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Van Gogh em pintura animada

16 jan

Certo mistério envolve a morte de uma figura importante e alguém é incumbido de ir no encalço desse mistério, para tanto, entrevistando pessoas as mais variadas, que conviveram com o finado. Essas pessoas dão depoimentos contraditórios que não ajudam a desvendar o mistério e a estória se finda sem uma resposta muito clara.

Estou falando de “Cidadão Kane”? Que nada! Falo de “Com amor, Van Gogh” (“Loving Vincent”, 2017) filme que está em cartaz na cidade e no mundo.

Nesse maravilhoso longa de animação, o mistério a ser esclarecido é o da morte do pintor holandês Vincent Van Gogh, e o encarregado da busca é um homem comum, o filho de um carteiro local. Há uma carta do pintor, dirigida ao irmão, Theo, e é essa carta o fio condutor que levará, ou não, o investigador ao seu alvo…

Como num filme de Hitchcock, a carta é um mero macguffin para fazer a trama andar, e isto com direito a um certo suspense e tudo mais que dá a qualquer filme uma certa cara de thriller. “Macguffin” para quem não sabe, é o pretexto semiótico a partir do qual se inventa qualquer estória.

Mas aqui o que mais vale é o equilíbrio entre o interesse pela trama e o fascínio pela plástica. Sim, enquanto a estória se desenrola, somos tomados, o tempo todo, pela beleza do cenário e das cenas, que repetem o esplendor das pinturas de Van Gogh. Um leitmotif, por exemplo, são corvos que, aparecendo em momentos estratégicos da narração, mancham a paisagem amarelada, para nos lembrar um certo quadro emblemático do pintor. Beleza pura.

Diferentemente do esperado, não se trata propriamente de desenho animado, mas de “pintura animada”. Sim, o filme foi todo confeccionado a partir de pinturas feitas a mão, em telas, pinturas estas criadas por 100 exímios pintores que capricharam na imitação do estilo Van Gogh. Cerca de 66 mil fotogramas e 853 tomadas contam a estória e encantam o espectador. Coisa nunca vista.

Já que falei em Hitchcock, o mago do suspense chutava, com sua maledicência costumeira, que os melhores atores são os de desenho animado porque, quando o cineasta não gosta deles, simplesmente os rasga e joga fora. A boutade brincalhona de Hitch me faz pensar em como não deve ter sido difícil para os autores de “Com amor, Van Gogh”, justamente “dirigir” os atores. Em duas instâncias: numa, exigindo dos pintores, nos personagens pintados, as exatas expressões faciais e corporais que correspondessem aos momentos mais ou menos dramáticos; e noutra, cobrando dos atores que fazem as falas, a mesma correspondência emocional no nível vocal.

Quem assiste ao filme não tem dúvidas de que a dupla Dorota Kobiela e Hugh Welchman tiveram completo sucesso no empreendimento. Um fato impressionante, por exemplo, é haverem conseguido a sutileza – ao mesmo tempo plástica e narrativa – de mostrar como o personagem Armand, que procede à busca, cresce da indiferença pela figura do pintor… até um total envolvimento que o faz tomar o seu partido emocional de forma radical – e fisicamente, lutar por ele.

Igualmente impressionante como as cenas cumprem sua dupla função, de, de um lado, instruir a narrativa, e, de outro, alimentar o sonho plástico.

Nesse aspecto, relembrem o momento em que um médico da província de Auvers reconstitui hipoteticamente a cena do que ele entende ter sido um crime, já que o tiro que atingiu o corpo do pintor e o levou à morte veio de um ângulo afastado e inferior. Nesse momento estamos assistindo a um filme policial. E contraponham esta cena àquela em que a jovem Marguerite Gachet oferece seu depoimento de admiradora – ela, que diariamente coloca flores no túmulo do pintor, uma figura que vemos pela primeira vez, tocando piano, toda de branco, justamente como um dia a pintara Van Gogh, quadro que se conhece dos museus da vida. Nesse momento, é a plástica quem fala.

“A verdade é que só podemos falar através de nossas pinturas”.

A famosa frase de Vincent Van Gogh sobre o que um pintor teria a dizer ao mundo justifica a incompletude conceitual de sua própria estória, mas, mais que isto, justifica a própria existência desse belo, belo filme que promete perdurar em nossa memória fílmica por muito, muito tempo.

Acima mencionei Kane e Hitchcock, porém, assistindo a este “Com amor Van Gogh” o filme antigo que de fato vem à mente do cinéfilo é “Sede de viver” (“Lust for life, 1956) de Vincente Minnelli, com o hoje centenário Kirk Douglas no papel do pintor holandês. Pessoalmente, já o pus na frente da fila do “A REVER”…

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Macbeth in Brazil

19 nov

Está em cartaz na cidade “A floresta que se move” (2015), filme brasileiro que adapta ao nosso tempo e espaço o enredo da peça shakespeariana “Macbeth” (1606).

Dirigido pelo global Vinicius Coimbra, o filme faz do protagonista um executivo ambicioso que mata o presidente da Empresa para ocupar o seu posto. Em Shakespeare, vocês lembram, o personagem título é, na Escócia dos anos 1400, um vassalo do Rei Duncan, que ouve umas profecias de três bruxas, todas favoráveis à sua ascensão, e nelas acredita.  No filme de Coimbra, é só uma bordadeira que dá a dica a esse Elias ambicioso, e ele, como Macbeth, faz o resto acontecer.

Convenhamos que adaptar ao mundo atual texto tão remoto não deve ter sido fácil. E, de fato, os problemas aparecem. Um deles é o seguinte: até certa altura da projeção, o filme tem feição de um mero thriller, como os que vemos tanto hoje em dia. Um casal ambicioso assassina o presidente da Empresa para que o marido ocupe o seu cargo. Esfaqueia-o, joga o corpo num lago, e fica esperando pelo resultado. Que, naturalmente, não vai ser bom.

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Esse jeitão de thriller nos afasta do clima trágico da peça original, e a ele só voltamos, bem mais tarde, quando o casal assassino oferece um jantar ao corpo executivo da Empresa, e no meio da janta, o fantasma de Banquo, digo, de César (a segunda vítima do ambicioso Elias), aparece, todo ensanguentado. E o desenrolar do filme vai assim: ora thriller, ora tragédia, sem equilíbrio entre as duas coisas.

Fico pensando como receberão o filme, as pessoas sem familiaridade com a peça de Shakespeare. As que têm essa familiaridade eu sei, pois “Macbeth” acontece de ser um dos meus Shakespeares favoritos. Acho que posso dizer que aquelas primeiras vão estranhar a psicologia fantasmagórica, enquanto que estas segundas estranham o investimento no gênero policial. E ninguém sai satisfeito do cinema. Sobretudo, como já disse, por causa da falta de equilíbrio entre os dois tons.

