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Um instante de amor

21 jun

Dúvida não há de que o Varilux deste 2017 veio um pouco mais fraco. De todo jeito, assisti com certo prazer a este “Um instante de amor” (“Mal de pierres”, 2016) da diretora Nicole Garcia.

Nada de extraordinário, mas um drama relativamente bem feito sobre uma mulher que estima o amor de um modo tal a perder o limite entre a sanidade e a loucura, sobretudo quando esse amor ansiado lhe escapa.

Posta diante de uma imagem de Cristo na cruz, depois de uma decepção amorosa, Gabrielle implora pelo principal, e esse “principal”, é o amor que a vida teima em lhe negar. Poderia ter sido algo no nível de “O morro dos ventos uivantes”, livro que o seu professor particular lhe emprestara, mas – como diz o frio professor – isto é só literatura.

A estória de “Um instante de amor” se passa no Sul da França, algum tempo após a II Guerra, e os pais de Gabrielle são fazendeiros tradicionais, com certo poder sobre toda uma gama de trabalhadores rurais, entre os quais se encontra esse espanhol José, empregado competente e responsável.

Considerada moça velha “nervosa” – para não dizer desequilibrada – Gabrielle é oferecida a esse José, que a aceita como parte de um negócio de família. Ela logo lhe avisa que não o ama, ao que ele retruca, sincero, que tampouco a ama. Fica, assim, combinado entre os noivos que não farão sexo, e que ele procurará prostitutas quando precisar. Isto, até o dia em que ela, por alguma razão não muito clara, veste-se de prostituta e ele paga pelo ato. “Ponha o dinheiro na mesa”, lhe diz ela.

Esse casamento sem amor segue assim, até o dia em que, acometida do “mal de pedras” (conferir título original do filme), Gabrielle é interna num hospital nas montanhas suíças. Lá ela conhece outro enfermo, um jovem tenente, ferido na guerra da Indochina, um André Sauvage, de sobrenome sintomático. Esse ex-combatente fragilizado desperta nela “o principal” e com uma intensidade nunca sentida.

Um dia, porém, a ambulância vem pegá-lo e, para completo desespero de Gabrielle, o seu quarto de enfermo fica vazio. Ela se arrasa, mas, eis que logo ele retorna, são e salvo, lhe dizendo que fez isso por causa dela… Ou será que não retorna?

Para não contar o resto da estória, deixo a pergunta no ar.

Gabrielle lendo “O morro dos ventos uivantes”.

Digamos apenas que o filme tem uma estrutura narrativa bifurcada, parecida, se vocês lembram bem, com a daquele filme dos anos oitenta com Kathleen Turner, “Júlia e Júlia” (Peter Del Monte, 1987), em que realidade e delírio se intercalavam, formando como que universos paralelos, cada um com sua lógica rigorosa e sua compleição.

Como, tal qual no filme de Del Monte, a estória é narrada no ponto de vista da protagonista Gabrielle, somos tão vítimas de suas ilusões quanto ela, ilusões que só serão esclarecidas no desenlace.

Lembro-me bem que em “Júlia e Júlia” havia, na cena final, uma fotografia que deveria ser esclarecedora, mas não era (Júlia, o marido e o filho: uma família que nunca existiu). Ao contrário do esperado, essa fotografia enfatizava o universo delirante. Em “Um instante de amor” (título brasileiro que não deixa de ser curioso), diferentemente, a fotografia do final (Gabrielle recostada sobre uma cadeira vazia, ou seja, sem o seu tenente Sauvage,) é francamente esclarecedora… O que, para o bem ou para o mal estético, retira do filme parte da sua ambiguidade.

Uma foto decisiva…

Uma coisa é certa: “Um instante de amor” é um filme de mulher, em vários sentidos. Vejam bem: trata-se de uma estória sobre mulher, adaptada de um livro de autoria feminina, dirigida por mulher, com referência literária feminina (“O morro dos ventos uivantes”) e, como se não bastasse, com um desempenho feminino de primeira linha, dado pela sempre ótima Marion Cotillard, aqui mais instigante que nunca.

Penso que, sem pompa nem circunstância, a personagem de Gabrielle vem somar-se à galeria de mulheres apaixonadas que o cinema, desde a era clássica, vem sabendo retratar.

Com relação à diretora Nicole Garcia, não conhecia seus filmes, mas, lembro bem dela como atriz, especialmente do seu papel dramático e decisivo em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, 1981, de Claude Lelouch), na pele daquela violinista judia que, para salvar o filho bebê, é forçada a deixá-lo numa linha de trem que se dirige a campo de concentração, e só vem a revê-lo já velha, num asilo para idosos.

Não me surpreenderia se alguém me dissesse que os muitos papéis dramáticos que Nicole Garcia desempenhou nos filmes em que foi atriz, ajudaram a construir a figura cativante da Gabrielle de “Um instante de amor”.

