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Montgomery Clift

15 ago

Catando filme velho por aí – não digo onde – encontro, esta semana, esse “Talvez seja melhor assim” (Raoul Levy, 1966), um filmezinho sem importância de um diretor idem.

E por que me dei ao trabalho de vê-lo? Só porque foi o último filme do ator americano Montgomery Clift (1920-1966), e não resisti a curiosidade de espiá-lo em seu derradeiro papel. Clift morreria nesse mesmo ano, em 23 de julho.

A estória se passa nos dois lados do muro de Berlim, com a guerra fria no auge, e o filme é bem típico da época, com todos aqueles ingredientes de espionagem, perseguições, micro-filme roubado, deserção, CIA, etc… Mas claro, sem a qualidade de “O espião que saiu do frio”, ou coisas assim…

Porém, não foi ao filme que assisti: assisti a Montgomery Clift, um dos meus atores preferidos, no tempo da Hollywood clássica, um ator cuja carreira acompanho desde sempre. Em “The defector” (título original do filme) ele está irrisório, burocrático, decadente, mas que importa? Por contraste, o filme serviu para eu remomorar sua brilhante carreira, antes e depois do acidente de automóvel, em 1956, que quase deformou o seu belo rosto.

E, na minha mente de cinéfilo viciado, fui relembrando os seus filmes, ao menos os que mais amei.

Lembrei o filho adotivo rebelde que ele foi em “Rio Vermelho”, contracenando com o pai durão John Wayne, nesse faroeste inesquecível de Howard Hawks, de 1948.

Veio-me à mente o seu papel em “Tarde demais” (Willliam Wyler, 1949) como o rapaz ambicioso que, com seu charme discreto, planeja um ´golpe de baú´ em cima da feiosa Olivia de Havilland, e quebra a cara, primeiro pela astuta oposição do futuro sogro, e depois, por um motivo bem mais desolador…

Com Liz Taylor em “Um lugar ao sol”.

Como esquecê-lo, ao lado de Elizabeth Taylor, em “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951), como o jovem Eastman, parente pobre dessa família rica, com ajuda da qual pensa ascender socialmente. E assim seria, se não tivesse engravidado uma das empregadas da empresa… e, vocês lembram, a estória dá em tragédia grega.

E ele como o padre Logan que, no confessionário, ouve uma confissão criminosa, e vai viver tolhido entre o dever sagrado do silêncio e a obrigação civil da delação? No hitchcockiano “A tortura do silêncio” (“I confess”, 1953) está um dos seus grandes desempenhos.

Em “Quando a mulher erra” (1953) ele faz um amante romano de quem a americana, casada, Jennifer Jones, não consegue se despedir na “Statioze Termini” (título original). Na verdade, não gosto muito desse filme de Vittorio De Sica, mas o elenco o salva.

Um dos seus desempenhos mais lembrados pelo grande público é, com certeza, o do melancólico soldado meio auto-destrutivo de “A um passo da eternidade”, drama de Fred Zinnemann sobre o ataque japonês a Pearl Harbor.

Em “De repente no último verão” (1959) ele faz o médico cirurgião que é quase comprado pela patriarca (Catherine Hepburn), para que ele proceda a uma lobotomia na sobrinha (Elizabeth Taylor) que vive tendo lembranças desagradáveis da morte do primo, filho da patriarca…

Em Tennessee, a construção de uma barragem vai inundar a ilha onde reside essa senhora idosa, mas firme e determinada a não se mudar (Jo Van Fleet): e Clift faz o papel do administrador que deve convencer a senhora a abandonar o local, em “Rio violento”: grande drama de Elia Kazan, 1960.

Com Donna Reed, em “A um passo da eternidade”.

Junto com Clark Gable e Eli Wallach, ele é, em “Os desajustados” (John Huston, 1960), um dos cowboys modernos que, com Marilyn Monroe metida em um caminhão, vão caçar cavalos selvagens no ensolarado deserto de Nevada.

Quem pode esquecer o seu testemunho em “Julgamento em Nuremberg” (Stanley Kramer, 1961), como o débil mental, vítima do nazismo, justamente por causa da debilidade? Seu desempenho é um exercício de interpretação que impressiona sempre.

E encerro a lista com o seu papel como o famoso psiquiatra austríaco, em “Freud além da alma” (John Huston, 1962), tratando, pela primeira vez, histeria feminina com hipnose e, noutra ocasião, com um paciente do sexo masculino, acidentalmente descobrindo o complexo de Édipo.

