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Shakespeare e o cinema

3 jun

No ano do aniversário de morte de William Shakespeare (1564-1616) vale perguntar: quantas vezes foram as suas 37 peças adaptadas à tela?

Tantas que os órgãos responsáveis pelas estatísticas perderam a conta. O livro Guiness de Recordes registra 410 vezes, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) o aumenta, e afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

Segundo consta, a primeira adaptação shakespeariana aconteceu no remoto 1900, uma produção francesa de “Hamlet” em que o herói atormentado pela dúvida é interpretado por uma mulher: Sarah Bernhardt.

Desse ano em diante não se parou mais de filmar Shakespeare. E vejam que as estatísticas citadas – suponho – só computam as adaptações das peças, ficando de fora filmes inspirados nos sonetos shakespearianos, como o “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation’, 1985) de Derek Jarman.

"Hamlet", de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

“Hamlet”, de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

E mesmo tratando-se de peças, o conceito de adaptação fica elástico para caber experiências as mais díspares. Nem todos são fiéis ao texto original, como o foi o cineasta Kenneth Branagh, no seu “Hamlet” (1996), que – único caso conhecido – reproduz o diálogo inteiro da peça, palavra por palavra, por isso tendo que estender seu tempo de projeção para quatro horas (Vide cópia em DVD).

Um caso inusitado é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Cena de "Ran", de Akira Kurosawa, 1985.

Cena de “Ran”, de Akira Kurosawa, 1985.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) são homens e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

Estes são casos especiais. No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Aqui não pretendo analisar as adaptações da obra de Shakespeare, até porque não vi todas e não teria espaço para tratar das muitas que vi. Ao invés disso, prefiro encerrar esta matéria tentando lembrar quando foi, ou quando foram meus primeiros contatos com os filmes shakespearianos.

Shakespeare em versão soviética: "Otelo", 1955.

Shakespeare em versão soviética: “Otelo”, 1955.

Acho que minha primeira vez foi a produção soviética de “Otelo”, que é de 1955, dirigida por Sergei Yutkevich, exibida no Cine Sto Antônio por volta de 1957. Um filme tenebroso que, nos meus onze anos de idade, não entendi muito bem. Pelo mesmo tempo, o mesmo Sto Antônio, re-exibiu o “Romeu e Julieta” de Renato Castellani (a primeira exibição inaugurara o cinema, em 1955), com Laurence Harvey e Susan Shantall no elenco, filme bem mais digerível para meu espírito infantil.

Não sei o que veio em seguida, mas desconfio que foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewics que é de 53, mas deve ter chegado em João Pessoas com anos de atraso. Eu já estava mais crescidinho e me impressionei com a cena do assassinato no Senado romano, e com as interpretações de James Mason como Brutus, e Marlon Brando como Marco Antônio.

Até então, eu nunca havia lido Shakespeare, e na medida em que assistia a novas adaptações de sua obra, fui construindo uma visão cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema. No dia em que, pela primeira vez, final dos anos sessenta, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos.

Claro, era teatro, mas que teatro poético!

Marlon Brando como Marco Antônio, em "Júlio César", 1953.

Marlon Brando como Marco Antônio, em “Júlio César”, 1953.

Shakespeare é só um nome

7 jul

Tenho a impressão de que não existe um grande escritor em que as noções de vida e obra estejam mais separadas do que em William Shakespeare (1564-1616).

Tudo que se sabe do autor de “Romeu e Julieta” resume-se a mais ou menos vinte e cinco parcos itens, em si mesmos, insuficientes para rechear uma biografia. Um deles, por exemplo, nos informa que esse tal de Shakespeare comprou um dia um veado e não pagou a conta. Um outro – que poderia ser mais significativo e não é – consiste no seu exíguo e dúbio testamento, onde não faz uma só menção a seus próprios escritos e onde lega a sua esposa, Anne Hathaway, tão somente a sua segunda melhor cama.

Não é questão de saber quem teria herdado a melhor cama do Bardo de Stratford-Upon-Avon, mas, para muita gente boa, vale a indagação sobre o mistério dessa exiguidade de informação, quando, de outros autores da mesma época, o Renascimento Inglês, se conhecem bem os dados biográficos.

Deem uma olhada em uma biografia de Shakespeare – qualquer uma – e vão ver que praticamente não há uma só página onde não se encontrem expressões hipotéticas do tipo: “é provável que”, “supõe-se que”, acreditamos que”, etc… Simplesmente porque os dados históricos não ajudam, o que às vezes leva muitos biografistas a tomarem certas seções das obras, peças e poemas, como fontes.

Não admira que, ao longo dos séculos, tantas “teorias” tenham sido aventadas, ou inventadas mesmo, sobre a vida de William Shakespeare e, particularmente, sobre a autoria de seus escritos, eventualmente atribuída a outros.

Alguns dos candidatos a essa autoria foram contemporâneos do autor de “Macbeth”, como: Francis Bacon, Christopher Marlowe, Henry Neville e, o de maior consequência, Edward De Vere, o conde de Oxford, apontado pelo estudioso Thomas Looney, em livro de 1920, como o definitivo autor dos escritos shakespearianos, uma “teoria” que chegou a, momentaneamente, convencer gente do calibre de Orson Welles, Charles Chaplin e dizem que até Sigmund Freud

Quem, agora, vem reforçar essa “teoria” é o cineasta Roland Emmerich, no seu mais recente filme “Anônimo” (“Anonymous”, 2011). Para quem não lembra, Emmerich é autor de sucessos de bilheteria, como “Independence Day” (1996) e “Godzilla” (1998).

