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“Relatos selvagens”: o superego que se dane!

28 nov

Só agora me chega às mãos e aos olhos este “Relatos selvagens” do argentino Damian Szifron (2014). Perdi-o, quando foi exibido por aqui, embora, na ocasião, não tenha escapado dos muitos comentários – aliás, extremamente favoráveis – de amigos que o haviam visto e curtido.

De fato, o filme de Szifron é empolgante e faz jus à fama que já detém, há muito tempo, a boa – para não dizer, excelente – cinematografia argentina. Conta seis estórias, cada uma independente das outras, salvo pelo fato do que está sugerido no título: a selvageria que, em instantes de crise, faz os personagens agirem de modo inesperado para as convenções socialmente recomendadas. Se pensarmos em Freud, algo assim como ´mandar o superego para a p que pariu´…

Na primeira estória, “Pasternak”, um aviador que foi um dia um músico frustrado decide pôr no mesmo voo, todos os seus desafetos, para, a turma toda junta, espatifar-se lá embaixo numa espetacular queda suicida. Vejam que um dos desafortunados passageiros é o psiquiatra de Pasternak, de forma que não estou chutando quando, acima, me refiro a Freud.

Na segunda estória, “Os ratos”, uma garçonete se vinga de um freguês que, no passado, arruinara sua família e o procedimento é um eficiente envenenamento… Em “O mais forte”, terceira estória, dois motoristas se digladiam na estrada, dois duelistas insanos que ganham o mesmo fim ensanguentado. Já “Bombinha”, quarta estória, relata os pormenores de como um engenheiro de demolições, é moral e psicologicamente “demolido” pela burocracia… e revida com moeda própria. O quinto episódio, “A proposta”, trata o caso de um filhinho do papai que, em acidente de automóvel, mata uma mulher grávida: os pais acertam que o jardineiro da família, assumiria o crime, com a compensação de 500 mil dólares, mas, o problema é que contrapropostas vão surgindo e o pai do rapaz decide tomar uma decisão inesperada.

Embora sempre dentro de um mesmo cenário – uma festa de casamento – a última estória é a mais longa e envolve um número maior de personagens, embora, claro, o centro sejam os noivos. Em “Até que a morte nos separe” ela, a noiva, descobre que está sendo traída e, enfurecida, opta pelo menos esperado: um radical, penoso e constrangedor “barraco”.

Em cada estória está tudo perfeito: do roteiro à direção de atores – passando por fotografia, música e montagem – está tudo bem equilibrado e o filme demonstra como se faz cinema com talento e criatividade. Em todas elas, estão bem dosadas as pitadas de drama e humor. Os personagens parecem reais, mesmo quando vão perdendo o controle de seus respectivos egos. E mesmo nos auges caricatos, assim permanecem: reais. Vejam o caso da última estória. Considerem que encenar “um barraco” não é nada fácil, sobretudo com a duração que este tem. O perigo de cair no ridículo (o mesmo ridículo que está sendo encenado) é grande. Szifron consegue esse milagre, e o faz com perfeição. A imagem final, em close, dos bonecos do bolo, no chão, recebendo os efeitos colaterais da selvagem cópula do casal… merece palmas do espectador. Em suma: quanto mais desequilibrados os personagens, mais equilibrado o filme.

No geral, o filme parece fazer a pergunta: até onde o ser humano vai quando sua sobrevivência (psicológica, moral, física, seja qual for) se vê ameaçada? O que ainda temos dos animais, aqueles que aparecem na tela, ao lado dos nomes de cada integrante da equipe de filmagens? O argumento inicial, que deu origem ao roteiro, pode ter sido só uma brincadeira, mas, que deu certo, deu.

Um lugar comum da crítica é que o melhor do bom cinema argentino de atualmente está nos roteiros. “Relatos selvagens” confirma esta verdade. As estórias são inventivas e originais, o que, no entanto, não impede que nelas encontremos ecos de outros filmes e outros autores.

