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O cânone e seus problemas

16 out

Você assistiu ao filme “O matador de ovelhas” (“Killer of sheep”, 1978)? Claro que não. Nem você nem ninguém. Ou quase ninguém.

Então, por que estou escrevendo sobre um filme que (quase) ninguém viu?

A razão é simples; na recente lista dos “100 melhores filmes americanos de todos os tempos”, organizada pela BBC, “O matador de ovelhas”, de Charles Burnett, ocupa o privilegiado vigésimo sexto lugar, posicionado na frente de obras primas reconhecidas como “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder), “Um lugar ao sol” (George Stevens), “A marca da maldade” (Orson Welles), “Tempos modernos” (Charles Chaplin), “Interlúdio” (Alfred Hitchtcock) e outros mais.

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Quando a lista da BBC foi divulgada, fiquei atônito e a primeira coisa que fiz foi checar com os amigos cinéfilos, para saber quem conhecia, ou ao menos quem tinha ouvido falar de “O matador de ovelha”. Ninguém, nem mesmo o enciclopédico Ivan Cineminha.

A próxima etapa vocês imaginam qual foi: apelar para a Internet e suas muitas possibilidades de acesso. A primeira constatação foi que o filme detinha realmente um prestígio enorme junto a um certo setor da crítica americana. Claro que isso só fez aumentar minha curiosidade. Eu tinha que ver essa suposta obra prima, tão desconhecida em território brasileiro.

Cata daqui, cata dali, consegui, afinal, chegar a uma cópia do filme do Charles Burnett, que já vi e…

Artesanal e precário, o filme retrata a vida num arrabalde negro de Los Angeles. O personagem principal é um pai de família de meia idade que trabalha no matadouro local, e, aparentemente por isso mesmo, sua vida é triste e desmotivada. De alguma maneira sua temática poderia ser resumida na frase: favela também tem crise existencialista.

Não há uma estória a ser contada, apenas uma série de vinhetas do cotidiano que enfocam, ora esse ´matador de ovelhas´, ora a sua mulher, ora as crianças, ora os vizinhos. Às crianças e suas brincadeiras de rua nada edificantes é dado o maior tempo de tela, enquanto que as vinhetas dos adultos terminam necessariamente em frustrações: ora é um passeio interrompido por um pneu furado, ora um motor sem conserto.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Embora não haja voz over, o tom é documental e o filme termina como começou, sem término; o único incidente que se chamaria de ´estória´ é um episódio em que amigos do matador de ovelhas tentam convencê-lo a fazer parte de um golpe e a esposa os enxota com palavrões. Um drama a divisar subjaz entre marido e mulher, ela quase sempre se insinuando sexualmente, e ele, sempre indiferente a tudo.

No final sabe-se que uma vizinha está grávida e o filme se fecha com o matador matando ovelhas ao som de “Bitter earth”, na voz de Dina Washington… e pronto. Aliás, o filme tem uma rica trilha sonora de jazz, e, em alguns momentos, canções americanas são solfejadas pelos personagens, mas não sei se isso o torna maravilhoso, ou “poético”, como parece querer os críticos que o elogiam.

Na verdade, a sua produção consistiu em trabalho de final de curso que o então jovem Burnett, submeteu à UCLA e foi aprovado. Do âmbito universitário, deu um pulinho nos festivais independentes dos Estados Unidos e pronto… a ascensão foi montada.

Para voltar à abertura desta matéria, a pergunta que ocorre a todos nós é: por que “O matador de ovelhas” foi colocado nessa posição altamente privilegiada na lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos, desbancando as obras primas já mencionadas?

Casal em crise conjugal

Casal em crise conjugal

Acho importante que os votantes – nesta lista da BBC e em outras – tenham sempre o direito de escolher o que bem entenderem, porém, ocorre que, de minha parte, também tenho o direito de comentar as escolhas. No meu entender, “O matador de ovelhas” é um excelente TCC (trabalho de final de curso universitário), agora, quanto a ocupar a posição que ocupa na lista da BBC é outra estória…

Fico com a vaga impressão de que os motivos dos críticos votantes foram mais ideológicos que estéticos, mas, sejam quais tenham sido esses motivos, o que vem à tona nesta discussão toda é a questão maior do cânone cinematográfico: sim, toda “lista de melhores” é problemática, e o absurdo – se for o caso – da posição canônica de “O matador de ovelhas” é só um exemplo – eventualmente gritante! – da problemática.

Outra coisa, para não criar equívocos: o fato de ter sido pouco visto não depõe contra “O matador de ovelhas”; no Brasil, um dos filmes menos conhecidos é um dos grandes: “Limite” (1931).

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Relembrando D. H. Lawrence

4 fev

A televisão paga exibe “Filhos e amantes” (“Sons and lovers”, 1960, de Jack Cardiff) e, vendo o filme, me divirto, recordando os meus primeiros contatos com D. H. Lawrence, o autor adaptado.

