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Amor e espaguete

2 jan

Não costumo ler bestsellers, mas, às vezes não é possível evitar. Um inevitável é este “Ontem, hoje e amanhã” (2014) que está em todas as vitrines, a autobiografia de ninguém menos que Sophia Loren.

Aproveitei a chatice do Natal para devorá-lo, o que fiz em dois dias seguidos, e não me arrependo. Uma pessoa como Sophia Loren não conseguiria, mesmo que quisesse, contar sua vida sem contar parte da história do cinema, uma história que, por tabela, também é nossa.

o livro

E para completar, o livro está bem escrito, com dosagens certas de informação privada e de informação pública. O que não é de domínio popular e o que já é, está tudo lá, bem dito e bem arranjado. Alguns dos tópicos mais interessantes são:

A infância pobre da menina Sofia (ainda com “f”) Sciocolone, em Pozzuoli, Nápoles, durante a guerra, toda ela marcada pela fome, uma fome tão grande que lhe gerou o apelido de ´Sofia palito´.

Na adolescência, os primeiros passos para a fama nacional, através da participação nas fotonovelas dos anos 50, ainda com o seu primeiro nome artístico de Sofia Lazzaro.

As primeiras pontas em filmes da Cinecittà, e o primeiro papel de protagonista, em 1957, na superprodução “Orgulho e paixão”, ao lado de Cary Grant e Frank Sinatra.

Agora já com o nome de Sophia Loren (com “ph”), a formação do trio famoso: ela, Vittorio De Sica e Marcello Mastroiani, que ela chama de ´os três mosqueteiros´. Como se sabe, com cada um dos dois, ou com os dois juntos, ela rodou inúmeros filmes, inclusive aquele que dá nome ao livro (“Ontem, hoje e amanhã, 1964), no qual ela executa um delirante striptease, ainda hoje comentado.

O Oscar por “Duas mulheres” (1961) e a projeção internacional, que lhe abre o caminho inevitável a Hollywood. E aí vamos ter os seus depoimentos emocionados dos primeiros contatos com gente do show business, que antes, ela só conhecia das telas. De Cary Grant (que, sem sucesso, a havia pedido em casamento depois das filmagens de “Orgulho e paixão”) até Charles Chaplin a lista é enorme.

O rosto latino perfeito

O rosto latino perfeito

Um espaço todo especial no livro vai haver para duas figuras que foram as mais decisivas em sua vida, a mãe e, mais tarde, o marido. A mãe foi uma bela mulher que, na juventude, lutou por uma carreira de sucesso, mas que caiu na armadilha de um amor não correspondido, e esse amor veio a ser o pai de Sophia, um homem ausente e mesmo hostil. O marido, que Sophia calorosamente denomina de “o homem da minha vida”, foi o produtor Carlo Ponti, vinte e dois anos mais velho, com quem se envolveu quando ele ainda era casado, e com quem viveu toda uma existência de amor e harmonia.

Pelo menos três grandes dramas são narrados com certa tristeza. Na ordem: o desejo frustrado de ser mãe, em dois abortos consecutivos, até ser finalmente ´curada´ da suposta esterilidade por um médico mais competente que o médico da família. O exílio forçado, quando a justiça italiana e a Igreja interpretam o seu casamento como bigamia, uma vez que Ponti, embora separado havia anos, continuava casado com a primeira esposa. E, já em idade madura, a prisão na Itália, por suposta sonegação de imposto de renda.

Um assunto recorrente no livro é a gastronomia, um prazer que advém da comidinha que a avó materna improvisava nos tempos duros da guerra. Sem coincidência, Loren é autora de um livro de receitas que ainda hoje é popular na Europa, o “Ricordi e ricette” (´Recordações e receitas´), acho que sem edição brasileira.

E por falar em gastronomia, passo a um episódio que não está no livro, mas que conheço de outra fonte e aqui menciono para explicar o título que, preservando a isotopia do afeto e do paladar, quis dar a esta matéria.

Em 2001, os ingleses fizeram uma votação geral para eleger a mulher mais bela do Século XX e, disparada, Sophia Loren ganhou. Entregue o prêmio, a imprensa a procurou para uma coletiva e, na entrevista, um jornalista fez a pergunta óbvia: como era que, naquela idade (então, setenta e sete anos) ela exibia tanta beleza e vitalidade? A resposta veio curta e fina: “Amor e espaguete!”.

Sophia em "El Cid".

Sophia em “El Cid”.

Voltando a “Ontem, hoje e amanhã”, um livro simples, sincero, sentido, escrito com a serenidade de quem soube – e sabe – viver. Com amor e espaguete, naturalmente.

 Se contarmos todas as suas aparições na tela, podemos dizer que, até o momento, Sophia Loren trabalhou em noventa e quatro filmes. Aqui faço seguir uma lista de dez que, de alguma forma, foram importantes na sua carreira e na boa lembrança que dela mantemos:

Desejo (Desire under the elms, 1958) de Delbert Mann, com Anthony Perkins e Burl Ives

Começou em Nápoles (It started in Naples, 1960) de Melville Shavelson, com Clark Gable

Duas mulheres (La ciociara, 1961) de Vittorio De Sica, com Jean-Paul Belmondo e Eleonora Brown

El Cid (1961) de Anthony Mann, com Charlston Heston e Raf Valone

Ontem, hoje e amanhã (Ieri, oggi, domani, 1964) de Vittorio De Sica, com Marcello Mastroiani

A condessa de Hong Kong (A countess from Hong Kong, 1967) de Charles Chaplin, com Marlon Brando

Os girassóis da Rússia (I girassoli, 1970) de Vittorio De Sica, com Marcello Mastroiani

A mulher do padre (La moglie del prete, 1971) de Dino Risi, com Marcello Mastroiani

O homem de La mancha (Man of La Mancha, 1972) de Arthur Hiller, com Peter O´Toole

Um dia muito especial (Una giornatta particolare, 1977) de Ettore Scola, com Marcello Mastroiani.

