber, a de um conto de Kafka. Ou seja, aceita a primeira implausibilidade, o resto da estória decorre dentro de uma lógica que pode ser dada como “realista”.

Notar que parte do humor do filme vem dessas cenas “realistas” sem Cecília, por exemplo: dentro da sala de projeção do cinema, a querela verbal entre o povo da tela e o povo da platéia… Ao passo que todo o lado sério, patético, dramático do filme está contido nos ´tempos de tela´ de Cecília.

Antípodas ou não, sonho e realidade se confundem e a confusão é o melhor de “A rosa púrpura do Cairo”. Cecília foge da realidade para o cinema, Tom Baxter foge do cinema para a realidade: num meio termo qualquer entre esses dois extremos está a verdade de um filme que é, antes de tudo, uma bela declaração de amor ao cinema…

Dividida entre dois "mitos"...

Dividida entre dois “mitos”…

 

 

Cine Trotzki

30 jan

Como boa parte dos estudantes secundários dos anos sessenta, tive formação marxista. Circunstancial, mas tive.

Querendo ou não, fui levado, por colegas e por acontecimentos da época, a ler “O manifesto comunista” e os outros textos equivalentes. Mesmo sem nada entender de economia, até “O capital” manuseei, sem passar, claro, da terceira página. Um livro essencial, que me explicou o que era o tal do materialismo dialético foi “Princípios fundamentais de filosofia”, de Georges Politzer. Depois dessa leitura, fiquei craque em comunismo e passei a me mostrar na frente dos mais leigos. Só não me mostrei mais porque todo mundo do meu convívio tinha lido o mesmo livro.

Leon Trotzki

Leon Trotzki

Um autor, porém, que nunca li foi Leon Trotzki. Dele sempre ouvia falar e, eventualmente, lia referências a seus escritos e à sua prática política, mas era só.

Um pouco mais adiante, quando feneceu o meu interesse por política, e me concentrei no de que mais gostava – cinema e literatura – aqueles livros ficaram para lá, e Trotzki mais ainda. Lembro que, tempos depois, quando vi o filme de Joseph Losey “O assassinato de Trotzki” (1972) dei-me conta retroativa de minha “lacuna trotzkista” e lamentei.

Pois agora, acidentalmente, me deparo com um texto de Trotzki que muito me empolgou e a que me refiro aqui pelo fato de tratar do assunto desta coluna: cinema.

Eu estava lendo “Introdução à teoria do cinema” (Papirus, 2013), de Robert Stam, um livro que repassa praticamente todas as propostas teóricas de cinema no século XX. É fundamental para quem estuda cinema e o recomendo com ênfase, porém, no capítulo “Os teóricos soviéticos da montagem”, traz um equívoco preocupante. Revisando o pensamento de Dziga Vertov, Stam resume as críticas do cineasta e teórico russo ao cinema americano da Hollywood nascente, com metáforas criadas para denunciar o ilusionismo da sétima arte: a das drogas (“cinema-nicotina”) e a da religião (“sacerdotes do cinema”). Em seguida a isso, sem pausa alguma, Stam acrescenta o parêntese equivocador, que cito tal e qual: “(O revolucionário Trotzki escreveu um ensaio intitulado ´A vodca, a igreja e o cinema´). E volta a tratar de Vertov.

Cartaz de "O assassinato de Trotzki", com Richard Burton e Alain Delon

Cartaz de “O assassinato de Trotzki”, com Richard Burton e Alain Delon

Ora, quem lê o título do ensaio de Trotzki, posto dentro deste contexto, pensa o quê? Inevitavelmente que se trata de mais um ensaio desfavorável ao cinema, supostamente um instrumento com o mesmo nível de escapismo do álcool (´vodca´) e da religião (´igreja´). Eu pensei isso, e acho que o próprio Stam – com certeza, sem conhecimento do conteúdo do ensaio citado – deve ter pensando o mesmo.

Fiquei intrigado com a citação, pois nunca ouvira falar que Trotzki tivesse alguma vez se posicionado contra o cinema. Por isso, fui ao encalço do tal ensaio e, por sorte, localizei-o na internet.

Ao contrário do que está sugerido no livro de Stam, o ensaio de Trotzki consiste numa apaixonada declaração de amor à sétima arte. Publicado no jornal Pravda, em 12 de julho de 1923, o texto conclama o governo soviético a, urgentemente, assumir o cinema como a forma mais efetiva de educação da classe operária, justamente aquela que vai substituir o alcoolismo e a religião. “O fato de que – diz Trotzki – ainda não tomamos posse do cinema demonstra o quanto morosos e incivilizados nós somos, para não dizer, francamente, que somos estúpidos”.

A rigor, o texto, como o título, se divide em três partes. A primeira trata da questão da bebida e de como a Revolução fez muito bem em manter o que o Czarismo, durante a guerra, já fizera: a imposição da lei seca. A segunda parte descreve a prática religiosa como escapismo vazio, naturalmente seguindo a ideia marxista, clicherizada na expressão “ópio do povo”.

Trotzki e Frida Kahlo, no México.

Trotzki e Frida Kahlo, no México.

É na terceira parte que o cinema vai entrar como a poderosa arma que deverá vencer os dois “males”, a bebida e a religião. Na verdade, não partilho as opiniões veiculadas sobre bebida e religião, mas, como não se entusiasmar com o entusiasmo de Trotzki com o cinema, num ensaio de data tão remota, quando a Revolução Russa tinha seis anos de idade, e o cinema, vinte e oito?

A principal argumentação do texto diz respeito ao lazer da classe operária, que acabara de ganhar o direito a oito horas de trabalho. O slogan da campanha havia sido: “Oito horas de trabalho, oito de sono e oito de lazer”. A conquista foi importante, mas, a preocupação de Trotzki é justamente com esse lazer: o que fazer dele, sem álcool e sem religião? Como dar ao tempo ocioso dos trabalhadores uma alternativa que inclua prazer e crescimento cultural? Ele formula a pergunta repetidas vezes para sempre responder com uma palavra única: “cinema”. E, interessante – ao contrário do Vertov citado ao seu lado no livro de Stam -, sem descartar o poder de encantamento que este meio de expressão já adquirira no mundo capitalista. Segundo Trotzki, a fuga à pequenez do cotidiano, a vontade de vivenciar coisas extraordinárias, em suma, o anseio de sonhar, é um pendor legítimo da natureza humana, que não deveria ser frustrado.

E o que melhor para fazer sonhar que o cinema?

Em tempo: esta matéria é dedicada a Martinho Campos.

Cinema: para educar trabalhadores...

Cinema: para educar trabalhadores…