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A cruz dos anos

3 out

Neste primeiro de outubro, Dia Internacional do Idoso, veiculei nas redes sociais, uma lista de dez clássicos da história do cinema mundial que trataram da “terceira idade” quando a expressão sequer existia. Na minha postagem, limitei-me a indicar os títulos dos dez filmes, sem comentá-los. Pois aqui os comento.

Na ordem cronológica dos lançamentos, o meu primeiro filme citado, “A última gargalhada”, é de 1924, tempo do cinema mudo. Dirigido pelo genial F. W. Murnau, traz todos os traços do então no auge Expressionismo Alemão. É a deprimente história desse senhor idoso, porteiro de um hotel de luxo em Berlim, que perde o emprego justamente por ser velho. Um dos primeiros filmes a fazer a pergunta: como tratar os nossos idosos? Claro que a pergunta do filme não se refere aos idosos ricos, que estes não precisam de perguntas de cunho social.

Para dizer a verdade, quase todos os filmes por mim listados misturam velhice e pobreza. É o caso do segundo, “Dama por um dia” (Frank Capra, 1933), história dessa mendiga idosa que subsiste vendendo maçãs nas calçadas de Nova Iorque, e que se desespera no dia que tem a notícia de que vai receber a visita de uma filha que não vê há décadas, hoje casada com um nobre espanhol e residente em Madri. O que uma mendiga pode fazer para esconder da filha rica sua gritante pobreza? Veja o filme para saber.

O meu terceiro filme citado, “A cruz dos anos” (Leo McCarey, 1937) enfrenta a questão pais e filhos de modo diferente. Fragilizado e dependente, esse casal de idosos procura apoio nos filhos e suas famílias, e a resposta, afetiva e financeira, não é propriamente a esperada. Como se vê, um tema atual, num filme tão contundente e sintomático que não resisti em dar a esta matéria o seu título.

Ao tema da pobreza na velhice, “Humberto D” (Vittorio De Sica, 1952) – meu quarto filme citado – acrescenta o da solidão. Pensionista do governo, sem parentes nem aderentes, o idoso Humberto vive só com seu cachorro Flick. Vive até o dia em é despejado e, doente, vai parar no hospital. Ao ter alta, será mais um mendicante nas ruas de Roma, sem teto e à procura de um cão desaparecido. Haja tristeza.

O tema da indiferença filial vai reaparecer de modo igualmente cru no japonês “Era uma vez em Tóquio” (Yasujiro Ozu, 1953), o meu quinto citado. Do mesmo modo, quando o casal de idosos residentes no campo, viaja a Tóquio à procura de conforto moral junto aos filhos, hoje todos casados, dá-se conta da gap generation que os separa, e o resultado é desilusão e sofrimento.

Em “Morangos silvestres” (Bergman, 1957), o meu sexto citado, já não temos mais a questão da pobreza. O protagonista é um conceituado médico aposentado que viaja para receber um prêmio de honra ao mérito. A viagem, porém, é um pouco menos espacial e um pouco mais existencial, e o remete ao âmago de seu eu, onde reside o menino lírico – tão diverso do idoso frio e calculista de hoje.

Se no filme de Bergman já fica claro que nem todo idoso é bonzinho, em “O que aconteceu a Baby Jane” (Aldrich, 1962), meu sétimo citado, a coisa se acentua. Movidas pelo rancor, duas irmãs idosas se digladiam até a loucura… e a morte. O gênero é mais terror que outra coisa.

O saldo positivo para a terceira idade retorna com o meu oitavo citado, “Ensina-me a viver” (Hal Ashby, 1971), história tão cômica quanto poética de um casal impossível – essa senhora avançada em anos, mas alegre e pra frente, e esse adolescente deprimido. Um desses filmes inesquecíveis que a gente chama de “lição de vida”.

Juventude num corpo senil: pode? De modo apropriado, o gênero da ficção científica é introduzido com “Cocoon” (Ron Howard, 1985), meu nono citado. Ao lado de um asilo de velhinhos, uma piscina abandonada recebe uma energia revigorante que vem do espaço sideral, e, para o bem ou para o mal, transforma a vida dos idosos que nela haviam se banhado.

