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CANÔNICOS

10 jan

Quais os melhores filmes do mundo? Com mil, quinhentos, cem ou dez títulos sugeridos, as listas pululam nas revistas, livros e sites de cinema de toda parte, de modo a deixar o espectador confuso. A implicação por trás dessas listas é que os filmes escolhidos contribuiriam para a concepção de uma espécie de cânone cinematográfico.

Com intenções canônicas ou não, a sugestão mais famosa, e, sobretudo, a mais respeitada, vem do grupo formado pelo British Film Institute e a revista Sight & Sound que, de dez em dez anos, apresenta a sua relação dos dez mais – e isto desde 1952, ou seja, já estamos na sétima lista, sendo a última de 2012.

O que concede respeitabilidade às listas do grupo do B.F.I. + Sight & Sound é o rol dos seus votantes, críticos, historiadores, cineastas e outros profissionais da área, originários de toda parte do planeta, todos nomes consagrados. De forma que, mesmo que o espectador não simpatize com o procedimento de ´fazer listinhas´, seria insensato não considerar o trabalho do grupo referido.

Evidentemente, toda iniciativa de listar filmes está presa a certas circunstâncias temporais, e a do grupo B.F.I. + Sight & Sound, que já recobre mais de meio século, não foge à regra. Digamos primeiramente o óbvio: que só se pode votar em filmes realizados até à data da votação: na primeira edição, em 1952, ninguém poderia ter votado, por exemplo, em Oito e meio, simplesmente porque o filme não existia, como não existia mais da metade do cinema mundial realizado no século XX. O curioso é que na lista de 2012 (veja adiante), a maior parte dos filmes elencados pertence à primeira metade do século.

Ladrões de bicicleta encabeçou a primeira do IBF.

Além do mais, o tempo não é a única circunstância. Às vezes interferem fatores de ordem histórica ou similares. Caso da obra prima de Orson Welles, Cidadão Kane que, desde sua inclusão na lista de 1962, manteve o primeiro lugar, até 2002. Ora, sendo de 1941, ele poderia ter estado na primeira lista, a de 1952, mas não esteve: por quê? Pelo fato de, em virtude da Segunda Guerra Mundial, não ter sido lançado na Europa, sendo até então um ilustre desconhecido do pessoal do B.F.I. + Sight & Sound. Caso idêntico se deu com Um corpo que cai, hoje no topo da lista, mas que só começou a ter seu nome citado quase duas décadas após seu lançamento em 1958, devido ao fato de, por questões jurídicas, ter ficado fora de circulação até a morte de seu autor, Alfred Hitchcock, em 1981.

Como já dito, de 1952 a 2012 o grupo do B.F.I. + Sight & Sound compôs sete listas dos dez melhores filmes do mundo. A primeira ideia é que o total seriam setenta filmes, mas, que nada. As recorrências dos títulos são muitas, tantas que reduzem esse suposto total para apenas… trinta e quatro títulos. Às vezes até cineastas são repetidos numa mesma lista, casos de Charles Chaplin em 1952, de Orson Welles em 1972, e de Francis Ford Coppola em 2002.

O que vou fazer aqui é apenas comentar brevemente o desempenho de cada um desses filmes dentro das listas, mencionando sua posição (de primeiro a décimo lugar) e sua – se houver – repetição nas listas seguintes, considerando – se houver – as variações de suas posições. Para tanto, seguirei, rigorosamente a cronologia, começando assim meu comentário com o primeiro filme da primeira lista (a de 1952, não esqueçamos) e terminando com o último filme da última lista (a de 2012).

O filme em primeira posição na lista de 1952 é Ladrões de bicicleta, de 1948. Considerado um marco do neo-realismo italiano, este comovente drama de Vittorio DeSica apareceria ainda, rebaixado para o sétimo lugar, na lista de 1962, e nunca mais seria indicado nas listas posteriores. O segundo e terceiro lugares são para dois filmes de Chaplin, respectivamente, Luzes da cidade e Em busca do ouro, os quais não iriam aparecer mais, em lista alguma. Já o quarto lugar foi para um filme cuja indicação seria repetida nada menos que seis vezes: quarto lugar em 1952, sexto em 1962, terceiro em 1973, sexto de novo em 1982, nono em 1992 e finalmente, segundo lugar em 2002. Refiro-me a O encouraçado Potemkin, do russo Sergei Eisenstein. O quinto lugar é do longa-metragem, superprodução de D.W. Griffith, Intolerância (1919), sem repetição em outras listas. No sexto lugar, A história de Louisiana (Robert Flaherty, 1948) também não conseguiu repetição de votos. Já Ouro e maldição (Erich von Stroheim, 1924), em sétimo lugar, teve voto repetido em 1962, no quarto. Trágico amanhecer (Marcel Carné, 1939) é o oitavo posicionado nesta lista e não foi mais mencionado em lista alguma. A nona posição é de um dos favoritos dos votantes, O martírio de Joana Darc (1928), do dinamarquês Carl Dreyer, reaparecendo em sétimo lugar em 1972, de novo em sétimo em 1992 e em nono em 2012.

Cidadão Kane : cinco vezes em primeiro lugar

Com relação ao décimo lugar ocorreu um empate tríplice entre Desencanto (David Lean, 1945), O milhão (René Clair, 1931) e A regra do jogo (Jean Renoir, 1939). Os filmes de Lean e Clair não teriam lugar em listas posteriores, enquanto que o de Renoir é o único filme que conseguiu menções em todas as listas do B.F.I. + Sight & Sound, superando em recorrência até o campeão de preferência Cidadão Kane. Acompanhem: décimo em 1952, terceiro em 1963, segundo em 1972, segundo em 1982, segundo em 1992, segundo em 2002 e, finalmente, quarto em 2012. Portanto, sete menções em sete listas. Um recorde.

Com isso, podemos passar à segunda lista do B.F.I. + Sight & Sound, a de 1962. Lembrando que, a partir deste ano, deixaremos de referir os filmes já mencionados nas listas dos anos anteriores.

Como já dito, é nesta lista que Cidadão Kane (1941) aparece pela primeira vez e inicia sua brilhante carreira na condição quase imbatível de “o filme mais perfeito já feito”. No privilegiado primeiro lugar deste ano, ele também será votado assim em 1972, 1982, 1992 e 2002. Só em 2012 perde essa posição (para Um corpo que cai) e desce para o segundo lugar.

