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Falando de “Se meu apartamento falasse”

26 mar

 

Não sei dizer ao certo quantas vezes vi “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, Billy Wilder, 1960), mas sei que toda vez que o revejo, ou falo dele, o faço com uma pitada de melancolia. É um dos filmes mais importantes do Século XX, e, pessoalmente, está entre os meus dez mais amados.

Ainda hoje recordo sua estreia em João Pessoa, começo dos anos sessenta, no extinto Cine Rex. Aliás, antes disso, lembro-me do trailer, fazendo ênfase nos cinco Oscars que ganhara, e, mostrando aquela cena em que Jack Lemmon, sozinho no seu apartamento de solteiro, vê televisão, aborrecido, mudando de canal o tempo todo porque a tv só mostrava faroeste, hoje a gente sabe, gênero detestado por Billy Wilder que, irônico, dizia ter medo de cavalos.

Mas, a impressão de melancolia não é apenas pessoal. Ela também é histórica.

Shirley MacLaine e Jack Lemmon no filme de Billy Wilder.

Sim, “Se meu apartamento falasse” representa o fim de uma época dourada, aquela do chamado cinema clássico americano, que os historiadores colocam nas três décadas, de trinta, quarenta e cinquenta. Estreou em 60, mas na década em que estreou, Hollywood já não seria mais a mesma. Os estúdios se esfacelavam e a produção caía vertiginosamente, em quantidade e qualidade. Mais tarde, começo dos anos setenta, Hollywood ressurgiria das cinzas, mas não mais a mesma. Bem mais explícita, bem mais mórbida, bem mais escatológica, a Hollywood renascida vinha para chocar o espectador clássico.

Vejam que o filme de Wilder é a estória de um sujeito que cede seu apartamento para fins escusos, como se um motel fosse, ou mesmo um bordel, e, contudo, não há, em todo o filme, uma só cena explícita, nenhuma coxa à mostra, nenhum seio, sequer um beijo, nada.

O Código Hays de Censura vigorou até 64, mas, não é por causa dele que o filme é inexplícito. Em 1960, o Código já estava caduco, quando a gente lembra, por exemplo, o escandaloso beijo com pouca roupa, nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme de Fred Zinnemann “A um passo da eternidade”, e isto em 1953. O próprio Wilder já fora suficientemente malicioso dois anos atrás, em “Quanto mais quente melhor”, vestindo marmanjos com roupa de mulher e findando o filme com uma frase mais que picante, que, tanto tempo atrás, já sugeriria a alternativa do casamento gay: “Ninguém é perfeito”.

Embora nessa empresa em que o protagonista trabalha, todo mundo transe com todo mundo, “Se meu apartamento falasse” não tem cenas explícitas, e não tem porque Billy Wilder não quis, e pronto.

Para ficarmos mais à vontade na análise do filme, façamos uma breve e parcial reconstituição de seu enredo.

C. C. Baxter subindo de posição na Empresa de Seguros.

O filme conta a estória de C. C. Baxter (Jack Lemmon), esse funcionário de uma grande Companhia de Seguros nova-iorquina, que vem tendo ascensão funcional de modo pouco convencional. Com fins escusos, seu apartamento vem sendo usado, à noite, por altos funcionários da Companhia, que “pagam” o uso com generosas promoções ao funcionário. Pois Baxter termina sendo chamado à direção geral, não para ser admoestado ou coisa parecida, mas porque o Chefão de todos, o Sr Sheldrake (Fred MacMurray) quer entrar no jogo. E qual não é a surpresa de Baxter, já devidamente promovido a Executivo Assistente, no dia em que descobre que a amante do Chefão é a simplória ascensorista do prédio, a Srta Fran Kubelik (Shirley Maclaine) por quem ele tem uma queda que dá na vista. Mas, ora, Sheldrake é casado e Fran está apaixonada… O complicado caso entre os dois vai dar em tentativa de suicídio, que, para o azar de Baxter, acontecerá, onde? Sim, no seu apartamento… Esticando uma farra de Ano Novo com uma companheira casual, de repente Baxter vai deparar-se com um corpo inerte em sua cama, e mais grave, o corpo da mulher que ama.