Disse acima que a pobreza, mais que a riqueza, recorre nos dez filmes citados. Pois o meu décimo, “Conduzindo Miss Daisy” (Bruce Beresford, 1989) faz, em nível de personagem, o contraste entre as duas coisas O pobre (e negro) motorista dessa tradicional família judia deve conduzir a petulante Sra Daisy, em seus passeios e negócios. Naturalmente, desse convívio forçado nascerá um afeto improvável… e profundo.

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“Eu, Daniel Blake”: pobres no Primeiro Mundo

2 maio

Na Inglaterra de hoje, o viúvo Daniel Blake, marceneiro de 59 anos, residente em Newcastle, foi acometido de um problema cardíaco e, segundo seu médico, não poderia trabalhar. Legalmente como fica a sua situação profissional?

Ao ir atrás de seus direitos de cidadão que paga impostos, Daniel vê-se metido em um sistema mais confuso e perverso do que aquele que está descrito em certo livro de Franz Kafka – situação agravada pelo fato de pertencer ele a uma geração que não se familiarizou com computadores, celulares e demais recursos eletrônicos.

A frieza dos atendentes nas repartições públicas, só comparadas às das vozes gravadas nos telefones, ou às das páginas virtuais nos computadores, vai minando sua paciência, até um ponto insuportável para um homem de idade e doente. Ninguém o ajuda e quem tenta – como uma certa funcionária, também idosa, que dele se compadece – é admoestado pelos superiores.

Ninguém ajuda Daniel, e, no entanto, ele ajuda outros, aparentemente mais desesperados que ele, caso dessa jovem que perdera o teste para emprego porque, arrastando dois filhos pequenos, chegara atrasada. Mãe solteira, Katie já vem de Londres onde morava num albergue público insalubre. Agora em Newcastle, a situação de penúria continua, mas, o encontro casual com Daniel lhe sugere que nem tudo está perdido. Pelo menos que ainda existe solidariedade humana.

Apesar da solidariedade recíproca, os casos de Daniel e Katie, cada um a seu modo, vão se agravando até um ponto… Bem, não conto o resto para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme do veterano diretor inglês Ken Loach “Eu, Daniel Blake” (2016)

Como vivem os pobres no Primeiro Mundo? Claro, um dos aspectos interessantes do filme de Ken Loach é que estamos num país supostamente rico, e, mais, numa das democracias mais consolidadas do planeta. Para o espectador desavisado, constatar como os sem teto e, sobretudo, os idosos, são tratados pelo sistema inglês pode ser estarrecedor. Se a estória se passasse no Brasil…

À parte esse tom, aliás, bastante forte, de denúncia, o filme convence como cinema, envolve e empolga. Ainda que de modo simples e direto, o enredo é efetivo em desenvolver a estória por etapas, cada nova etapa com uma pitada de gravidade acrescentada, e, isto feito em paralelo: de um lado, o drama de Daniel (um atrapalho no uso do computador, um não recebido de um funcionário…), do outro, o de Katie e seus filhos (um azulejo quebrado, um sapato puído…). Naturalmente, com pontos de toque em momentos sintomáticos, para indiciar bem a construção de uma amizade.

Os personagens são desenvolvidos com inspirada competência, e nos passam com naturalidade a verdade humana que encarnam. Novato no cinema, o ator Dave Johns está excelente no papel-título, e a atriz Hayley Squires não fica a dever como a sofrida mãe Katie. Até dos atores mirins se conseguem bons desempenhos.

Dois momentos particularmente dramáticos constituem turning points que, na mão de um cineasta menos experiente, se tornariam, um piegas, o outro, ridículo. Refiro-me primeiramente àquela cena em que Daniel, descobrindo, indignado, a opção de Katie pela prostituição, a visita no bordel e os dois, constrangidos entre as quatro paredes de um quarto, mal falam oprimidos pelas lágrimas.

O segundo momento é quando Daniel, completamente desiludido com relação à (im)possibilidade de resolver seu caso burocraticamente, e insanamente movido por puro desespero, toma a atitude drástica de pichar a parede do prédio da repartição com palavras de ordem, entre as quais a que intitula o filme.