O segundo lugar deste ano vai para o italiano A aventura, de Michelangelo Antonioni (1960), que passará a quinto posicionado em 1972, e sétimo em 1982, para, depois disso, desaparecer. Contos da lua vaga, do japonês Kenji Mizoguchi (1952) ocupa o quinto lugar neste ano, e o décimo na lista de 1972. Ivan o terrível, de Sergei Eisenstein (1944), toma o oitavo lugar, sendo esta a sua única aparição. Também com uma única aparição está, em nono lugar, o La terra trema, de Luchino Visconti (1948). Já o clássico L´Atalante, de Jean Vigo (1934) fica este ano em décima posição, passando à sexta, três décadas depois, em 1992.

Da lista da década seguinte, 1972, os três primeiros lugares já foram comentados, e passamos, portanto ao quaro lugar, que é do italiano Oito e meio, de Federico Fellini, repetido em 1982 (quinto lugar), em 2002 (nono lugar) e 2012 (décimo lugar). Em seguida vem A general, em oitavo lugar, e nono na lista de 1982. O nono da década vai ser Soberba, seguido de Morangos silvestres, este em décima posição.

Na lista de 1982 as novidades são: Os sete samurais em terceiro lugar, sem repetição em listas seguintes; Cantando na chuva em quarto, repetido em 2002 em décimo lugar. Como dito acima, é neste ano que Um corpo que cai é votado pela primeira vez, no caso em nono lugar, passando a quarto em 1992, a segundo em 2002, e finalmente a primeiro lugar em 2012, destronando o quase imbatível Cidadão Kane. Esta também é a primeira votação para Rastros de ódio (décimo lugar), que será votado de novo em 1992 (quinto) e 2012 (sétimo). Aqui cabe registrar que este é o único western a ser escolhido pela equipe da B.F.I. + Sight & Sound.

A regra do jogo, 1939, um recorde: sete vezes nas sete listas.

Em 1992 os novos votados foram três: o japonês Era uma vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (terceiro lugar), que terá repetição nas décadas seguintes, no caso, sexto em 2002, e terceiro em 2012; o indiano A canção da estrada, de Satyajit Ray, em oitavo lugar, sem repetição nas décadas seguintes. A décima colocação desta lista vai para 2001-uma odisseia no espaço, o qual permanecerá nas décadas seguintes: em sétimo lugar em 2002 e em sexto em 2012.

Em 2002 são introduzidos O poderoso chefão (em quarto lugar) e O poderoso chefão II (em quinto lugar), ambos sem repetição em listas seguintes. A outra novidade desta década será o Aurora de Murnau, (em nono lugar), repetido em 2012 em quinto lugar.

A por enquanto última lista do B.F.I. + Sight & Sound, a de 2012, trouxe uma única novidade e uma novidade bem antiga: o documentário do russo Dziga Vertov, de 1929, Um homem com uma câmera, colocado em oitavo lugar. Aliás, como já comentado, esta é uma lista de dez filmes antigos, sendo o mais moderno de 1968. Tanto é assim que, na ocasião de sua divulgação, publiquei, neste Correio das Artes, matéria de título “Quanto mais velho melhor”. Para efeito de ilustração, faço a reprodução desta lista, indicando os anos de lançamento:

Um corpo que cai, 1958

Cidadão Kane. 1941

Era uma vez em Tóquio, 1953

A regra do jogo, 1939

Aurora, 1927

2001 – uma odisseia no espaço, 1968

Rastros de ódio, 1956

Um homem com uma câmera, 1929

A paixão de Joana D´arc, 1928

Oito e meio, 1963

 

Quem considera o conjunto das sete listas do B.F.I. + Sight & Sound (recordando: trinta e quatro filmes votados no período de seis décadas) pode não ficar satisfeito com as escolhas – o que é mais do que esperável e mais do que compreensível. Acho que ao cinéfilo ocorrem ausências incômodas. Por exemplo: nunca houve voto para O anjo azul, Crepúsculo dos deuses, Casablanca, A felicidade não se compra, Vidas amargas, Hiroshima meu amor, Jules et Jim, etc… E mesmo um “xodó” da crítica como O ano passado em Marienbad nunca foi mencionado. Um filme que traz a fama de haver ensinado o cinema a se expressar semioticamente, O nascimento de uma nação (D. W. Griffith, 1915) tampouco teve voto.

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Um corpo que cai (Vertigo, 1958), no topo da lista em 2012

No geral, o que caracteriza os filmes da B.F.I. + Sight & Sound? Difícil dizer, a não ser que se alegue a qualidade. No que toca aos gêneros, há de quase tudo – do documental à comédia, do épico à ficção científica – mas, o gênero mais frequente parece ser mesmo o drama, ou se for o caso, o filme sem gênero definido. Mesmo nas listas mais atuais, as décadas privilegiadas são, primordialmente, as mais antigas, conforme fica claro na lista de 2012, acima reproduzida. Feito o cômputo geral, a primeira metade do Século XX ganha, e muito bem, da segunda metade. E, claro, o novo milênio (mesmo na lista de 2012) é elegantemente ignorado.

Com relação às nacionalidades, estas variam, mas nem tanto. Não há, por exemplo, nestas trinta e quatro obras cinematográficas de que estamos tratando, filmes latino-americanos, nem africanos, e os asiáticos são em número reduzido: alguns soviéticos, alguns japoneses e um indiano. Se pensarmos naquela famosa dicotomia da crítica historiográfica, que separa o Cinema Clássico Americano do Cinema de Arte Europeu, vamos ter um interessante empate: exatamente treze filmes para cada lado da dicotomia. Para fechar esta matéria, cito, na ordem das aparições nas listas, estes vinte e seis filmes:

CINEMA DE ARTE EUROPEU

Ladrões de bicicleta; Trágico amanhecer; A paixão de Joana D´Arc; Desencanto; A regra do jogo; O milhão; A aventura; A terra treme; L´Atalante; Persona; Morangos silvestres; Oito e meio; Aurora.

CINEMA CLÁSSICO AMERICANO

Luzes da cidade; Em busca do ouro; Intolerância; Ouro e maldição; Cidadão Kane; A general, Soberba; Cantando na chuva; Um corpo que cai; Rastros de ódio; 2001 – uma odisseia no espaço; O poderoso chefão; O poderoso chefão II.