Apesar da ação constante e dos crimes hediondos, “Macbeth” é uma tragédia reflexiva, psicológica, onde a construção dos personagens tem um peso enorme. Não tanto quanto “Hamlet”, mas é. Um exemplo, o assassinato de Duncan é todo circundado dos delírios culposos de seu algoz que, antes do crime, vê adagas no ar guiando ao quarto da vítima, e, depois do ato feito, gasta um tempão atormentado com a ideia de que “assssinou o sono” e nunca mais vai conseguir dormir.

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Não é sem razão que Shakespeare fez com que tudo, no destino dos protagonistas, dependesse das predições das três bruxas, investindo assim na fantasia (ou fantasmagoria), e por tabela, no psicológico, em detrimento do meramente factual. Como em todas as suas peças, o bardo de Stratford foi atrás das fontes históricas, porém, no caso presente, ele deu esse empurrão maior ao fantasioso, e dizem que o fez por interesse. É que o Rei da Inglaterra, James I – sem coincidência o patrono da sua companhia, “The King´s Men” – era apaixonado por bruxaria, e Shakespeare não hesitou em inventar as motivações sobrenaturais para o destino do tirano Macbeth. Se foi mesmo bajulação, foi tão bem feita que virou o melhor da peça.

No filme, os personagens parecem rasos, sem a grandeza trágica do original. Um ou outro trecho da peça vem a suas bocas (´nunca pensei que o velho tivesse tanto sangue´, sussurra e depois escreve Clara, a esposa do empresário), mas o conjunto não funciona a contento. Cheio de investigações e interrogatórios policiais (coisas inexistentes na época de Shakespeare), o filme, como já dito, se afasta temporariamente do espírito da peça, e o que dela tem, quando o tem, não é suficiente para compor uma obra uníssona e fluente. Esforços são feitos neste sentido, mas não diria que com bons resultados. A mim, me veio a ideia de acochambro.

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Dou um exemplo. No filme, uma certa frase de Macbeth (“ela podia ter morrido outra hora”) provoca um erro de montagem. O espectador sai da cena mais dramática, aquela em que o marido Elias, desesperado, encontra o corpo da esposa na banheira, e passa, imediatamente, para um Elias eufórico, no escritório, surpreendendo a secretária – e a nós – com a tal frase, como se feliz da vida. Ele faz isso porque tivera notícias alvissareiras da bordadeira, mas, a mudança brusca no comportamento do personagem é, no mínimo, inverossímil.

Em alguns casos, sente-se mesmo que a infidelidade ao original teria sido melhor opção, caso da famosa cena do porteiro (na peça, o da Fortaleza, no filme, o do Banco), ridiculamente inoportuna na diegese do filme.

Enfim, devo recomendar “A floresta que se move”, ou não? Não sei. Fica a seu critério. Agora, se você está interessado no assunto, não deixe de checar como foi que três “bruxos” geniais trataram a peça de Shakespeare: pela ordem, Orson Welles em “Macbeth, reinado de sangue”, 1948; Akira Kurosawa em “Trono manchado de sangue”, 1957; e Roman Polanski em “Macbeth”, 1971.

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Benditos defeitos (1)

16 dez

No cinema americano, se o protagonista faz uma ligação telefônica, a pessoa do outro lado da linha geralmente atende imediatamente, como se estivesse ao pé do aparelho, esperando que tocasse. Se esse protagonista necessita encontrar um certo objeto (uma caderneta escolar do tempo em que era estudante secundário, por exemplo) esse objeto é achado, dentro de casa, com incrível facilidade. E se, na rua, precisa de um meio de transporte, os táxis estão sempre disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite – é só estender a mão e gritar “táxi!”?

Quem é que, na internet ou alhures, já não se deparou com pelo menos uma daquelas “Listas de defeitos dos filmes americanos”, defeitos estes que parecem agredir a lógica e a inteligência do espectador?

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Espectadores assíduos e bons observadores, os autores dessas listas têm alguma razão em reclamar desses defeitos, porém, sinto muito em dizer, não têm razão completa. A rigor, se refletissem mais, ficariam gratos por esses defeitos existirem.

É verdade que, na vida real, normalmente, as pessoas não atendem seus telefones com tal presteza, ou sequer estão em casa quando eles tocam; é verdade que a gente não encontra o que procura dentro de casa com tanta facilidade, principalmente se se trata de um objeto antigo; é verdade que táxis não estão sempre disponíveis em todos os setores da cidade…

São situações improváveis que os filmes americanos assumiram como lances de roteiro que agilizam a narrativa e fazem o filme andar, e que o espectador comum engole sem prestar atenção ao seu grau de inverossimilhança.

A primeira coisa a ser dita, contudo, sobre a questão toda, e em favor desses “defeitos”, é que cinema e realidade são duas coisas completamente diferentes.

A narrativa cinematográfica – qualquer roteirista profissional sabe disso – trabalha por elipses, e o faz por uma razão simples: precisa contar uma estória em cerca de duas horas. Detalhes que não tenham uma significação especial em relação à temática do filme precisam ser pulados, descartados, subtraídos.

Para ficar nos três exemplos citados, se o roteiro fosse manter na tela o provável tempo real de cada uma dessas ocorrências, o filme se estenderia indefinidamente, se tornaria insuportável e o espectador seria o primeiro a reclamar.

Táxis sempre disponíveis.

Táxis sempre disponíveis.

Vamos supor que os nossos exemplos fizessem parte de um mesmo filme. Vamos supor que o nosso personagem – como é comum na vida real – tivesse que esperar em torno de meia hora para falar com seu interlocutor no telefone; mais meia hora para encontrar a caderneta escolar; mais meia hora para conseguir o táxi. Somando tudo, uma hora e meia teria que ser adicionada à duração normal da estória, e o filme inteiro, de – digamos – duas horas de projeção, pularia para três horas e meia.

O espectador desse filme iria morrer de impaciência e tédio, mas, isto não seria o pior. O pior é que todo esse período de espera (a ligação se completar, a caderneta ser achada, o taxi aparecer) funcionaria como “tempo morto”, ou seja, não teria nenhuma função semiótica dentro do filme – seria realismo puro, oco de sentido como todo realismo puro. Quem, na vida real, já passou três horas numa sala de consultório médico esperando para ser atendido, sabe a que me refiro com “realismo oco de sentido”.

Para fazer comparações com outras linguagens, em literatura a verossimilhança é fácil de ser obtida e não incomoda. Basta o autor de um romance escrever que “o personagem esperou ´por horas´ até a ligação telefônica se completar”, e tudo está resolvido. O leitor lê rápido a frase e não há desperdício de tempo. Em cinema, esse ´por horas´ custaria muitos metros de fita, para não dizer que custaria uma nota, além, como já posto, de torrar inutilmente a paciência do espectador.