Por exemplo: “Os ratos” nos lembra, de modo bem direto, aqueles filmes curtos que Alfred Hitchcock fez para a televisão americana nos anos 50 e 60, dentro da série “Hitchcock Apresenta”. Sintam como a cozinheira que, à revelia de sua colega medrosa, se empolga com a ideia de pôr o veneno na comida do freguês – e o faz – é um tipo hitchcockiano bem óbvio. Na verdade, no grosso, o filme tem o espírito desesperado (e a temática) de “Um dia de fúria” (Joel Schumacher, 1993), mas talvez o seu eco particular mais ostensivo para o cinéfilo seja o da estória dos dois duelistas na estrada, remontando, desde o primeiro fotograma, ao delicioso “Encurralado” de Steven Spielberg (1971).

Enfim, o filme de Szifron me chegou tardiamente, mas isto não tem importância alguma. Alguns filmes que me chegaram em tempo eu já os esqueci. Este, eu vou demorar a esquecer, ou, quem sabe, talvez não esqueça nunca.

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Christabel

31 mar

As relações entre cinema e literatura nem sempre são óbvias e, às vezes, me parece, quanto menos óbvias, mais férteis.

Vejam o caso desse filmezinho de Nicholas Ray, de 1950, “Alma sem pudor”, no original “Born to be bad” (´Nascida para ser má´), que a crítica – acho que injustamente – teima em subestimar.

Como o seu coetâneo “A malvada” (“All about Eve”, 1950), conta a estória de uma moça que vive para subir na vida. A “Eve” de Mankiewicz quer uma carreira de atriz, mas a nossa Christabel – eis o seu nome – quer um marido rico que ela possa, se for o caso, divorciar e herdar sua fortuna.

Christabel observando suas vítimas...

Christabel observando suas vítimas…

Quando o filme começa Christabel é só uma jovem estudante de Biblioteconomia que tem um tio editor em São Francisco. A pedido dela, o tio acerta para que ela venha morar na casa de uma funcionária sua, Donna, a qual ocorre ser noiva de um rapaz rico, Curtis. Desde que se conhecem, o plano de Christabel passa a ser: dar um jeito de desfazer o noivado de sua anfitriã e, claro, conquistar o noivo. O que ela faz com competente artimanha e sem nenhum escrúpulo.

Casada com Curtis, ela torna-se uma invejada senhora da sociedade de São Francisco, e tudo iria bem se, antes, não lhe tivesse aparecido esse cara atraente, Nick, escritor em ascensão, por quem se apaixona. Ele, também apaixonado, quer ficar com ela, porém, Christabel não abre mão do dinheiro do marido. E o drama está dado.

Espécie de melodrama noir – daqueles que a RKO gostava de rodar – “Alma sem pudor” vai fundo na análise da personalidade ambiciosa que, na vida diária, calcula cada passo, cada gesto, cada palavra, para obter os fins desejados, sejam esses fins materiais (a fortuna alheia), ou de outra natureza (o amor do amante). Quem faz Christabel é Joan Fontaine, seu primeiro ´papel malvado´, tão bem interpretado que nada fica a dever à Anne Baxter do já citado “A malvada”.

Christabel sendo observada...

Christabel sendo observada…

Mas, onde está a relação com a literatura? Pois é, a ficção literária está repleta de ardis femininos, porém, no caso presente, a fonte é inequívoca, como indica o nome da protagonista. Sim, toda a leitura do filme seria outra, se o nome da personagem principal não fosse justamente Christabel, o mesmo nome que dá título a um famoso poema narrativo do grande poeta inglês do século XIX, Samuel Taylor Coleridge.

Como quase tudo em Coleridge, o poema é gótico e, cheio de florestas, brumas e mistérios, situa-se na Idade Média. Não tenho espaço para reproduzir o seu longo e tortuoso enredo, mas devo dizer que sua estória gira em torno de duas donzelas, uma boa, Christabel; a outra má, Geraldine.

