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Da série velhos faroestes: “Choque de ódios”

5 dez

A essa altura, todo mundo sabe como o Oeste americano foi conquistado. Com violência, injustiça e crimes. No meio desse pandemônio, houve, contudo, justiceiros que se destacaram pela honradez e pela coragem. Um deles foi Wyatt Earp (1848-1929), cujos feitos heróicos transformaram-se em lenda, na boca do povo, nos livros, nos gibis, e no cinema.

O mais conhecido desses feitos ocorreu ao tempo em que Earp era delegado em Tombstone, Arizona. Foi o duelo no Curral OK, onde, junto com os irmãos e Doc Holliday – outro mito vivo do Oeste – venceu a famigerada gangue dos Clanton, e trouxe a paz ao lugar. De tão evocado, esse feito apareceria, mais tarde, numa série de filmes hollywoodianos, dos quais o primeiro foi o belo “Paixão dos fortes”, de John Ford (1946).

wichita 2

Mas, bem antes de Tombstone, houve Wichita, no Kansas, e é disso que trata o bom western de Jacques Tourneur “Choque de ódios” (“Wichita”, 1955), que acabo de ver.

Nesse tempo de mocidade Wyatt Earp havia deixado a profissão de caçador de búfalos e, com um bom dinheiro no bolso, cavalgava Oeste afora, com o propósito de entrar de sócio em algum promissor empreendimento comercial. Assim chegou a Wichita, mas, as circunstâncias mudaram o seu propósito. Cidade pecuária, progressista, mas extremamente violenta, Wichita fervilhava de saloons onde vaqueiros, bêbados e armados, faziam badernas que terminavam nas ruas, com gente ferida ou morta.

Instado, logo que chegou, a pôr a insígnia de delegado no peito, Earp recusou peremptoriamente. Recusou até ver um garoto de dez anos morto por uma bala advinda dos tiroteios. Nesse momento dramático, assumiu a missão de pôr ordem no lugar, custasse o que custasse. Sua primeira medida de delegado foi o desarmamento obrigatório, o que causou um rebuliço, não apenas entre vaqueiros, mas também junto a cidadãos de bem que, comercialmente, dependiam da atividade pecuária, e portanto, dos vaqueiros.

Vera Miles e Joel McCrea em cena

Vera Miles e Joel McCrea em cena

Baseado em fatos históricos, o roteiro do filme vai por aí, mas não quero contar mais. Só dizer que, depois de muita bala trocada, a ordem é imposta e o filme termina com Earp, casado com garota local, indo embora para outra cidade do Kansas, Dodge City, onde, mais tarde, os anais da História registrariam mais um dos seus grandes feitos, também antes de Tombstone.

Outro fato histórico que o filme recria é o encontro de Earp com o então jovem e ainda inexperiente Bat Masterson, como se sabe, mais um mito da vida no Oeste. Aqui Masterson é, por enquanto, um mero jornalista que, corajosamente, cobre as desavenças do lugar e, eventualmente, ajuda Earp na sua missão ordeira.

O filme tematiza bem a hesitação entre barbárie e civilização, típica daquela fase da vida americana que vai do pós-guerra civil (1865) até a consolidação da indústria (cerca de 1890), período histórico de tantos outros faroestes.

“Choque de ódios” não é nenhum grande western, mas, de todo jeito, é bom ver como Hollywood clássica sabia, quando queria, fazer um filme menor com competência e mesmo com bom gosto. Afinal de contas, era preciso atrair um público pagante que apreciasse uma estória bem contada, ainda que esse público porventura nem soubesse quem tinha sido a figura verídica de Wyatt Earp. Por isso mesmo a direção foi dada ao competente e seguro Jacques Tourneur.

Violência e desordem em Wichita

Violência e desordem em Wichita

O ator que faz Wyatt Earp é o famoso Joel McCrea, bem conhecido dos fãs do gênero, e a namorada e depois esposa é a ótima Vera Miles. Já o vilão mor, Gyp Clemens, que enfrenta Earp no duelo final, é Lloyd Bridges, sim, aquele que os espectadores tinham visto, três anos antes, como o adverso subdelegado de Gary Cooper em “Matar ou morrer”. Ainda jovem e desconhecido, quem faz uma ponta é o futuro cineasta Sam Peckimpah, que aparece naquela cena inicial do assalto ao banco, no papel do caixa que efetua o depósito de Earp. Seis anos mais tarde – vocês lembram – Peckimpah daria início ao soerguimento do gênero, com o seu “Pistoleiros do entardecer” (1961)…

“Choque de ódios” foi o primeiro cinemascope da pequena Allied Artists, um recurso técnico que, como se viu, caiu como uma luva no gênero western. E neste caso não é só nas paisagens a céu aberto que dele se tira proveito estético, mas também em cenas na cidade de rua larga, onde sempre se mostra uma verdadeira multidão de vaqueiros e cavalos, cortando a tela de um lado a outro. Ao tempo da estréia do filme – imagino -, um belo espetáculo para a criançada, ou, se for o caso, para os adultos que não haviam deixado de ser.

 

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A lenda impressa

8 dez

Em seu número de abril deste ano, a revista “Super Interessante” veiculou matéria que interessa de perto aos espectadores de cinema, especialmente aos que têm idade para haver consumido o gênero do Western, ou, em termos domésticos, o Faroeste.