Aqui cabe um parêntese: no cinema, uma certa demora na conclusão das três situações citadas será viável se o gênero do filme for Suspense, porém, mesmo assim, com certeza, o tempo de espera, num thriller, é geralmente bem menor do que o suposto tempo real, embora, justamente por causa do suspense, pareça enorme. A esse propósito, confiram qualquer Hitchcock.

Citamos apenas três exemplos, mas claro, os filmes estão repletos de situações semelhantes e, enfim, fosse o cinema mostrar o tempo real desses eventos diários, e de tantos outros que costumam fazer parte das estórias contadas na tela, um filme, qualquer que fosse o seu gênero, teria que durar, não horas, mas dias.

Conclusão: dispostos com tanta malícia nas listas referidas, esses “defeitos”, não deveriam ser amaldiçoados, e sim, abençoados.

Foi a sua inevitável repetição ao longo do tempo o que fez com que essas elipses temporais entrassem, indiscriminadamente, no rol dos chichês. Porém, ao contrário dos clichês propriamente ditos, elas são premências narrativas que, se fôssemos lhes atribuir um nome mais justo, poderiam muito bem ser chamadas de “licenças poéticas”. Sim, licenças poéticas, no sentido em que se quebram regras (aqui as da verossimilhança), com o objetivo estético de tornar a obra mais compacta e digerível. Uma forma mais sofisticada de denominar essas elipses seria enquadrando-as no conceito – já popular entre teóricos da linguagem narrativa – de “verossimilhança interna”.

Prosseguirei com o assunto num próximo post.

Como achar um objeto perdido dentro de casa...

Como achar um objeto perdido dentro de casa…

As diabólicas

19 set

Acho que podemos dizer que tudo começou no dia em que Pierre Boileau e Thomas Narcejac se conheceram, lá pelos finais dos anos quarenta – dois escritores franceses sem grande prestígio literário, que gostavam de escrever estórias de mistério e crime e que sonhavam, um dia, ter um de seus romances adaptado para a tela por Hitchcock.

Em 1952, pensando em Hitchcock, publicaram um que se chamava “Celle qui n´était plus” (´A que não era mais´), Boileau investindo na trama ardilosa e Narcejac na caracterização dos personagens e na atmosfera sombria.

Dizem que Hitchcock leu e gostou, porém, foi o cineasta francês Henri-George Clouzot quem – por questão de horas – chegou primeiro e comprou os direitos autorais para a adaptação. O romance deve ter sido vendido sem hesitação, pois Clouzot já era um cineasta de grande nome, sobretudo depois do sucesso que fizera com o seu “O salário do medo” (“Le salaire de la peur”, 1953).

as dia poster

Clouzot só começou a rodar o filme em 1954, de forma que a estreia, agora com um novo título, “As diabólicas” (“Les diaboliques”) só aconteceu em 1955.

Por que “As diabólicas”? A estória conta o caso de duas mulheres que assassinam um homem, e este é o único gancho para o título. Na medida em que adentramos o enredo esse título vai ficando enganoso e falso. O homem assassinado é o Sr Michel Delassale, o diretor tirânico de um internato que tanto tiraniza os alunos e professores como a esposa Cristina (Vera Clouzot) e a amante, Nicole (Simone Signoret), também professora no colégio.

É essa tirania desmedida que une as duas mulheres – a esposa e a amante – no plano de cometer um assassinato que – todo mostrado ao espectador nos seus mínimos detalhes – parece sórdido e hediondo. Depois de um envenenamento com vinho, e afogamento em banheira caseira, o corpo é, à noite, jogado na piscina do colégio para que, ao ser encontrado, pareça acidente ou suicídio, porém, (surpresa geral, ou quase geral: quando, dias depois, o servente esvazia a piscina, o corpo não está lá!

Preparando o vinho fatal

Preparando o vinho fatal

Evidentemente, em respeito a quem ainda não conhece o filme, não vou contar o resto da estória, mas posso ao menos dizer que o filme é uma mistura muito bem feita de thriller e terror, refletida na sua estrutura de forma simétrica: na primeira metade, temos a concepção e execução do crime, e na segunda, o terror, se não contarmos o desenlace. E é interessante como o tópico thriller/terror aparece na figura de uma criança, um dos alunos do internato. É o que teima em ter visto o diretor Michel “depois de morto” e, mais tarde, na última cena do filme, teima em ter visto a esposa dele, a professora Cristina Delasalle, que – nós acompanhamos os eventos de perto – havia falecido de tanto susto. Essa criança visionária, com certeza, tem um papel importante na significação do filme e no seu efeito sobre o público. Indagado sobre a temática de “As diabólicas” Clouzot alega que o rodou se sentindo criança, “ a criança – diz ele – que esconde a cabeça debaixo do cobertor e pede ao pai que lhe conte uma estória de assombração”.

o "crime" na banheira

o “crime” na banheira

Fotografado em expressivo preto-e-branco, o filme –- contém bons momentos de suspense dos quais conto só um: na ocasião em que o servente do colégio vai esvaziar a piscina, Cristina está dando aula de inglês a sua turma, ao mesmo tempo em que, apavorada, avista a cena da janela. O assunto da classe são os verbos irregulares, dos quais ela fornece a primeira forma e os alunos respondem com o passado e o particípio. Ora, qual é o verbo irregular que ela dita no exato momento em que o servente introduz o rodo na água: “find / found / found”, ou seja, ´encontrar/encontrou/encontrado´ – para ela o cadáver que lá ela mesma havia depositado. Um pouco mais tarde, ao mandar um aluno ao quadro negro, ela o apressa dizendo “Estou esperando”, e, sem mais dirigir-se ao aluno, repete para si mesma “estou esperando” (e nós sabemos o que ela espera…)

Nenhum cadáver na piscina vazia

Nenhum cadáver na piscina vazia

Autor de filmes importantes, como “O corvo” (1943), “Crime em Paris” (1947), e do já citado “Salário do medo”, H. G. Clouzot foi um dos cineastas rechaçados pelos jovens diretores da Nouvelle Vague, que achavam que, antes deles, o cinema francês, acadêmico e convencional, não prestava. Um filme como “As diabólicas” prova o quanto estavam enganados – e isto com uma ironia a mais: os nouvellevaguistas endeusaram Hitchcock, o qual, por sua vez, invejou o “As diabólicas” de Clouzot, tanto que, anos depois, pensando nele, quis fazer um terror preto-e-branco com o mesmo impacto, e fez (“Psicose”, 1960).

Enfim, creio ser interessante lembrar a relação que o filme tem com o Brasil: a atriz que faz a protagonista Cristina Delasalle é brasileira, Vera Clouzot, filha do escritor sergipano Gilberto Amado, e casada com o cineasta, com quem trabalhou em vários filmes, antes de, como a sua personagem em “As diabólicas” morrer do coração.