Acontece, porém, que o poema é de propósito ambíguo e, em várias instâncias, confunde as duas figuras como se fossem uma só. No castelo desse barão viúvo, a filha, Christabel, acolhe a bela e misteriosa estranha, Geraldine, que foi atacada por homens na floresta e que, à noite, dorme nos seus braços. Interpretações freudianas à parte, as duas moças fazendo amor no leito parecem ser, no contexto do poema, os dois lados – o bom e o mau – de uma mesma criatura.

Posando para um quadro valioso...

Posando para um quadro valioso…

Não admira que, no filme, uma das verdades jogadas na cara de Christabel pelo amante Nick seja esta: a de que existiriam duas Christabels, uma falsa, a outra verdadeira. Uma, a Christabel que só pensa em ascender socialmente; a outra, a que se apaixona sem interesse. O problema é como conciliá-las, ou talvez, suspeita ele, não haja chance de conciliação.

Nick, que é escritor, certamente leu Coleridge, e sabe o que diz. Visivelmente é o alterego do roteirista, ou do diretor do filme. Sintomaticamente, é da sua boca que saem os melhores momentos do diálogo. Duas expressões suas foram títulos provisórios do filme: “all kneeling” (´todos de joelho´: referência irônica ao que deviam fazer as pessoas na presença de Christabel) e “a bed of roses” (´um leito de rosas´, referência igualmente maldosa à vida de casada da amante).  Outros exemplos que vêm ao caso: respondendo a uma declaração de amor da amante ele, sem hesitar, retruca que “só há uma pessoa no mundo, Christabel, que você ama. E é um amor de vida inteira”. Bem mais tarde, ao dar-se conta da incorrigível maldade da amante ele, acenando um adeus definitivo, solta sua tirada mais contundente e também a mais dramática: “Te amo tanto que gostaria de gostar de ti”.

Ao redigir esta matéria, consultei a fortuna crítica do filme de Ray, e me surpreendi ao constatar que nenhum dos seus comentaristas anglo-americanos faz qualquer referência ao poema de Coleridge. Fico pensando que, se um poeta fundamental como Coleridge estivesse no repertório cultural desses comentaristas, talvez a cotação crítica de “Alma sem pudor” fosse um pouco mais alta.

Joan Fontaine em "papel malvado"...

Joan Fontaine em “papel malvado”…

Grandes olhos

22 maio

 

Perdi “Grandes olhos” (“Big Eyes”, 2014) quando de sua estréia nos cinemas locais, e só agora o vejo em DVD, esse meio que diminui o tamanho de todos os olhos.

Acho que a primeira coisa a ser dita é que se trata de um Tim Burton diferente, espécie de ´odd man out´ na sua filmografia, um filme sem a obsessão gótica que o persegue, salvo talvez nas estranhas imagens oculares do título.

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E nem por isso é, como querem alguns, um filme descartável. Ao contrário, pode ser visto com interesse, e até mesmo com entusiasmo, principalmente por quem, de uma forma ou de outra, está ligado aos seus temas centrais, que são dois, não propriamente isotópicos.

O primeiro tema é aquele que pode ser resumido na frase-clichê ´dormindo com o inimigo´ (título de outro filme), e que descreve a situação de mulheres vitimadas pelo casamento. O segundo é pintura.

Sim, o filme conta a estória da dona de casa e pintora americana Margaret Keane, aquela que ficou famosa pelos seus retratos de crianças com enormes olhos negros e brilhantes, assustadoramente tristes, depois imitados ad nauseam por um monte de plagiadores mundo afora.

Amy Adams é Margaret Keane

Amy Adams é Margaret Keane

Mas, como diz a frase-clichê de um de seus temas, o mal começou em casa. Vamos por etapas.

Um dia a ainda diletante Margaret está, modestamente, expondo os seus quadros numa praça em São Francisco, quando conhece um vizinho de vendas que muito a elogia. Walter está vendendo, bem mais caro que ela, pinturas que representam ruas de Paris onde ele teria, supostamente, estudado arte.