A temática em “Se meu apartamento falasse” é recorrente na filmografia de Wilder, a crítica ao ´american way of life´: de um lado, a busca da ascensão social, e do outro, a ética, o confronto gerando a crise. Como outros tantos personagens em outros filmes de Wilder, esse empregado da Companhia de Seguros busca – ou “aceita” – promoções até o momento em que o sucesso profissional fere os seus princípios morais. Nesse momento ele muda, e, para usar termos da teoria narrativa, passa a ser um “personagem redondo”, aquele que se transforma no decorrer da fabulação. Nisso ele faz contraste com todos os outros personagens (exceção para Fran Kubelic), que continuam iguais a si mesmos até o último fotograma.

É um filme sobre aprendizado, na acepção ontológica da palavra – em outros termos, sobre a aquisição do auto-conhecimento. Esse auto-conhecimento ocorre a Baxter de modo epifânico naquele momento em que entra em crise, ao dar-se conta de que o preço a pagar pelo sucesso profissional não compensa do ponto de vista emocional. Transformado, já havendo recusado entregar ao Chefe a chave do seu apartamento, ele lembra e usa uma palavra que o seu vizinho, o Dr Dreyfuss – que cuidara da suicida Fran Kubelic – lhe jogara na cara: “Mensch”, e esse termo, que em alemão significa ´humano´, é o que ele pretende ser de agora em diante: desempregado, solitário, sem planos futuros, mas humano. De alguma forma a palavra “Mensch” contém, se vocês quiserem, a mensagem do filme.

Para uma análise mais atenta, gostaria de me debruçar sobre a estrutura narrativa do filme, no caso, destacando três turning points particularmente importantes. E destaco-os não apenas por serem momentos de mudança no enredo, mas porque consistem em instâncias em que o icônico fala mais que o verbal, como deve ser no cinema. A eles dou os nomes de: (1) uma cédula de cem dólares; (2) espelho quebrado; e (3) a chave errada.

Aquele primeiro ocorre no momento – Noite de Natal – em que a jovem ascensorista Fran Kubelic fora deixada sozinha pelo amante nesse apartamento, dela desconhecido. Sem ter tido tempo – ou disposição – de comprar presentes, o amante, antes de ir embora, para o seio da família, lhe dera uma nota de cem dólares. Ela, naturalmente, se sentira ofendida. Neste instante a que me refiro, a vemos no banheiro do apartamento, desiludida e depressiva, quando divisa, no armário, um frasco de soníferos. Segura o frasco, pensativa, e o devolve à prateleira. Em seguida, abre a bolsa para tirar o batom e o que vê? A nota de cem dólares. Aí, sim, pega de volta o frasco de soníferos… e espectador já advinha o que vai acontecer. E acontece. Notar que não há, em toda a cena, uma só palavra enunciada, e, no entanto, tudo é extremamente eloquente.

A Srta Fran Kubilic e seu drama de amor…

O segundo turning point que destaco ocorre na nova sala de trabalho do laborioso Baxter, recém promovido a executivo assistente. Ele comprara um chapéu novo, cabível com o novo posto, e pergunta a Sra Kubelic se está bem. Ela lhe entrega o seu espelho, para que ele se veja, e é nesse momento que o ingênuo Baxter descobre que a amante do Chefão é ela, a moça com quem pensava que paquerava. Ocorre que ele já vira aquele espelho, uma vez esquecido no seu apartamento e devolvido pelo próprio Chefe. Reconhece-o porque esse espelho está quebrado. Observem que, se há palavras trocadas entre os dois personagens, nada na cena, tem a força da imagem do espelho quebrado, mostrado em close.

A terceira mudança no enredo que menciono é o momento mesmo em que Baxter toma a decisão mais fatal: demitir-se. Agora divorciado, o Chefão quer retomar o caso com a Srta Kubelic e, chamando Baxter a sua sala, lhe pede, de novo, a chave do seu apartamento. Este parece aceder, lhe entregando uma cópia de chave e se retirando para o compartimento vizinho. O Chefão vai atrás, lhe dizendo que ele lhe dera a chave errada, a do banheiro dos executivos, e não a do apartamento… e Baxter responde, decidido, que lhe dera a chave certa – a do banheiro mesmo. Considerem que, embora a chave seja um objeto pequeno, é em torno dela que a cena gira, e é ela, a chave, que determina os movimentos físicos dos personagens.