Em tempo: “As diabólicas” foi apresentado e discutido no Cineclube da Aliança Francesa, dia 18 de setembro, na Sala Vladimir Carvalho da Usina Cultural.

Vera Clouzot, a atriz brasileira de "As diabólicas"

Vera Clouzot, a atriz brasileira de “As diabólicas”

O som e a fúria ao redor

6 mar

Entra, finalmente, no circuito comercial o super aguardado “O som ao redor” (2012), primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que revela o talento e a competência expostas nos seus curtas.

Construído em cima de duas pulsões supostamente antagônicas, o filme chama a atenção, entre outras coisas, pela originalidade de seu roteiro, aqui o meu enfoque escolhido. De um lado, temos uma pulsão descritiva, documental, realista, epocal, cujo limite seria a crônica cinematográfica; de outro lado, uma pulsão narrativa, fabulatória, ficcional, cujo limite seria, digamos, o thriller.

Para o espectador a crônica vem primeiro, e o filme parece limitar-se a fazer o retrato de um bairro classe média de Recife, até que, menos óbvia, a segunda pulsão começa a manifestar-se, para completar-se na tomada final, quando estampidos de fogos de artifícios encobrem disparos de armas que ´resolvem´ um caso de vendetta familiar.

o som ao redor 1

Vejam, por exemplo, que a faceta descritiva já tem muito da metonímia que está no título: as cenas são do cotidiano, mas, a ênfase é na poluição sonora que caracteriza a vida urbana no Brasil – latidos de cães, trânsito, furadeiras, gritos infantis, televisões ligadas, carrinhos de cd pirata, aspiradores de pó, etc… são os sons ao redor que infernizam a existência e escondem uma violência subliminar. Aliás, poucos filmes na história do cinema tematizaram o ruído (duplo sentido: de perturbação sonora e distúrbio semiótico na comunicação) do modo como aqui está feito. Fico imaginando o quanto os silenciosos espectadores europeus terão dificuldade em compreender esse barulho generalizado.

Com o mesmo comportamento metonímico (ninguém vê o que ocorre), a violência – já não mais tão subliminar – vai ter um ápice na referida cena final, quando o filme nos descortina a sua faceta de thriller; um que foge aos padrões do gênero como o diabo da cruz, mas, de todo jeito, um thriller.

Sim, nem a descrição é fiel ao real, nem a narração é convencional, pois inúmeros detalhes problematizam o realismo da primeira pulsão, e vários incidentes perturbam o desenvolvimento da narratividade na segunda.

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Exemplos do primeiro caso: de uma dona de casa nordestina não se espera que se masturbe ao som da máquina de lavar, nem que seus filhos sejam obrigados a estudar chinês; por que a empregadinha que é levada pelo amante a um apartamento alheio, só quer fazer amor em determinado compartimento? Como explicar os banhos noturnos do idoso Sr Francisco, num setor da praia sujeito a ataques de tubarões? Os personagens possuem suas idiossincrasias e a lógica – se há uma –, que vai muito além do típico, parece ser a de que ´de perto, ninguém é normal´.

Do mesmo modo, e apesar da divisão do filme em três partes indicadas por letreiros, o decorrer narrativo está repleto de lacunas propositais e perturbadoras. Um exemplo típico está na relação entre os personagens Francisco (feito por Solha) e seu neto Dinho: este é o protégé daquele, e, no entanto, raramente, ou nunca, os vemos juntos na tela. A visita à fazenda é outro exemplo que vem ao caso, toda mostrada em elipses, ficando-se apenas com imagens sintomáticas, como a do banho de cachoeira de águas subitamente avermelhadas, espécie de prolepse do desenlace. Aliás, única linha amorosa da estória toda, o caso entre João e Sofia chega a um término desencantado, sem que saibamos como nem por quê, isto para não citar o final em aberto, de nós graficamente escondido…

o som ao redor 3

No mesmo sentido de driblar a convenção, vários incidentes retardam o tempo, sem relação aparente com o narrado. A reunião de condomínio para demitir o porteiro do prédio, bem como o caso do pivete trepado na árvore, podem ser entendidos como itens da pulsão descritiva, porém, o argentino perdido na vizinhança, o discutido olho cego de um dos vigilantes, aquela bola que um garoto sem querer chuta para o apartamento a alugar, e os pés descalços da empregada passando ferro são de mais difícil explicação…

As interpretações dos atores são, todas elas, excelentes, mas “O som ao redor” me parece um caprichoso “filme de roteiro” onde concepção de cenas, manuseio de som e edição de imagens são perfeitos. Com o seu tema de vingança, a trama poderia – se se quisesse – ser posta nos seguintes termos: rapazes do Interior se disfarçam de vigilantes para vingar a morte do pai, crime cometido por velho latifundiário, hoje aposentando e residente solitário da praia de Boa Viagem; junto com o cotidiano dos vizinhos e parentes do velho senhor, esta é a diegese do filme, porém, como este resumo dá uma idéia longínqua do que se vê na tela!

Se a coisa mais explícita no filme de Kleber Mendonça é o som, a menos explicitada (e por isso mesmo, mais gritante) é a violência, tanto a atual, urbana, como aquela outra, arcaica, que vem do passado do velho Francisco e seu Nordeste latifundiário. Para usar uma metáfora intertextual bem cabível (Cf “MacBeth”), são o som e a fúria numa mesma isotopia fílmica.

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Ninguém dirigiu

5 nov

Nos anos cinquenta e sessenta, o pessoal da Nouvelle Vague lutou, com unhas e dentes, para instituir e defender o conceito de ´autor´ no cinema. E quem seria o autor de um filme? Obviamente o diretor, aquele cujo nome aparece no final da lista de créditos do filme, assim como, na capa de um livro de poesia, aparece o nome do poeta.

A briga de Truffaut, Godard e Chabrol era contra o cinema de estúdios, onde, na realização de um filme, todo mundo (principalmente o produtor) dava pitacos e o resultado saía impessoal e sem estilo próprio. A crítica recaía sobre o cinema clássico francês e, claro, também sobre Hollywood.

Pois bem, espécie de cúmulo do literal apagamento da direção está em um filme hollywoodiano dos anos quarenta que fico pensando se os nouvellevaguistas conheceram. Refiro-me a “Sagrado e profano” (“Desire me”, 1947), em cujos créditos (pasmem!) sequer consta o nome do diretor.

Ninguém dirigiu “Sagrado e profano”? Como seria isso possível?