Com Mastroiani, em "Um dia muito especial", obra prima de Ettore Scola.

Com Mastroiani, em “Um dia muito especial”, obra prima de Ettore Scola.

 

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Personagens maiores que a vida

11 out

As razões que temos para nunca esquecer os filmes que amamos são muitas, algumas às vezes até inconfessáveis, eu sei. Mas uma das mais determinantes é, com certeza, os seus personagens, em alguns casos especiais tão fortes que parecem maiores que os próprios filmes, ou – por que não? – maiores que a vida.

São personagens complexos, profundos, intensos, que encarnam uma fundamental contradição de natureza estética, a de nos parecerem reais, gente como a gente, e ao mesmo tempo, originais, sem par na ficção ou na realidade. Outra contradição é a de serem iguais a si mesmos e ao mesmo tempo mutáveis.

Os personagens de que falo possuem traços físicos e psicológicos bem definidos, mas não são estáticos: evoluem na proporção do enredo e, a miúde, sofrem – para o bem ou para o mal – grandes transformações. Podem ser vítimas da narrativa, ou feitores dela, não importa, de todo jeito as transformações virão.

É comum que as peripécias do enredo os conduzam a situações-limite em que uma crise não pode deixar de ser enfrentada. Podem começar o filme mais ou menos definidos dentro de uma linha tímica, ou ética, ou ideológica, porém, dificilmente se mantêm nessa mesma linha até o final: normalmente a crise os ambuiguiza e os bons, se for o caso, vão tangenciar o Mal, como os maus vão receber um sopro do Bem.

Fracos ou fortes, covardes ou corajosos, mesquinhos ou magnânimos, perversos ou nobres, patéticos ou trágicos, não importa – são figuras fascinantes que nos encantam pela verdade humana que encarnam.

Aos interpretá-los, os atores ou atrizes dão mais de si que de costume, pois, precisam convencer o espectador da profunda verdade do personagem que encarnam e, quando conseguem, deixam sempre a impressão de que iremos, a partir de então, lembrar mais do personagem que do ator/atriz.

Aqui convido o leitor a considerar quem seriam os seus “personagens maiores que a vida”.

De minha parte, ofereço a sugestão de alguns nomes.

Só para refrescar a memória do leitor, adiciono, com dados do enredo do filme, pequena descrição do personagem, ao que faço seguir, entre parênteses, o nome do ator/atriz que o interpretou, título brasileiro do filme, título original, diretor e ano de produção.

IMMANUEL RATH – Respeitado professor alemão de literatura inglesa se envolve com prostituta e sucumbe. (Emil Jannings em “O anjo azul” / “Der blaue Engel”, Joseph Von Sterberg, 1930).

WALTER NEFF – Empregado de companhia de seguro, junto com a esposa da vítima, planeja golpe perfeito e se dá mal. (Fred McMurray em “Pacto de sangue” / “Double indemnity”, Billy Wilder, 1944).

CATHERINE SLOPER – Solteirona sem dotes físicos aprende com a cruel imparcialidade do pai a ser imparcial. (Olivia De Haviland em “The heiress” / “Tarde demais”, William Wyler, 1949).

CAL TRASK – Filho rebelde tem dificuldades em adentrar o hermético coração paterno. (James Dean em “Vidas amargas” / “East of Eden”, Elia Kazan, 1955).

DR ISAK BORG – Idoso médico sueco vive crise existencial que o remete à infância e a outras dores. (Victor Sjöström em “Morangos silvestres” / “Smutonstrället”, Ingmar Bergman, 1957).

CABÍRIA – Um golpe atrás do outro, a pobre prostituta romana consegue sorrir depois de tudo. (Giulietta Massina em “Noites de Cabíria” / “Notte de Cabiria”, Federico Fellini, 1957).

JUJU – Homem comum de pouca inteligência aprende que amar e matar podem fazer parte do mesmo contexto. (Pierre Brasseur em “Por ternura também se mata” / “Porte de Lilàs”, René Clair, 1957).

GRIMALDI – Durante a II Guerra, cafajeste italiano entra por acaso em território da Resistência e vive uma farsa de consequências trágicas. (Vittorio DeSica em “De crápula a herói” / “Il generale della Rovere”, Roberto Rosselini, 1959).

ANTONIETTA – Simplória dona de casa italiana tem a vida mudada quando o seu passarinho vai pousar na janela de um vizinho subversivo. (Sophia Loren em “Um dia muito especial” / “Una giornatta particolare”, Ettore Scola, 1977).

TRAVIS HENDERSON – Acolhido pelo irmão, homem desmemoriado reencontra o passado em domésticos filmes Super 8, e depois, numa janela de peepshow. (Harry Dean Stanton em “Paris, Texas”, Wim Wenders, 1984).