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AMORES DE CHUMBO

1 out

Em cartaz no Cine Banguê, “Amores de chumbo” (2017), da pernambucana Tuca Siqueira, é mais um dos filmes recentes sobre os fantasmas da ditadura brasileira.

Sem flashbacks gráficos, conta a história de um casal maduro que, hoje comemorando quarenta anos de casamento, é atropelado pela presença de uma figura que ressurge do passado, quando os três eram jovens e lutavam contra a ditadura.

Professor de sociologia na Universidade, Miguel é casado com Lúcia, e tem um filho e uma neta pequena. A recém aparecida Maria Eugênia havia sido seu grande amor do passado, mas o caso fora interrompido por cartas que a ele nunca chegaram.

As cartas – fica-se sabendo agora – foram desviadas pela sua atual esposa, e o conhecimento desse dado leva o casal a uma crise, como leva também ao ressurgimento dos sentimentos entre Miguel e Maria Eugênia.

Que rumo dar a essa história de amor e desencontro? Bem, o espectador terá que aguardar o desenlace e, aliás, com paciência, pois cada uma das cenas do filme é demorada e com pouco movimento interno. Tanto é assim que não há propriamente sequências (conjuntos de cenas com um eixo comum). A não ser que se diga que o filme inteiro é uma longa sequência.

Além disso, as encenações são teatrais, mas atenção, teatrais de propósito, o que já está indicado na inclusão da “peça de teatro” apresentada no auditório da universidade. Essa teatralidade é ubíqua, mas um bom exemplo dela está na cena que ocorre dentro da cela do ex-presídio, com Miguel e Maria Eugênia falando devagar e compassado, enquanto alisam as pareces imundas que tantas torturas escondem.

Em consequência, o ritmo é lento, outro fator que pode deixar o espectador impaciente, sobretudo se habituado à celeridade do cinema mainstream. Cena com algum movimento, só a do centro de Recife, quando Maria Eugênia, de volta depois de tanto tempo, passeia pelas ruas da cidade, sem deixar de passar na frente do Cinema São Luiz – mas isto é exceção.

Disse acima que não há flashbacks que recriem o passado do casal quando jovem, mas, de qualquer forma, essa lacuna (economia de produção?) é bem compensada pelas imagens das fotografias “antigas” e demais papéis de arquivo, isto para não nos referirmos às desviadas e decisivas velhas cartas de amor, finalmente queimadas numa cena privada que, por contraste bem concebido, remonta, simetricamente, à festiva abertura da história. Por sinal, simetria é um termo que vem ao caso em vários aspectos: lembrem como, em locais e momentos diferentes, as duas mulheres (primeiro a esposa, depois a amante) ensaiam suas respectivas seduções para Miguel – com coreografias muito semelhantes.

Um cacoete de estilo que funciona bem está em encerrar uma cena com uma pergunta não respondida. Por exemplo: na cena da cela do ex-presídio, Miguel pergunta a Maria Eugênia se há alguém em sua vida, e, sem resposta, vem o corte brusco para uma cena completamente diferente. Mais tarde veremos nós (mas Miguel, não) a resposta na tela do laptop de Maria Eugênia…

O diálogo tem lá seu capricho. Em classe, o professor de sociologia Miguel dá aula sobre a relatividade do conceito de “verdade” – uma palavra que, com esta mesma ambiguidade de sentido, vai aparecer nas falas dos personagens em vários momentos e em situações diferentes. Só pra lembrar: o filho do casal, Ernesto, ciente do lance da sonegação das cartas, consola a mãe assim: “eu sei que você tem a sua verdade”.

Aliás, esse filho, apesar do nome Ernesto (dado pelo pai, um fã de Che Guevara), é um bom representante diegético da juventude atual, bem menos ideologizada que os jovens de antigamente. Sim, de alguma forma melancólica, “Amores de chumbo” é um filme sobre a terceira idade dos revolucionários.