Marion Cotillard, em excelente interpretação.

Magia ao luar

7 nov

Coincidência engraçada: esta semana estava relendo – como costumo fazer – o meu Machado de Assis de cabeceira e caio naquele conto “Uma visita de Alcibíades”, quando, no mesmo dia, entra em cartaz na cidade o filme de Wood Allen “Magia ao luar” (“Magic in the Moonlight”, 2014).

Qual é a coincidência? É que ambos, conto e filme, tomam o espiritismo como pano de fundo.

No conto de Machado, um cidadão convertido ao espiritismo resolve “baixar” o espírito do grande militar e político grego Alcibíades, com quem passa a ter um diálogo de longas horas, em que vai ensinando ao pasmo ateniense os costumes do mundo moderno, um dos quais é a maneira de vestir-se. Espantando com as peças da indumentária moderna (a estória se passa em 1875), Alcibíades termina por morrer (de novo) de susto, ou indignação, no momento em que o seu interlocutor põe na cabeça, a peça final de seu traje… o chapéu.

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À primeira vista, o conto parece uma gozação com o espiritismo, mas, na verdade, este é só um pretexto para o bruxo de Cosme Velho rir do seu século e seus costumes.

No filme de Allen, o espiritismo também aparece como pretexto; pretexto para que se desenvolva uma estória de amor entre duas pessoas em situações antagônicas, justamente naquela mesma linha das velhas comédias românticas de antigamente, sim, aquelas que historicamente eternizaram o mote ´rivais que se apaixonam´. Só para provar como o esquema é antigo, uma das primeiras dessas comédias foi o ótimo “Aconteceu naquela noite” (“It happened one night”, 1934), de Frank Capra, com Claudette Colbert e Clark Gable no papel dos rivais relutantemente atados pelas tramas do coração.

Em atuação em Berlim, em 1928, o grande mágico Wei Ling Soo é incumbido de desmascarar uma médium, uma tal de Sophie, jovem americana que vive com a mãe no Sul da França, com fama de entrar em contato com o mundo do além. Contudo, ao se conhecerem, Stanley (Wei Ling Soo sem disfarce) vai sendo convencido pela bela médium e, perplexo e encantando, termina acreditando que ela tem mesmo o dom de se comunicar com os mortos.

Amantes relutantes, em "Acconteceu naquela noite, 1934.

Colbert e Gable, amantes relutantes, em “Acconteceu naquela noite, 1934.

O inevitável e previsível turning point da estória acontece quando Stanley descobre que tudo não passava de uma farsa, promovida por um parente invejoso e vingativo. A partir daí, o espiritismo deixa de ser útil ao enredo e é então que o filme assume de vez o que era desde o início, a comédia de estilo romântico, nos moldes acima referidos. Para não deixar de mencionar o título do filme, pula-se então da magia metafísica para a magia amorosa.

 Trata-se de mais um exercício fílmico do veterano Woody Allen, com todos os seus ingredientes, tudo, como sempre, muito bem concebido e muito bem amarrado, com músicas e paisagens certas nos momentos certos.

Gostei do filme, mas o gostar não me impede de ver os “truques” da direção. Por exemplo, a primeira parte da estória corre rápido demais, e a segunda é muito devagar. Um efeito é a pouca verossimilhança, o outro, é a redundância.

Woody Allen, hiper ativo aos 79 anos de idade.

Woody Allen, hiper ativo aos 79 anos de idade.

Na primeira, o mágico aceita rápido demais o desafio de desmascarar a médium, e, mal o filme se ajeita, lá está ele em pleno Sul da França, disposto ao confronto. Igualmente rápida é a transformação desse grande prestidigitador experiente em um crédulo abestalhado diante dos truques da médium americana, truques estes que até para nós, espectadores, parecem furados, por exemplo, aquelas pancadas nos móveis para indicar as respostas do morto às perguntas dos vivos.

Já na segunda parte, depois do turning point esclarecedor, leva-se um tempo excessivo para se chegar aonde se sabe que vai-se chegar, ou seja, à união dos opostos, repito, das velhas comédias de antigamente. Tanto quanto o espiritismo, o milionário pretendente de Sophie é, neste sentido, só mais um obstáculo para incrementar o drama e retardar o desenlace.

A sensação que tive ao sair do cinema foi a seguinte: dê a Woody Allen qualquer tema (espiritismo ou o que for…) que ele lhe confecciona um filme bonito, divertido, agradável e inteligente.

Espero que não se veja ironia na minha dedução sobre o talento de Allen, afinal de contas, – e para voltar à abertura desta matéria – o mesmo não poderia ser dito de Machado de Assis?

Emma Stone e Colin Firth são os amantes relutantes de "Magia ao luar".

Emma Stone e Colin Firth são os amantes relutantes de “Magia ao luar”.