Por outro lado, as palavras também são decisivas em “Se meu apartamento falasse”. Já citei o caso de “Mensch”, mas há uma expressão, pronunciada duas vezes, que não pode deixar de ser mencionada. Trata-se de uma expressão idiomática que perde o seu sabor metafórico na tradução para o português, aquela que se lê nas legendas. Em certo momento da conversa entre a Srta Kubelic e Baxter (pós tentativa de suicídio), ela se indaga por que é que não se apaixonou por um cara legal como ele. E ele, sem saber o que responder, comenta apenas que: “That´s the way it crumbles: cookiewise”. Como o pronome “it” não existe em português, uma tradução possível seria, mais ou menos: “É assim que a coisa se esfacela: feito biscoito”. A ideia é que ´a vida é assim mesmo´ (como está na legenda brasileira), só que a força da construção linguística é muito maior no original, o que fará com que a expressão – junto com a sua circunstância – seja lembrada pelo espectador na ocasião (quase final do filme) em que ela for repetida, desta feita, pela própria Srta Kubelic.

“That´s the way it crumbles: cookiewise”

Sim, em plena comemoração de Ano Novo, quando vem a saber, da boca do Sr Sheldrake, que Baxter pedira demissão por causa dela, a Srta Kubelic repete a expressão e, indagada pelo amante sobre o sentido da frase, alega apenas que lhe diria se soubesse soletrar, mas não sabe. Vejam bem: se a chave errada fora o turning point pessoal de Baxter, este agora é o da Srta Kubelic que, vocês lembram, corre desabalada pelas ruas em direção ao apartamento de Baxter onde os dois, sentados ao meio da mobília desarrumada para a mudança, vão jogar baralho.

“Eu simplesmente a adoro, Srta Kubelic” lhe confessa ele, emocionado. E ela, bem serena: “Cale a boca, e jogue”.

Final perfeito.

Uma curiosidade sobre o filme de Billy Wilder que cabe referir tem a ver com sua trilha sonora. Quatro músicas compõem essa trilha, sendo uma delas, brasileira. A principal é a música romântica que acompanha a personagem da Srta Kubelic, tanto no seu caso confuso com o Sr Sheldrake, como, no desenlace, com Baxter. Uma segunda música pode ser chamada de ´marcha do trabalho´, tocada toda vez que se sugere o suposto ímpeto de ascensão funcional de Baxter. Uma outra, também pertinente a Baxter, tem tom melancólico, e o pega sempre solitário, em casa ou na rua. Finalmente, há essa trilha erótica, quase obscena, executada para indiciar as aventuras sexuais dos muitos furtivos visitantes do apartamento de Baxter. Pois, sem registro nos créditos do filme, essa quarta composição é, na verdade, a orquestração da canção de nome “Madalena”, dos compositores brasileiros Airton Amorim e Ari Macedo, sucesso do carnaval de 1951, cantada por Linda Batista, cuja primeira estrofe dizia assim: “Amar como eu amei / Ninguém deve amar / Chorar como eu chorei / Ninguém deve chorar / Chorava que dava pena / Por amor a Madalena…”

Só não me perguntem como foi que a canção brasileira foi desaguar no filme de Billy Wilder, que não sei…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Hildeberto Barbosa Filho.

Página desta matéria, como publicada no Correio das Artes, em 26 de março de 2017.

 

Música de filme

24 jun

Para muita gente boa, cinema sem música não é cinema. E a prova alegada é que, mesmo no tempo do cinema mudo, já havia um pianista em ação por trás da tela. Que seja.

O fato é que, desde 1927, quando o som foi agregado à película, a música passou a ser um dos ingredientes básicos da linguagem cinematográfica, tão importante quanto fotografia, montagem, interpretação, direção, etc.

Um outro fato inegável é que, em muitos casos, a música do filme pode se impor como um elemento tão forte que, eventualmente, adquire o mesmo poder de repercussão do filme, ou, em alguns casos particulares, até mais.

Que músicas tão especiais são essas?

Tenho e sempre tive meu rol privado de trilhas musicais preferidas, mas, quis saber de um que não fosse só meu. Para tanto, entrei em contato com cinéfilos que conheço de perto, todos com idade suficiente para lembrar trilhas que recobrissem toda a história do cinema falado. Não de todo aleatoriamente, escolhi dez – um número redondo – e a cada um pedi que me desse uma lista das dez trilhas musicais que mais amam. Acreditei – e acertei – que, no total das cem músicas citadas, haveria recorrências e essas recorrências me permitiriam chegar a uma espécie de cânone.