Vendo-o, senti ecos de outros cineastas, como o iraniano Kiarostami, o brasileiro Leon Hirzsman, o italiano Antonioni. Talvez seja delírio de minha cinefilia, mas, extremamente melodramática, aquela cena da acareação entre a ex-amante Maria Eugênia e a esposa Lúcia me parece dever um pouco aos filmes de amor do dinamarquês/americano Douglas Sirk.

Pode não ser um grande filme, mas, com certeza, este é um filme que cumpre bem o objetivo a que se propôs. Nem mais nem menos. Como diz sua dedicatória: “para todos os amores gerados em tempos estéreis”.

SANTIAGO, ITÁLIA

25 set

Lembram de “Desaparecido – um grande mistério” (“Missing”, Costa-Gavras, 1982)? Pois é, trinta e seis anos depois, a sua temática retorna às telas, agora em formato de documentário.

A temática é o golpe militar de 11 de setembro de 1973, que, sob os auspícios dos Estados Unidos, tirou o socialista Salvador Allende do poder no Chile e pôs no lugar a sangrenta ditadura de Pinochet.

O documentário é “Santiago, Itália” (2018) do italiano Nanni Moretti, em exibição no nosso tão especial e querido Cine Banguê.

Mas, claro, os enfoques nos dois filmes são diferentes.

Na ficção (baseada em fatos reais) de Costa-Gavras um respeitável cidadão americano vai ao Chile visitar o filho, jornalista, e descobre que o rapaz se encontra desaparecido. Junto com a nora, apelam para a Embaixada americana, e, depois de muitas buscas inúteis, constatam o pior: que o rapaz fora uma das vítimas fatais do novo regime.

Já o documentário de Moretti é mais sistemático e mais direto, como, aliás, é próprio do gênero. Seu grande lance são os depoimentos de pessoas, hoje idosas, que foram vítimas do regime militar, ameaçadas, perseguidas, presas e/ou torturadas, e que, entre muitos percalços, sobreviveram.

De início, não entendemos por que essas pessoas falam italiano, e não espanhol. Um pouco adiante, na segunda parte do filme, vem o esclarecimento: elas estiveram no rol dos mais de duzentos “sortudos” que, na ocasião do golpe, receberam abrigo na Embaixada italiana, e, de lá, foram expatriados para a Itália, neste país se estabelecendo em nova forma de vida, hoje plenos cidadãos italianos. E aí o espectador retrocede e entende o título do filme: Santiago, Itália.

A narração começa, porém, bem antes disso, ainda na campanha de Allende pela eleição presidencial, com fotos e filmes de arquivo. Das falas de Allende e do apoio popular à sua proposta de governo, passa-se ao golpe, mas não sem antes apontar o quanto – no périplo de três anos – os militares, com os americanos por trás, engendraram situações econômicas e sociais que contribuíssem para o descrédito da gestão Allende. Do golpe mostram-se cenas no mínimo estarrecedoras, uma das mais plasticamente impressionantes sendo a do Palácio de La Moneda, destroçado e em chamas, bombardeado pela força aérea da ditadura.

O Palácio de La Moneda em chamas.

Para quem lembra o Moretti de “Caro diário” (1993), de “O quarto do filho” (2001), e de tantos outros filmes tristes e engraçados, desesperados e cômicos, reconhece, aqui, o seu jeito tão pessoal de fazer um cinema pessoal.

Mesmo se tratando de um documentário, um dos aspectos curiosos em “Santiago, Itália” é a sua parcialidade assumida. Entrevistando um dos militares que fizeram o golpe, em dado momento de acirramento, o próprio Moretti (que é, como sempre, um dos personagens do filme) manifesta sua posição de esquerda, afirmando taxativamente que não é imparcial. Em outras, palavras, que está fazendo um filme contra o conceito de ditadura.