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Rastros de ódio (The searchers, 1956), o único western nas sete listas do BFI e Sight&Sound

Cinema interativo

30 mar

Uma das magias do cinema é dominar o espectador e conduzi-lo para onde o filme quer, sem direito à participação no desenvolvimento da estória.  E vejam que nem sempre o desejo do espectador coincide com o desejo do filme.  Não é raro se ouvir, ou ler, comentários de alguém sobre um filme que ama, fazendo restrições a certos caminhos narrativos que o filme tomou.

Acho que um exemplo clássico está em “Casablanca”. Quantos espectadores românticos não desaprovam o triste desenlace no aeroporto, com a separação do casal apaixonado. Mas a rigor há casos piores. Por que a pobre prostituta tem que sofrer mais um golpe em “Noites de Cabiria”? Por que se reserva a cadeira elétrica para o protagonista de “Um lugar ao sol”? Por que à esposa de “Desencanto” é negado o sonho romântico de um amor verdadeiro? E quando o filme começa com o protagonista já morto, o corpo boiando numa piscina, como em “Crepúsculo dos deuses”?

Talvez tenham sido – quem sabe? – estas e outras insatisfações dessa ordem o que levou o grupo criador da Série Black Mirror a conceber um filme como “Bandersnatch” (David Slate, 2018). E o que há de especial nesse filme? Literalmente, a possibilidade de mudar o desenvolvimento do enredo e, portanto, ter um desenlace, se for o caso, mais ao gosto do espectador. Ou menos.

Credit: Netflix / Black Mirror

Explico: ao longo do filme foram adicionados “botões de mudança” – chamemo-los assim -, que podem ou não ser acionados pelo espectador. Se um botão desses é acionado, o enredo muda, tomando um caminho narrativo que não é o do filme a que se assiste. De modo que o espectador tem várias alternativas: a primeira seria ignorar os tais botões de mudança e assistir ao filme por inteiro. A segunda seria acionar os botões de mudança (um só, ou todos) e se divertir com as viradas no enredo, escolhendo, talvez, ficar com o desenlace de que mais gostou. Uma terceira alternativa seria fazer duas sessões, uma com as mudanças, e outra com o filme original inteiro, depois comparando os resultados.

Dou um exemplo. Vamos supor que, o enredo já andado, o personagem está posto diante de uma certa dificuldade que poderia ser resolvida com um telefonema, embora o contato com essa pessoa do outro lado de linha seja perigoso. Telefonar ou não? Na versão original o personagem faz a ligação telefônica, porém, se nesse ponto da narrativa, você acionar o botão de mudança, o personagem não fará a ligação e, consequentemente, o rumo da estória narrada vai ser outro, bem diverso do filme inteiriço.

Trata-se de cinema interativo, não tenhamos dúvidas, provavelmente concebido para um público infanto-juvenil, afeito aos jogos eletrônicos, mas, o que me leva a escrever sobre o assunto são as suas implicações de natureza teórica.

Com efeito, assistindo a “Bandersnatch”, uma constatação óbvia é que os ´pontos de mudança´ na linha narrativa não se situam em qualquer parte da estória: eles estão postos em momentos críticos, como o acima descrito no nosso exemplo.

Em outras palavras, eles coincidem com o que, em linguagem cinematográfica, se chama de “turning points” (pontos de virada), aqueles instantes pontuais em que, em qualquer filme, o andamento do enredo sofre alguma espécie de mudança.

O turning point é antigo no cinema e já está em “O nascimento de uma nação” (Griffith, 1915), para não dizer que, de alguma forma, já está em “O regador regado” (1896) dos irmãos Lumière. Desde sempre os diretores brincam com ele, tirando efeitos que prendem o espectador, ao aumentar a temperatura dramática, ou, se for o caso, a curiosidade sobre o devir da narração.

Nas primeiras décadas, os turning points eram apenas dois num mesmo filme. As narrativas eram geralmente tripartites e eles serviam para separar uma parte da outra. Assim o primeiro turning point separava a EXPOSIÇÃO (parte inicial e descritiva do filme) da CONFLITUAÇÃO (parte mais longa e narrativa, onde os conflitos aparecem e se desenvolvem); já o segundo turning point separava a CONFLITUAÇÃO da RESOLUÇÃO (como o nome sugere, o desenlace do filme).

Com o passar do tempo e da experiência, a estrutura narrativa do filme foi se tornando mais complexa e os turning points foram se multiplicando, ou ocupando lugar diverso do tradicional na linha narrativa.

Muito comum é que a prática do turning point esteja ligada ao jogo de fornecimento, ou sonegação, de informação diegética que o filme nos oferece. Para ilustrar, vamos tomar o exemplo de “Um corpo que cai” (Hitchcock, 1958).

Cena de “Um corpo que cai”

O filme trata de um plano ardiloso para matar uma esposa rica, pondo a culpa em outrem, no caso, em um detetive aposentado que sofria de acrofobia. O detetive Scottie (James Stewart) e a suposta vítima (Kim Novak se fazendo de Madeleine) não se conheciam e só se aproximam na falsa tentativa de suicídio dela na baia de São Francisco – este seria assim o primeiro turning point do filme. Até então, nem Scottie nem nós espectadores sabemos do plano criminoso. Vamos saber tempos depois quando (o crime já perpetrado na Torre do Convento de São João Batista) Scottie conhece essa moça, de nome Judy Barton, mais especificamente, no momento em que ela escreve aquela carta relatando tudo – carta que nós lemos, mas ele não – e a rasga. Este seria o segundo turning point. O terceiro vai ocorrer, mais tarde, num dia em que Judy Barton, agora transformada por Scottie em uma nova Madeleine, usa o colar da mulher assassinada, e faz Scottie dar-se conta de que fora vítima de um plano criminoso. Agora, tanto Scottie quanto nós conhecemos a verdade. Um quarto turning point pode ser citado, na viagem final ao Convento – o local do crime – no momento em que Judy Barton dá-se conta de que Scottie ficara sabendo do plano. Só após tais mudanças no enredo,- com o fornecimento de informação diegética crescendo de personagem a personagem, o espectador aí incluindo – só após tais mudanças podemos ter o triste desenlace de “Um corpo que cai”.

Se o filme de Hitchcock fosse submetido (Deus nos livre disso!) aos ´botões de mudança´ da série Black Mirror, estes citados – e não outros – seriam, com certeza, os pontos da narrativa escolhidos para iniciar novos desdobramentos da estória.