Eu sei: são restritos, tanto o número de votantes (apenas 10) quanto o espaço geográfico (João Pessoa, Paraíba), porém, suponho que essas limitações não impedem que o resultado da pesquisa possa vir a ser ilustrativo, já que saído da preferência de reconhecidos cinéfilos, entre os quais tomei a liberdade de me incluir.

Adiante cito as listas completas dos votantes, com seus nomes e escolhas, mas, antes, vai a lista das músicas eleitas, ou seja, as que tiveram maior número de votos, de seis a três. Como se vê, não pôde ser dez, mas foram nove as mais votadas. Ao lado do título da música, adiciono o compositor, ou se for o caso, o arranjador, seguido, entre parênteses, do título do filme, diretor e ano de produção. O número no final indica a quantidade de votos que a música teve, e no caso dos empates optei pela ordem cronológica de lançamento:

"Casablanca" e sua trilha musical inesquecível

“Casablanca” e sua trilha musical inesquecível

AS TRILHAS MUSICAIS MAIS VOTADAS POR UM GRUPO DE DEZ CINÉFILOS PARAIBANOS:

AS TIME GOES BY – Max Steiner (Casablanca, Michael Curtiz, 1942) (6)

MOON RIVER – Henry Mancini (Bonequinha de luxo, Blake Edwards, 1961) (5)

SUMMER OF 42 – Michel Legrand (Houve uma vez um verão, Robert Mulligan, 1971) (4)

AMARCORD – Nino Rotta (Amarcord, Federico Fellini, 1973) (4)

OVER THE RAINBOW – Herbert Stothart (O mágico de Oz, Victor Fleming, 1939) (3)

SINGING IN THE RAIN – Nacio Herb Brown (Cantando no chuva, Stanley Donen e Gene Kelly, 1952 (3)

JOHNNY GUITAR – Victor Young (Johnny Guitar, Nicholas Ray, 1954) (3)

THE APARTMENT – Adolph Deutsch (Se meu apartamento falasse, Billy Wilder, 1960) (3)

THE SOUND OF MUSIC – Oscar Hammerstein e Richard Rodgers (A noviça rebelde, Robert Wise, 1965) (3)

Para a curiosidade do leitor que também gosta de música e de cinema, e sobretudo das duas coisas juntas, eis a relação completa dos dez votantes, com suas respectivas listas pessoais. Neste caso, por economia de espaço, cito apenas os títulos das músicas, seguidos dos títulos dos filmes e datas. Quando a escolha da trilha musical refere-se ao filme como um todo, cito apenas o título do filme.

"Moon river" foi a segunda colocada na preferência dos 10 cinéfilos paraibanos

“Moon river” foi a segunda colocada na preferência dos 10 cinéfilos paraibanos

Joaquim Inácio Brito

Over the rainbow – O mágico de Oz, 1939; As time goes by – Casablanca, 1942; Love´s a many-splendored thing – Suplício de uma saudade, 1955; Takes my breath away – Ases indomáveis, 1986; Three coins in the fountain – A fonte dos desejos, 1954; Summer place – Amores clandestinos, 1959; Johnny Guitar, 1954; Where is your heart – Moulin Rouge, 1952; O mein Papa – A rainha do circo, 1954; The sound of music – A noviça rebelde, 1965.

Silvino Espínola

Amarcord,1973; Noites de Cabíria, 1957; As time goes by – Casablanca, 1942; Lawrence da Arábia, 1962; My favourite things – A novice rebelde, 1965; Johnny Guitar, 1954; Summer of 42 – Houve uma vez um verão, 1971; Runaway – Loucuras de verão, 1973; Sunrise sunset – O violinista no telhado, 1971; Goldfinger – OO7 contra Goldfinger, 1964.