Não é por acaso que sua câmera permanece ligada quando aquele senhor que se diz ateu, relatando a enorme e providencial ajuda humanitária às vítimas da ditadura, recebida de um certo cardeal da Igreja Católica, perde o controle emocional e… chora. Bem de propósito, Moretti concede tempo de tela a seu choro, e, conhecendo muito bem a resposta, lhe pergunta por que está chorando.

Enfim, um filme importante, entre outras coisas, para nos fazer lembrar os males de um regime militarista e os perigos de seu retorno. Pensando bem, sua exibição no Brasil do momento atual vem bem a calhar.

Vamos ao Banguê.

O cineasta e ator Nanni Moretti em cena do filme.

KING LEAR, 2018

9 jul

Meu primeiro contato com “Rei Lear”, a peça de William Shakespeare, foi cinematográfico: o filme homônimo de Peter Brook (1971), extraordinariamente exibido na antiga FAFI, quando eu era aluno do curso de Letras.

Na ocasião, eu ainda não tinha lido a peça e me impressionei com a terrível e violenta estória desse rei que, na velhice, divide suas posses com as três filhas a partir das declarações de afeto de cada uma, e paga caro pela imprudência. O cenário medieval bem reconstituído e a sombria fotografia em preto-e-branco dessa adaptação fílmica tornavam o drama ainda mais trágico.

Algum tempo depois, fazendo a pós-graduação em literatura anglo-americana, e já embrenhado no universo shakespeariano, escolhi tomar a peça como objeto de minha dissertação de mestrado, demonstrando que nela havia os ecos carnavalizantes que vinham da vetusta sátira menipéia da era clássica.

Anthony Hopkins no papel de REI LEAR

Ao longo da vida, nos meus estudos comparativos entre literatura e cinema, fui descobrindo as muitas – na verdade, inúmeras – adaptações fílmicas que a peça de Shakespeare recebera, e vem recebendo, nos países mais diversos. Além da de Brook, lembro aqui a russa de Grigoriy Kozintseve (1970), a japonesa, de Akira Kurosawa (“Ran”, 1983), e a francesa de Jean-Luc Godard (1987), esta a mais livre de todas.

Agora, me chega esta outra, bem britânica, de Richard Eyre (2018), feita para a televisão, com o ator oitentão Anthony Hopkins no papel-título.

Como é costume acontecer em adaptações shakespearianas, o texto não está completo e se você, como eu, tem a lembrança das palavras poéticas do autor e seu efeito sobre o nosso espírito, em certos momentos chave sente a falta.

Um outro estranhamento seria o temporal, pois aqui a trágica história do rei medieval é transportada para a época atual, com prédios, armas, automóveis, aviões e tudo mais de moderno. Com a seguinte complicação: as palavras não são modernas, muito pelo contrário, são exatamente as mesmas da peça original, o semi-arcaico e belo inglês elisabetano da época, tornado mais belo, como se sabe, pelo gênio criativo do Bardo de Stratford Upon Avon.

O rei e suas três filhas: Goneril, Regan e Cordelia.

Confesso que tive dificuldade em me localizar dentro dessa mistura de tempos, e por vezes fui vítima de um certo – digamos assim – distanciamento brechtiano que me impediu de reviver as fortes emoções a que estou habituado quando releio a peça.

Aliás, não apenas mistura de tempos, mas também de estilos, já que – convenhamos – os cenários e objetos da atualidade não acolhem bem as tantas metáforas, metonímias, hipérboles e tantos outros procedimentos linguísticos que caracterizam a escritura shakespeariana e a tornam tão poderosa, quando lida na neutralidade do papel impresso, ou ouvida na simplicidade espacial do palco.

De todo jeito, a direção de Richard Eyre (de “Notícias de um escândalo” 2008, e Iris, 2001) é competente e sabe colocar, ao meio das falas dos personagens, as imagens que as tornam um pouco mais viáveis para os dias de hoje e, consequentemente, para a fluência da narração – ora os gestos dos atores, ora certos detalhes especiais do cenário ou da paisagem, ora certos movimentos de câmera.