A ninguém escapa o jeito documental de “Eu, Daniel Blake”. Consta que, bem antes da concepção do argumento, Ken Loach e o seu comparsa de sempre, o roteirista Paul Laverty, procuraram o auxílio de empregados do Sindicato de pensão e trabalho. As entrevistas e as informações fornecidas por esses empregados – cujos nomes, evidentemente, não puderam aparecer nos créditos – é que serviram de base para a estrutura narrativa ficcional do filme. Algumas cenas foram mais ou menos improvisadas, caso da visita de uma Katie faminta ao Banco de alimentos: a senhora que a atende sabia que estava sendo filmada, mas não sabia o que ia acontecer com Katie logo em seguida: o gesto extremo de abrir a lata de conservas, engolir o conteúdo e desesperar-se, envergonhada.

Em Cannes, 2016, “Eu, Daniel Blake” foi ovacionado durante quinze minutos. Levou a Palma de Ouro, aliás, a segunda na carreira brilhante de Ken Loach, cineasta idoso ele mesmo (81 anos) que sempre soube resistir aos encantos de Hollywood. E convites não lhe faltaram.

Um filme comovente, sobre vários tópicos que se tocam: a terceira idade, a exclusão social, o desemprego, a desigualdade, a miséria, a humilhação, o desespero, a perda da dignidade, o protesto impotente, mas, sobretudo, a solidariedade.

Recomendo.

“Aquarius”: a música ao redor

5 set

Afinal em cartaz o tão esperado “Aquarius” (2016), filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho que, se não ganhou a Palma de Ouro, de todo jeito fez bonito no Festival de Cannes.

Estamos mais uma vez em Boa Viagem, Recife, e o cenário é um determinado edifício. Digo mais uma vez porque tivemos isto no anterior “O som ao redor” (2012). Agora, porém, o prédio é antigo e está à venda. Ou estaria, se uma moradora não estivesse mantendo o firme propósito de não vender o seu apartamento, o único ainda habitado no prédio todo.

A rigor, o filme é a estória dessa brava mulher, viúva e sexagenária, e começa anos atrás, em 1980, quando ela, ainda jovem, fora acometida de um câncer de mama. Ao câncer ela resistiu e, parece, trinta anos depois, resistirá à venda do apartamento.

A moradoura e seu edifício Aquarius

A moradoura e seu edifício Aquarius

A pressão é grande e vem de toda parte, até dos filhos, mas Clara resiste e, parece, resistindo fica mais forte. Naturalmente, a poderosa firma compradora – que quer construir um espigão modernoso no lugar – tem meios de atacar… e ataca. Uma figura expressiva desse poder é o jovem executivo Diego, (´mestrado em business nos Estados Unidos´) em sua juventude e agressividade, o principal antagonista de Clara.

Clara vencerá ou não? Bem, quem mais torce por ela é o roteirista do filme, construindo-a como uma verdadeira heroína, na acepção ´heroica´ da palavra. Como se não bastasse, a câmera (leia-se: o diretor) está “apaixonada” por ela, e não a larga, lhe dando todo o tempo de tela. E, a gente sabe que neste caso, roteirista e diretor são a mesma pessoa.

Para completar, a atriz é Sônia Braga, e o filme parece ter sido concebido para ela, que, depois de tanto tempo ausente das telas, soube, de fato, responder ao papel – diga-se de passagem – um papel, apesar do heroísmo, nada simples.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

Com efeito, um dos pontos altos do filme está na sinuosidade dos diálogos, uma boa saída para evitar maniqueísmo nas caracterizações dos personagens. Em várias ocasiões, as falas contêm vai e vens intrigantes mas oportunos. Exemplos: ao amante gigolô Clara diz, quase ao mesmo tempo, ´vá embora´ e ´me coma´. Ao salva-vidas sugere uma atração e nega. O empregado que vem avisar sobre a devastação do prédio refere-se à beleza de Clara e recua, deixando-nos sem saber se era mesmo assédio ou não. Etc…

Essa boa recusa de ser retilíneo estende-se à estrutura do filme como um todo e deságua no desenlace. Mesmo vencendo a causa contra os empresários construtores, quem garante que Clara poderá permanecer residindo num edifício destruído pelos cupins?