Enfim, voltando a “Bandersnatch”, mais que um mero jogo infanto-juvenil, o filme de David Slate pode ser encarado, favoravelmente, como uma proposta experimental que suscita a reflexão sobre o funcionamento da linguagem cinematográfica, por tabela nos fazendo tomar consciência do conceito de turning point, um procedimento narrativo tão importante na técnica de contar uma estória por imagens.

Mas, atenção, não deixemos de anotar: nesse tipo de cinema interativo, as opções, em número reduzido, já estão dadas pelo jogo, o que equivale a dizer que, de qualquer forma, o espectador não escolhe, ele próprio, a forma de o filme terminar. Escolhe, sim, entre as cinco ou seis, já dadas pelo jogo.

Enfim, por enquanto a participação do espectador no filme, digo, em qualquer filme, continua sendo emocional. E isto já é muito…

A noite púrpura do paraíso

13 set

Tenho um amigo, Limeira, que é louco por cinema, vê um filme atrás do outro, se possível dez num dia, e, no entanto, estou em dúvida se posso chamá-lo de cinéfilo. Vou contar o caso, e vocês decidem.

Não o vejo sempre, mas, dia desses, nos encontramos e conversamos um bocado sobre cinema; ele, que fala mais que eu, foi logo me dizendo dos filmes que tem visto.

E qual foi o último que viu? perguntei.

E ele: Não lembro o nome, mas adorei aquela cena em que a Scarlett O´Hara está desnutrida e doente e Shane a arranca da cama e a põe na garupa do seu cavalo e vai pedir ajuda a Dr Jivago, que, irresponsavelmente, nada faz porque, na ocasião, está de transa com a bela Ilsa Lund, aquela que era casada com o Charles Foster Kane.

Se você não entendeu, não se preocupe: eu também não entendo quase nada que meu amigo Limeira fala.

Vivien Leigh como Scarlett O´Ohara.

Só tentando desembaralhar: Scarlett, como vocês lembram, é a protagonista de “E o vento levou”, filme de 1939, enquanto que Shane é o herói de “Os brutos também amam” (1953). Já “Dr Jivago” é um filme de 1965 sobre a revolução russa, onde não poderia estar Ilsa Lund, a heroína de “Casablanca” (1942), a qual nem conheceu o magnata da imprensa americana, chamado por Orson Welles, de “Cidadão Kane” (1941).

Tentando ordenar a memória fílmica de meu amigo Limeira, perguntei se ele sabia que “Um corpo que cai” estava sendo considerado o melhor filme do mundo pela crítica internacional. Ele disse que não sabia, mas que adorava esse filme. Não é aquele, de suspense, – perguntou – em que Elizabeth Taylor pula daquela torre alta, depois de saber que seu noivo, Montgomery Clift, tinha assassinado, afogada, a Shelley Winters?

Fi-lo ver que estava falando de outro filme, “Um lugar ao sol”, que nem torre nem pulo de torre tinha, e lembrei que a atriz de “Um corpo que cai” era Kim Novak. E ele emendou: ah, é mesmo. Então é aquele em que ela dança com William Holden, às margens do rio, numa noite de festa, mas, aí, o vilão do Robert Mitchum, que era vidrado em Kim, não gosta da dança e jura matar os dois, não sem antes tatuar nos dedos a palavra “hate” que significa ´ódio´…

Kim Novak

Tentei barrá-lo, mas ele, entusiasmado, continuou:

Ainda hoje eu vibro com aquela cena em que Mitchum estrangula Kim, naquele parque de diversão, a gente vendo o seu corpo desabar por cima da gente, até a grama, tudo mostrado pelos óculos dela, que tinham caído no chão.

E foi adiante:

Depois Mitchum foge, de trem, para uma cidadezinha do interior, para se juntar a um bando de malfeitores que o esperavam com o intento de matar o  Xerife, Gary Cooper. Com a ajuda da mulher, Rhonda Fleming, o xerife vence a querela e o episódio todo fica conhecido como ´O tiroteio no OK Curral´.

A essa altura, dei-me conta de que não adiantava consertar e que talvez fosse melhor mesmo deixar que meu amigo Limeira prosseguisse em suas viagens cinematográficas. Para ser franco, o nome dele é outro, e o chamo aqui de “Limeira” em associação ao nosso poeta do absurdo, Zé Limeira. Aliás, sua desorganização mnemônica, e talvez mental, pode ser surrealista, mas, confesso que, em certos momentos, admiro seus relatos, no mínimo, criativos.

Robert Mitchum

Gostei, por exemplo, quando ele me resumiu o roteiro de… Bem, vejamos.

Com o mesmo entusiasmo de antes, foi me contando este novo enredo: o filme agora se passa numa cidadezinha da Itália e o garotinho do lugar é ajudante do projecionista. O povo da cidade adora cinema, e a sala está sempre lotada. Pois uma certa noite, houve uma confusão danada porque – não se sabe como – o personagem do filme que estava sendo exibido, um galã hollywoodiano, simplesmente saiu da tela e foi namorar uma espectadora, uma mulherzinha pobre e desajeitada que trabalhava numa lanchonete, coitada, casada com um cara rabugento e mulherengo que só fazia explorá-la. Segundo meu amigo Limeira, o filme era dirigido por François Truffaut e, o tempo todo, a gente não assistia só ao filme; assistia também às filmagens sendo feitas na hora. Era muito interessante – disse ele – poder ver a câmera e os atores (ele lembrava bem a deslumbrante Jacqueline Bisset) em ação, e, afinal, no fundo, era uma aula de cinema em que ele próprio aprendeu, por exemplo, que certas cenas noturnas, em cinema, são filmadas durante o dia, com um filtro colocado na lente, para dar a impressão de estarmos à noite.

Quando lhe perguntei que filme era esse, ele disse que não lembrava bem o título, mas que era alguma coisa como… “A noite púrpura do paraíso”.

Jacqueline Bisset

Os 100 melhores filmes americanos

29 jul

Para alvoroçar a cinefilia do planeta, está circulando na imprensa mundial mais uma lista de filmes. É que a BBC resolveu fazer a relação dos cem melhores filmes americanos (isso mesmo) de todos os tempos, e para tanto, congregou 62 votantes, especialistas da crítica cinematográfica. O resultado é o esperado, e não é. Senão, vejamos.

