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O teste Bechdel

1 ago

Em quase todos os setores da vida social ser politicamente correto é saudável. Eu disse ´quase´ porque um setor há em que a correção política parece não dar lá muito certo: este setor são as artes. Sim, no terreno em que a criação prevalece geralmente qualquer cobrança – externa ou interna – de correção tende a virar censura, e…

No cinema a censura foi praticamente abolida desde os anos 70, mas, aqui e acolá, aparecem manifestações pontuais de correção política que cheiram à censura.

Um caso que acho engraçado é o do chamado “Teste Bechdel”. Já ouviram falar dele?

Aplicado sobretudo ao cinema, consiste no seguinte: para ser viável, um filme precisa ter três coisas, a saber, (1) precisa ter duas mulheres na estória; (2) essas mulheres devem conversar entre si; (3) a conversa não pode ser sobre homens.

“Rashomon” é um dos filmes reprovados pelo Teste Bechdel.

Segundo os divulgadores do teste, isto denuncia ou evita o machismo que predomina na produção mundial de cinema. Para eles, ou melhor, para elas, o ideal seria que, antes de o filme ser rodado, o roteiro fosse submetido ao teste, o que garantiria um mínimo de protagonismo feminino, coisa tão rara no cinema.

Se o teste chega a ser aplicado nos bastidores do cinema, eu não sei, porém, que ele – desde os fins dos anos noventa – vem sendo amplamente utilizado para julgar filmes já consumados e consumidos,  disso não há dúvidas.

O maior site de cinema, o IMDB, traz uma lista de quase mil filmes submetidos ao Teste Bechdel, onde, naturalmente, poucos são os aprovados, digo, poucos cumprem os seus três pré-requesitos.

Mas, já é hora de perguntar, de onde surgiu o Teste Bechdel?

Foi em 1985, em uma coluna de humor da famosa cartunista americana Alison Bechdel. O nome da coluna era “Dykes to watch out for”, que se poderia traduzir livremente para “cuidado com os sapatões”. Uma engraçada charge da coluna, chamada de “The rule” (´a regra´) criava um diálogo entre duas lésbicas (Bechdel, aliás, é assumidamente lésbica) em que uma confessava à outra: de agora em diante, só assisto filmes que… (e colocava os três pré-requisitos citados acima).

A charge foi bolada em tom brincalhão e nada prescritivo, mas isto não impediu que uma certa ala mais radical do feminismo americano levasse a brincadeira a sério e a transformasse em teste para denunciar o machismo prevalecente nos filmes em geral. Inclusive, aproveitaram para associá-lo – gratuitamente ou não – ao conceituado ensaio “A room of one´s own”, da escritora inglesa Virginia Woolf, onde se reclama do papel secundário que sempre tiveram as mulheres na ficção literária.

Mais um reprovado pelo teste, “Ladrões de bicicleta”.

Nem precisa dizer, mas vou dizer assim mesmo: o problema do Teste Bechdel é que ele não mede qualidade.

Basta ver entre os filmes testados no rol do IMDB, a quantidade enorme de grandes obras primas internacionais sumariamente desaprovadas. Por exemplo: “Tempos modernos”, “Jezebel”, “O morro dos ventos uivantes”, “Casablanca”, “Cidadão Kane”, “Rashomon”, “Ladrões de bicicleta”, “Morangos silvestres”, “Um corpo que cai”, “Os incompreendidos”, “2001 – uma odisseia no espaço”, etc. Ironicamente, foi reprovado até o filme que traz, no título, o nome da escritora que teria inspirado o teste: “Quem tem medo de Virginia Woolf”.

Uma ironia engraçada é que filmes que depõem contra a natureza feminina passem no teste numa boa, caso – e um exemplo entre muitos – de “A malvada” (Joseph Mankiewicz, 1950). E, caso mais drástico ainda, é que um filme quase misógino, como “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931) seja plenamente aprovado com os três pontos do teste.

Enfim, se você pensa que o Teste Bechdel está fora de moda e devia ser esquecido, preste atenção ao programa de cinema do canal Futura. Vez ou outra, a apresentadora (nunca soube seu nome) aplica o Teste Bechdel ao filme mostrado e o faz na maior tranquilidade, com jeito de quem está sendo científica.