Lear e a filha Cordelia – o reencontro.

E claro, num filme desses, os atores são tudo, e se não fossem, o filme certamente naufragaria. Com a mesma idade do rei bretão – oitenta anos – Anthony Hopkins faz um Lear à altura, doce nos seus momentos de ternura e feroz nos seus momentos de ira. E o resto do elenco não fica atrás. As três filhas do rei estão perfeitas: as malignas Goneril (Emma Thompson) e Regan (Emily Watson) nos repugnam, assim como nos encanta a jovem, bela e madura Cordelia (Florence Pugh), que um Lear agonizante – no final de tudo – reconhecerá como aquela que verdadeiramente o respeitava e amava.

Jim Broadbent e Andrew Scott fazem um par perfeito nos respectivos papéis de Gloucester, o pai cego, e Edgar, o filho disfarçado de mendigo, os dois perdidos no meio de uma paisagem quase lunar. Um dos momentos mais “próximos” da peça, para citar um só exemplo, é aquela famosa cena à beira do abismo em que o filho faz o genitor acreditar no suicídio encenado e na miraculosa salvação…

Provavelmente, este não é um filme fácil para o grande público. Imagino que um pouco menos ainda para quem, jovem ou maduro, nunca leu a peça adaptada. E, o pior, mesmo para quem a leu – como espero haver deixado claro – a dificuldade, ainda que de outra natureza, existe.

12 anos de escravidão

17 mar

Duas décadas antes da Guerra de Secessão, em plena Washington, D.C., um homem de bem, pai de família e cidadão respeitado, é seqüestrado e, por causa da cor, vendido como escravo no Sul do país, onde vai trabalhar nas plantações de algodão, sob o jugo pesado de vários patrões.

Com extrema contundência o filme “12 anos de escravidão” (“12 years a slave”, de Steve McQueen, 2013) exibe o lado mais perverso da escravatura negra nos Estados Unidos e o faz de forma documental, já que é fielmente baseado no livro que o cidadão em questão, o negro Solomon Northup, teve a boa idéia de publicar, ainda em 1853, nele contando todo o seu calvário de escravizado, do dia do sequestro ao instante da libertação, doze anos depois.

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À parte a premiação, o filme tem dois motivos para chamar a atenção do público, especialmente do americano. Primeiramente o fato de ser baseado em um relato real, que hoje vale como documento histórico: poucos sabiam, por exemplo, que esses sequestros de negros livres foram freqüentes no Nordeste americano.

Em segundo lugar, por tocar numa ´ferida nacional´, apesar da eleição do atual presidente negro, nunca plenamente sarada – o racismo, esse mal desastroso que, desde sempre, dividiu o país em dois, o Norte progressista e liberal, e o Sul atrasado e conservador, onde a guerra civil e a abolição, foram só detalhes, porque a derrota dos confederados – sabe-se muito bem – só fez acirrar o preconceito de cor. Não esqueçamos que há apenas cinquenta anos, em 1963, estudantes negros ainda eram barrados em portas de universidades sulistas pelos governadores de estado, e isto com apoio da população branca local (conferir o documentário “Crise”, de Robert Drew, 1963).

Mas, voltemos ao filme. Na difícil tarefa de resumir doze anos em duas horas, percebe-se que o diretor McQueen apelou para uma roteirização onde ficassem claros, para o espectador, os turning points que dão andamento à narrativa, mas sobretudo uma roteirização onde se sobressaíssem os momentos mais dramáticos da trajetória de Solomon (Chiwetel Ojiofor).

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Só para ilustrar, dois desses momentos são: (1) o instante em que, mal chegado ao seu primeiro patrão, e em conversa com outros escravos, Solomon se dá conta de que não perdeu apenas a liberdade, mas com ela, a sua identidade, perda sintomática na assunção obrigatória do novo nome, Platt; (2) a ocasião em que, traído por um empregado branco da fazenda, precisou tocar fogo na carta que, a duras penas, escrevera a Washington, sua única chance de reaver à liberdade perdida.