Os dois têm um caso e casam. Para resumir, o casamento vira um negócio, extremamente vantajoso para ele, degradante para ela. Como os marchands de então – anos cinquenta – não costumavam divulgar produções de mulheres, ele passa a assinar – com o sobrenome dos dois, Keane – os quadros que ela pinta. Tudo às escondidas, até da filha pequena que ela traz do primeiro casamento.

Quanto mais sucesso ele faz, e quanto mais proveito tira desse sucesso, mais ela se sente mal.

Claro, não demora muito para ela perceber que está dormindo com um trambiqueiro de marca maior, mas o tamanho do trambique aumenta consideravelmente no dia em que ela descobre que sequer as pinturas de Paris eram de autoria dele, o que significava dizer, que ele, a rigor, não pintava coisa nenhuma.

Mais tarde, em júri, isso vai ficar claro, porém, até chegar o ponto de essa mulher rebelar-se, fugir de casa e processar o marido, muita coisa rola, inclusive uma ameaça de morte.

O trambiqueiro Walter Keane é feito por Christoff Waltz

O trambiqueiro Walter Keane é feito por Christoff Waltz

Nos casos conhecidos de casamento com violência masculina é comum que o homem vá minando as forças físicas da companheira até um ponto crítico, que pode ser o uxoricídio. Aqui a violência é mais sutil, quase se diria existencial, e, por isso mesmo, mais grave.

O que Walter suga em Margaret é a sua identidade, assinando seus quadros e relatando à imprensa lendas (leia-se mentiras) sobre a origem de suas motivações plásticas. As figuras de crianças de olhos grandes, segundo ele, teriam surgindo das vítimas da Segunda Guerra que ele teria visto na Alemanha, quando –  saberemos mais tarde – ele nunca pisara em solo europeu.

No papel da pintora Margaret Keane, a atriz Amy Adams está muito bem, mas, melhor ainda está esse Christoph Waltz como o marido trambiqueiro, cuja personalidade vai sendo descascada pela narração onisciente (para a esposa e para nós), como se descasca uma cebola, paulatinamente, camada por camada, cada camada uma surpresa a mais… Notem como sua interpretação cavilosa lembra o nazista que ele fez em “Bastardos inglórios” (2009).

Aquele filme com Julia Roberts que tinha a nossa frase-clichê como título (“Dormindo com o inimigo”, lembram?) era completamente ficcional, ao passo que “Grandes olhos”, como se vê, é baseado bem de perto na vida real da real Margaret Keane.

Tanto é assim que o desenlace favorável à protagonista – aquele campeonato de pintura no tribunal do Havaí, que mais parece cena de comédia hollywoodiana para sessão da tarde – não é nenhuma licença poética: aconteceu tal e qual. Para reforçar a veracidade do caso todo, os créditos finais contrapõem fotos dos dois atores principais a fotos dos personagens reais, ambos ainda hoje vivos.

Eu disse que “Grandes olhos” interessa a quem está ligado aos seus temas? Que nada. Interessa a todo mundo.

Na foto, a pintora Margaret Keane e a atriz Amy Adams

Na foto, a pintora Margaret Keane e a atriz Amy Adams

“A Malvada” às avessas

29 out

Misturar ficção literária e cinema e se sair bem não é para todo mundo. Quem faz isto é o jovem escritor inglês David Nicholls em seu recente romance “The understudy” (Hodder, 2005), no Brasil traduzido para “O substituto”.

A palavra ´understudy´ designa aquela profissão do mundo do teatro que a gente pode chamar livremente de ´ator de reserva´: você decora toda a fala de um dado personagem de uma peça, ensaia com o mesmo rigor dos atores titulares, porém, nunca vai ao palco… a não ser que o ator titular do seu personagem fique, por alguma razão, impossibilitado de atuar. Se isto nunca ocorrer, você nunca atuará, por mais que domine o seu papel.

understudy-logo

No livro de Nicholls esta é a profissão de Stephen C. McQueen, um quarentão descasado, com todo o perfil de ´loser´, que ainda ama a ex-esposa e que vive fazendo esforços para alimentar o afeto da filha, uma garota de oito anos.