Na verdade, George Cukor foi o contratado para dirigir essa estória sobre uma dona de casa francesa que, levada pelas circunstâncias da guerra, vem a cometer bigamia, uma realização da MGM, aos encargos do produtor Arthur Hornblow. Cukor dirigiu as primeiras sequências e, insatisfeito com o andamento das filmagens, desistiu de continuar no projeto, que foi passado para Melvyn Leroy. Do mesmo modo, depois de várias cenas completadas, Leroy desentendeu-se com a produção de Hornblow e foi descartado. No seu lugar entrou Jack Conway, que dirigiu outro tanto e, com problemas semelhantes, cedeu seu lugar a Victor Saville. Dizem que nem Saville foi o último a fechar as filmagens de “Sagrado e profano”, mas o fato é que, na hora H de lançar o filme ao público, a produção optou por fazer tabula rasa da direção e – quebrando uma regra cinematográfica universal – deixar o filme sem o crédito mais importante.

Algo parecido havia acontecido oito anos atrás, com as filmagens de “E o vento levou…” (1939) que, com o mesmo caos, também consumiu vários diretores, um após o outro. No final das contas, foi Victor Fleming – o último contratado – quem ganhou o crédito de direção, mas quem acredita que o sucesso do filme tenha dependido dele? No caso presente, parece que a lógica prevalecente foi a seguinte: um filme dirigido por muitos, equivale a não ter sido dirigido por ninguém.

Eu disse acima que “Sagrado e profano” é um caso exemplar de apagamento literal da direção, mas, ora, o mais interessante – e a razão de ser deste ensaio – é que, apesar disso, ele está muito longe de ser um caso de apagamento da qualidade. Muito pelo contrário.

Tive a oportunidade de vê-lo recentemente e o filme, muito bem dirigido e – incrível! – dirigido com grande coerência, é envolvente, até mesmo empolgante, e enriqueceria o currículo de qualquer um dos diretores apagados dos seus créditos, ou o de outros diretores.

Livremente baseado em uma velha peça de origem germânica, conta a estória de dois soldados franceses, presos em um campo de concentração, durante a Segunda Guerra. Um, casado (Robert Mitchum), recebe cartas da esposa e o outro, solteiro (Richard Hart), ouve essas cartas que o amigo lê para ele; além disso, o amigo lhe mostra as fotos da esposa e muito lhe fala dela, como era bela, carinhosa, forte, firme, uma mulher fascinante (Greer Garson).

Não dá noutra: o amigo solteiro vai se apaixonando pela mulher do casado e no dia em que aparece a oportunidade de fuga e o outro é baleado, ele, ao invés de socorrê-lo, o deixa morrer e escapa sozinho. Finda a guerra, esse soldado procura a esposa do amigo, na costa rochosa da Normandia onde ela, solitária e enlutada, reside e… Dá para imaginar o resto do roteiro?

Sim, crente que o marido está morto e enterrado nos campos de batalha, a mulher vai sendo, aos poucos, conquistada por esse desconhecido, que não é propriamente um desconhecido, já que sabe tudo sobre ela, e pior, ou melhor, o sabe porque ouviu da boca do seu esposo, como se tudo não passasse de um prévio consentimento. Em confiança, esse marido contara ao colega toda uma gama de pequenos segredos conjugais que, ironicamente, vão facilitar a conquista, mas um há que é sintomático: contara-lhe como a mulher tinha o hábito de manter a porta da casa sem chave, alegando ela que as pessoas pudessem entrar quando quisessem – se amigas, seriam bem-vindas, se não, também o seriam, pois haveria a oportunidade de se tornarem. Ora, não vai ser esta a situação do soldado que chega? E, claro, a porta da casa sem chave é uma metáfora para a porta do coração!

Quando a situação está mais ou menos firme entre a suposta viúva e o seu novo companheiro, eis que reaparece o marido, que, evidentemente, não tinha morrido coisa nenhuma. E o filme termina com um duelo entre os dois homens, no qual um deles perece, nem precisa dizer qual, não é?

Toda a sequencia do retorno do marido é impressionante. A morada do casal ficava no topo de uma colina rochosa, batida pelas ondas do mar e logo que o marido reaparece, a paisagem inteira, antes ensolarada, é tomada por uma névoa que torna tudo embaçado. O embate dos dois rivais se dá ao meio dessa névoa e ao som de um repetido e langoroso apito de navio que mais parece um som de agouro. Quando a luta se consuma, ninguém sabe, por um tempo, quem venceu, quem morreu, até…

Aliás, não apenas essa sequência é impressionante em “Sagrado e profano”.

O filme quase inteiro é narrado em flashback e o uso do recurso é feito com extrema competência. Na primeira sequência, e começando pelo fim, vê-se Marise (a mulher) no consultório do médico, achando que está doente, e o médico lhe explicando que o seu mal é emocional. É que, depois do duelo, Marise ficara com certa dificuldade em aceitar Paul (o marido), que matara Jean (o outro). E é aí que ela começa a rememorar os eventos para o médico, e só então ficamos conhecendo a estória toda, desde o início e na ordem dos acontecimentos.

Embora na ordem dos fatos, essa recapitulação mnemônica está cheia do que os teóricos da linguagem chamam de paralepse – o que equivale a dizer que Marise tanto conta ao seu médico o que viu como o que não pôde ter visto. Como já coloquei em outros ensaios, este é talvez o mais cinematográfico dos recursos narrativos de todos os tempos.

Por exemplo, as primeiras cenas desse flashback já são paralépticas – nelas mostram-se Paul e Jean no campo de concentração, aquele falando sobre a esposa, este segundo, ouvindo, embevecido, inclusive, escutando a música preferida do casal, solfejada pelo marido – fato que Marise não poderia ter testemunhado. Mas, vai mais além: em dado momento, Paul, meio delirante, começa a descrever ao amigo como será provavelmente o seu retorno ao lar, na Normandia, e sua fala passa a narrar a sua própria chegada, hipotética e futura, nos mínimos detalhes, logo que desce do caminhão na estrada até a entrada nessa casa de porta aberta, passando pela praia, suas areias e suas rochas. Neste instante, a câmera reconstitui em imagens o seu percurso, só que o personagem que se vê chegando não é ele, e sim, o amigo. E a cena não é mais premonitória e delirante, mas real. Um recurso narrativo genial, na medida em que coloca o gesto de Paul dentro daquele paradigma de ´dádiva ao inimigo´, como conhecido em lendas e histórias em quadrinho.

Outro recurso narrativo muito bem usado é a “construção em abismo” (aqui flashback dentro de flashback), por exemplo, quando Marise retrocede um passo dentro de sua recapitulação do passado, para reconstituir, em sua memória, a cena de seu casamento com Paul, e depois disso, retornar ao “presente” da sua vida cotidiana com Jean, agora já seu novo companheiro – vida esta, por sua vez, também uma recordação.

Sem contar que o “flashback dentro do flashbac”, mais ousadamente, pode ser alheio, no que se misturam as duas técnicas referidas, paralepse e “construção em abismo”. Um pouco mais adiante, quando já devidamente instalado na residência de Marise, e depois de lhe ter narrado a (falsa) morte de Paul, Jean é deixado a sós em seu quarto e, de si para si, recorda o real acontecido na hora da fuga dos dois, Paul lhe implorando socorro e ele fugindo, deixando o amigo à mercê de sua sorte. Ora, fazendo parte do longo flashback de Marise como faz, esta cena é paraléptica em grau elevado, no sentido em que Marise – ao contrário de nós, espectadores – não sabe a verdade: que Jean tentou matar o seu esposo para um dia poder tê-la.