Segundo o filme de Emmerich, as trinta e sete peças, cento e cinquenta e quatro sonetos e demais poemas que a historiografia atribui a Shakespeare teriam sido compostos, sim, por De Vere, que, pertencendo à nobreza como pertencia, preferiu não assumir a autoria desses escritos e veiculá-los sob uma outra assinatura.

Tendo, na juventude, vivido um caso de amor com a jovem Rainha Elizabeth, De Vere teria, por conveniências familiares, sido forçado a casar-se com outra, e, ao longo da vida, teria desperdiçado a fortuna da família e a chance de ser rei, em vista de sua obsessão com as palavras. Como ele, em grave momento de crise familiar, revela, entre raivoso e desesperado, à esposa antagônica a seu labor de escritor, “esses fantasmas me perseguem e eu enlouqueceria se não escrevesse”.

Quanto a William Shakespeare – bem entendido, o do filme! – este foi só um atorzinho mesquinho e de extremo mau caráter que, sem quaisquer escrúpulos, tentou, e conseguiu, subornar o gênio anônimo do teatro elizabetano.

O roteiro do filme mescla pura ficção com personagens verídicos (De Vere, a rainha Elizabeth, o dramaturgo Ben Jonson, o conde de Essex, o Lorde William Cecil, o Duque de Southampton, o ator Burbage, o Rei James I, os escritores Marlowe, Spencer e Pope, etc), com fatos históricos (as intrigas na corte sobre a mudança do trono inglês, de Elizabeth para James) e com costumes da época (o ´bear baiting´, por exemplo, aquele sangrento divertimento público onde um urso era devorado ou devorava cachorros).

E essa mesclagem, repito, de ficção com história real, é feita com tal sagacidade que, creio eu, até o autor de “Ricardo III” (seja lá quem tenha sido!) aplaudiria; tudo isso para que a sua hipótese soe viável ao espectador. Digo “hipótese” porque o filme abre e fecha com um prólogo e um epílogo em que um ator da atualidade, num palco atual, “propõe” a estória a uma platéia moderna, com quem o espectador do filme, em princípio, deveria se identificar.

Para dizer a verdade, ninguém sabe se Emmerich, ele mesmo, acredita no que narra em “Anônimo”, mas, o fato é que o seu filme acredita. O que não significa dizer que o espectador deva acreditar no filme. Afinal, como se sabe, um filme não precisa ser – historicamente, ou de qualquer outro modo – crível para ser bom. E, crível ou não, “Anônimo” é um ótimo filme.

Evidentemente os “Shakespearean scholars” vão torcer o nariz para “Anônimo”, ou, então, vão assistir com atenção, só para poder apontar improbabilidades históricas.

Uma que salta aos olhos está nas datas. Edward De Vere faleceu em 1604, ano em que, como se sabe, pelo menos treze peças do Bardo ainda estavam por ser escritas e encenadas, entre as quais, “Otelo”, “O Rei Lear”, “Antônio e Cleópatra”, “Coriolano” e “A tempestade” – peças só encenadas mais tarde pela companhia teatral “The King´s Men” (´os homens do Rei´) e o rei em questão era James I, que só passou a reinar sobre a Inglaterra, em 1603, com a morte de Elizabeth. Antes disso a companhia tinha um patrono menos importante e se chamava “Lord Chamberlain´s Men”.

O caso “Macbeth” (1607) deve ser, para os estudiosos de Shakespeare, o calcanhar de Aquiles do filme de Emmerich. Seu fólio já aparece nas mãos de De Vere, como se previamente escrito, e, no entanto, a peça, como é sabido, só tem a estrutura que tem por causa do Rei James I que, adorando bruxaria, levou o autor da peça (seja lá quem seja este!) a atrelar toda a tragédia do protagonista aos desígnios das três bruxas, quando, na verdade, não havia bruxa alguma na história original recriada. Se James ainda não era rei da Inglaterra no tempo de De Vere, como foi possível essa criativa bajulação? (Claro, com mais propriedade, atribuída a Shakespeare, que viveu até 1616!).

Não sou scholar, mas, de minha parte, estranhei um pouco que uma personalidade sempre amarga como o De Vere do filme tivesse disposição para escrever tantas comédias, algumas das quais parcialmente encenadas no filme, e, outra questão: no contexto da sua vida fílmica não houve praticamente espaço diegético para a produção dos 154  sonetos, e – outra pergunta mais embaraçosa – caso tivesse havido, onde caberiam aqueles tantos, sensualmente dirigidos a “um belo mancebo”?

Suponho que, se realizado nos primórdios do século XX, “Anônimo” teria dado o que falar, pela ousadia e pela suposta polêmica que instaura. Nestes tempos pós-modernos de hoje em dia, ele é só – em que pese o seu brilhantismo – um exercício criativo, muito bem feito, porém, relativamente esperável. Afinal, desde que Roland Barthes anunciou a ´morte do autor´, que se romperam irreversivelmente todos os elos entre criador e obra.

Em suma, que importa quem realmente escreveu “Hamlet”? Ao leitor ou espectador da peça, importa o que ficou: a textualidade. O resto é silêncio.

Shakespeare é só um nome, e isto a gente já sabia antes de ver “Anônimo”.

Em tempo: esta matéria é dedicada a W. J. Solha.