Mas, se o cenário do livro é o teatro, o imaginário, não. O imaginário é definitivamente o cinema, conforme já está ironicamente prometido no nome do protagonista, quase o mesmo do famoso ator hollywoodiano Steve McQueen. Só que, ao contrário do astro americano, Stephen vive, como quebra-galho, fazendo pontas em produções cinematográficas locais, geralmente em papéis obscuros e pouco visíveis, em muito casos, e sintomaticamente, como mortos, vítimas descartáveis, ou equivalentes. A peça todo dia encenada, em que Stephen é reserva, versa sobre a vida do poeta Byron, e, no entanto, os grandes intertextos do livro não são literários, nem teatrais.

capa da edição brasileira de "The Understudy"

capa da edição brasileira de “The Understudy”

O fato é que Stephen é um cinéfilo viciado que, quando não está diante da tela, está pensando cinema o tempo todo. Claro, essa cinefilia obsessiva é partilhada pelo próprio narrador da estória, que, quase sempre, antes de introduzir um novo episódio, gasta tempo imaginando como ele seria se se tratasse de um filme.

Isto para não dizer que os capítulos do livro têm títulos sempre – digamos – “cinematográficos”, nomes de atores/atrizes, fatos do show business, ou títulos de filmes conhecidos. Por exemplo, o capítulo em que se descrevem os dotes físicos da ex-esposa de Stephen é, por causa de uma vaga semelhança, intitulado “Lauren Bacall”. Outro exemplo: um capítulo do livro se chama: “The awful truth”, e aqui confesso que li o livro no original, e fico imaginando as dificuldades do tradutor da edição brasileira, já que este filme teve, no Brasil, um título completamente diferente, e que não se coaduna com o conteúdo do capítulo que encabeça. Sim, “The awful truth” (´a terrível verdade´) se chamou por aqui “Cupido é moleque teimoso”.

Na verdade, o que não dá para esconder é que o livro todo foi concebido para virar cinema, aliás, como a maior parte da literatura ficcional que se escreve hoje em dia mundo afora. Não sei se dará um bom filme, tão bom quanto o é, de fato, o romance, irônico, engraçado, divertido.

A estória é simples. Esse deprimido e atropelado Stephen C. McQueen está sendo o reserva de um famoso ator londrino, Josh Harper, um astro que as revistas especializadas já consideram o décimo segundo homem mais sexy do mundo. Mesmo sem maldade, Stephen vive sonhando com a chance de alguma coisa acontecer ao astro, para que possa substituí-lo no palco e – quem sabe? – a crítica especializada notar sua presença e seu desempenho, e daí, ele deslanchar sua própria carreira. Mas, o que pode acontecer a Josh? Um piano cair na sua cabeça? Stephen chega a ter um sonho politicamente incorreto com o tal providencial piano, mas foi só um sonho…

David Nicholls, autor de "The Understudy"

David Nicholls, autor de “The Understudy”

Enquanto isso, trabalhando de garçon numa festa na mansão de Josh, Stephen conhece Nora, a esposa do anfitrião, e uma improvável amizade começa a brotar entre os dois. Não pretendo contar o resto da estória, mas não resisto em dizer que o andamento da narrativa, e mais ainda o desenlace, sugerem um certo emprego dúbio para a palavra titular ´understudy´, ao mudar o contexto profissional do teatro para o universo amoroso.

Fazia tempo que não me divertia tanto lendo um livro; bem entendido, não que ele tenha me provocado risadas, mas, o tempo inteiro, do primeiro ao último parágrafo, aquele estado de espírito de leveza que nos acomete ao nos darmos conta de estarmos lendo um texto extremamente inteligente e inspirado.

Voltando à presença do cinema no livro, quer me parecer que o intertexto mais forte é justamente o não nomeado e que funciona como um escondido mas ubíquo contraponto à narrativa. Refiro-me à estória, bem conhecida dos espectadores de cinema, de uma certa “understudy” que cometeu todas as incorreções políticas – todas as que o nosso Stephen não ousou – para tomar o lugar da atriz titular… e tomou.  Sim, de alguma maneira sutil, o livro de Nicholls é “A malvada” às avessas.