Outro elemento de destaque são os diálogos, sempre expressivos do drama. Para citar apenas um exemplo, lembro quando Jean, na cidade, é informado por alguém de que Paul estava de volta e se dirigia à casa. “Melhor enfrentar um homem que um fantasma” afirma ele, decidido, com isso sugerindo não apenas que vai resolver o problema de modo prático (com um revólver), mas também que, enquanto Paul estava “morto” (como acreditava Marise), o seu fantasma já vivia entre eles, Jean e Marise.

As interpretações são ótimas, principalmente do trio de protagonistas. Houve problemas de bastidores, sim, mas qual a produção de cinema que não os tem? Robert Mitchum não gostava do filme e Richard Hart entrou no elenco substituindo Robert Montgomery. Consta que Greer Garson sofreu, em uma cena de barco com Mitchum, acidente feio: quase morre afogada e feriu-se ao ser jogada pelas ondas fortes contra as pedras, passando meses hospitalizada. Nada disso impediu de se ter um bom resultado, os três parecendo incrivelmente convincentes em seus respectivos papéis.

Outro ponto alto é a fotografia do mestre Joseph Ruttenberg, que banha o filme de sombras misteriosas e luzes oblíquas, para sublinhar sua atmosfera noir, quase expressionista. Do ponto de vista plástico, o máximo é retirado da casa inscrustada na colina, de onde se avista a paisagem rochosa e, no fundo, o mar bravio, tudo filmado, claro, não na França, mas em Monterey, costa da Califórnia. Já mencionei o efeito da névoa no retorno do marido Paul, com certeza, escolha ao mesmo tempo plástica e temática de Ruttenberg, para uma cena decisiva, em vários sentidos da palavra.

Homologando fotografia e interpretações, e nisso, também contribuindo para a mistura de gêneros (drama, romance, noir, thriller) a trilha sonora do maestro Herbert Stothart vem a calhar. Como parte dela, destaca-se a bela composição para piano que funciona, no enredo, como tema amoroso do casal Paul-Marise, sim, aquela mesma solfejada por Paul no campo de concentração, para os ouvidos do colega. Imagino que os espectadores da época devem ter saído do cinema com essa música na mente, tantas vezes tocada ao longo do filme, em cenas diegéticas (no piano caseiro) ou não (em cenas mnemônicas idílicas entre Paul e Marise). Saber executá-la no piano da casa é um dos trunfos de Jean, e um investimento especial na conquista de Marise, embora ela, no momento, tenha se recusado a escutá-la, ao que Jean argúi, mais para si que para ela, que “é só uma questão de tempo”. E era.

 Apesar de suas qualidades, “Sagrado e profano” nunca recebeu elogios da crítica. Creio que ninguém quis arriscar-se a elogiar um filme que ninguém dirigiu, ou, pior, que muitos dirigiram.

Sobre esta questão, de minha parte, me ocorre aquela brincadeira que vi tantas vezes feita por amigos poetas – cinco, seis ou sete -, geralmente em mesas de bar: uma mesma folha de papel circula no grupo e cada um escreve um verso; a folha corre de mão em mão, até o poema se completar… de autoria múltipla, porém, ele mesmo inteiriço e íntegro. Nem sempre o resultado é um bom poema, mas, se todos os participantes da brincadeira tiverem talento, quem sabe?

Acho que foi o que aconteceu com “Sagrado e profano”.

Vertigem no cânone

6 ago

Qual o filme mais perfeito já feito em toda a história do cinema, aquele que se daria como exemplar de um cânone cinematográfico? Para a crítica internacional, a resposta está na ponta da língua – “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) que, desde 1952, vem ocupando o topo da lista dos dez mais na eleição decenal que realizam o BFI (British Film Institute) e a revista Sight & Sound, uma eleição em que votam críticos, acadêmicos e profissionais da sétima arte em todo o mundo.

A resposta está na ponta da língua?? Estava! É que vem de sair o resultado da nova eleição, a do último decênio, 2002/2012, e – pasmem! – o melhor filme do mundo deixa de ser “Cidadão Kane” e passa a ser “Um corpo que cai” (“Vertigo”, Alfred Hitchcock, 1958).

Para o mundo da cinefilia, favorável ou desfavoravelmente, essa mudança no cânone vai, com certeza, repercutir e muita discussão vai surgir, em papos de amigos, ou mesmo em artigos, crônicas e ensaios. Mais relevante que o Oscar, a eleição do BFI + Sight & Sound é uma espécie de Nobel do cinema, que confere consagração artística a realizações cinematográficas, sem quaisquer concessões mercadológicas ou de outra ordem. Este ano, foram 846 votantes que escolheram entre 2.045 filmes, propondo, em ordem pertinente de importância, os dez que melhor corresponderiam a um conceito de perfeição artística.

Claro que constar da lista dos dez da Sight & Sound em qualquer posição já significa consagração, mas, como a humanidade adora competição, o primeiro lugar é sempre o mais visado.

Antes de prosseguirmos no comentário da subida do filme de Hitchcock para o topo da lista, vejamos a lista toda deste decênio, que, divulgada na Sight & Sound, reproduzo abaixo, indicando, após o nome do diretor e o ano de produção, a nacionalidade:

1 – Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958, EUA)

2 – Cidadão Kane (Orson Welles, 1941, EUA)

3 – Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953, Japão)

4 – A regra do jogo (Jean Renoir, 1939, França)

5 – Aurora (F. W. Murnau, 1927, Alemanha/EUA)

6 – 2001: uma odisséia no espaço (Stanley Kubrick, 1968, EUA)

7 – Rastros de ódio (John Ford, 1956, EUA)

8 – Um homem com uma câmera (Dziga Vertov, 1929, URSS)

9 – A paixão de Joana D´Arc (Carl Dreyer, 1927, Dinamarca)

10 – Oito e meio (Federico Fellini, 1963, Itália)

A primeira eleição do BFI + Sight & Sound foi efetuada em 1952, e a deste ano é, portanto, a sétima, já que o périplo entre eleições é um decênio. Interessante seria cotejar o total das sete listas, porém, como não dispomos de espaço, vou me limitar, primeiramente, a comentar o desempenho eleitoral de “Um corpo que cai” que, vale dizer, não é a primeira vez que comparece ao cânone. Na verdade, apareceu pela primeira vez em 1982 como o sétimo colocado, e não parou mais de ser indicado, nem de subir: subiu ao quarto lugar em 1992, e subiu um pouco mais, para a segunda posição, em 2002; sua chegada ao topo da lista parece ter, digamos assim, uma certa lógica interna.

