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O ESPELHO QUEBRADO (ou UM CONTO DE FIM DE ANO)

1 jan

Não tem jeito: todo final de ano me lembra meu amigo Baxter.

Um cara legal, talvez meio bobão, mas gente boa. Sua única mancada na vida foi aquela de se passar pra emprestar seu apartamento de solteiro aos seus superiores no trabalho. Funcionário de uma grande Empresa de Seguros, achava que esses empréstimos escusos de seu modesto lar podiam lhe trazer promoções ou subidas de cargo.

Por causa disso, coitado, vivia debruçado sobre a agenda, marcando encontros para os outros. Nos dias e horários dos tais encontros, tinha que, depois do expediente, permanecer na rua por horas, mal acomodado nos bancos das praças, sujeito a frio, chuva e resfriados, enquanto velhotes safados traçavam garotas de programa na sua cama. Negócio de doido.

E ele próprio, sem ninguém. A não ser que se diga que era meio caidinho pela ascensorista da Empresa, uma moça bonita e simpática que, se não correspondia ao flerte, ao menos era super gentil com ele.

Pois um dia, o que aconteceu?  Baxter foi chamado ao último andar do arranha-céu da empresa, falar com o chefão. Sua tramoia havia sido descoberta, e quando ele estava para pedir perdão, foi o chefão quem falou: ao invés de condená-lo, pediu a duplicata da chave do apartamento, pois queria ser, a partir daquele dia, o único “freguês”.

E aquela foi, pra Baxter, mais uma metade de noite na rua. Ao voltar pra casa, achou no assoalho, um espelho de mão quebrado. Devia ter havido briga entre o chefão e sua garota, fosse ela quem fosse. Guardou o espelho quebrado e, no dia seguinte, teve o cuidado de entregá-lo ao chefão.

A recompensa pelo uso do apartamento desta vez veio rápido: Baxter foi promovido e mudou-se de sala, do andar em que estava para um outro, bem mais alto – e, na empresa, quanto mais alto o andar do prédio, mais prestígio.

Por coincidência, ele estava na sua nova e charmosa sala de trabalho, comemorando a promoção, quando a bela ascensorista apareceu. Provando um chapéu novo, ele perguntou a ela se combinava com sua postura, e aí, ela tirou da bolsa um espelho de mão e lhe deu pra que ele mesmo se mirasse. Foi nesse momento que o mundo de Baxter desabou: era o mesmo espelho quebrado que ele encontrara no seu apartamento e devolvera ao chefão, ou seja, a amante escusa do chefão era ela, sua tão adorada e supostamente inocente ascensorista.

O baque foi grande, mas Baxter tentou se segurar. A carreira profissional de um homem não era mais importante que sua vida amorosa? Engoliu em seco e foi adiante. Quando o chefão solicitou seu apartamento no dia de natal, ele, claro, cedeu. Naquela noite, ficou pelos bares, tristonho, mas terminou arranjando uma paquera casual, que aceitou ir, sim, para o apartamento dele. Naquela hora, mais de meia noite, Baxter sabia que o chefão e a ascensorista já haviam encerrado o rendez-vous.

Ao chegar em casa, não prestou não. Abrindo a porta do quarto tomou o maior susto de sua vida: lá estava a moça, sim, sua linda ascensorista, em sua cama, desfalecida. Tentou acordá-la, mas que nada: na cabeceira da cama estava um frasco de comprimidos pra dormir completamente vazio. E aí, foi um deus nos acuda. Telefonou imediatamente para o chefão, mas este alegou que tinha esposa e filhos e que não podia fazer nada; e sugeriu que Baxter, ele mesmo, resolvesse o problema. Assim, o pobre do Baxter se acudiu de um médico vizinho e amigo, e foram horas e mais horas de arrastar a moça desfalecida pelo apartamento, de lhe empurrar café goela abaixo, e de muitas outras providências e cuidados.

Quando a moça melhorou, terminou ficando uns dias no apartamento dele, e puderam conversar um bocado e à vontade sobre as coisas da vida e as dores do amor.

Voltando ao trabalho, Baxter foi chamado pelo chefão, que agradeceu suas providências e pediu, de novo, a chave do apartamento, desta vez uma cópia exclusiva. E foi aí que veio a redenção moral do nosso amigo Baxter: ele se negou a ceder a chave. O chefão ameaçou demiti-lo, e ele, impávido e altaneiro, aceitou a demissão de bom grado.