Montgomery Clift não rodou muitos filmes, apenas 17. Antes do cinema, trabalhou em teatro e foi ator destacado do afamado Actors Studio. Algum tempo depois de sua morte, a imprensa internacional incluiu-o no rol dos muitos astros clássicos que haviam sido homossexuais, mas, essa é outra estória que aqui não interessa.

Interessam o seu talento e o legado que deixou na tela.

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O cânone e seus problemas

16 out

Você assistiu ao filme “O matador de ovelhas” (“Killer of sheep”, 1978)? Claro que não. Nem você nem ninguém. Ou quase ninguém.

Então, por que estou escrevendo sobre um filme que (quase) ninguém viu?

A razão é simples; na recente lista dos “100 melhores filmes americanos de todos os tempos”, organizada pela BBC, “O matador de ovelhas”, de Charles Burnett, ocupa o privilegiado vigésimo sexto lugar, posicionado na frente de obras primas reconhecidas como “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder), “Um lugar ao sol” (George Stevens), “A marca da maldade” (Orson Welles), “Tempos modernos” (Charles Chaplin), “Interlúdio” (Alfred Hitchtcock) e outros mais.

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Quando a lista da BBC foi divulgada, fiquei atônito e a primeira coisa que fiz foi checar com os amigos cinéfilos, para saber quem conhecia, ou ao menos quem tinha ouvido falar de “O matador de ovelha”. Ninguém, nem mesmo o enciclopédico Ivan Cineminha.

A próxima etapa vocês imaginam qual foi: apelar para a Internet e suas muitas possibilidades de acesso. A primeira constatação foi que o filme detinha realmente um prestígio enorme junto a um certo setor da crítica americana. Claro que isso só fez aumentar minha curiosidade. Eu tinha que ver essa suposta obra prima, tão desconhecida em território brasileiro.

Cata daqui, cata dali, consegui, afinal, chegar a uma cópia do filme do Charles Burnett, que já vi e…

Artesanal e precário, o filme retrata a vida num arrabalde negro de Los Angeles. O personagem principal é um pai de família de meia idade que trabalha no matadouro local, e, aparentemente por isso mesmo, sua vida é triste e desmotivada. De alguma maneira sua temática poderia ser resumida na frase: favela também tem crise existencialista.

Não há uma estória a ser contada, apenas uma série de vinhetas do cotidiano que enfocam, ora esse ´matador de ovelhas´, ora a sua mulher, ora as crianças, ora os vizinhos. Às crianças e suas brincadeiras de rua nada edificantes é dado o maior tempo de tela, enquanto que as vinhetas dos adultos terminam necessariamente em frustrações: ora é um passeio interrompido por um pneu furado, ora um motor sem conserto.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Embora não haja voz over, o tom é documental e o filme termina como começou, sem término; o único incidente que se chamaria de ´estória´ é um episódio em que amigos do matador de ovelhas tentam convencê-lo a fazer parte de um golpe e a esposa os enxota com palavrões. Um drama a divisar subjaz entre marido e mulher, ela quase sempre se insinuando sexualmente, e ele, sempre indiferente a tudo.

No final sabe-se que uma vizinha está grávida e o filme se fecha com o matador matando ovelhas ao som de “Bitter earth”, na voz de Dina Washington… e pronto. Aliás, o filme tem uma rica trilha sonora de jazz, e, em alguns momentos, canções americanas são solfejadas pelos personagens, mas não sei se isso o torna maravilhoso, ou “poético”, como parece querer os críticos que o elogiam.

Na verdade, a sua produção consistiu em trabalho de final de curso que o então jovem Burnett, submeteu à UCLA e foi aprovado. Do âmbito universitário, deu um pulinho nos festivais independentes dos Estados Unidos e pronto… a ascensão foi montada.

Para voltar à abertura desta matéria, a pergunta que ocorre a todos nós é: por que “O matador de ovelhas” foi colocado nessa posição altamente privilegiada na lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos, desbancando as obras primas já mencionadas?