Um fator forte na vida dramática do filme está na amizade entre Solomon e a escrava Patsy (Lupita Nyong´o), cuja imposta posição de amante do patrão e, consequentemente, rival da dona da fazenda, a torna um alvo especial da violência racista: um ponto crítico dessa doída amizade acontece no dia em que Solomon é obrigado a chicotear a moça, esta amarrada a um tronco de árvore, o chicoteamento assistido pelos donos da casa.

As interpretações estão excelentes, especialmente as de Chiwetel Ojiofor, Lupita Nyong´o (premiada com o Oscar) e Michael Fassbender, este no papel do desequilibrado e sádico proprietário de escravos Edwin Epps. A narrativa flui sem muitos problemas e – como não? – prende o espectador do começo ao fim.

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

E, no entanto, é só isso: ao meu ver, um bom filme, sem maiores qualidades além das referidas, e que ganhou o Oscar de melhor realização de forma justa, não porque possua méritos extraordinários, mas pelo simples fato de 2013 ter sido um ano cinematográfico em que nada se sobressaiu acima da média.

A rigor, “12 anos de escravidão” é aquele tipo de filme em que o conteúdo corre o perigo de apagar a forma – e a relevância da temática tender a ser confundida com outras relevâncias.

De minha parte, posso estar enganado, mas uma impressão que me passou foi a de que faltou aprofundamento ao personagem principal, como se o empenho em descrever os horrores da escravidão tivesse levado a direção a negligenciar um pouco na caracterização psicológica do protagonista Solomon, quase sempre só ´um negro assustado que esconde sua alma´. Que ele esconda sua vida interior dos patrões, tudo bem, mas não acho que devia escondê-la tanto de nós.

Nos créditos finais do filme informa-se que, depois de reencontrar a família em Nova Iorque, Solomon Northup entregou-se de corpo e alma a uma corajosa campanha pública em prol da abolição da escravatura, dando palestras por toda parte e divulgando o seu livro. Essa força de personalidade não aparece no Solomon do filme. Enfim, uma grande estória, quase épica, cujo herói parece não possuir a grandeza correspondente.

Ou será que estou exigindo demais do filme de McQueen? Os leitores desta matéria que decidam.

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

Um filme que doi

10 abr

Que os Estados Unidos foram determinantes no golpe militar brasileiro de 64 todo mundo sabe. Eu, por exemplo, sei, mas se me pedissem as provas, eu, evidentemente, não as detenho. Li, em 1981, o livro de René Dreyfuss “1964: a conquista do estado”, mas nem sei mais por onde andam as suas setecentas ou oitocentas páginas.

Pois bem, se provas porventura faltassem – o que não é o caso – quem nos exibe as mais decisivas, indiscutíveis e esclarecedoras é este mais que oportuno documentário de Camilo Tavares “O dia que durou 21 anos”, em cartaz na cidade.

Kennedy e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon

Kennedy e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon

 Fruto de anos de pesquisa nos arquivos secretos do Departamento de Estado Americano, na Casa Branca, e mesmo na CIA, o filme exibe documentos que, de uma forma incontestável, comprovam o completo envolvimento dos governos de Kennedy e Lyndon Johnson na desmontagem da gestão João Goulart e na maquinação do golpe militar brasileiro. Notável é como a equipe do filme conseguiu registros de gravações telefônicas em que os presidentes americanos tratam diretamente do assunto.

A essas provas incontestes se somam depoimentos de historiadores e/ou envolvidos que explicam em detalhes como a coisa toda aconteceu. Instrutivos são os depoimentos de americanos como James Green, da Brown University, e Peter Korn Bluh, do Arquivo de Segurança Nacional, porém, a lição mais clara de história acho que vem do professor brasileiro Carlos Fico, da UFRJ, sem coincidência aquele a quem se deu mais tempo de tela: sua fala é uma aula no melhor sentido da palavra.