Na Noite de Ano, estavam a jovem ascensorista e o chefão num salão festivo de bar quando foi anunciado o nascer do novo ano. Ele virou-se de lado para brindar com todos, e ao voltar-se pra brindar com ela, a moça havia desaparecido. Vocês não vão acreditar, mas conto assim mesmo: não sei o que deu nela, que saiu correndo feito uma louca, e foi bater na porta do modesto apartamento de Baxter, o qual, no meio dos móveis empacotados para mudança, tinha, por coincidência, acabado de abrir uma garrafa de champanhe pra comemorar o seu desemprego e desalento. Brindaram os dois e foram muito felizes depois daquele brinde. Creio que para sempre.

O espelho quebrado? Ela jogou fora e comprou um outro,  novo como o ano que se iniciava.

O CORRIMÃO QUEBRADO (ou UM CONTO DE NATAL)

24 dez

Então é natal, e aproveito pra contar a história de meu amigo George.

O sonho dele era viajar. Nascido e criado nessa cidadezinha do interior, adorava sua família, mas – sabe como é – era jovem, tinha a vida pela frente e não queria morrer ali. Queria empreender grandes coisas, conhecer o mundo, estourar a boca do balão.

Por isso não lhe agradava nem um pouco a ideia de casamento. Casar, ter filhos, constituir um lar – tudo isso seria criar raízes naquele lugar sem futuro e dar adeus a todos os seus planos de grandeza.

Assim, quando ela se insinuava com trejeitos românticos, ele desconversa e escapulia. Não adiantou: a moça era bonita e ele terminou casando. E, mais grave, sem condição, foram morar numa casa velha, cheia de goteiras, e tiveram muitos filhos.

Evidentemente, seu sonho de viajar foi por água abaixo, e ele – não houve jeito – virou o pai de família típico, com um trabalho burocrático e uma vidinha rotineira e convencional. A contragosto, teve que assumir a direção da Cooperativa que havia sido do pai, agora falecido.

E, infelizmente, as coisas pioraram. Um dia, o tio – que o ajudava na contabilidade – inexplicavelmente, perdeu uma soma de dinheiro que devia depositar e, com esse gesto descuidado, levou a Cooperativa à completa falência.

Era véspera de natal, mas a data não ajudava em nada. Ao contrário, piorava tudo. De repente, tudo dentro de casa enervava George – o barulho das crianças, a bagunça, a decoração de natal… Tudo virara um inferno nesta casa velha onde até o corrimão da escada estava quebrado… Maldito corrimão quebrado que ele, irritado até a medula, teve gana de lançar ao chão e terminar de destroçar. Sim, porque, de repente, aquele corrimão quebrado lhe pareceu uma metonímia de toda a sua desgraça.

Assim, fora de si, desiludido de tudo, sem saída, George tomou a dura decisão de se matar. Pra que viver mais? Com esse intento, dirigiu-se à ponte do rio que corta a cidade, porém, no momento de jogar-se na correnteza fria, deu-se algo estranho: alguém se jogou antes dele. Pois ele pulou na água, não mais para morrer, mas para salvar aquele outro suposto suicida.

Era um velhinho que, depois de estarem os dois a salvo e enxutos, lhe revelou uma coisa curiosa: que estava na água de propósito, só para evitar o suicídio dele, de George. E prosseguiu lhe dizendo um bocado mais de coisas estranhas. Que era um anjo sem asas, diretamente enviado do céu para ajudá-lo, e assim, ganhar suas merecidas asas.

George, claro, achou tudo baboseira desse velhinho amalucado… e não deu a mínima. Ironizando, até perguntou se o velhinho porventura não dispunha dos 8000 dólares que salvariam sua vida, e o velhinho calmamente lhe explicou que no céu não se mexia com dinheiro.

Pois não é – pasmem! – que o velhinho era mesmo um anjo!

Quando George, cada vez mais desiludido, fez a sua afirmação mais drástica, dizendo que, “eu nunca devia ter existido”, foi só o que o velhinho quis: nesse exato instante, usando de todo o seu angélico poder, procedeu a uma operação metafísica e criou, para George, um mundo paralelo, o mundo tal como seria se ele, George, nunca tivesse existido.