Nesse ponto, o fotograma final é emblemático: os cupins em plena atividade, justificando o nome desta terceira – e não da primeira! – parte do filme, ´o câncer de Clara´. A sugestão, naturalmente, é que o câncer esteve para Clara, assim como o cupim está para o edifício Aquarius. Sugestão que, bem apropriadamente, iguala a personagem à sua residência. Clara é Aquarius. Aquarius é Clara. Aliás, a sua atitude de não sair do prédio é a única, no filme todo, que tem direito a ser retilínea.

Os comentaristas de “Aquarius” têm feito comparações com “O som ao redor, e quase todas vêm ao caso. Uma pertinente está no território da trilha sonora. Vejam bem, ou melhor, escutem bem. Antes o “som” era poluição sonora; agora ele é música, muita música. E esta é uma diferença fundamental entre os dois filmes. Sem coincidência nenhuma, a profissão da agora aposentada Clara é qual? Crítica de música! Seu apartamento está repleto de discos em vinil, e ela vive dando conselhos musicais aos parentes, como faz com o sobrinho, de namorada nova: “Leve Bethânia pra ela”.

Sônia Braga é Clara.

Sônia Braga é Clara.

O belo “Hoje” de Taiguara abre e fecha o filme, que está cortado por músicas brasileiras e internacionais em praticamente todas as sequências. E, não deixemos de notar, até no diálogo a música insinua-se. Lembro ao leitor/espectador aquele momento extremamente tenso em que mãe e filha discutem, e o tema da venda do apartamento conduz perigosamente a questões de natureza particular. No clímax da discussão, diante de uma tirada ferina da filha, Clara detém-se e começa a solfejar uma cançãozinha que diz assim: “Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração…” E ela mesma acrescenta: “É Lupicínio Rodrigues”.

Ainda a propósito de música, uma curiosidade minha: em “O som ao redor” os personagens de Mendonça cantam, para a aniversariante, não o comum “Parabéns pra você”, mas as “Canções de cordialidade” de Villa-Lobos e Manuel Bandeira, e fazem isso, todos juntos, na ponta da língua, como se em Recife isto fosse habitual, quando se sabe que não é. Aqui ele repete a dose e não é uma vez só.

Enfim, “Aquarius” é apenas o segundo longa de Kleber Mendonça, e, claro, deixa-nos na ansiosa expectativa de mais.

Kleber Mendonça dirigindo...

Kleber Mendonça dirigindo…

Sr. Sherlock Holmes

21 abr

Quem iria querer imaginar o seu ídolo idoso e doente? Por exemplo, Tarzan velhinho sem poder trepar em seus cipós? Ou Roy Roger alquebrado sem conseguir montar o seu cavalo?

O escritor inglês Mitch Cullin fez isso com Sherlock Holmes. No seu livro “A slight trick of the mind” (´Um ligeiro truque da mente´), imaginou-o aos noventa e dois anos, já no final dos anos 1940, atacado de demência, vivendo quase isolado no condado de Sussex, tentando desesperadamente lembrar-se de seu último caso… e sem conseguir. E isto, sem a ajuda de seu amigo Watson, já falecido havia anos.

O diretor americano Bill Condon gostou tanto da estória desse Holmes gagá que resolveu filmar.

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O filme “Sr Sherlock Holmes” (2015), no original “Mr Holmes”, acaba de ser lançado em DVD e pode ser uma boa pedida para um confronto com as outras tantas versões cinematográficas sobre a vida do personagem de Conan Doyle.

Seguindo o livro, o filme mostra um protagonista com perda constante de memória e seu mundo mental é, portanto, um tanto e quanto nebuloso, com retrocessos e avanços temporais que nem sempre se encaixam.

Quem é aquela mulher de comportamento estranho e hostil? Por que faz túmulos para filhos inexistentes? Por que o marido contrata os serviços de um detetive? Por que uma vidente é procurada? O que faz ela sozinha, sentada num banco de praça? O que significa a imagem de uma abelha sobre sua luva branca?

