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Sochi, Rússia.

7 nov

Em fevereiro de 2014, eu estava convalescente de um problema de saúde, e, com locomoção reduzida, não havia muito a fazer. O que fiz muito foi ver televisão. Por coincidência, estavam começando os jogos Olímpicos na Rússia, em Sochi, e eu, que nem ligado a esportes sou, me entreguei a acompanhar o espetáculo todo, belo espetáculo que celebrava a paz e a convivência entre os povos. Quanta saúde, quanta beleza, quanta democracia!

Democracia? Bem, agora, três anos depois, me chega este documentário “To Russia with love” (Noam Gonik, 2014), contando os bastidores de um evento esportivo que já foi problemático e tenso… bem antes de se acender a tocha inaugural.

Acontece que, em um tempo estratégico entre a escolha da Rússia pela COI e o início dos jogos, as autoridades russas decidiram, sem mais nem menos e meio às escondidas, passar uma lei que proibia aos participantes do Evento, estrangeiros ou nativos, a “propaganda de relações sexuais não-tradicionais”.

Ora, estrangeiros ou não, os atletas diretamente atingidos (os gays ou LGBT) se viram em um impasse perigoso: denunciar a lei discriminatória ou calar? Alguns dos atletas suíços, canadenses, australianos eram gays já assumidos em seus países de origem, e a situação começou a ficar estranha para eles; estranhamento menor para os russos, acostumados a silêncios obrigatórios.

Nos dias que precederam os Jogos, chegou a haver indagações se a escolha da Russia para sediar as Olimpíadas teria sido sensata, mas o fato é que, a essa altura dos acontecimentos, a escolha estava consumada, e não havia nada mais a fazer, salvo participar… ou não. Todos participaram e – para o bem ou para o mal – não houve manifestação pública de protesto. Houve, porém, muitas, individuais e sentidas, que o filme, rodado in loco, captou e editou, dando ao conjunto uma forma orgânica e pulsante.

O governo Obama ainda teve o cuidado de enviar, como representante, a Secretaria de Esportes, Billie Jean King, um mito do tênis, hoje idosa, mas sempre uma defensora das liberdades homoafetivas, ela mesma, desde sempre lésbica assumida. Medalhas de outro como Mark Tewksbury (nado), Jason Collins (Tenis) e Greg Loganis (mergulho), todos gays assumidos de longa data, participaram das filmagens de “To Russia with love”, porém, em nível mais privado que público.

Billie Jean King, ícone do tênis, enviada a Sochi como secretária de esportes.

Bem, e aí o filme vai se centrando em casos pessoais, que são muitos. Uma atleta canadense iria estar junto de sua companheira suíça, também atleta premiada… O dançarino do gelo, o russo Johnny Weir iria aparecer com suas roupas extravagantes… Iria haver problemas? Tudo indicava que não, contanto que não se fizesse referência à homossexualidade.

Uma das declarações das autoridades russas à imprensa foi que – ao cidadão de maior no país é permitido fazer suas escolhas sexuais à vontade, e concluía com uma grande conjunção adversativa: “mas, por favor, deixem nossas crianças em paz”. Visivelmente, homossexualidade, para eles, se confunde com pedofilia – e usam o argumento com ênfase.

De tal forma que um caso difícil é o do jovem russo que por ventura se descobre homossexual antes dos 18 anos de idade. Caso desse Vladislav Slavsky, 17 anos e aluno do Escola Secundária,  que, não sendo propriamente atleta, entra no filme pelo seu ímpeto ativista. Massacrado na escola pelos colegas, e mesmo pelos professores, Vlad aproveita a ocorrência das Olimpíadas na sua cidade, Sochi, para protestar. A americana Billie Jean King toma conhecimento do seu caso, e Vlad, termina ganhando passaporte para os Estados Unidos, onde irá estudar na Universidade da Califórnia.

O dançarino do gelo, Johnny Weir.

Já o Presidente russo da Liga LGBT de Esportes come o pão que o movimento Nazi amassou, mas, nem por isso, desmorona… nem pensa em deixar o seu país, por nada na vida. Talvez com mais amargura, o skater Weir passa uma visão menos encantada da Rússia. Diz ele: é como se fosse sua avó; você a ama, mas sabe muito bem que ela é alienada e vive do passado.

Um dos casos mais tocantes no filme é, com certeza, o daquele pai americano que viaja a Sochi só para dar apoio aos atletas LGBT: perdera o filho gay, vítima de violência homofóbica.

O filme termina melancolicamente, com os atletas estrangeiros, em seus respectivos países de origem, falando das Olimpíadas em Sochi como algo já passado. Mas a gente sabe, não tão passado. A atleta canadense de esqui rápido, por exemplo, se indaga se, ao abraçar sua companheira suíça, diante das câmeras de televisão russa, não devia tê-la beijado na boca. O fato é que não o fez.

Enfim, belo filme: suave e delicada lição de cidadania e também de cinema.

Olimpíadas em Sochi, 2014,

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