E aí, coitado do meu amigo George, foi um choque atrás do outro. Nesse novo mundo feio, um irmão querido que ele salvara na infância, e que acreditava vivo, estava morto e enterrado; sua esposa, que não o reconheceu, era agora uma coroa neurótica; sua mãe, que tampouco o reconheceu, era dona de uma pensão suspeita; seus filhos e seu lar não existiam, e, pra resumir a sua longa via crucis, a cidade inteira perdera sua inocência e se mostrava, agora, como um antro de imundície, maldade e safadeza.

Perdido por horas intermináveis nesse mundo horrendo e hostil, George não se segurou mais: desabou numa crise de nervos e, aos prantos, viu-se rogando a Deus que o devolvesse ao mundo que ele conhecia, que desse fim a esse pesadelo, que o retirasse dali… Mesmo que fosse pra enfrentar a falência e a prisão.

E, – ufa! – ainda bem, foi atendido. De repente, olhou em torno e tudo voltara ao normal – miraculosamente a cidade estava do jeito que ele a conhecia, tudo do jeito que era antes. E só agora, pôde George tomar consciência de que a sua cidade era pacífica e feliz porque ele, George, existira, porque lá vivera e porque lá atuara.

Eufórico, saiu correndo feito um desvairado pelas ruas de sua cidade tão amada, gritando “FELIZ NATAL” a tudo e todos, em direção certeira à sua casa, aquela mesma casa velha cheia de problemas em que a família e os problemas o esperavam, e, uma vez dentro de casa, antes mesmo de abraçar a esposa amada e os filhos queridos, pondo os pés nos primeiros batentes da escada, não esqueceu de desferir um beijo comovido no corrimão quebrado.

Falando de “Se meu apartamento falasse”

26 mar

 

Não sei dizer ao certo quantas vezes vi “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, Billy Wilder, 1960), mas sei que toda vez que o revejo, ou falo dele, o faço com uma pitada de melancolia. É um dos filmes mais importantes do Século XX, e, pessoalmente, está entre os meus dez mais amados.

Ainda hoje recordo sua estreia em João Pessoa, começo dos anos sessenta, no extinto Cine Rex. Aliás, antes disso, lembro-me do trailer, fazendo ênfase nos cinco Oscars que ganhara, e, mostrando aquela cena em que Jack Lemmon, sozinho no seu apartamento de solteiro, vê televisão, aborrecido, mudando de canal o tempo todo porque a tv só mostrava faroeste, hoje a gente sabe, gênero detestado por Billy Wilder que, irônico, dizia ter medo de cavalos.

Mas, a impressão de melancolia não é apenas pessoal. Ela também é histórica.

Shirley MacLaine e Jack Lemmon no filme de Billy Wilder.

Sim, “Se meu apartamento falasse” representa o fim de uma época dourada, aquela do chamado cinema clássico americano, que os historiadores colocam nas três décadas, de trinta, quarenta e cinquenta. Estreou em 60, mas na década em que estreou, Hollywood já não seria mais a mesma. Os estúdios se esfacelavam e a produção caía vertiginosamente, em quantidade e qualidade. Mais tarde, começo dos anos setenta, Hollywood ressurgiria das cinzas, mas não mais a mesma. Bem mais explícita, bem mais mórbida, bem mais escatológica, a Hollywood renascida vinha para chocar o espectador clássico.

Vejam que o filme de Wilder é a estória de um sujeito que cede seu apartamento para fins escusos, como se um motel fosse, ou mesmo um bordel, e, contudo, não há, em todo o filme, uma só cena explícita, nenhuma coxa à mostra, nenhum seio, sequer um beijo, nada.

O Código Hays de Censura vigorou até 64, mas, não é por causa dele que o filme é inexplícito. Em 1960, o Código já estava caduco, quando a gente lembra, por exemplo, o escandaloso beijo com pouca roupa, nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme de Fred Zinnemann “A um passo da eternidade”, e isto em 1953. O próprio Wilder já fora suficientemente malicioso dois anos atrás, em “Quanto mais quente melhor”, vestindo marmanjos com roupa de mulher e findando o filme com uma frase mais que picante, que, tanto tempo atrás, já sugeriria a alternativa do casamento gay: “Ninguém é perfeito”.

Embora nessa empresa em que o protagonista trabalha, todo mundo transe com todo mundo, “Se meu apartamento falasse” não tem cenas explícitas, e não tem porque Billy Wilder não quis, e pronto.

Para ficarmos mais à vontade na análise do filme, façamos uma breve e parcial reconstituição de seu enredo.