E há mais: o fato mesmo de “Um corpo que cai” não ter estado entre os eleitos antes de 1982 é explicável, já que, desde o início dos anos sessenta, o filme (num pacote de mais quatro) ficou, por questões de ordem jurídica, embargado, até a data da morte de Hitchcock, em 1980, quando só então pôde ser reprisado para o grande público. Naturalmente, sem ser visto, ou revisto, dificilmente seria votado.

Sobre outros filmes na lista, vai um breve comentário.

“Cidadão Kane” não esteve na primeira eleição (o primeiro lugar de 1952 foi “Ladrões de bicicleta”), provavelmente porque os entraves da Segunda Guerra retardaram sua exibição na Europa e no resto do mundo, porém, desde 1962, como já dito, tomou conta do topo da lista, como se nunca mais fosse dele sair (no total, cinco vezes). Um caso curioso é, com certeza, o do filme do francês Jean Renoir, “A regra do jogo”, o único a ter estado em todas as sete eleições da Sight & Sound, e isto em situação invejável: começou em décimo lugar em 1952, depois do que conquistou um quase invariável segundo lugar, bem coladinho a “Cidadão Kane”, de modo que, se fosse para julgar pela freqüência de segunda posição, o indicado atual seria ele, e não “Um corpo que cai”. Mas, de longe, o caso mais intrigante é o do documentário do russo Vertov, “Um homem com uma câmera” (1929) que, pela data de produção, poderia ter estado em qualquer das eleições anteriores, e nunca esteve, ou melhor, nunca tinha estado: é, assim, o grande novato, ocupando, como se vê, o oitavo lugar da lista atual.

Nesta lista talvez seja interessante observar a variedade das nacionalidades (sete em dez filmes) e, mais que isso, a inclinação para o passado: vejam que o filme mais recente é de 1968 e três deles são da década de vinte, quando o cinema ainda era mudo.

Mas, enfim, será que “Um corpo que cai” merece o lugar que ocupa? Bem, o mínimo a dizer é que “Um corpo que cai” e “Cidadão Kane” são dois grandes filmes e não faz sentido contrapô-los, mas, há, além da qualidade estética, uma coisa que têm em comum – a extensão da bibliografia crítica. Com efeito, junto com “Cidadão Kane”, “Um corpo que cai” é um dos filmes mais estudados em escolas de cinema e adjacências, e sobre o qual mais se escreveu.

À guisa de homenagem, aqui repasso alguns pontos críticos e interpretativos que, a essa altura, já não sei se são meus ou alheios.

Sobre a produção do filme, digamos primeiramente que tudo começou na França, em 1952, quando o escritor Pierre Boileau publicou o seu romance “Celle que n´était plus” (´A que não era mais´) e, no ano seguinte, ouviu dizer que Hitchcock teria lido e demonstrado interesse em filmar. Quem, dois anos depois, filmou foi o cineasta também francês H. G. Clouzot (Cf. “Les diaboliques”/“As diabólicas”, 1955), mas, o fato é que Boileau, um fã de Hitchcock, não perdeu as esperanças de ter uma obra sua vertida para a tela pelas mãos do mestre do suspense.

Para tanto, passou a redigir, junto com seu parceiro de escrita Thomas Narcejac, uma estória que pudesse se dizer a mais hitchcockiana possível. E inventou esse detetive que tem medo de alturas e por isso se torna presa fácil para um ardiloso plano de assassinato conjugal. A estória toda, chamada “D´entre les morts” (´dentre os mortos´), se passava em Paris, com um desenlace trágico: descobrindo a trama toda no final, o detetive estrangulava a mulher que o envolvera no caso e por quem se apaixonara.

E Boileau conseguiu o que queria: o livro chegou a Hitchcock que, comprado os direitos de filmagem, o “desenhou” (em termos modernos, lhe fez a ´storyboard´); segundo consta, o roteirista contratado para o processo de adaptação, Samuel Taylor, ao invés de ler o romance, bolou o roteiro em cima da storyboard de Hitchcock. De qualquer forma, na adaptação, muda-se o cenário, de Paris para São Francisco, e muda-se o desenlace, com a heroína – mais simetricamente – sofrendo a mesma morte da sua vítima: a queda da torre.

O filme foi mal recebido pela crítica americana da época e Hitchcock não hesitou em pôr a culpa no elenco. Para começo de conversa, ele nunca quis Kim Novak para o papel da protagonista. Sua musa da época era Vera Miles, que, engravidando no início do projeto, não pôde participar. Novak foi a opção da Paramount e contam que, durante a filmagem toda, o cineasta não lhe dirigiu a palavra uma só vez. James Stewart foi o outro culpado, pois, na opinião do cineasta, estava, aos cinqüenta anos, muito velho para um papel romântico desse porte (Novak tinha vinte e quatro).

De “Um corpo que cai” está fora um dos elementos mais recorrentes no estilo Hitchcock, que é o humor, fator sempre atenuante das tensões ou do pessimismo. É também o único filme do cineasta em que o criminoso não é punido e a estória se finda sem soluções morais. Inspirada no “Tristão e Isolda” de Wagner, a trilha sonora de Bernard Herrman lhe completa o clima sombrio, igualmente enfatizado pelo uso da luz, que varia de intensidade em momentos chaves, um dos quais é aquele em que Judy Barton, depois de longa insistência do amante, se veste completamente de Madeleine e, envolta em luminosidade difusa, se aproxima de Scott em câmera quase lenta.

A crítica mais competente tem destacado pelo menos três aspectos na estruturação de “Um corpo que cai” – a duplicação de situações ou personagens, cuja matriz reside na figura dupla de Madeleine/Judy Barton; o motivo gráfico recorrente da espiral, que, mais obviamente, está na abertura e no pesadelo de Scott, como também no formato da escada que conduz ao crime; e a freqüência de espelhos ou imagens refletidas, por exemplo, aquelas que confundem as figuras femininas: Carlota, Madeleine, Judy e a amiga de Scott, Midge. Tudo isso, evidentemente, homologando o tema da vertigem (titulo original: ´vertigo´) que, muito mais que um mero fator patológico, desencadeador da trama, adquire, no conjunto, uma dimensão metafísica.

Uma questão que se levanta com grande pertinência sobre “Um corpo que cai” é a sua qualidade onírica, de fato, um dos seus fascínios sobre a espectação.

Deve ser essa qualidade onírica que faz com que nós não nos incomodemos com as inverossimilhanças do enredo.

A primeira e mais óbvia é que um crime seja planejado e executado com sucesso nas circunstâncias em que foi – um homem lança, da torre de um convento, o corpo desfalecido da esposa e depois de todo o burburinho lá embaixo, desce acompanhado de uma parceira que se vestira tal e qual a esposa, para ludibriar um detetive que, sofrendo de acrofobia, não pudera subir até o topo da torre.