De alguma maneira, essa nebulosidade é transferida para o filme, e, ao espectador, dá trabalho juntar as peças e entender o que de fato aconteceu no misterioso último caso do Sr Sherlock Holmes. Sabemos apenas – e isto é um agravante sério, do ponto de vista dramático – que este caso foi decisivo para o nosso personagem isolar-se do mundo, cheio de remorso e culpa, sentimentos que ele, amargurado, curte sem conhecer a causa.

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“Doença e morte são banais: raro mesmo é a lógica” – ensina o velho Holmes ao seu companheiro infantil e fã, o filho da empregada na casa de campo de Sussex. Só que a lógica teima em não funcionar e, quando funciona, no desenlace, é só para provar que, mais que ela, valem os sentimentos.

Sim, é que, ao contrário dos muitos casos investigados pelo famoso detetive, este último o envolveu, emocionalmente, com a mulher casada que ele investigava a pedido do marido. Não vou contar a estória para não estragar o prazer de quem quer ver o filme de Condon.

Permitam-me apenas citar o próprio Holmes, naquele momento em que, achando-se satisfeito com a solução que encontrou para o seu enigma, filosofa: “One shouldn´t leave this life without a sense of completion” / “Ninguém devia deixar esta vida sem um sentido de compleição”.

Com ou sem compleição, o filme é, plasticamente falando, uma delícia para os olhos, cenário limpo e elegante como uma fleumática casa inglesa. Se, obedecendo à temática, a montagem é confusa, a fotografia, ao contrário, é límpida, nítida, clara, como um cartão postal.

As interpretações são ótimas e o velho e enrugado Ian McKellen oferece um desempenho magnífico. Não fica atrás Laura Linney, como Mrs Munro, a empregada sempre desconfiada de seu patrão; como também o garoto Milo Parker, no papel de Roger, o filho da empregada, apaixonado pelas teorias de Holmes e cuidador de seu apiário.

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A trilha sonora de Carter Burwell (músico de “Fargo”, “Quero ser John Malkovich” e “Crepúsculo”) desempenha um papel fundamental, lembrando às vezes – e com motivo justificável – o tema musical de Bernard Herrman em “Um corpo que cai”. Aliás, outras referências hitchcockianas são visíveis, por exemplo, quando a misteriosa investigada Ann Kelmot se detém na frente de uma loja de couros que se chama Ambrose Chapel, o mesmo nome – vocês lembram – que está em “O homem que sabia demais”.

Do jovem cineasta novaioquino Bill Condon, eu conhecia apenas dois filmes que, aliás, tive o prazer de comentar nesta coluna. “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), de 1998, ficcionalizava a vida do diretor americano James Whale, autor de alguns bons horror movies dos anos trinta; e “Kinsey – vamos falar de sexo”, de 2004, sobre o sexólogo americano que, nos anos cinquenta, lançou um livro que mudaria o comportamento de gerações.

Mas, voltando ao filme em questão, se porventura você é um leitor entusiasta de Conan Doyle e não está a fim de ver o seu ídolo decadente, veja outra coisa. “Sr Sherlock Holmes” não é obrigatório.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

Viagem aos seios de Duília, o filme.

7 ago

A cinefilia doméstica costuma associar os anos sessenta ao movimento do Cinema Novo Brasileiro, como se, nessa década, nada mais no país, em termos de atividade cinematográfica, tivesse sido feito.

E não é o caso. Para se ter uma idéia, a década de sessenta inteira produziu nada menos que 404 películas, das quais duvido que 40 possam ser caracterizadas como realizações do Cinema Novo.  E ainda que possam, sobram 364 realizações fora do esquema do famoso movimento.

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Uma dessas “sobras” é “Viagem aos seios de Duília”, película de 1965 de Carlos Hugo Christensen, cineasta oriundo da Argentina que ninguém de bom senso enquadraria na turma de Glauber Rocha, Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Não porque fosse argentino, mas porque, desde sua chegada ao Brasil, vinha cometendo filmes com fins visivelmente comerciais, como “Matemática zero, amor dez” (1958) e “Meus amores no Rio” (1959), comédias românticas completamente antagônicas ao espírito vanguardista e político dos cinemanovistas.