C. C. Baxter subindo de posição na Empresa de Seguros.

O filme conta a estória de C. C. Baxter (Jack Lemmon), esse funcionário de uma grande Companhia de Seguros nova-iorquina, que vem tendo ascensão funcional de modo pouco convencional. Com fins escusos, seu apartamento vem sendo usado, à noite, por altos funcionários da Companhia, que “pagam” o uso com generosas promoções ao funcionário. Pois Baxter termina sendo chamado à direção geral, não para ser admoestado ou coisa parecida, mas porque o Chefão de todos, o Sr Sheldrake (Fred MacMurray) quer entrar no jogo. E qual não é a surpresa de Baxter, já devidamente promovido a Executivo Assistente, no dia em que descobre que a amante do Chefão é a simplória ascensorista do prédio, a Srta Fran Kubelik (Shirley Maclaine) por quem ele tem uma queda que dá na vista. Mas, ora, Sheldrake é casado e Fran está apaixonada… O complicado caso entre os dois vai dar em tentativa de suicídio, que, para o azar de Baxter, acontecerá, onde? Sim, no seu apartamento… Esticando uma farra de Ano Novo com uma companheira casual, de repente Baxter vai deparar-se com um corpo inerte em sua cama, e mais grave, o corpo da mulher que ama.

A temática em “Se meu apartamento falasse” é recorrente na filmografia de Wilder, a crítica ao ´american way of life´: de um lado, a busca da ascensão social, e do outro, a ética, o confronto gerando a crise. Como outros tantos personagens em outros filmes de Wilder, esse empregado da Companhia de Seguros busca – ou “aceita” – promoções até o momento em que o sucesso profissional fere os seus princípios morais. Nesse momento ele muda, e, para usar termos da teoria narrativa, passa a ser um “personagem redondo”, aquele que se transforma no decorrer da fabulação. Nisso ele faz contraste com todos os outros personagens (exceção para Fran Kubelic), que continuam iguais a si mesmos até o último fotograma.

É um filme sobre aprendizado, na acepção ontológica da palavra – em outros termos, sobre a aquisição do auto-conhecimento. Esse auto-conhecimento ocorre a Baxter de modo epifânico naquele momento em que entra em crise, ao dar-se conta de que o preço a pagar pelo sucesso profissional não compensa do ponto de vista emocional. Transformado, já havendo recusado entregar ao Chefe a chave do seu apartamento, ele lembra e usa uma palavra que o seu vizinho, o Dr Dreyfuss – que cuidara da suicida Fran Kubelic – lhe jogara na cara: “Mensch”, e esse termo, que em alemão significa ´humano´, é o que ele pretende ser de agora em diante: desempregado, solitário, sem planos futuros, mas humano. De alguma forma a palavra “Mensch” contém, se vocês quiserem, a mensagem do filme.

Para uma análise mais atenta, gostaria de me debruçar sobre a estrutura narrativa do filme, no caso, destacando três turning points particularmente importantes. E destaco-os não apenas por serem momentos de mudança no enredo, mas porque consistem em instâncias em que o icônico fala mais que o verbal, como deve ser no cinema. A eles dou os nomes de: (1) uma cédula de cem dólares; (2) espelho quebrado; e (3) a chave errada.

Aquele primeiro ocorre no momento – Noite de Natal – em que a jovem ascensorista Fran Kubelic fora deixada sozinha pelo amante nesse apartamento, dela desconhecido. Sem ter tido tempo – ou disposição – de comprar presentes, o amante, antes de ir embora, para o seio da família, lhe dera uma nota de cem dólares. Ela, naturalmente, se sentira ofendida. Neste instante a que me refiro, a vemos no banheiro do apartamento, desiludida e depressiva, quando divisa, no armário, um frasco de soníferos. Segura o frasco, pensativa, e o devolve à prateleira. Em seguida, abre a bolsa para tirar o batom e o que vê? A nota de cem dólares. Aí, sim, pega de volta o frasco de soníferos… e espectador já advinha o que vai acontecer. E acontece. Notar que não há, em toda a cena, uma só palavra enunciada, e, no entanto, tudo é extremamente eloquente.

A Srta Fran Kubilic e seu drama de amor…

O segundo turning point que destaco ocorre na nova sala de trabalho do laborioso Baxter, recém promovido a executivo assistente. Ele comprara um chapéu novo, cabível com o novo posto, e pergunta a Sra Kubelic se está bem. Ela lhe entrega o seu espelho, para que ele se veja, e é nesse momento que o ingênuo Baxter descobre que a amante do Chefão é ela, a moça com quem pensava que paquerava. Ocorre que ele já vira aquele espelho, uma vez esquecido no seu apartamento e devolvido pelo próprio Chefe. Reconhece-o porque esse espelho está quebrado. Observem que, se há palavras trocadas entre os dois personagens, nada na cena, tem a força da imagem do espelho quebrado, mostrado em close.