E lembro ao leitor que o filme de Joseph Mankiewicz, 1950, foi há pouco comentado neste blog.

Longe do paraíso, perto de Sirk

15 out

Por que não vi “Longe do paraíso” ao tempo de sua estréia, em 2002? Ou não foi exibido localmente? Se não, por que me escapou na TV? Francamente, não sei dizer, mas agora corrijo a lacuna com a versão em DVD de um filme que entra no rol dos meus prediletos.

poster

A estória se passa na capital de Connecticut, a bela e ainda pequena Hartford dos anos cinquenta, cheia de seus jardins floridos, suas ruas arborizadas e seus bosques frondosos com cujo dourado resplandecente a câmera tanto se ocupa. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma jovem senhora casada que leva a vida normal esperada: casa própria, dois filhos pequenos e um marido próspero. Para a revista feminina local, ela é a dona de casa modelo, que merece foto e matéria especial.

Mas, que o paraíso está longe logo saberemos. A perfeição começa a ser desacreditada no dia em que Cathy decide levar o almoço do marido Frank (Dennis Quaid) no escritório e o flagra fazendo amor com outro homem. Como, então, homossexualidade era entendida como doença, o casal enfrenta o problema junto e um psicólogo é procurado. Enquanto isso, Cathy conhece Raymond, esse jardineiro negro (Dennis Haysbert), cujo pai trabalhara na família dos Whitaker no passado. Tenha sido pela tensão ou não, o fato é que uma atração brota entre os dois e Cathy é vista pela mulher mais fofoqueira da cidade entrando num bar ao lado de um homem de cor.

Marido gay e suposto amante negro – carga demais para uma dona de casa dos anos cinquenta. Com sua aparente leveza, ela tenta administrar os problemas como pode. A promessa de não mais rever o jardineiro e umas férias em Miami com o marido parecem pôr tudo nos eixos. Poria, se… Bem, não conto o resto da estória.

Um suposto amante negro

Um suposto amante negro

O que interessa dizer é que “Longe do paraíso” é o remake de um clássico dos anos 50, o belo “Tudo que o céu permite” (“All that heaven allows”) do grande Douglas Sirk – ou mais que isso, uma homenagem. Vejam que um procedimento básico e efetivo é mudar o conteúdo e preservar a forma do filme homenageado. Exemplos: em “Tudo que o céu permite” a protagonista é viúva e seu amante socialmente desaprovado é jardineiro, porém, branco. Parece que o diretor de “Longe do paraíso”, Todd Haynes, quis agravar os conflitos com temas da época ainda mais fortes – a homossexualidade e o racismo. Daí a diferença nos finais, quase feliz no original e infeliz na refilmagem.

Formalmente, os dois filmes são incrivelmente parecidos – ou devo dizer, crivelmente parecidos? Se nos concentrarmos, por exemplo, em três elementos – emprego de câmera, cenário e música – a sensação é de estarmos vendo o mesmo filme, sobretudo naqueles momentos simbólicos em que a paisagem, com suas flores e sua remissão à profissão do amante, é usada como comentário irônico do drama. As aberturas, por exemplo, são sugestivamente semelhantes.

Na verdade, o que se nota é o tanto que Haynes resguarda dos ensinamentos fílmicos de Sirk, na prática ou em palavras, como estão resumidos em sua famosa entrevista de 1977 para Jane e Michael Stern (Cf Bright Light Films). “A boa câmera é curiosa” – afirma Sirk na entrevista: “Não há nada nos meus filmes sem uma razão ótica”, ou ainda “o movimento de câmera deve ser justificado pelo movimento dos atores e o movimento dos atores pelo da câmera”.