Vamos começar nosso comentário com o topo da lista, digo, os dez mais. Entre esses dez estão pelo menos três dos filmes que sempre visitam a lista decenal da Sight & Sound, aquela que circula desde 1952, e que, para o cinema internacional, tem estatuto de cânone. Se considerarmos apenas a última edição, a de 2012, os três filmes comuns às duas listas são: Cidadão Kane, Um corpo que cai e Aurora.

Cidadão Kane, o número um.

Cidadão Kane, o número um.

Nesta apertada posição dos dez mais, os diretores variam em estilo e época. Orson Welles, como nas listas da Sight & Sound, está em primeiro lugar, mas em compensação, um diretor moderno, ainda vivo, Francis Ford Coppola, tem dois filmes na lista (O poderoso chefão e O poderoso chefão II), um deles num privilegiado segundo lugar. Alfred Hitchcock é outro diretor com dois filmes entre os dez melhores: Um corpo que cai em terceiro lugar, e Psicose em oitavo. Os outros diretores que comparecem são: Kubrick (com 2001 uma odisséia no espaço, no quarto lugar), John Ford (com o western Rastros de ódio em quinto); a dupla Stanley Done e Gene Kelly (com Cantando na chuva) e Michael Curtiz (com o indefectível Casablanca). A surpresa da lista deve ser o expressionista F.W. Murnau, com o seu belo Aurora. Digo, surpresa porque o cineasta é alemão, e o filme de Hollywood só tem mesmo a produção.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Veja os dez primeiros da lista:

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974

 

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Até aqui estive me referindo aos dez mais, porém, a lista inteira é de 100, lista que traz algumas surpresas. Lá estão os óbvios, os que imaginamos que estariam, mas também alguns filmes obscuros. Caso, por exemplo, de: O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978); As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941); Tramas do entardecer (Maya Deren, 1943) e Gray Gardens (Albert Maisles et alii, 1975). Se o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, 1982, é surpresa ou não, deixo para o leitor decidir.

No meu entender, estão de fora filmes que não deveriam estar, por exemplo, o emblemático A rosa púrpura do Cairo. Pensando bem, a relação dos ilustres ausentes é enorme. (Veja adiante meu comentário sobre os diretores ausentes) Alguns filmes foram mal posicionados, caso de E o vento levou, que aparece no nonagésimo oitavo lugar. Acho que outros foram mal escolhidos, como, no meu entender, é o caso de Marnie, um dos cinco hitchcockianos presentes, quando o mestre do suspense tinha mais de vinte realizações mais acabadas que ele.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Mas quem são os cineastas favoritos, os mais recorrentes na lista inteira? Como houve empates, cito-os pela ordem de antiguidade: Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Steven Spieberg (com cinco filmes mencionados), Howard Hawks, FF Coppola, Martin Scorsese (com quatro), Charles Chaplin, John Ford e Orson Welles (com três).

Inevitavelmente ou não, alguns dos grandes diretores do passado só compareceram uma única vez, casos de William Wyler (com Os melhores anos de nossas vidas), Frank Capra (com A felicidade não se compra) e George Stevens (com Um lugar ao sol). Em alguns casos, o único filme escolhido de um grande diretor não era o esperado: vejam o caso de Ernst Lubitsch que está presente, não por causa do badalado Ninotchka, e sim, pelo menos conhecido A loja da esquina.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

Uma lista dessas (ou qualquer uma) vai sempre provocar sustos, estranhamentos e mesmo indignações. No item das indignações é o caso quando se pensa em grandes cineastas que fizeram a história do cinema americano, contribuindo com algumas obras primas, e que não foram contemplados com um único título. Estou pensando em nomes com o gabarito de Fred Zinnemann (de, por exemplo, Matar ou morrer), de John Huston (O tesouro de Serra Madre), de Otto Preminer (Laura), de Elia Kazan (Vidas amargas). Ao se constatar que, na lista em questão, está A noite dos mortos vivos, fica difícil entender por que os filmes dos cineastas mencionados foram descartados.

Uma constatação interessante diz respeito às décadas, principalmente se considerarmos que a lista, em princípio, recobre os 120 anos da história do cinema. Tanto é que nela está o primevo Nascimento de uma nação (1915) e o recente Doze anos de escravidão (2013).

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

A década mais recorrente é a dos anos setenta (20 filmes) seguida dos anos cinquenta (14 filmes), anos quarenta e oitenta (13 ambas), anos sessenta e noventa (8 ambas), anos trinta (7) e anos vinte (5). É significativo saber que aquele período da história chamado de Hollywood Clássica – dos anos trinta aos cinquenta – ficou com um pouco mais de um terço do total: 34 filmes, enquanto que o cinema do novo milênio, de 2001 em diante, só compareceu com 6 filmes.

Enfim, eis a lista completa. Veja se aí estão os seus filmes preferidos.

