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Grandes olhos

22 maio

 

Perdi “Grandes olhos” (“Big Eyes”, 2014) quando de sua estréia nos cinemas locais, e só agora o vejo em DVD, esse meio que diminui o tamanho de todos os olhos.

Acho que a primeira coisa a ser dita é que se trata de um Tim Burton diferente, espécie de ´odd man out´ na sua filmografia, um filme sem a obsessão gótica que o persegue, salvo talvez nas estranhas imagens oculares do título.

big eyes 1

E nem por isso é, como querem alguns, um filme descartável. Ao contrário, pode ser visto com interesse, e até mesmo com entusiasmo, principalmente por quem, de uma forma ou de outra, está ligado aos seus temas centrais, que são dois, não propriamente isotópicos.

O primeiro tema é aquele que pode ser resumido na frase-clichê ´dormindo com o inimigo´ (título de outro filme), e que descreve a situação de mulheres vitimadas pelo casamento. O segundo é pintura.

Sim, o filme conta a estória da dona de casa e pintora americana Margaret Keane, aquela que ficou famosa pelos seus retratos de crianças com enormes olhos negros e brilhantes, assustadoramente tristes, depois imitados ad nauseam por um monte de plagiadores mundo afora.

Amy Adams é Margaret Keane

Amy Adams é Margaret Keane

Mas, como diz a frase-clichê de um de seus temas, o mal começou em casa. Vamos por etapas.

Um dia a ainda diletante Margaret está, modestamente, expondo os seus quadros numa praça em São Francisco, quando conhece um vizinho de vendas que muito a elogia. Walter está vendendo, bem mais caro que ela, pinturas que representam ruas de Paris onde ele teria, supostamente, estudado arte.

Os dois têm um caso e casam. Para resumir, o casamento vira um negócio, extremamente vantajoso para ele, degradante para ela. Como os marchands de então – anos cinquenta – não costumavam divulgar produções de mulheres, ele passa a assinar – com o sobrenome dos dois, Keane – os quadros que ela pinta. Tudo às escondidas, até da filha pequena que ela traz do primeiro casamento.

Quanto mais sucesso ele faz, e quanto mais proveito tira desse sucesso, mais ela se sente mal.

Claro, não demora muito para ela perceber que está dormindo com um trambiqueiro de marca maior, mas o tamanho do trambique aumenta consideravelmente no dia em que ela descobre que sequer as pinturas de Paris eram de autoria dele, o que significava dizer, que ele, a rigor, não pintava coisa nenhuma.

Mais tarde, em júri, isso vai ficar claro, porém, até chegar o ponto de essa mulher rebelar-se, fugir de casa e processar o marido, muita coisa rola, inclusive uma ameaça de morte.

O trambiqueiro Walter Keane é feito por Christoff Waltz

O trambiqueiro Walter Keane é feito por Christoff Waltz

Nos casos conhecidos de casamento com violência masculina é comum que o homem vá minando as forças físicas da companheira até um ponto crítico, que pode ser o uxoricídio. Aqui a violência é mais sutil, quase se diria existencial, e, por isso mesmo, mais grave.

O que Walter suga em Margaret é a sua identidade, assinando seus quadros e relatando à imprensa lendas (leia-se mentiras) sobre a origem de suas motivações plásticas. As figuras de crianças de olhos grandes, segundo ele, teriam surgindo das vítimas da Segunda Guerra que ele teria visto na Alemanha, quando –  saberemos mais tarde – ele nunca pisara em solo europeu.

No papel da pintora Margaret Keane, a atriz Amy Adams está muito bem, mas, melhor ainda está esse Christoph Waltz como o marido trambiqueiro, cuja personalidade vai sendo descascada pela narração onisciente (para a esposa e para nós), como se descasca uma cebola, paulatinamente, camada por camada, cada camada uma surpresa a mais… Notem como sua interpretação cavilosa lembra o nazista que ele fez em “Bastardos inglórios” (2009).

Aquele filme com Julia Roberts que tinha a nossa frase-clichê como título (“Dormindo com o inimigo”, lembram?) era completamente ficcional, ao passo que “Grandes olhos”, como se vê, é baseado bem de perto na vida real da real Margaret Keane.

Tanto é assim que o desenlace favorável à protagonista – aquele campeonato de pintura no tribunal do Havaí, que mais parece cena de comédia hollywoodiana para sessão da tarde – não é nenhuma licença poética: aconteceu tal e qual. Para reforçar a veracidade do caso todo, os créditos finais contrapõem fotos dos dois atores principais a fotos dos personagens reais, ambos ainda hoje vivos.

Eu disse que “Grandes olhos” interessa a quem está ligado aos seus temas? Que nada. Interessa a todo mundo.

Na foto, a pintora Margaret Keane e a atriz Amy Adams

Na foto, a pintora Margaret Keane e a atriz Amy Adams

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A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.