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NOVENTA E CINCO ANOS DE O ENCOURAÇADO POTEMKIN

17 nov

Há noventa e cinco anos, em vinte e um de dezembro de 1925, acontecia em Moscou um evento extraordinário: no Teatro Bolshoi era lançado um filme estranho que daria o que falar a soviéticos e estrangeiros por muito tempo.

Em linguagem revolucionária, se mostravam, em 1300 surpreendentes planos de uma força descritiva impressionante, em ritmo nunca visto, episódios da Insurreição russa de 1905. Tratava-se de O encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin) de Sergei Eisenstein.

Na verdade, o projeto do filme fora encomendado ao jovem Eisenstein (então com vinte e oito anos) como parte da celebração comemorativa dos vinte anos da insurreição de 1905. Assim, ele e a escritora Nina Agadjanovna, ela própria uma insurreta, arregaçaram as mangas na elaboração de um quilométrico roteiro que abarcava todos os aspectos possíveis da referida insurreição.

Um belo dia, atrapalhado ao meio de tantas páginas e vendo o tempo passar, Eisenstein teve uma brilhante inspiração: ao invés de reconstituir a insurreição como estava no projeto inteiro, se centraria num único episódio que deveria funcionar como uma metonímia do todo, no caso, equivalente a uma única página do roteiro escrito pela equipe. O episódio era o motim dos marinheiros no navio Potemkin e o apoio recebido por parte da população de Odessa.

Mas Eisenstein não fez só isso. Como se sabe hoje, em favor de efeitos de ordem estética, descartou a fidelidade à História e inventou “incidentes” que por muito tempo passaram por verdades históricas. A sequência da Escadaria de Odessa, (possivelmente, a sequência cinematográfica individual mais citada em toda a história da sétima arte!) é um exemplo que vem ao caso, mas há um número enorme de outros.

Conta-se que quando o filme estreou em Moscou alguns dos marinheiros que haviam estado no Potemkin foram convidados. Maldosa como sempre, a imprensa procurou esses marinheiros, depois da exibição, para checar a veracidade dos fatos descritos na película. Por exemplo, para conseguir a devida sensação de opressão Eisenstein havia baixado o teto cenográfico do porão do navio, forçando os seus atores a caminhar curvados. Pois indagados sobre isso, os marinheiros teriam respondido confirmativamente que “era assim mesmo, que viviam com as costas doídas de andar curvados”. Bem entendido, não é que os marinheiros russos fossem mentirosos: é que a força expressiva do filme se mostrava capaz de convencer até os envolvidos na história.

Por trás dessa força, além do talento óbvio do seu autor, havia uma teoria. Eisenstein tentava o milagre de fazer vanguarda com base no materialismo científico de Karl Marx, e sua concepção de cinema girava em torno da famosa tríade dialética: se pensado micro-estruturalmente, o filme era um processo composto de (1) um plano-tese, (2) um plano-antítese e (3) uma síntese, que, esta, deveria ocorrer na cabeça do espectador. Se o plano-tese (uma imagem narrativa) fazia parte da estória do filme, o plano-antítese (uma imagem metáforica), não. Conforme se percebe, esse é o processo que constrói o discurso poético, e não o narrativo, que o cinema tradicional consagraria.

Revendo-se hoje O encouraçado Potemkin, é possível perceber até onde esse esquema funcionou. Naturalmente essa proposta de “cinema poético” só poderia ser viável em filmes curtos, como um poema, e se revelava de difícil sustentação nos setenta e cinco minutos da projeção. O que se observa facilmente é que, muito mais genial que a proposta, foi o talento criador do cineasta, que ironicamente driblou duas coisas, a reprodução verídica e os esquemas teóricos, para engendrar uma grande sinfonia visual, monumental, desconcertante ou instigadora, mas sempre e ainda hoje arrebatadora e impactante, aliás, eleita pela crítica internacional, desde 1948, “o mais belo filme do mundo”.

Como esperado, logo após a estreia Eisenstein começou a ter problemas com a censura soviética de Stalin: o filme foi remontando pela tesoura comunista e o que o mundo inteiro ficou conhecendo a partir daí, e até hoje, não corresponde ao original.

Outro problema tem sido, ao longo das décadas e no mundo inteiro, a recepção a Potemkin. Com certeza a revisão sistemática de sua fortuna crítica vai revelar percalços. A sua leitura estritamente ideológica é um deles. A depender da posição do receptor (esquerda, direita, etc), ele já foi elogiado ou detratado por motivos equívocos. Hoje em dia, após a derrocada comunista, o perigo dessa leitura equivocada não desaparece, muito pelo contrário.

A propósito de recepção, não resisto em contar um incidente envolvendo a escritora americana Marianne Moore, como se sabe, um nome maior na poesia do nosso século. Na Nova York dos anos quarenta, dois intelectuais típicos descobrem, numa palestra pública, que Moore nunca tinha visto O encouraçado Potemkin, fato que os deixa num frisson incontido, pois essa lacuna cultural, segundo eles, tinha que ser preenchida o quanto antes. Por coincidência, um cinema da cidade está exibindo o filme de Eisenstein e a dupla tem o zelo de convidar Moore a ir a uma sessão com eles, e depois, a um bom restaurante onde possam discutir o filme.