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974
11. Soberba Orson Welles 1942
12. Chinatown Roman Polanski 1974
13. Intriga Internacional Alfred Hitchcock 1959
14. Nashville Robert Altman 1975
15. Os Melhores Anos das Nossas Vidas William Wyler 1946
16. Quando os Homens são Homens Robert Altman 1971
17. Em busca do Ouro Charlie Chaplin 1925
18. Luzes da Cidade Charlie Chaplin 1931
19. Taxi Driver Martin Scorsese 1976
20. Os Bons Companheiros Martin Scorsese 1990
21. Cidade dos Sonhos David Lynch 2001
22. Ouro e Maldição Erich von Stroheim 1924
23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Woody Allen 1977
24. Se Meu Apartamento Falasse Billy Wilder 1960
25. Faça a Coisa Certa Spike Lee 1989
26. O Matador de Ovelhas Charles Burnett 1978
27. Barry Lyndon Stanley Kubrick 1975
28. Pulp Fiction: Tempo de Violência Quentin Tarantino 1994
29. Touro Indomável Martin Scorsese 1980
30. Quanto Mais Quente Melhor Billy Wilder 1959
31. Uma Mulher Sob Influência John Cassavetes 1974
32. As Três Noites de Eva Preston Sturges 1941
33. A Conversação Francis Ford Coppola 1974
34. O Mágico de Oz Victor Fleming 1939
35. Pacto de Sangue Billy Wilder 1944
36. Star Wars George Lucas 1977
37. Imitação da Vida Douglas Sirk 1959
38. Tubarão Steven Spielberg 1975
39. O Nascimento de uma Nação DW Griffith 1915
40. Tramas do Entardecer Maya Deren e Alexander Hammid 1943
41. Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) Howard Hawks 1959
42. Dr. Fantástico Stanley Kubrick 1964
43. Carta de Uma Desconhecida Max Ophüls 1948
44. Sherlock Jr. (Buster Keaton 1924
45. O Homem que Matou o Facínora John Ford 1962
46. A Felecidade Não se Compra Frank Capra 1946
47. Marnie – Confissões de uma Ladra Alfred Hitchcock 1964
48. Um Lugar ao Sol George Stevens 1951
49. Cinzas no Paraíso Terrence Malick 1978
50. Jejum do Amor Howard Hawks 1940
51. A Marca da Maldade Orson Welles 1958
52. Meu Ódio Será Sua Herança 5Sam Peckinpah 1969
53. Grey Gardens Albert e David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer 1975
54. Crepúsculo dos Deuses Billy Wilder 1950
55. A Primeira Noite de um Homem Mike Nichols 1967
56. De Volta para o Futuro Robert Zemeckis 1985
57. Crimes e Pecados Woody Allen, 1989
58. A Loja da Esquina Ernst Lubitsch 1940
59. Um Estranho no Ninho Milo? Forman 1975
60. Veludo Azul David Lynch 1986
61. De Olhos Bem Fechados Stanley Kubrick 1999
62. O Iluminado Stanley Kubrick 1980
63. Amantes John Cassavetes 1984
64. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
65. Os Eleitos Philip Kaufman 1983
66. Rio Vermelho Howard Hawks 1948
67. Tempos Modernos Charlie Chaplin 1936
68. Interlúdio Alfred Hitchcock 1946
69. Koyaanisqatsi Godfrey Reggio 1982
70. A Roda da Fortuna Vincente Minnelli 1953
71. Feitiço do Tempo Harold Ramis 1993
72. Tensões em Shangai Josef von Sternberg 1941
73. Rede de Intrigas Sidney Lumet 1976
74. Forrest Gump – O Contador de Histórias Robert Zemeckis 1994
75. Contatos Imediatos do Terceiro Grau Steven Spielberg 1977
76. O Império Contra-Ataca Irvin Kershne 1980
77. No Tempo das Diligências John Ford 1939
78. A Lista de Schindler Steven Spielberg 1993
79. A Árvore da Vida Terrence Malick 2011
80. Agora Seremos Felizes Vincente Minnelli 1944
81. Thelma & Louise Ridley Scott 1991
82. Os Caçadores da Arca Perdida Steven Spielberg 1981
83. Levada da Breca Howard Hawks 1938
84. Amargo Pesadelo John Boorman 1972
85. A Noite dos Mortos-Vivos George A Romero 1968
86. O Rei Leão Roger Allers e Rob Minkoff 1994
87. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Michel Gondry 2004
88. Amor, Sublime Amor Robert Wise e Jerome Robbins 1961
89. No Silêncio da Noite Nicholas Ray 1950
90. Apocalypse Now Francis Ford Coppola 1979
91. ET: O Extraterrestre Steven Spielberg 1982
92. O Mensageiro do Diabo Charles Laughton 1955
93. Caminhos Perigosos Martin Scorsese 1973
94. A Última Noite Spike Lee 2002
95. Diabo a Quatro Leo McCarey 1933
96. Batman – O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan 2008
97. E o Vento Levou Victor Fleming 1939
98. O Portal do Paraíso Michael Cimino 1980
99. 12 Anos de Escravidão Steve McQueen 2013
100. A Montanha dos Sete Abutres Billy Wilder 1951

 

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

 

Idílio perigoso

21 nov

Como continuo enjoado do cinema de hoje em dia, fui refugiar-me, mais um vez, em mais um clássico do passado, desta feita o noir de Jacques Tourneur “Idílio perigoso” (1944), em que a bela Hedy Lamarr está no topo do elenco.

Estória de época, o filme é um thriller psicológico cujo enredo pode ser resumido de várias maneiras. Se quisesse, eu poderia resumi-lo assim: marido contrata profissional para seguir de perto sua bela esposa, que suspeita louca, mas, na verdade, o plano esconde uma intenção de assassinato. Pois é, não parece “Um corpo que cai”, catorze anos antes dele?

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Outra forma de resumir o enredo, mais detalhada, começaria assim: em viagem de trem, numa noite de tempestade, o Dr Bailey faz amizade com essa senhora que diz estar escrevendo a biografia do irmão, o conhecido milionário Nick Bederaux. Sendo, mais tarde, apresentado aos Bederaux, o médico ficará sabendo que a tal senhora do trem falecera no dia seguinte à viagem. Outra descoberta do médico tem a ver com o mistério envolvido na figura da esposa do milionário, a bela Allida, cujo retrato ele já admirara no Museu da cidade. Allida é dada como “fatal”, mas, o cada vez mais intenso adentramento do médico na estranha família Bederaux vai mostrar que não é bem assim.

Suspendo o resumo, mas acho que vale lembrar as curiosas semelhanças de “Idílio perigoso” com três filmes rodados no mesmo ano: “Um retrato de mulher” (Fritz Lang), “Laura” (Otto Preminger) e “À meia luz” (George Cukor).

Embora um filme de época (a estória se passa em 1903), “Idílio perigoso” tem todos os ingredientes do gênero noir, uma especialidade da companhia produtora, a RKO, e mais que isso, do diretor Jacques Tourneur, conhecido pela crítica como o mestre do “horror implícito”, aquele que tem mais força porque, embora sempre sugerido, não aparece na tela.

Uma cena em flashback: Allida ainda jovem

Uma cena em flashback: Allida ainda jovem

Como em todo bom noir, o seu ponto alto é a fotografia, no caso o belo preto-e-branco assombroso do grande Tony Gaudio que já nos impressiona na antológica cena de abertura, com a poderosa e incrivelmente fotogênica imagem do trem em velocidade, debaixo de torrentes de água, deslizando célere na paisagem molhada, cortada de relâmpagos e trovões, como a prenunciar os horrores do desenlace.

E vejam que efetiva antinomia plástica: se o filme se abre com muita água, é com muito fogo que se fecha, quando incendeia-se a luxuosa mansão Bederaux.

Para quem não lembra, Gaudio foi o fotógrafo de filmes importantes da época, de gêneros diversos, entre os quais, “A vida de Émile Zola” (1937), “As aventuras de Robin Hood” (1938), “A carta” (1940), “Seu último refúgio” (1941) e “À noite sonhamos” (1945).