Casal em crise conjugal

Casal em crise conjugal

Acho importante que os votantes – nesta lista da BBC e em outras – tenham sempre o direito de escolher o que bem entenderem, porém, ocorre que, de minha parte, também tenho o direito de comentar as escolhas. No meu entender, “O matador de ovelhas” é um excelente TCC (trabalho de final de curso universitário), agora, quanto a ocupar a posição que ocupa na lista da BBC é outra estória…

Fico com a vaga impressão de que os motivos dos críticos votantes foram mais ideológicos que estéticos, mas, sejam quais tenham sido esses motivos, o que vem à tona nesta discussão toda é a questão maior do cânone cinematográfico: sim, toda “lista de melhores” é problemática, e o absurdo – se for o caso – da posição canônica de “O matador de ovelhas” é só um exemplo – eventualmente gritante! – da problemática.

Outra coisa, para não criar equívocos: o fato de ter sido pouco visto não depõe contra “O matador de ovelhas”; no Brasil, um dos filmes menos conhecidos é um dos grandes: “Limite” (1931).

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Meus dez

4 abr

Não tem jeito: cinéfilo que se preza adora fazer a sua listinha de filmes preferidos, e o número padrão é dez.

No mundo literário pode ser diferente, mas, no território do cinema, o hábito é tão generalizado que até os profissionais da crítica se entregam a ele, aproveitando para, no cruzamento dos escolhidos por muitos, elegerem os melhores filmes do mundo. A mais prestigiada dessas listas internacionais é a da Revista inglesa “Sight & Sound” que, a cada dez anos, desde 1952, apresenta os dez filmes mais perfeitos já feitos em todos os tempos e espaços, e isto em ordem qualitativa.

Mas, no caso dos espectadores comuns, digo, não-profissionais, ninguém quer saber de perfeição, e as escolhas recaem mesmo sobre o gosto pessoal… e pronto!

Todos, ou quase todos, os meus amigos cinéfilos têm a sua listinha e eu não fujo à regra. A depender do cinéfilo e de suas idiossincrasias, a lista pode ser fixa, imutável, ou pode ser mais ou menos flexível, móvel. No meu caso, acho que fico numa espécie de meio termo: entre os meus dez preferidos, uma parte é fixa e outra vem se modificando com o passar do tempo e do meu processo constante de revisitação fílmica.

Por coincidência, há poucos dias, me caiu nas mãos um número da Revista “A Tela Demoníaca”, onde, no ano do centenário do cinema, 1995, dei entrevista à jornalista Thamara Duarte, e lá ela me cobrava a minha dezena preferida. Pois, cotejando a lista que divulguei à Thamara na época – portanto, dezoito anos atrás – com a atual, a que tenho na cabeça agora, constato o que já disse acima: seis filmes permanecem os mesmos nas duas listas e quatro, saíram para dar lugar a outros. Os que saíram, não porque os ame menos, mas porque outros se impuseram ao meu afeto com maior força, são: “Luzes da cidade”, “Crepúscuplo dos deuses”, “Morangos silvestres” e “Jules et Jim”.

Em ordem cronológica (e não hierárquica), e seguidos de alguns dados da ficha técnica, eis, portanto, a quem interessar possa, a lista atual dos meus dez filmes mais amados.

Casablanca (Idem, 1942), de Michael Curtiz, com Ingrid Bergman e Humprhey Bogart.

1 Casablanca

Desencanto (Brief encounter, 1945), de David Lean, com Celia Johnson e Trevor Howard.

2 brief encounter

A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, 1946), de Frank Capra, com Donna Reed e James Stewart.

3 its a wonderful life

Um lugar ao sol (A place in the Sun, 1951) de George Stevens, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift.

4 a place in the sun

Matar ou morrer (High Noon, 1952) de Fred Zinnemann, com Grace Kelly e Gary Cooper.

5 high noon

Janela indiscreta (Rear window, 1954) de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly e James Stewart.

6 rear window

Vidas amargas (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, com James Dean e Raymond Massey.

7 east of eden

Noites de Cabíria (Le notti di Cabíria, 1957) de Federico Fellini, com Giulietta Masina.

8 le notti di cabiria

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960) de Billy Wilder, com Shirley MacLaine e Jack Lemmon.

9 the apartment

O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) de John Ford, com Vera Miles e James Stewart.

10 the man...

Como se percebe, não são os filmes mais destacados na história do cinema, e não foram escolhidos pela importância, e sim, por motivos subjetivos. Que motivos são estes, nem eu mesmo sei, e acho que até meu analista – se eu tivesse um – teria dificuldade em dizer. Em uma coisa ao menos creio que todos concordam: a nenhum deles falta qualidade artística. O que deve chamar a atenção do leitor desta matéria são as datas. De fato são filmes antigos, quase todos da primeira metade do Século XX. Nisso sou, sim, um assumido “classicista” que encontra certa dificuldade em empolgar-se com a produção contemporânea.

