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Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

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Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

5 uma dona de casa

Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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Uma longa viagem

14 dez

Uma verdadeira pérola exibida no Fest-Aruanda foi, com certeza, esse belo e tocante semi-documentário “Uma longa viagem” (2011) de Lúcia Murat. Para quem acompanha a carreira de Murat (“Que bom te ver viva”, 1989; “Brava gente brasileira”, 2000), uma agradável surpresa, um filme praticamente sem parentes dentro da cinematografia nacional.

 O argumento é simples, embora o tratamento, não. No final dos anos sessenta, a família Murat receia que o filho caçula (Heitor) tome o rumo da irmã mais velha, Lúcia (no caso, a própria cineasta) e se engaje na luta armada contra a ditadura, e assim, o envia a Londres, onde o rapaz mergulha de cabeça na psicodelia, e, alimentado pelas drogas e pelo clima paz e amor da época, resolve correr mundo.

Austrália, Índia, Afeganistão, Estados Unidos são roteiros de uma viagem psicodélica, da qual a família só tem notícia através de cartas. Agora, quarenta anos depois, Lúcia Murat resolve contar essa estória e o faz a partir de duas fontes: o confuso e incongruente depoimento do irmão, hoje um cinqüentão completamente sonado, e as cartas, estas “performatizadas” por um personagem que o representa em sua juventude (o ator Caio Blat).

O resultado poderia ter sido um relato familiar de interesse apenas privado. Mas que nada. O filme conquista o espectador logo cedo e daí a pouco já estamos todos ´metidos na vida alheia´. Na verdade, a grande força e também o grande charme do filme é trabalhar com o elemento da memória, fazendo confluir o pessoal e o histórico de uma forma inconsútil, e mais que isso, lírica.

Não esqueçamos que duas figuras típicas dos anos sessenta/setenta foram o guerrilheiro que abraçou a luta armada e o jovem que optou pelo “paz e amor” dos hippies, cada um arcando com suas respectivas conseqüências, tortura e morte num caso, piração, no outro. Ora, em carne e osso, Lúcia e Heitor são dois representantes ostensivos dessa época, e embora o filme seja carinhosamente dedicado a um terceiro irmão, Miguel, já falecido, é nessa antítese actancial que ele funciona.

Obviamente, Lúcia (personagem e cineasta ao mesmo tempo) dá vez e voz ao irmão, e de alguma maneira o documentário é sobre – como no famoso poema de Frost, “the road not taken”, (`o caminho não tomado´) – uma tentativa comovente e comovida de entender o outro, aquele que tomou “o outro caminho”.

Nesse particular, um excelente recurso está em todas as muitas cenas em que se mostra o que a cineasta não viu: o jovem Heitor no Exterior. Como rodar um filme de época cujo cenário seria o planeta? Sabiamente, a cineasta opta pela metonímia: o personagem sempre aparece fotografado em recorte ou moldura, em ambientes fechados, ou, quando abertos, sobreimpressos com imagens de arquivo – tudo isso ajudado pela edição e trilha sonora da época.

Por falar em trilha, o melhor lance sonoro de “Uma longa viagem” é a nada gratuita escolha do tema musical, o “Summertime” de Gershwin cantado – tinha que ser! – por Janes Joplin. E aqui peço ao leitor/espectador que revise a letra da canção (ofuscada pela interpretação implosiva de Joplin) e releia essa estória de um filhote de gaivota que, ainda no ninho e, por enquanto, sob a proteção materna e paterna, se prepara para voar. Ora, o jovem Heitor do filme já está “voando”, sem a proteção familiar, e a inevitável associação de sua situação com a do pássaro traz um enorme dividendo semântico ao filme.

Uma virtude a mais do filme está na fuga ao esquema melodramático da estória sobre um ente querido já falecido (do tipo “As pontes de Madison”): o Heitor maduro do filme está sonado mas está vivo e, mais, seu discurso desconexo provoca o riso no público (houve riso à beça na sessão em que estive) e não parece ter havido esforço da direção em castrar esse riso.

Risos à parte, pelo tema e pela situação diegética (reencontro entre irmãos), mas também pela delicadeza e pelo lirismo, “Uma longa viagem” me transportou saudosisticamente a dois clássicos do cinema europeu que me indago se Lúcia Murat conhece, a saber, “Dois destinos” de Valério Zurlini (1962) e “Três irmãos” (1981) de Francesco Rosi. Aliás, eu disse acima que o filme de Lúcia Murat não tem parentes no cinema nacional. Se tiver, o mais aproximado deve ser o “Santiago” (2007) de João Moreira Salles, apesar de, neste caso, as relações familiares não serem consanguineas.

Em tempo: premiado em Gramado, “Uma longa viagem” já deve estar para ser, ou já foi, selado em DVD.