Como os seus semelhantes (todos aqueles citados mais acima, inclusive “Um corpo que cai”), “Idílio perigoso” é um filme de atmosfera, e, por isso mesmo, a sua estrutura narrativa é relativamente frouxa, comportando improbabilidades que podem passar despercebidas aos espectadores em geral, mas não à análise.

Vejam que parte da vida privada do milionário Nick vem à tona a partir da leitura que faz o médico Bailey dos escritos da irmã dele, a senhora do trem, escritos estes que foram parar no seu apartamento por acaso. Na medida em que Bailey lê, a câmera substitui as palavras por imagens e, logo acontece o inevitável: de repente, estamos, nós espectadores, vendo mais do que teria sido fisicamente possível à autora do texto. Tudo bem, este é só o recurso narrativo a que os teóricos da linguagem dão o nome de paralepse (fornecer informação diegética a quem não poderia detê-la), porém, de todo jeito, num filme em que a descoberta da verdade depende do rigor da investigação, feita – não esqueçamos – por um médico…

O diretor Jacques Tourneur

O diretor Jacques Tourneur

Aliás, é a profissão do protagonista que justifica o título do filme, digo o original, com o adjetivo posposto ao substantivo, uso incomum em inglês: “Experiment perilous” / ´Experimento perigoso´. É que a expressão consiste em um fragmento de uma frase famosa – citada por Bailey em certa ocasião – do pai da medicina, o grego Hipócrates: “Life is short, art is long, decision difficult, and experiment perilous” / “A vida é breve, a arte é longa, a decisão difícil, e o experimento perigoso”. (Trocando ´experimento´ por ´idílio´, os distribuidores brasileiros preferiram, evidentemente, enfatizar o lado sentimental da relação entre os personagens).

Por falar em experimento, o filme de Tourneur é, de alguma maneira, também um experimento, e também perigoso. Se a gente ainda gosta dele setenta anos depois de seu lançamento, é porque deu certo.

Eita, agora me dou conta de que não houve espaço para falar da beleza de Hedy Lamarr no papel chave de Allida, a esposa vitimada pelo marido (o ator Paul Lukas) e salva pelo amigo, médico e amante Bailey (George Brent); mas, precisa?

A beleza de Hedy Lamarr.

A beleza de Hedy Lamarr.

Não dê bronca

31 jul

Do anedotário brasileiro faz parte a gozação com os títulos que os filmes estrangeiros receberam em Portugal. Os cinéfilos que consultam livros de cinema editados naquele país adoram citar esses títulos para provocar o riso. E provocam.

É fato que em todo país – e não apenas em Portugal – os filmes estrangeiros recebem por vezes títulos estapafúrdios, mas, mantém a lenda que os portugueses seriam mais engraçados.

Digamos de início que, nas brincadeiras dos cinéfilos brasileiros, há verdades e mentiras. A mentira mais frequente é que “Psicose” tenha sido reintitulado em Portugal como ´O filho que amava a mãe´. Não é verdade: o título lusitano do filme é só a tradução literal do original: “Psico”.

"O rapaz que vendeu a pomba" é o título lusitano do filme de Oshima

“O rapaz que vendeu a pomba” é o título lusitano do filme de Oshima

Muitas vezes o engraçado do título lusitano consiste na diferença vocabular entre Brasil e Portugal. Por exemplo, aquele drama do japonês Nagisa Oshima, de 1959, sobre um jovem que vendia aves (no original: “Ai to kibou no machi” : `a cidade do amor e da esperança´) teve em Portugal um título para nós ambíguo e ridículo: “O rapaz que vendeu a pomba”.

Poucos contêm o riso, é fato, ao ler ou ouvir o título daquela comédia de Roman Polanski sobre mortos vivos, que traduzimos do original como “A dança dos vampiros” (1966). Em Portugal o título do filme é mais longo: “Por favor, não me morda o pescoço”.

Certamente, um que está perto de ser o campeão da criatividade é o título lusitano dado ao filme de Richard Lester, com os Beattles, “Os reis do ye ye ye” (1964). O título português (juro) é: “As quatro cabeleiras do Após-Calipso”.

Como o assunto é vasto, vou, por questão de economia, aqui me limitar a mencionar e comentar brevemente alguns títulos que os distribuidores portugueses deram a filmes produzidos em Hollywood. Vejamos.

"As quatro cabeleiras do Após-Calipso": sem comentários.

“As quatro cabeleiras do Após-Calipso”: sem comentários.

“A culpa foi do macaco” é, com certeza, um título engraçado para o filme de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952), com a justificativa de ter uma palavra chave do original “Monkey business”. “Doido com juízo” também é curioso para o filme de Frank Capra “O galante Mr Deeds” (em inglês “Mr Deeds goes to town”). “A menina dos telefones” soa igualmente hilário para designar a protagonista do filme de Vincente Minnelli “Bells are ringing” (1960), entre nós “Essa loura vale um milhão”. “Não há como a nossa casa” eis um título lusitano impensável para “Meet me in St Louis” (1944), do mesmo Minnelli, e que nós traduzimos de modo igualmente estranho “Ainda seremos felizes”. “A mulher que viveu duas vezes” é outro título lusitano que é motivo das chacotas cinéfilas, dando pistas sobre o que acontece à protagonista de, em inglês “Vertigo” (´vertigem´), no Brasil, “Um corpo que cai” (1958).

Com certeza, a gozação predileta dos cinéfilos brasileiros recai no título lusitano do faroeste de Fred Zinnemann, “High Noon” (´meio dia em ponto´) que no Brasil se chamou “Matar ou morrer” (1952). Em Portugal o filme foi intitulado como “O comboio apitou três vezes”, com o constrangedor detalhe de que, na estrutura do enredo, a quantidade de apitos do trem que chega a essa pequena cidade do Oeste, não tem absolutamente nenhuma relevância.

"Faça a coisa certa", em Portugal: "NÃO DÊ BRONCA".

“Faça a coisa certa”, em Portugal: “NÃO DÊ BRONCA”.

Ao invés de rir, há quem dê bronca das intitulações lusitanas. De minha parte, ao contrário, reservei para este artigo um título solidário aos portugueses, o mesmo que eles deram ao filme “Faça a coisa certa” (1989): “Não dê bronca”.