Com o título de “O verdadeiro Velho Oeste”, a matéria contrapõe o mito criado pelo cinema ao verídico e bem diferente modo de vida no Oeste americano do século XIX. Baseados em livros de historiadores que estudaram a fundo o assunto, os autores da matéria, Andreas Müller e Ricardo Lacerda, fazem ver que praticamente todos os grandes esquemas ficcionais que sustentaram a semiótica do filme faroeste carecem de correspondentes na realidade.

O duelo na rua central do povoado - criação cinematográfica?

O duelo na rua central do povoado – criação cinematográfica?

Para dar o exemplo mais ostensivo, os famosos duelos na rua principal da cidade, onde, sob olhares ansiosos, vencia o pistoleiro que fosse mais rápido no gatilho, nunca aconteceram. Duelos eram raríssimos e quando aconteciam era em algum local ermo e distante, de madrugada, e devidamente supervisionado por padrinhos de ambas as partes. E pior: as armas eram precárias e os seus usuários eram geralmente ruins de pontaria; tão ruins que uma figura emblemática da época, o Bat Masterson real, aconselhava a quem quisesse acertar um eventual inimigo, que mirasse na virilha para ver se acertava no coração.

A verdade é que no Velho Oeste havia muito menos violência do que a dos filmes, ou, a esse propósito, a do Oeste americano de hoje em dia. Ao contrário do que está na expressão consagrada pelos próprios americanos, “wild West” (`oeste selvagem´), havia lá muito mais lei, ordem e civilidade do que se pensa, e as estatísticas demonstram que os crimes eram em número surpreendentemente menor do que o suposto. Naquele período histórico recoberto pelo grosso do gênero faroeste – mais ou menos de 1860 a 1890 – as cidades mais cinematograficamente afamadas pela desordem (Tombstone, Abelene, Dodge City) revelam médias criminais irrisórias. Em alguns casos, cerca de três a quatro assassinatos por ano.

Os saloons seriam mais pacíficos e ordeiros do que se pensa

Os saloons seriam mais pacíficos e ordeiros do que se pensa

Os assaltos a banco eram infinitamente mais raros do que os mostrados nos filmes, pois a segurança dos prédios e a presença da vigilância eram fortes. Os saloons tinham muito mais ordem e decência e as mulheres da vida fácil do lugar eram muito mais compostas e recatadas. Como a lei da segregação indígena já fora passada havia tempo, os índios do período enfocado pelos filmes já haviam sido devidamente domados e habitavam as suas reservas de modo mais ou menos pacífico.

Mas, se o “Oeste selvagem” era muito menos selvagem do que imaginamos, como se explica a brutalidade sem fim que fez o melhor do gênero western no cinema? Muito oportunamente, os autores da matéria lembram que a criação do mito já começou um pouco antes da existência do cinema. Nos primeiros anos da década de 1890 (e o cinema só foi inventado em 1895), figuras históricas, como Buffalo Bill e outros, criaram espetáculos circenses que percorriam o país inteiro, narrando as aventuras dos desbravadores do Oeste, sempre apresentados como grandes heróis, vencendo os obstáculos da conquista, entre os quais índios e bandidos.

O tiro no espectador de "O grande assalto de trem" (1903) foi o primeiro sintoma de violência

O tiro no espectador de “O grande assalto de trem” (1903) foi o primeiro sintoma de violência

Dos circos para o cinema foi um pulo. O filme que, segundo historiadores, inaugura o gênero do faroeste, “O grande assalto de trem” (“The great train robbery”, Edwin S. Porter, 1903) já diz tudo, até no título.

Ansiosos por aventura, os espectadores do cinema mudo não queriam, na tela, aulas de história, e sim, muita ação e muita briga, e se o Bem devia vencer no final, não teria muita graça se a vitória fosse fácil, daí a grande ênfase nos obstáculos e nas figuras do Mal, índios, bandidos, assaltantes, ladrões e quejandos.

O mito foi assim crescendo e quando o som chegou ao cinema, em 1927, o gênero western já estava mais ou menos configurado, com todos os seus traços essenciais: cenário, personagens, símbolos, conflitos e situações dramáticas basilares. Os grandes diretores de Hollywood, como John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh, Anthony Mann, Delmer Daves, John Sturges, investiram no mito e… o resto da estória vocês conhecem.

O cavaleiro solitário foi um dos mitos mais fortes do Western

O cavaleiro solitário foi um dos mitos mais fortes do Western

A matéria da “Super Interessante” é oportuna e instrutiva para os seus leitores – supostamente jovens curiosos – com, no entanto, um perigo. É que esses jovens leitores venham a deduzir que a fuga à verdade histórica nos grandes filmes faroeste comprometa a qualidade artística.

Quem dá uma resposta a isso é, por ironia, um filme faroeste: “O homem que matou o facínora” (1962) de John Ford. Não tenho espaço para reconstituir o seu empolgante enredo, mas fecho este meu comentário com a frase – hoje uma das mais famosas na história do cinema – que fecha o filme: “Quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda.”

E o que é o Western, se não a lenda impressa?

Monument Valley, a paisagem típica do Westerm, escolha do mestre John Ford.

Monument Valley, a paisagem típica do Westerm, escolha do mestre John Ford.