Em 65 Christensen resolveu adaptar o antológico conto de Anibal Machado e se deu bem, mas não creio que isso o torne um cinemanovista. Como o conto, o filme narra a desventura desse senhor idoso, solteirão recém aposentado, que decide empreender uma viagem ao passado, em busca de uma miragem: a visão deslumbrante dos seios da jovem Duília, que nunca lhe saíra da memória. Na remota Pouso Triste de sua infância e adolescência, um dia, a moça lhe abrira a blusa e…

Agora a aposentadoria o angustia e José Maria, para surpresa de sua velha empregada, arruma as malas e se entrega a uma viagem penosa que, lamentavelmente, tem um final mais penoso ainda: professora primária e viúva idosa, a Duília de seus sonhos eróticos não tem mais nada a ver com a imagem que dela guardava, e o encontro dos dois é puro desencanto.

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Mesmo sem a perfeição do conto – considerado a obra prima de Anibal Machado – o filme de Christensen tem qualidade e merece uma espiada.

Evidentemente, o primeiro problema da adaptação foi a pouca extensão do texto. Em sua inteireza, o conto daria um curta, ou talvez um média metragem, mas dificilmente um filme de duração padrão. O problema foi resolvido com um relativamente longo preenchimento diegético, onde se narra o que não está no conto, mas, aristotelicamente falando, poderia estar: as primeiras semanas de vida aposentada de José Maria e a crise existencial dela decorrente.

Na ocasião de sua despedida da repartição, os colegas oferecem uma festa a José Maria, mas isso é tudo. O que vem depois é frieza e indiferença. Nas próximas tentativas de contato, José Maria começa a se dar conta do que é ser considerado velho, e, portanto, descartável. Vários incidentes lhe revelam a dureza de ser idoso entre os mais jovens, e aos poucos ele vai aprendendo a se manter no seu lugar de inativo e inútil.

Uma dessas decepções ocorre na noite em que aceita o convite de um dos colegas a ir a uma boate da cidade, na companhia de duas moças, amigas do ex-colega – e a cidade, não esqueçamos, é o Rio de Janeiro – e se vê passado para trás pela companheira de noitada, além de ser conduzido a pagar a conta, e depois, deixado na rua, porque, dali, os dois casais, formados na boate, iam para outras paradas, mais íntimas.

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Todo esse preenchimento diegético poderia estragar a imagem que se tem do conto de Anibal Machado, e, no entanto, não é bem assim. Não apenas ele não macula o conto, como vem a contento para o filme, ajudando a incrementar o conflito central do personagem: o seu enfrentamento da velhice.

Depois de ver o filme (eu não o vira na época de sua estréia), fiquei curioso em checar a autoria de um roteiro tão eficiente, e não tive surpresa em constatar que era de ninguém menos que o escritor Orígenes Lessa.

Um outro ponto nevrálgico da adaptação é o desenlace. Como fazer para expressar em imagens a desolação do protagonista, no encontro com Duília? A voz em off, repetindo as palavras do texto, seria um recurso manjado que, se consolaria os apreciadores do conto, não soaria satisfatório para os espectadores do filme. Sensata e criativamente, Christensen optou praticamente pelo contrário: ao invés de qualquer verbalidade, encheu a tela de imagens onde se vê uma sequência de cenários vazios, digo, sem a presença física do ator/personagem, sequência que simbolicamente refaz a vida triste de um personagem que, sem saída, se entrega à tristeza de sua condição.

Um comovente filme sobre a ´terceira idade´, rodado numa época em que sequer se conhecia a expressão.

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Poesia

8 ago

A crítica é cheia de paradoxos. Ou seria o crítico? Às vezes filmes ruins me instigam a escrever, e, às vezes, um filme ótimo me sugere ficar calado.

Uma sugestão de silêncio – mas de silêncio respeitoso – me deu esse excelente “Poesia” (“Shi”, 2010) do sul coreano Chang-dong Lee, que tive a sorte de ver nesse novo Canal Arte-1 da televisão paga.

Sim, alimento a sensação de que escrever sobre esse doce e terno filme é como maculá-lo. E, paradoxalmente, escrevo, pois me vejo no afã de divulgá-lo. Se pudesse, ao invés de escrever, tiraria cópias, e carinhosamente distribuiria entre os amigos.