Pois, digamos a verdade: nem sempre os títulos portugueses são risíveis, e, nem sempre os nossos são melhores que os deles. Para a consideração do leitor, faço seguir uma lista de 18 (re)intitulações lusitanas e brasileiras de filmes famosos. De propósito não cito os títulos originais, apenas o ano da produção, em ordem cronológica. E decida você, leitor, quem deu títulos mais impertinentes a estes filmes americanos, se Portugal ou Brasil.

“Duas feras” vs “Levada da breca” (1938); “Cavalgada heróica” vs “No tempo das diligências” (1939); “A raposa matreira” vs “Pérfida” (1941); “O mundo a seus pés” vs “Cidadão Kane” (1941); “Mentira” vs “A sombra de uma dúvida” (1942); “A casa encantada” vs “Quando fala o coração” (1943); “Suprema decisão” vs “Um retrato de mulher” (1944); “Do céu caiu uma estrela” vs “A felicidade não se compra” (1946); “Há lodo no cais” vs “Sindicato de ladrões” (1953); “Fúria de viver” vs “Juventude transviada” (1955); “A terra em perigo” vs “Vampiros de almas” (1956); “A desaparecida” vs “Rastros de ódio” (1956); “O espírito e a carne” vs “O céu é testemunha” (1958); “Corações na penumbra” vs “Doce pássaro da juventude” (1962); “Música no coração” vs “A noviça rebelde” (1965); “Fim de semana alucinante” vs “Amargo pesadelo” (1972); “Juventude inquieta” vs “O selvagem da motocicleta” (1982).

Em tempo: para mais sobre a temática, consultar meu livro “Hollywood em outras línguas: a tradução de títulos de filmes e seus problemas” (Editora da UFPB, 2009), inteiramente disponível neste blog.

"O comboio apitou três vezes" - A quantidade de apitos é irrelevante em "Matar ou Morrer".

“O comboio apitou três vezes” – A quantidade de apitos é irrelevante em “Matar ou Morrer”.

 

Uma frase

17 fev

Sabe aquela frase que diz tudo que você queria dizer sobre um assunto de suma importância, aquela que descortina uma verdade que você sempre intuiu, mas que nunca veio à tona em forma de linguagem verbal?

E aí, de repente, lendo um livro alheio, lá está ela, a frase inteira, óbvia, luminosa, imprescindível, definitiva. Ai que raiva que dá de não ter sido você que a escreveu!

Passei por essa (des)agradável experiência agora, lendo o livro do crítico e historiador francês Patrick Brion “Les secrets d´Hollywood” (Librairie Vuibert, 2013). A rigor, nem se trata de um grande livro e, no geral, há nele mais ´coisas de bastidores´ do que propriamente insights originais, porém, a frase, que abre o seu primeiro capítulo, está lá, inigualável. O que posso fazer, senão reproduzi-la entre aspas, traduzindo do francês, já que o livro ainda não teve edição brasileira? Ei-la, portanto:

“A idade de ouro da produção hollywoodiana constitui um momento excepcional da história da arte mundial, na mesma medida, poderia se dizer, da Renascença italiana ou do Impressionismo francês”.

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Que eu saiba, a comparação nunca tinha sido feita, ou se foi, não deste modo favorável. Acho que amantes do renascimento e ou do impressionismo são pegos de surpresa, assim como os cinéfilos da vida, cada um com sua reação, sejam quais forem essas reações.

De minha parte, eu nem me preocupo em calcular se a frase é sociológica, antropológica ou teoricamente correta. Ela pode ser somente uma “metáfora histórica”, mas, se for, que metáfora bem pensada, daquele tipo ´ovo de Colombo´.

Sim, porque a Hollywood a que Brion se refere, a clássica, teve as mesmas características de um grande movimento de arte em que a palavra grande tem acepções quantitativa e qualitativa ao mesmo tempo. De fotógrafos a músicos, de atores a cineastas, de roteiristas a montadores, de cenógrafos a produtores, ela juntou uma multidão de mentes criativas que produziram, em conjunto, muitas das obras primas que a primeira metade do Século XX conheceu.

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E mais: tudo isso foi feito através de um novo meio, até então desconhecido na história da humanidade, um novo meio que tinha a vantagem de operar o milagre de somar todas as outras formas de arte numa nova unidade semiótica e estética, o filme representacional, narrativo, ficcional.

Eu sei, eu sei, o problema da frase de Brion é ter deixado de lado o cinema europeu, porém, de minha parte, compreendo a sua opção por demarcar um tempo (anos 30/40/50) e um espaço (Hollywood) onde os dois piques, o quantitativo e o qualitativo se tocaram de modo ideal.

Para dar dois exemplos fora de Hollywood clássica, nem o cinema expressionista alemão, nem o neo-realismo italiano foram assim tão completos, nesse particular de fazer confluir os dois piques referidos.

Evidentemente, vai haver quem discorde de Brion, ou só concorde em parte, mas, não há como negar que a sua formulação mexe com o nosso conceito histórico de arte, e nos convida a redimensionamentos estéticos e reagrupamentos críticos instigantes, ou, se for o caso, perturbadores.

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Por que Orson Welles, John Ford, Elia Kazan, George Stevens, John Huston e Alfred Hitchcock não podem ser comparados, em pé de igualdade, aos artistas renascentistas? Por que filmes como Cidadão Kane, Rastros de ódio, Vidas amargas, Um lugar ao sol, Os desajustados e Um corpo que cai não seriam obras com a mesma dimensão dos produtos artísticos do Impressionismo francês?

Em seu livro, Patrick Brion deixa transparecer uma queda passional por Hollywood clássica, e não pensem vocês que isto me escapou. Suas análises deslumbradas das filmagens de “O mágico de Oz”, “E o vento levou”, “Casablanca”, “Cantando na chuva”, etc, são relatos de um cinéfilo saudoso que parece alimentar a convicção de que o melhor do cinema já foi feito. Sintomático, por exemplo, é o seu relato da história da MGM, um estúdio que parece ter resumido o brilho e a excelência da produção hollywoodiana da época. Chega a ser comovente a parte final do livro em que Brion, com visível pesar, lamenta “a morte do leão”, o literal esfacelamento do estúdio, todo vendido, por partes, em leilões, nos anos setenta.

Tal admiração pessoal por esta fase da história do cinema, contudo, não compromete a sua formulação, que, como metáfora ou como insight histórico, no meu entender, não só é pertinente, como, a partir de agora, vira motivo de reflexão para os estudiosos da história universal das artes.

Enfim, continuo com raiva de não ter escrito a frase de Brion.

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