No programa do tal cinema, antes do filme principal, é mostrado um desenho de Pato Donald que faz Moore gargalhar à vontade. Pois durante todo o jantar, Moore fala entusiasticamente de Pato Donald, ou então de outro assunto, e não toca na obra prima do cineasta russo. No fim da noite, os dois intelectuais, desesperados, arriscam timidamente uma pergunta sobre o filme, e ela, enviesada: “Mas a vida não é assim!”. Ora, a poesia da própria Marianne Moore não retrata a vida “assim”, e muito menos os desenhos de Pato Donald, porém, de todo jeito, deixamos o nosso leitor com esse mote para repensar O encouraçado Potemkin em seus respeitáveis noventa e cinco anos de idade.

O esgrimista

20 maio

Com assinatura do finlandês Klaus Härö, o filme “O esgrimista” (“Miekkailija”, 2015), disponível em dvd, mistura bem veracidade histórica e drama pessoal, e pode ser visto com prazer.

Sigamos as linhas mestras de seu roteiro. A estória começa na Estônia do início dos anos cinquenta, quando este país ainda fazia parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. À pequena cidade de Haapsalu chega o desconhecido e meio arisco Endel Nelis para assumir, na Escola local, o posto de professor de esportes.

Apesar de mal recebido por uma direção desconfiada, logo ele funda o clube da esgrima, ao qual acorrem alunos das várias séries, fascinados por um esporte que oscila entre a destreza da luta e a elegância da dança. Dadas e recebidas com rigor e dedicação, as aulas fazem efeito e daí a pouco, a equipe esgrimista já está bem consolidada. Sempre antipática ao novo professor, a direção da escola tenta extinguir a esgrima do currículo, porém, o corpo docente em peso, considerando o interesse evidente do alunado, vota pela permanência.

Poster do filme, com o título internacional, "The fencer"

Poster do filme, com o título internacional, “The fencer”

O impasse aparece no dia em que divulga-se o grande Evento Nacional de esgrima competitiva, a acontecer em data próxima, em Leningrado. Entusiasmados, os alunos querem participar, mas, o professor Endel, não. Ele é, como se diz nos resumos de “movie guides” americanos, “a man with a past” (´um homem com um passado´).

Ocorre que, ao tempo em que, antes dos soviéticos, a Estônia encontrava-se sob domínio alemão, Endel, como muitos outros jovens de sua faixa etária, fez, inocentemente, parte do exército daquele país. Com a vitória dos Aliados, esses jovens passaram a ser perseguidos como inimigos da pátria: muitos foram enviados a campos de concentração na Sibéria por Stalin, e Endel, miraculosamente, escapara, mudando então o sobrenome de Keller para o atual Nelis.

Sob o duro regime stalinista, retornar a Leningrado era um perigo que ele não podia correr e, por outro lado, não participar da competição nacional de esgrima seria uma atitude que os alunos, sem conhecer os seus motivos, iriam repudiar. Ir a Leningrado como técnico da equipe e ser preso, ou ficar e decepcionar uma turma de adolescentes tão estimulados ao esporte?

o esgrimista 2

O que torna o dilema maior é que, sendo quase todos os alunos da escola órfãos da guerra, o professor Endel havia se tornado, para eles, querendo ou não, uma espécie de ´figura paterna´, que supria o afeto inexistente em casa. Na estação de trem, no momento da partida, é isso que lhe diz a namorada, também professora, querendo argumentar em favor de sua desistência. A resposta de Endel é, contudo, inequívoca: ‘por isso mesmo, eu tenho que ir´. E vai.

Durante a realização do torneio, já chegada ao Ginásio a polícia que deverá levar o subversivo treinador do time de Haapsalu, o diretor da escola, a sós com ele num pé de escada, ainda tem a surpreendente fineza de lhe oferecer a fuga. Diz ele, “a URSS é um país enorme”, o que Endel ouve, treme e cala. Mas não foge.

A estória do desportista estoniano Endel Nelis (1925-1993) é um caso real, historicamente datado, porém, não quer isso dizer que o filme de Härë lhe tenha sido subalterno.

A simples forma de narrar evidencia a invenção que está nos enquadramentos, na montagem, na fotografia, no uso da música, nas interpretações, nas escolhas dos cenários, enfim, em toda a mis-en-scène. Com certeza, a própria roteirização apelou para lances que transcendem a estória real, modificando-a ou lhe fazendo acréscimos.

Aulas de esgrima, para crianças...

Aulas de esgrima, para crianças…

Coisas assim ficam claras na caracterização de pelo menos dois dos alunos de Endel, a irrequieta Marta e o contido Jaan. É Marta quem suscita as aulas de esgrima ao espiar o professor em seu exercício solitário; é ela quem ganha dele o amuleto e é ela quem o devolve num momento de decepção; é dela, mera suplente no jogo de Leningrado, de quem dependerá o sucesso do time. Já Jaan é o único aluno que divisamos em casa; o único que tem um avô entusiasta da esgrima; o único que perde um ente querido durante o período do curso; e o único que contesta o talento do professor em um momento de crise: “Você só está aqui porque não é bom”, diz ele, referindo-se à pequenez de Haapsalu, em oposição à grandeza de Leningrado”.

Pode-se perfeitamente dizer que “O esgrimista”, como tantos outros, é só mais um filme sobre a relação professor/aluno, ou sobre o espírito de grupo esportivo que leva à vitória, ou sobre a dureza do regime totalitário…. mas, acontece que o cineasta Härë soube juntar bem os três temas e nos oferece uma obra singela, mas convincente e honesta.

Enfim, o espectador pode sair dele com a sensação de “já ter visto esse filme”, porém, – suponho eu – também sairá com a sensação de ter gostado da “revisão”. Eu gostei.

Na estação, a caminho de Leningrado.

Na estação, a caminho de Leningrado.