A terceira mudança no enredo que menciono é o momento mesmo em que Baxter toma a decisão mais fatal: demitir-se. Agora divorciado, o Chefão quer retomar o caso com a Srta Kubelic e, chamando Baxter a sua sala, lhe pede, de novo, a chave do seu apartamento. Este parece aceder, lhe entregando uma cópia de chave e se retirando para o compartimento vizinho. O Chefão vai atrás, lhe dizendo que ele lhe dera a chave errada, a do banheiro dos executivos, e não a do apartamento… e Baxter responde, decidido, que lhe dera a chave certa – a do banheiro mesmo. Considerem que, embora a chave seja um objeto pequeno, é em torno dela que a cena gira, e é ela, a chave, que determina os movimentos físicos dos personagens.

Por outro lado, as palavras também são decisivas em “Se meu apartamento falasse”. Já citei o caso de “Mensch”, mas há uma expressão, pronunciada duas vezes, que não pode deixar de ser mencionada. Trata-se de uma expressão idiomática que perde o seu sabor metafórico na tradução para o português, aquela que se lê nas legendas. Em certo momento da conversa entre a Srta Kubelic e Baxter (pós tentativa de suicídio), ela se indaga por que é que não se apaixonou por um cara legal como ele. E ele, sem saber o que responder, comenta apenas que: “That´s the way it crumbles: cookiewise”. Como o pronome “it” não existe em português, uma tradução possível seria, mais ou menos: “É assim que a coisa se esfacela: feito biscoito”. A ideia é que ´a vida é assim mesmo´ (como está na legenda brasileira), só que a força da construção linguística é muito maior no original, o que fará com que a expressão – junto com a sua circunstância – seja lembrada pelo espectador na ocasião (quase final do filme) em que ela for repetida, desta feita, pela própria Srta Kubelic.

“That´s the way it crumbles: cookiewise”

Sim, em plena comemoração de Ano Novo, quando vem a saber, da boca do Sr Sheldrake, que Baxter pedira demissão por causa dela, a Srta Kubelic repete a expressão e, indagada pelo amante sobre o sentido da frase, alega apenas que lhe diria se soubesse soletrar, mas não sabe. Vejam bem: se a chave errada fora o turning point pessoal de Baxter, este agora é o da Srta Kubelic que, vocês lembram, corre desabalada pelas ruas em direção ao apartamento de Baxter onde os dois, sentados ao meio da mobília desarrumada para a mudança, vão jogar baralho.

“Eu simplesmente a adoro, Srta Kubelic” lhe confessa ele, emocionado. E ela, bem serena: “Cale a boca, e jogue”.

Final perfeito.

Uma curiosidade sobre o filme de Billy Wilder que cabe referir tem a ver com sua trilha sonora. Quatro músicas compõem essa trilha, sendo uma delas, brasileira. A principal é a música romântica que acompanha a personagem da Srta Kubelic, tanto no seu caso confuso com o Sr Sheldrake, como, no desenlace, com Baxter. Uma segunda música pode ser chamada de ´marcha do trabalho´, tocada toda vez que se sugere o suposto ímpeto de ascensão funcional de Baxter. Uma outra, também pertinente a Baxter, tem tom melancólico, e o pega sempre solitário, em casa ou na rua. Finalmente, há essa trilha erótica, quase obscena, executada para indiciar as aventuras sexuais dos muitos furtivos visitantes do apartamento de Baxter. Pois, sem registro nos créditos do filme, essa quarta composição é, na verdade, a orquestração da canção de nome “Madalena”, dos compositores brasileiros Airton Amorim e Ari Macedo, sucesso do carnaval de 1951, cantada por Linda Batista, cuja primeira estrofe dizia assim: “Amar como eu amei / Ninguém deve amar / Chorar como eu chorei / Ninguém deve chorar / Chorava que dava pena / Por amor a Madalena…”

Só não me perguntem como foi que a canção brasileira foi desaguar no filme de Billy Wilder, que não sei…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Hildeberto Barbosa Filho.

Página desta matéria, como publicada no Correio das Artes, em 26 de março de 2017.