Edward Lemos

Tammy – A flor do pântano, 1955; Charade – Charada, 1963; Secret Love – Ardida como pimenta, David Butler, 1953; River of no return – O rio das almas perdidas, 1955; The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Young at heart – Corações enamorados, 1955; Summer of 42 – Houve uma vez um verão, 1970; Singing in the rain – Cantando na chuva, 1952; Os brutos também amam, 1953; ´S wonderful – Sinfonia de Paris, 1952

Gustavo Urquiza

Era uma vez no Oeste, 1968; Paris-Texas, 1984; Love Story, 1970; Babel, 2006; A noviça Rebelde, 1965; Amacord, 1973; Dr. Jivago, 1965; Amelie Poulin, 2001; Concerto n 2 para piano – Desencanto, 1945; Por una Cabeza – Perfume de mulher, 1992

Ivan (Cineminha) Araújo

E o vento levou, 1939; Shane – Os brutos também amam, 1953; Luzes da ribalta, 1952; A estrada da vida, 1954; The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Moon river – Bonequinha de luxo, 1961; Dr Jivago, 1965; The sound of music – A noviça rebelde, 1965; O poderoso chefão, 1972; Cinema paradiso, 1989

Josafá Soares

Moon River – Bonequinha de luxo, 1961; As time goes by – Casablanca, 1942; Everybody is talking at me – Perdidos na noite, 1968; Summer of 42 – Era uma vez um verão, 1940; Amarcord, 1973; Raindrops keep falling on my head – Butch Cassidy, 1969; O poderoso chefão, 1972; Mrs Robinson – A primeira noite de um homem, 1969; Blue velvet – Veludo azul, 1986; Por uma cabeza – Perfume de mulher, 1992

Humberto Espínola

The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Un Homme, une femme – Um homem, e uma mulher, 1966; Limelight – Luzes da Ribalta, 1953; Love´s a many-splendored thing – Suplício de uma saudade, 1955; Moon River – Bonequinha de Luxo, 1961; As time goes by – Casablanca, 1942; Over the Rainbow – O Mágico de Oz, 1939; Singing in the rain – Cantando na chuva, 1952; A Flor da Pele – Dona flor e seus dois maridos, 1977; The third man – O terceiro homem, 1949

Rolf de Luna Fonseca

Que será será – O homem que sabia demais, 1956; My Darling Clementine – Paixões dos fortes, 1946; Laura – Otto Preminger, 1944; Three coins in the fountain – A fonte dos desejos, 1954; The bridge on the river Kwai – A ponte do rio Kwai, 1957; The third man – O terceiro homem, Carol Reed, 1949; As time goes by – Casablanca, Michael Curtiz, 1942; Do not forsake me – Matar ou morrer, 1952; Will you remember? – Primavera, 1936

José Mário Espínola:

Amarcord, 1973; Goldfinger – 007 contra Goldfinger, 1964; A doce vida, 1960; Moon river – Bonequinha de Luxo, 1961; A Pantera Cor de Rosa, 1963; Zorba, o grego, 1964; 2001, uma odisséia espacial, 1968; The hanging tree – A árvore dos enforcados, 1958; Com Jeito Vai, 1957; Um homme et une femme – Um Homem e uma Mulher, 1966.

João Batista de Brito

Over the rainbow – O mágico de Oz, 1939; As time goes by – Casablanca, 1942; Sansão e Dalila, 1949; Johnny Guitar, 1956; The magnificent seven – Sete homens e um destino, 1960; Moon River – Bonequinha de luxo, 1961; Days of wine and roses – Vício maldito, 1962; Goldfinger – 007 contra Goldfinder, 1964; The good the bad and the ugly – Três homens em conflito, 1966; Summer of 42 – Era uma vez um verão, 1971.

"Summer of 42", a terceira colocada (aqui cena do filme homônimo)

“Summer of 42”, a terceira colocada (aqui cena do filme homônimo)

Com Madalena, no ap de Billy

20 mar

Um dos meus filmes mais amados e mais revisitados é “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, 1960, de Billy Wilder). Revisitei-os tantas vezes que ele terminou por entrar na apertada lista dos meus dez mais.

De “Se meu apartamento falasse” conheço todos os detalhes e tenho, na cabeça, todo o seu sequenciamento de cenas. Sei, quase de cor, os diálogos principais e ainda hoje vibro quando Fran (Shirley McLaine), dias depois de sua tentativa de suicídio por desilusão amorosa, indaga a si mesma e a Baxter (Jack Lemmon) por que será que ela, ao invés de sofrer com quem não a ama, não se apaixonava por um cara tão legal como ele, e este, filosófico e brincalhão, responde que “That´s the way it crumbles, cookie-wise”.

the apartment Baxter at work

Os tradutores das legendas se embaraçam com a frase, e com razão.  Esse “it” é uma referência à vida e uma tradução livre mas fiel seria mais ou menos “é assim que a vida se esmigalha: feito um biscoito”, sugerindo que ninguém pode fazer nada em relação ao modo como as coisas acontecem. No final do filme, quando o amante sacana (Fred McMurray) conta a Fran que Baxter perdera o emprego por causa dela, ela de súbito entendendo o que houve (paixão), responde com a mesma frase que ouvira de Baxter, e sai correndo em busca de seu novo e sincero amor.