A semana passada foi a vez de “O grande golpe” (“The killing”, 1956) a obra prima noir de Stanley Kubrick, que tinha, sim, duas mulheres na estória, mas, falha grave, elas não conversavam entre si (como podiam, pergunto eu, se nem se conheciam?), o que, de chofre, tirou dois pontos do filme, e com um só, foi sumariamente reprovado.

Para mim, isto sim, foi um grande golpe.

“O grande golpe”, obra prima noir de Kubrick, reprovada no Futura.

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Frases fílmicas

4 jul

Quem foi que disse que cinema é só imagem? Na verdade, a palavra desempenha um papel importante na complexa estrutura de significação que é o filme. Até nos tempos mudos era assim, com os desajeitados letreiros, postos entre uma cena e outra.

Pois há palavras nos diálogos de certos filmes – com mais frequência, frases – que, de tão bem escolhidas, os transcendem, e ganham autonomia semântica, algumas, fama própria, e passam a ser lembradas bem longe das salas de projeção.

Sim, nos meios cinéfilos pelo menos, basta alguém, por alguma razão, pronunciar o termo “rosebud” para todo mundo lembrar o filme de Orson Welles, “Cidadão Kane” (1941). Se a frase for “Ninguém é perfeito”, quem é que não vai lembrar “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1958) e seu hilário desenlace? Se for “Nós sempre teremos Paris”, a lembrança imediata vai ser o final de “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), ou não vai?

Pois aqui sugiro ao leitor uma brincadeira. Selecionei vinte e duas frases de filmes clássicos – dos anos trinta aos sessenta – que cito numeradas e em ordem cronológica, para que você tente identificar os filmes em que elas foram articuladas. Para facilitar, incluo o ano de produção do filme e o nome – quando há – do ator ou atriz que a pronunciou. Notar que nem sempre a frase famosa foi dita pelo ator ou atriz principal. Pode ter saído da boca de um coadjuvante, ou mesmo de algum extra.

Vamos lá?

 

1 “Está vivo! Está vivo!” (1931, Colin Clive)

2 “Que Deus seja testemunha: nunca mais passarei fome.” (1939, Vivien Leigh)

3 “Não existe lugar como o lar.” (1939, Judy Garland)

4 “Não vamos pedir a Lua, quando podemos ter as estrelas.” (1942, Bette Davis)

5 “Como é que eu podia adivinhar que assassinato pode às vezes ter cheiro de flor?” (1944, Fred MacMurray)

6 “O trem para Ketchworth, chegando agora na plataforma três.” (1945, voz do microfone da Estação Ferroviária)

7 “A vida de um homem toca tantas outras vidas…” (1946, Henry Travers)

8 “Sim, posso ser muito cruel: eu fui educada por mestres.” (1949, Olivia de Havilland)

9 “Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências.” (1950, Bette Davis)

10 “Eu sou grande: os filmes é que ficaram pequenos.” (1950, Gloria Swanson)

11 “Sempre dependi da bondade de estranhos.” (1951, Vivien Leigh)

12 “Isto é o elevador?” (1953, Audrey Hepburn)

13 “O que você quer de mim?” (1954, Raymond Burr)

14 “Eu poderia ter tido classe. Poderia ter sido um grande lutador.” (1954, Marlon Brando)

15 “Estou cansada de ouvir me dizerem que sou bonita.” (1955, Kim Novak)

16 “Só Deus sabe, Sr Allison.” (1958, Deborah Kerr)

17 “O melhor amigo de um rapaz é sua mãe.” (1960, Anthony Perkins)

18 “Cale a boca e jogue.” (1960, Shirley MacLane)

19 “Nós somos iguais, eu e gato. Dois pobres patetas sem nome.” (1961, Audrey Hepburn)

20 “Quando a lenda supera a história, imprima-se a lenda.” (1962, Carleton Young)

21 “Eles me chamam Sr Tibbs!” (1967, Sidney Poitier)

22 “A senhora está tentando me seduzir, Sra Robinson?” (1967, Dustin Hoffman)