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Devo começar dizendo que, neste cinema do terceiro milênio que me chega, poucas vezes vi um personagem, cativante e verdadeiro, tão bem construído como essa Sra Misha, de sessenta e seis anos de idade que, acometida de lapsos de memória, se matricula num curso de poesia. Caminhando devagar pelas calçadas de Seul, Misha destoa da pressa reinante, com sua elegância e sua delicadeza – seu rosto de sessentona ainda é bonito, seu corpo ainda é esguio e o chapéu branco, ligeiramente antiquado, que teima em usar, lhe concede um ar vagamente aristocrático.

Não sei se vou conseguir passar a sua beleza interior, mas começo com o óbvio, o que o enredo me fornece, até porque o enredo é outro enorme mérito do filme.

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Viúva há muito, Misha viveria sozinha, não fosse por esse neto, filho de pais separados, que ela praticamente é obrigada a hospedar – um adolescente hostil, com quem não consegue se entender, embora faça todos os esforços.

Um dia Misha ouve a notícia de que uma jovem de dezesseis anos cometera suicídio, jogando-se da ponte no rio que banha Seul. Não apenas tem a notícia como, indo ao hospital para exames, testemunha uma cena terrível: a mãe da moça morta, enfurecida pelo desespero, gritando e se arrastando pelo chão como uma louca.

Logo depois, vem o pior: Misha é secretamente procurada por uma comitiva de pais, cujos filhos haviam estuprado a jovem, e o neto de Misha estava entre eles. Os pais a procuram porque, juntos, estão – sem que a polícia ou a imprensa o saiba – coletando dinheiro para uma indenização.

Sem maiores recursos, Misha não tem como levantar a quantia pedida. Vive de pensão, e de um eventual trabalho de cuidadora – cuida de um senhor idoso que, acometido de AVC, mora só em seu apartamento de classe média.

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Todos esses problemas – inclusive os lapsos de memória, diagnosticados como início de Alzheimer – não impedem Misha de continuar freqüentando o curso de poesia, onde o professor afirma que todo mundo é capaz de fazer poemas, pois a poesia está dentro de nós. Misha sempre gostou de flores e de palavras estranhas e isso lhe dá a ilusão de que possa vir um dia a escrever um poema. Gasta tempo fitando a natureza em busca de uma inspiração, que nunca vem. Ou (devo contar o resto da estória?) vem tarde.

Enquanto isso, impressionada com a morte da jovem, Misha vai até o local do suicídio, a ponte sobre o rio, e – triste prolepse – o vento arranca-lhe o chapéu, que cai nas águas sombrias.

Incumbida pela equipe dos pais, visita a mãe da jovem, no campo, porém, a visita não dá frutos, salvo um, literal, que Misha apanha do chão e mastiga. As duas mulheres conversam sobre frutas maduras e Misha volta como foi, sem soluções. Uma única, precária, é que furta o retrato da garota morta e o leva para casa, pondo-o à mesa, diante do neto delinqüente.

Ainda que por meios nada edificantes – espécie de estupro consentido – Misha consegue, com o senhor de quem cuida, enfim, o dinheiro para a cota indenizadora, o que não impede que, um dia, a polícia apareça em sua rua e leve o neto preso.

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No fim do curso, nenhum aluno cumpriu a tarefa do professor, a de escrever um poema, salvo Misha, que não comparece a essa aula final, e, com um buquê de flores, envia o poema – o seu primeiro e (lembremos o chapéu no rio) último.

Enquanto se ouve a voz que lê o poema de Misha (primeiramente a do professor, depois a dela, depois a da adolescente morta), a câmera vai se deslocando na direção da ponte do suicídio e nós, espectadores, entendemos que houve outro. Não apenas as águas turvas do rio, filmadas assustadoramente de perto, nos dizem isto, como também as palavras estranhas e belas do poema que se escuta.

Desliguei a tv meio engasgado, me lembrando de outra vítima feminina do mundo dos homens, que a cada revisitação, me faz chorar, a Cabíria de Fellini.

Comecei esta matéria falando dos paradoxos da crítica. Um a mais é não atingir, na composição do texto, o nível de qualidade do filme, como é o caso aqui.

Portanto, vejam o filme e esqueçam a crítica.

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