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Hud, o “car boy”

11 mar

Foi nos anos 1950 que o filme faroeste amadureceu, e tanto que, no processo, gerou uma espécie de parente agregado: o filme que tinha o mesmo cenário, o Oeste, mas o tempo era outro; era o presente, contemporâneo às filmagens. Nesse novo modelo de ´western´, o cavalo cedeu lugar ao automóvel, e o ´mocinho´, subtraído de seu mítico heroísmo de cowboy – bem que poderia ser chamado de ´car boy´.

Não sei dizer quem foi, na cronologia, o primeiro “parente agregado” do faroeste, mas, lembro pelo menos três filmes nesse modelo: “Assim caminha a humanidade” (George Stevens, 1956), “Os desajustados” (John Huston, 1960) e “Hud, o indomado” (Martin Ritt, 1963). hud poster Sobre os dois primeiros já escrevi alhures, e aqui me atenho a “Hud, o indomado”, recentemente circulando na programação da televisão paga, um filme de boa qualidade que teve cinco indicações ao Oscar e levou três.

Nessa fazenda de gado, no Oeste americano de hoje em dia (ou seja, de 1963) vivem três homens de faixas etárias diferentes: o proprietário e idoso Homer, seu filho Hud e o neto adolescente Lon. De pais falecidos, este último é sobrinho de Hud, de forma que a única presença feminina na casa fica por conta da empregada, a simpática e atraente Alma Brown.

O velho Homer representa o passado e todos os seus valores; nele o espectador pode ler claramente o perfil de todos os rancheiros ou criadores de gado dos velhos faroestes e, por tabela, a bravura dos que conquistaram o Oeste bravio.

Já no cínico e inescrupuloso Hud, seu filho, ao contrário, divisamos o novo western man, – o nosso “car boy” – aquele que dirige seu cadillac em alta velocidade, que namora todas as mulheres casadas do lugar, que enche a cara nos prostíbulos da cidade, e que pensa em vender a fazenda para escavação de petróleo, algo bem mais rentável do que a atividade pecuária. É o novo tempo chegando, com sua nova moral, ou seria mais apropriado dizer, falta de moral.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Entre os dois personagens, e também entre os dois modelos éticos, se equilibra o adolescente Lon, aquele a quem a câmera concede mais tempo de tela. Para dramatizar o contraste entre passado digno e presente corrupto, dois lances de roteiro são básicos.

O primeiro é a doença – em si mesmo simbólica – que acomete o gado. Quando morre a primeira rês, Hud sugere ao pai que venda a manada toda e repasse o problema para outrem, o que, naturalmente, deixa o genitor indignado – e se for o caso, também o espectador – com a sugestão de contaminar o gado no país inteiro, meramente por conta do lucro. Ponto dramático que completa as caracterizações dos personagens e define o caminho actancial da narrativa, o segundo lance de roteiro a que me refiro é a cena em que Hud tenta estuprar a emprega, e só não o faz porque o sobrinho interfere.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Trata-se, evidentemente, de um filme contundente, só possível depois de estar fora de validade o Código Hays de censura, aliás, extinto para sempre no ano seguinte, 1964. Seu diretor, Martin Ritt, era um dos jovens novatos, como Sidney Lumet ou Sam Peckimpah, com vontade explícita de quebrar barreiras e impor novos conceitos, estéticos e de outra ordem. Por exemplo, numa data em que a cor já era praxe, o seu preto e branco impressiona, especialmente pelos criativos dotes fotográficos do grande mestre James Wong Howe, sem coincidência, um dos três Oscars recebidos.

Um comentário obrigatório sobre o filme de Martin Ritt diz respeito ao elenco. No papel do imoral e “indomado” Hud, Paul Newman está ótimo, e melhor ainda está a sempre soberba Patricia Neal, como a empregada Alma, vítima de suas garras, mas não de todo inocente: quando ela decide ir embora do rancho, uma alegação é a de que não resistiria por muito tempo aos sedutores ombros largos de Hud.

No terraço: avô, neto e filho...

No terraço: avô, neto e filho…

Mas, quero me referir a dois atores cujas simples presenças trazem, para o filme, significações adicionais. Sim, para o espectador da época (e se for o caso, para o de hoje também) Melvyn Douglas, como o velho rancheiro deprimido com o seu legado carnal, era o símbolo da Hollywood clássica, anos 30 e 40, agora decadente como a vida no Oeste. (Lembram dele como o galanteador de Greta Garbo em “Ninotchka”, 1939?).

E, do mesmo modo, Brandon De Wilde simbolizava o auge do gênero faroeste, aquele adolescente que todo mundo lembrava como o garotinho amigo de Shane em “Os brutos também amam” (1953): e sintam a ironia intertextual, na infância seu amigo era não apenas um herói, mas a encarnação de todos os mitos do faroeste; agora, na adolescência, seu “amigo” não passa de um cínico e devasso que enterra o Oeste, como o velho Homer foi obrigado a, literalmente, enterrar uma manada inteira, contaminada por uma doença – repito – simbólica em vários sentidos.

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro...