Mas, as relações entre os dois filmes não fica no plano da expressão – convenhamos – e se estende a fatores contextuais. Consideremos o caso dos elencos. Notem como a grande amiga confidente da protagonista, a única a quem ela relata sua paixão pelo jardineiro, é feita por atrizes com o mesmo perfil físico: em Sirk, Agnes Moorehead, em Haynes, Patrícia Clarkson, as duas com quase os mesmos penteado, indumentária e gesticulação. E não resisto à interpretação de que o homossexualismo do marido foi introduzido no roteiro do remake para lembrar o verídico, de Rock Hudson, que em Sirk fez o papel do jardineiro.

Um marido homossexual

Um marido homossexual

Naturalmente, uma insistência do diretor é demarcar a época, o que não faria sentido no filme de Sirk. Uma forma óbvia é o apelo ao cenário urbano (automóveis, vestuário, arquitetura, etc), porém, mais que isso, o filme nos passa a impressão de estarmos vendo não apenas um filme “de época”, mas um filme “da época”. Por isso ele termina com a inscrição gráfica THE END, como se sabe, há tanto tempo fora de moda.

Outro bom recurso é fazer com que os personagens trafeguem por perto de cinemas onde estão em cartaz os filmes da época. No caminho do seu primeiro encontro homossexual, Frank passa na frente de um cinema que está exibindo “As três máscaras de Eva”, aquele drama em que a Joanne Woodward fazia uma pessoa com personalidade múltipla. Ora, personalidade múltipla é o que Frank será obrigado a assumir a partir de então.

Já próximo ao desenlace, quando Cathy e seu companheiro negro caminham furtivamente pelas calçadas de Hartford, os títulos mostrados nos cartazes do cinema são dois: “O preço da audácia” (“The bold and the brave”, de Lewis Foster, 1956) e “Idílio proibido” (“Hilda Crane”, de Philip Dunne, 1956). Como se nota, no original ou na tradução, ambos títulos sintomáticos para a situação amorosa que vivenciam. No primeiro filme eles são ´os ousados e os corajosos´ e, no segundo, ‘Hilda Crane´ era o nome da protagonista, uma mulher independente que teve a coragem de quebrar os padrões machistas então vigentes, por sinal interpretada pela mesma Jane Wyman, a viúva apaixonada pelo jardineiro no filme homenageado –  mais uma relação contextual entre “Longe do paraíso” e “Tudo que o céu permite”.

Enfim, se assistir a “Tudo que o céu permite” é delicioso, ver “Longe do paraíso” depois dele é multiplicar a delícia por dois.

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico "Tudo que o céu permite".

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico “Tudo que o céu permite”.

A caixa de Pandora

15 ago

Há filmes clássicos, por alguma razão semiótica ou de outra ordem, importantes na história do cinema, que a gente conhece mais de ouvir falar que de ver. Um cinéfilo aqui viu trechos, outro lá teve acesso a uma cópia precária, um outro acolá apenas leu sobre e cita sem conhecer.

Acho que este é o caso de “A caixa de Pandora” (“Die Buchse der Pandora”) que o alemão Georg Wilhelm Pabst dirigiu em 1928 e que, no mundo inteiro, estreou no ano seguinte, para regozijo de alguns e indignação de outros.

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Eu mesmo conhecia uma versão truncada do filme de Pabst, que vi, no começo dos anos oitenta, num cineclube de Bloomington, Estados Unidos – cópia tão precária que, nem de longe, me deu a idéia da grandiosidade da obra. Agora, em uma matinal toda especial do Cine Mirabeau, vejo, para o meu deleite e de alguns espectadores privilegiados, o filme inteiro, com legendas em português e tudo mais.

Embora o enredo seja longo e desdobrado, trata-se de um filme de personagem, e a personagem é Lulu, essa mulher nada honrada, fascinante assim mesmo (ou por isso mesmo), que se sabe bela e usa sua beleza para fazer conquistas e conseguir o que, no momento, deseja, e pode deixar de desejar no momento seguinte. Ousada e marcante, a interpretação é da atriz americana Louise Brooks que, para decepção de divas alemães, foi fisgada de Hollywood e tomou o lugar de Marlene Dietrich.