Ora, o senso comum nos diz que aquele lugar – o topo da torre de onde “se jogara” a suposta suicida – seria o primeiro a que acorreriam curiosos (para não dizer, a polícia)… e no entanto, nunca ouvi ninguém reclamando dessa falta de verossimilhança, e fico pensando o quanto é impressionante como o filme de Hitchcock ludibria o espectador e passa por cima de uma improbabilidade perigosa num gênero como o thriller. Sim, não há dúvidas: a lógica é a dos sonhos, que – se sabe – não precisam de lógica.

Outro caso é o do inexplicável desaparecimento momentâneo de Madeleine no quarto do hotel McKittrick. Naquela tarde, Scott, que a perseguia havia dias, a vê na janela do hotel, entra, sobe até o quarto dela, no terceiro andar… e lá, completamente estarrecido, não encontra ninguém, nem encontrara ao subir as escadas. Evaporação? Certo que, por enquanto, Hitchcock queria nos fazer crer (e a Scott também) que estávamos diante do sobrenatural, porém, quando o filme termina sabemos que não vimos um horror movie, e sim, um policial e a questão fica sem explicação. De novo, sonho!

De minha parte, tudo em “Um corpo que cai” me fascina, mas um aspecto que aqui quero destacar é o modo pelo qual a narração se processa, fornecendo e/ou sonegando informação diegética no momento certo, e disso retirando um grande efeito. Para tanto, vou mencionar três momentos especiais no enredo que, para fins de análise, chamo respectivamente de “A sós com Madeleine”, “A sós com Judy Barton” e “O colar no espelho”.

Como não tenho certeza se o leitor guarda na memória o filme como o guardo, reconstituo parte da estória.

O detetive aposentado John Ferguson, mais conhecido por Scott (James Stewart), é procurado por um antigo companheiro de faculdade, Gavin Elster (Tom Helmore), para seguir a sua esposa, Madeleine (Kim Novak), que, segundo consta, vem manifestando sintomas de loucura, com inclinação ao suicídio. Aparentemente Madeleine está sendo perseguida pelo espírito de uma ascendente sua, Carlotta, que se suicidara na mesma idade que ela tem agora.

Sofrendo de acrofobia, Scott reluta, mas termina aceitando o trabalho que, de início, consiste em seguir a mulher pelas ruas de São Francisco. Ocorre que, como temido, Madeleine tenta suicídio, jogando-se nas águas frias da Baía, sendo salva por Scott que a leva para casa, e, a partir daí, inicia-se e desenvolve-se entre os dois uma relação de amizade/amor… Até a próxima tentativa de suicídio da mulher, desta vez bem sucedida, quando ela se joga da torre do Convento São João Batista, sem que Scott tenha podido evitar: sua acrofobia não lhe permitiu escalar todos os batentes da enorme escada em espiral.

Scott entra em depressão e o tempo passa. Um belo dia, recuperado do trauma, mas nem tanto, ele encontra essa moça pobre e meio brega, que mora num apartamento modesto, muito parecida com Madeleine, que diz se chamar Judy Barton (a mesma Kim Novak).

Bem, creio que esta reconstituição parcial já foi suficiente para refrescar a memória do leitor, e com isso, passo a meu comentário do foco narrativo, naqueles três momentos que denominei acima.

Comecemos com “A sós com Madeleine”.

Scott salvara a esposa do amigo e a trouxera para casa; trocara-lhe as vestimentas e, no momento, ela repousa na cama, no quarto de Scott, que lhe explica o que houve. O telefone toca, Scott atende e, depois disso, sai, fechando a porta do quarto atrás de si. Neste momento, estamos ´a sós com Madeleine´ que – só saberemos bem mais tarde – não passa de Judy Barton, desempenhando o papel da suicida. O momento dura apenas segundos, e não muitos. Por que? Porque se durasse mais, desvendaríamos a trama no começo do filme. Judy fingia para Scott, mas, por que, a sós entre quatro paredes de um quarto fechado, continuaria fingindo? Resposta: porque, se Scott não a vê, nós a vemos, daí a pressa da narração em tornar o momento veriginosamente breve.

Segundo momento “A sós com Judy Barton”.

Scott acabara de avistar, nas calçadas de São Francisco, essa moça incrivelmente parecida com a falecida Madeleine e a segue até o seu modesto apartamento. Os dois conversam e, com alguma dificuldade, Scott a convence a jantarem juntos. Quando Scott vai embora, estamos ´a sós com Judy Barton´ e, para a nossa surpresa, este momento, ao contrário do anterior, não é breve. Rosto em close, Judy nos olha de frente e aí sua memória nos faz testemunhar, em linguagem visual, tudo o que realmente acontecera na Torre do Convento de São João Batista.

Agora o crime de Elster e a participação de Judy nos são conhecidos, mas, atenção, a informação nos foi generosamente fornecida, porém, não a Scott, que, depois de haver duramente transformado Judy em uma cópia fiel de Madeleine, continua ignorando a verdade. E é aqui que entra o terceiro momento, “O colar no espelho”.

Apaixonado e feliz, o casal se apronta para sair – mais um jantar no restaurante Ernie´s, onde Scott uma noite viu Madeleine, pela primeira vez – quando Judy pede a Scott que lhe ajude na tarefa de colocar o colar no pescoço. Ele se levanta, vai até a moça, que se olha no espelho, e por trás dela, tenta abotoar o belo colar. Abotoada a jóia, ele dirige o olhar para o espelho e, só neste momento, divisa pelo espelho, no colo alvo de Judy, a jóia em sua completude, o mesmo colar que um dia pertencera à falecida Madeleine. É neste instante, e nunca antes, que a informação, a nós fornecida pela memória visual de Judy, chega a Scott. E é só nesse instante que Scott descobre que sua acrofobia fora usada para a consumação de um mais que ardiloso plano de assassinato. Como ele, descartando o jantar no Ernie´s e de volta à torre fatídica, dirá mais tarde a Judy: ´algo que nunca se deve guardar é o souvenir do crime´.

Esses três momentos são chave (vários sentidos da palavra) dentro do filme e são eles que o tornam uma estrutura vertiginosamente tripartite, separando eles três seções bem distintas da narrativa, que, para fins didáticos, poderíamos chamar assim: (1) perseguindo Madeleine, (2) transformando Judy em Madeleine, e (3) desvendando o mistério. Como estamos cansados de saber, um sonho também é narrativo.

Teria um pouco mais a dizer, mas, fico por aqui, acreditando que este comentário eventualmente poderá ser útil aos que – por causa da Sight & Sound ou não – vão querer revisitar a obra prima de Hitchcock.

Em tempo: o título desta matéria é obviamente uma brincadeira com o título original de “Um corpo que cai”: “Vertigo”.