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro…

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Tempo de tela

29 jan

Eis um conceito que só poderia ter surgido no cinema, arte ao mesmo tempo narrativa e plástica: tempo de tela, em inglês ´screen time´. Na literatura (só narrativa) e na pintura (só plástica) não fariam sentido, e se no teatro se pode falar em ´tempo de palco´ já foi por influência do cinema.

Como defini-lo? Há pelo menos dois caminhos, tão próximos que fica difícil distingui-los: o técnico e o semiótico. No primeiro caminho, tempo de tela é o espaço de tempo durante o qual, num filme, um ator permanece diante da câmera, visível para o espectador. Se ao invés de ator, falarmos em personagem, temos o segundo e mais importante caminho, o semiótico.

Desencanto: a protagonista conta sua própria estória

Desencanto: a protagonista conta sua própria estória

Não esqueçamos que, em qualquer filme, há vários momentos em que, mesmo o protagonista, está off-screen, ou seja ausente da tela, enquanto outras coisas acontecem, a sua revelia, ou não. O somatório das suas ´presenças´ é o seu tempo de tela.

Para a maioria das pessoas, tempo de tela pode parecer um conceito inútil, porém, para o estudioso da linguagem cinematográfica, é de grande importância, sobretudo no que diz respeito à observação da estrutura actancial do filme, e esta palavra feia (´actancial´) é somente o adjetivo técnico para ´personagens´.

O tempo de tela pode ser o parâmetro para se decidir com relação à relevância de um personagem na estória narrada pelo filme. No geral, quanto mais tempo de tela é dado a um personagem, mais ele se aproxima do estatuto de protagonista, mas, claro, a regra não é rígida e, eventualmente, um personagem secundário pode ganhar mais tempo de tela que o protagonista, tudo isso a depender da temática e do enfoque dado ao filme.

No filme clássico, calcula-se que o protagonista ganhasse cerca de 80% do tempo de tela, sem contar que geralmente, mesmo quando estava off-screen, ele era o assunto dos diálogos alheios. Para dar um só exemplo, é o caso de “Farrapo humano” (1945) filme em que o alcoólico Don Birman quase não sai da frente da câmera, e quando sai, é dele que se fala.

Naturalmente, ao tempo de tela se somam outros fatores que podem determinar a importância de um personagem na estória narrada. O tipo de enquadramento escolhido, por exemplo, pode contribuir no destaque, ou não. Um tempo de tela curto pode valer mais se a maioria das tomadas for em close, e, mutatis mutandis, um tempo de tela mais longo pode valer pouco se as tomadas forem em plano geral, onde o personagem fica pouco visível para o espectador.

O terceiro homem: pouco tempo de tela para o personagem titular

O terceiro homem: pouco tempo de tela para o personagem titular

O conceito de tempo de tela também pode ajudar no entendimento de como funciona a narração fílmica. Por exemplo: observar o tempo de tela dos personagens num filme em que o narrador da estória é o próprio protagonista, ou num filme cujo foco narrativo é abstrato, pode ser fundamental para revelar as implicações de sentido do filme. Como exercício, considerem o caso de “Desencanto” (1945), onde a protagonista narra sua estória, e o de “Quem é o infiel?” (1949), onde a estória do protagonista é narrada por outrem.

Um caso curioso é certamente o de “Cidadão Kane” (1941), filme em que a imagem do protagonista só aparece na tela em narrações alheias, como se, em cada um desses fragmentos narrativos, fosse personagem secundário. A soma de todos os fragmentos é que o transforma em protagonista.

Notar que, assim como o silêncio em relação ao som, a ausência física de um personagem pode ser um fator importante para a estrutura significativa do filme. Lembro o caso de “O terceiro homem” (1948) em que um personagem com menos de 30% de tempo de tela é o mais destacado na estória, o Harry Lime feito por Orson Welles.

Um condenado à morte escapou: tempo de tela pleno

Um condenado à morte escapou: tempo de tela pleno

As nuances entre ator e personagem é outra lição que a contagem do tempo de tela nos ensina. Vejam o caso de “Um corpo que cai” (1958): no filme inteiro a personagem Madeleine – suposta protagonista – só aparece na tela por alguns segundos, exatamente no instante em que é jogada da torre do Convento. E, no entanto, a atriz Kim Novak tem um enorme tempo de tela, em duas situações distintas: (1) fingindo ser Madeleine e (2) fingindo não ter fingido sê-la.

Dois exemplos extremos da dicotomia personagem/ator estão em dois filmes bem diferentes. Em “Um condenado à morte escapou” (1956) o tempo de tela do protagonista (e consequentemente, do ator) é absoluto, isto é, coincide com a duração do filme. Exatamente o contrário disso, vai acontecer em “Encurralado” (1971) com o personagem do motorista de caminhão que, sendo tão importante na estória (aquele com quem o protagonista duela o tempo inteiro), não aparece na tela em instante algum: tempo de tela zero.

Nos velhos tempos da Hollywood clássica, o maior tempo de tela era disputado com unhas e dentes pelos atores e atrizes, e os iniciantes, naturalmente, se conformavam com pontas, mas esta é outra estória que fica para depois.

Encurralado: ator com tempo de tela zero

Encurralado: ator com tempo de tela zero

A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.