Meados dos anos setenta eu fazia o curso de Letras – habilitação Inglês – e a professora de literatura inglesa era uma entusiasta de Lawrence, embora, como boa feminista, não deixasse de denunciar a sua disfarçada misoginia.

Engraçado, na época não me ocorria, mas hoje me dou conta de que as idéias da força do instinto sobre o espírito e da liberação do corpo em Lawrence vinham a calhar com as práticas do momento, digo, o movimento hippie em curso. Só que – não esqueçamos – o romance “Sons and lovers” era muito mais antigo, escrito e publicado em 1913, numa Inglaterra ferrenhamente conservadora. Aliás, toda a literatura de Lawrence bateu corajosamente contra o conservadorismo inglês. Veja os seus outros romances, “O arco iris” (1915), “Mulheres apaixonadas” (1920) e o mais popular “O amante de Lady Chatterley” (1928)

"Filhos e amantes": conflitos familiares.

“Filhos e amantes”: conflitos familiares.

Quanto ao filme do também inglês Jack Cardiff, confesso que não o conhecia. Deve ter sido exibido localmente, pois concorreu ao Oscar do ano de 1960 (perdeu para “Se meu apartamento falasse”): eu é que fiquei de fora, talvez por causa da censura.

Não sei na época, mas, visto hoje, “Filhos e amantes” parece inofensivo. Não tem mais – e não sei se teve na estréia – o ardor que os leitores de Lawrence um dia encontraram em suas páginas. De qualquer forma, é a adaptação de um grande romance, um dos maiores do seu século, e merece atenção.

No enredo não acontece muito e a coisa toda é uma espécie de ´iniciação´ do jovem Paul Morel, sua relação doentia com a mãe, suas tentativas de superar a pobreza e encontrar um caminho profissional na pintura, e suas primeiras e frustrantes aventuras amorosas. Se essa escassez de estória no romance não incomoda, em cinema, sim.

Creio que o que mais nos prende ao filme de Cardiff são as excelentes interpretações e a bela fotografia em preto e branco de Freddie Francis, aliás, o único Oscar ganho. A propósito da fotografia, as ruas feias do lugarejo, os interiores pobres, a paisagem rural, o caminho para as minas, e – uma cena marcante – a explosão de uma delas, com o povo se dirigindo ao local do acidente, cada um com medo de encontrar um parente morto: visto em ângulos angustiantes, tudo isso parece documentário, daqueles que os ingleses, na tradição de um Grierson e de um Cavalcanti, sabiam fazer tão bem.

Dean Stockwell, semelhança física com James Dean

Dean Stockwell, semelhança física com James Dean

No elenco notemos o jovem e charmoso Dean Stockwell, que lembrava James Dean, embora nunca tenha alcançado a fama. Na estória, o seu grande antagonista é o pai, mineiro sem instrução que despreza as intenções artísticas do filho – desempenho estupendo do veterano Trevor Howard, aliás, indicado ao Oscar.

Enredo escasso e excesso de plástica, devemos dizer que isso tinha a ver com o diretor Jack Cardiff, já na época considerado um dos melhores fotógrafos (e não cineasta) de todos os tempos, aplaudido pela fotografia de filmes como: “Narciso Negro” (Michael Power e Emeric Pressburger, 1947) “Sapatinhos Vermelhos” (Power e Pressburger, 1948), “Sob o signo de Capricórnio” (Alfred Hitchcock, 1949)“Pandora” (Albert Lewin, 1951), “Uma aventura na África” (John Huston, 1951), “A condessa descalça” (Joseph Mankiewicz, 1954) e “Guerra e paz” (King Vidor, 1956). Quando passou a dirigir (“Filhos e amantes” é o seu terceiro filme), parece que Cardiff não conseguiu se livrar da primazia da plástica sobre a fabulação.

A cena do acidente na mina: como se fosse documentário.

A cena do acidente na mina: como se fosse documentário.

Com razão, a crítica aponta, em sua filmografia, a obsessão com a composição dos enquadramentos, por vezes subestimando a natureza essencialmente narrativa do cinema.

De minha parte, em “Filhos e amantes” notei uma certa esquematização do drama, que torna o diálogo por vezes duvidoso. Refiro-me, por exemplo, àquele momento dramático em que o Sr Morel, dentro de casa, acusa a esposa de ter estragado o filho com sua possessividade e seu ciúme, o que é verdade para quem acompanha a estória, porém, são verdades complexas que não se espera sair, formulada em palavras difíceis, da boca de uma mente pouco perceptiva como a desse mineiro, bronco e raso. Este é um defeito de roteirização, ou vem do romance? Não tenho condição de dizer.

Teria sido bom ver “Filhos e amantes” ao tempo de seu lançamento, começo dos anos 60, época do ousado Free Cinema inglês, do qual, aliás, o filme de Cardiff, produção da Fox, nada tem. Melhor ainda, (re)vê-lo em 1975 e tê-lo confrontado com o livro estudado em classe. Vê-lo hoje vale pela evocação de Lawrence.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Maria das Vitórias Lima Rocha.

O escritor D. H. Lawrence

O escritor D. H. Lawrence