O “enredo” americano da história é simples, ou assim parece: apavorado com a revolução de Castro e a aparente ascensão do comunismo no hemisfério ocidental, o Governo americano temia que o Brasil se transformasse numa imensa Cuba, e, por isso, fica, desde 1959, de olho no “país mais importante da América Latina”, e, quando a situação se avulta, não hesita em planejar, em caso de necessidade, um ataque naval, com desembarque previsto para o Porto de Santos – esquema secretamente apelidado – não sem ironia – de “Brother Sam”. Como, na hora do pega pra capar, Jango foge para o Uruguai, o golpe militar brasileiro ficou tão fácil que esse ataque naval foi descartado, e o apoio à ditadura implantada em primeiro de abril de 1964 pôde continuar sendo, embora decisivo e substancial, mais discreto.

Lincoln Gordon, um pivô no esquema intervencionista

Lincoln Gordon, um pivô no esquema intervencionista

Para quem não está assim tão por dentro da história é interessante saber que um pivô na coisa toda foi o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, uma figura mais paranóica que os próprios Kennedy e Johnson. Foi, por exemplo, iniciativa dele, fazer Kennedy convidar Jango para visitar a base militar de Nebraska – espécie de aviso diplomático com ameaça velada. Mostrada no filme com expressões sintomáticas sublinhadas, a troca de memorandos entre Gordon e os presidentes americanos é uma preciosidade e um dos trunfos do filme.

Se o golpe foi fácil, os desdobramentos – que nós brasileiros conhecemos na pele – de jeito nenhum. Para não falar na primeira fase da ditadura (cassações em massa, perseguições políticas, dissolução dos partidos), quando, em 68, veio o famigerado AI-5 e suas seqüelas, consta que conselheiros americanos – além de Gordon, o adido militar Verner Walters – teriam sugerido à presidência americana “a golden silence”, um silêncio dourado. Referindo-se às torturas e assassinatos do período Médici, um dos depoentes afirma que os Estados Unidos não previram o horror que estava saindo da “caixa de Pandora” (sic) e, estrategicamente, mantiveram o ouro do silêncio.

Jango defendendo suas reformas de base

Jango defendendo suas reformas de base

A direção do filme tem o cuidado de incluir depoentes brasileiros do lado do golpe, entre os quais o ex-diretor do SNI, o Cel Newton Cruz que, em sua truculência, não deixa de criticar a longevidade da ditadura, uma das mais duradouras da América Latina: “A Revolução era para arrumar a casa – diz ele – ninguém passa vinte anos para arrumar uma casa”.

O único problema do filme de Camilo Tavares é ser curto (77 minutos) para o tamanho do problema que enfrenta, e a rigor não cobre os vinte e um anos de que fala o seu título. Por exemplo, os papeis do IPES e IBAD, institutos tão importantes na preparação do golpe, ficam resumidos e, mais tarde, as gestões dos presidentes que se seguiram a Castelo Branco, aparecem como notícias breves.

O filme se fecha com a chegada à cidade do México dos quinze presos políticos brasileiros, como se sabe, trocados, em 69, pelo embaixador Charles Elbrick, este seqüestrado pelos militantes do MR-8. Entre esses presos, que corajosamente denunciaram as torturas do governo Médici à imprensa internacional, estava Flávio Tavares, pai do autor do filme e seu co-roteirista.

Ao decidir escrever sobre “O dia que durou 21 anos” pensei em fazer um texto de tom subjetivo sobre minha experiência pessoal com os anos da ditadura. Desisti, mas, digo apenas que saí do cinema perturbado e comovido.

Em vários sentidos, um filme que doi.

os presos políticos libertados no México

os presos políticos libertados no México