O sex appeal de Louise Brooks

O sex appeal de Louise Brooks

Alta, elegante, sensual, provocadora, inconseqüente, acho que Lulu, com seus cabelos de seda e seus decotes generosos, foi a primeira “vamp” da história do cinema. Se não foi a primeira, foi a mais renomada. Dizem que quando, dezessete anos mais tarde, em 46, estreou o filme de Charles Vidor de cuja protagonista (Rita Hayworth) se dizia que “nunca houve mulher como Gilda”, alguns cinéfilos da época protestaram, alegando que antes de Gilda, houvera Lulu. Acho que faz sentido.

De profissão Lulu é dançarina e atriz, mas a expressão ´prostituta de luxo´ vem mais ao caso. O seu sex appeal é tão forte que até mulheres atraia e, com efeito, um certo subplot de lesbianismo é desenvolvido ao longo do enredo, com certeza, o primeiro caso na história do cinema.

No começo da estória a encontramos como amásia desse executivo de meia idade que está para contrair matrimônio com moça da sociedade berlinense. Por capricho, Lulu o força a casar com ela, e na festa do casamento, já é encontrada pelo marido nos braços de outro. O fato redunda em disparos de revolver, morte, prisão, júri, e revolta popular, mas, ao invés de reconstituir o roteiro prefiro lembrar ao leitor o mito que inspira o filme e o intitula.

Subplot lésbico em A Caixa de Pandora

Subplot lésbico em A Caixa de Pandora

Nos tempos míticos do Olimpo grego, Zeus andava de mal com os irmãos Prometeu e Epimeteu. Combina, assim, com outros deuses, em criar uma mulher que leve os dois à ruína. Cada um dando um contributo, os deuses confeccionam essa mulher perfeita, que chamam de Pandora, já que ´pan´ significa tudo e ´dora´, dons. Desconfiado, Prometeu (literalmente: ´aquele que vê antes´) não quer saber de Pandora, e previne o irmão Epimeteu (´aquele que só vê depois´). Como está no seu nome, Epimeteu não vê o mal que está em Pandora e se dá mal: casa com ela e abre a caixa (um presente de grego) que ela traz consigo. Dentro da caixa estavam todos os males do mundo (doença, envelhecimento, morte…) que emergem de lá e que – por extensão metafísica – até hoje nos castigam, a nós todos e não apenas a Epimeteu. Somente um ingrediente não saiu da caixa de Pandora, que foi a esperança – único consolo da humanidade até hoje e para sempre. Ufa, haja sufoco.

Não sei até que ponto o mito grego de Pandora contém uma moral, porém, o filme de Pabst, sim. Havendo escapado das garras da lei e fugido para a Inglaterra, a pecadora Lulu, agora em Londres, não escapará das garras de um assassino muito afamado da época, Jack o estripador…

Lulu: adorada pelos homens

Lulu: adorada pelos homens

Se você for atrás de “A caixa de Pandora”, não esqueça que o filme é mudo, com legendas intercaladas entre as cenas. Contudo, a direção de atores é tão enfática e a montagem tão fluente que as legendas quase se tornam dispensáveis.

Se o estilo ainda é o do Expressionismo, movimento artístico que prevaleceu na Alemanha das primeiras décadas do século XX, o intento de narrar com lógica e de construir um personagem vivo e vibrante ameniza os traços expressionistas. Aqui não há mais, por exemplo, cenários sufocantes, sombras em excesso nem vestuários temáticos. A mim ocorreu-me que “A caixa de Pandora” parece moderno, adiante de sua época – um pouco mais “noir” que propriamente expressionista, sem esquecermos que a mulher fatal (cf a figura vamp de Lulu) foi um actante decisivo no típico filme noir dos anos quarenta e cinquenta.

Mas, o que é que estou dizendo? As obras superiores não cabem em categorias, e, fruto da cabeça criativa de um gênio do cinema, “A caixa de Pandora” se impõe por si mesmo como um filme original e, ainda hoje, perturbador.

Seios à mostra e outras ousadias

Seios à mostra e outras ousadias