Sempre houve, porém, uma coisa em “Se meu apartamento falasse” que me escapava e me intrigava, no caso, em sua trilha sonora. Adoro o tema melódico principal do filme, a bela composição de Adolph Deutsch, porém, a minha dúvida não residia aí. Residia numa outra música do filme, mais circunstancial, porém não menos importante na perspectiva da diegese, aquela que, com certa insistência, ouvimos toda vez que os mal intencionados colegas de Baxter se dirigem ao seu mui visitado apartamento.

Isto para não dizer que ela é executada para o próprio Baxter. Vocês lembram: na noite de Ano Novo, ele, solitário e desiludido, leva para casa aquela coroa meio porra louca que o abordou em um bar. Ao entrarem no apartamento, os dois bêbados, a primeira coisa que Baxter faz é ligar a radiola e por um disco, e a música toma conta do ambiente, enquanto o casal furtivo, gingando com o ritmo, faz os preparativos para sua performance erótica.

the apartment New Year´s Eve at the bar

Pois eu sempre achei que conhecia essa música, de onde, exatamente, não tinha a menor ideia. No filme, a execução é só instrumental, sem palavras, mas havia, nela, alguma coisa, vinda do fundo da minha memória auditiva, – como se da minha infância – que me dizia que aquela música era familiar. Em conformidade com o erotismo sugerido nesta cena e alhures, trata-se de uma música animada, de ritmo quente, feita para movimentar o corpo, com todo o jeitão de samba.

De samba? Foi aí que a ficha caiu. Um belo dia, fiquei, depois do filme revisto, com a música na cabeça e, solfejando-a de mim para mim, matei a charada. Sim, no meio do solfejo, as palavras começaram a me ocorrer: ´chorar/chorei/amar/amei…’ Não havia dúvidas: era um sucesso dos velhos carnavais brasileiros, lá dos inícios dos anos cinqüenta, por isso mesmo estava correta a impressão de estar tudo ligado a minha infância. O nome veio logo em seguida, “Madalena”, e abaixo reproduzo a primeira estrofe da letra que, tenho certeza, o pessoal da minha faixa etária facilmente identificará:

“Chorar como eu chorei, ninguém deve chorar; amar como eu amei, ninguém deve amar; chorava que dava pena, por amor a Madalena, e ela, me abandonou, diminuindo no jardim uma linda flor…”

the apartment Shirley MacLaine

A partir daí, parti para a pesquisa. Os autores são Ari Macedo e Airton Amorim e, em 1951, a canção foi gravada por Linda Batista, conquistando os foliões daquele ano e perdurando por muito tempo entre uma das mais curtidas da MPB.

Identificada a música, vieram as perguntas, para as quais infelizmente não tenho resposta. Como a equipe de Billly Wilder chegou a essa canção carnavalesca brasileira, e, mais importante, por que ela sequer é creditada no filme? Se não foi creditada, não houve reclamações? Os autores brasileiros nunca se manifestaram sobre o fato de ter uma canção usada em um filme que, inclusive, ganhou o Oscar do ano? Que disco é aquele que Jack Lemmon põe a rodar na cena acima referida? Teria a gravadora brasileira cedido os direitos autorais a alguma empresa americana?

As biografias dos compositores não indicavam qualquer tipo de relação com Hollywood, ou sequer com os States.

Descobri também que, bem antes do filme de Billy Wilder, a canção aparecera em dois filmes mexicanos de 1953, que desconheço: “Uma aventura no Rio” de Alberto Gout e “Los dineros del diablo” de Alejandro Galindo. Isto, porém, não nos ajuda em nada, salvo na constatação óbvia de que “Madalena” transpôs as fronteiras nacionais, legalmente ou contrabandeada, continuo sem saber.

the-apartment final scene