Uma angústia de quem elabora sua lista é, pressionado pela restrição numérica, ter que deixar de fora tantos filmes maravilhosos. Como pude retirar, da lista anterior, “Crepúsculo dos deuses”? Meu pretexto é que o substituí por outro do mesmo autor, “Se meu apartamento falasse”. Como manter fora filmes como “Aurora”, “O anjo azul”, “Os incompreendidos”, “A balada do soldado” “Rocco e seus irmãos”, “Vidas secas”? Em outras palavras, não dá para escapar do efeito “escolha de Sofia”.

Enfim, os meus dez escolhidos são estes, com tendência – confesso – a tornar-se esta lista imutável a partir de agora.

E você, caro leitor, quais são os dez filmes que você mais ama? Comente esta matéria, apresentando a sua lista. Que tal?

Uma frase

17 fev

Sabe aquela frase que diz tudo que você queria dizer sobre um assunto de suma importância, aquela que descortina uma verdade que você sempre intuiu, mas que nunca veio à tona em forma de linguagem verbal?

E aí, de repente, lendo um livro alheio, lá está ela, a frase inteira, óbvia, luminosa, imprescindível, definitiva. Ai que raiva que dá de não ter sido você que a escreveu!

Passei por essa (des)agradável experiência agora, lendo o livro do crítico e historiador francês Patrick Brion “Les secrets d´Hollywood” (Librairie Vuibert, 2013). A rigor, nem se trata de um grande livro e, no geral, há nele mais ´coisas de bastidores´ do que propriamente insights originais, porém, a frase, que abre o seu primeiro capítulo, está lá, inigualável. O que posso fazer, senão reproduzi-la entre aspas, traduzindo do francês, já que o livro ainda não teve edição brasileira? Ei-la, portanto:

“A idade de ouro da produção hollywoodiana constitui um momento excepcional da história da arte mundial, na mesma medida, poderia se dizer, da Renascença italiana ou do Impressionismo francês”.

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Que eu saiba, a comparação nunca tinha sido feita, ou se foi, não deste modo favorável. Acho que amantes do renascimento e ou do impressionismo são pegos de surpresa, assim como os cinéfilos da vida, cada um com sua reação, sejam quais forem essas reações.

De minha parte, eu nem me preocupo em calcular se a frase é sociológica, antropológica ou teoricamente correta. Ela pode ser somente uma “metáfora histórica”, mas, se for, que metáfora bem pensada, daquele tipo ´ovo de Colombo´.

Sim, porque a Hollywood a que Brion se refere, a clássica, teve as mesmas características de um grande movimento de arte em que a palavra grande tem acepções quantitativa e qualitativa ao mesmo tempo. De fotógrafos a músicos, de atores a cineastas, de roteiristas a montadores, de cenógrafos a produtores, ela juntou uma multidão de mentes criativas que produziram, em conjunto, muitas das obras primas que a primeira metade do Século XX conheceu.

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E mais: tudo isso foi feito através de um novo meio, até então desconhecido na história da humanidade, um novo meio que tinha a vantagem de operar o milagre de somar todas as outras formas de arte numa nova unidade semiótica e estética, o filme representacional, narrativo, ficcional.

Eu sei, eu sei, o problema da frase de Brion é ter deixado de lado o cinema europeu, porém, de minha parte, compreendo a sua opção por demarcar um tempo (anos 30/40/50) e um espaço (Hollywood) onde os dois piques, o quantitativo e o qualitativo se tocaram de modo ideal.

Para dar dois exemplos fora de Hollywood clássica, nem o cinema expressionista alemão, nem o neo-realismo italiano foram assim tão completos, nesse particular de fazer confluir os dois piques referidos.

Evidentemente, vai haver quem discorde de Brion, ou só concorde em parte, mas, não há como negar que a sua formulação mexe com o nosso conceito histórico de arte, e nos convida a redimensionamentos estéticos e reagrupamentos críticos instigantes, ou, se for o caso, perturbadores.

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Por que Orson Welles, John Ford, Elia Kazan, George Stevens, John Huston e Alfred Hitchcock não podem ser comparados, em pé de igualdade, aos artistas renascentistas? Por que filmes como Cidadão Kane, Rastros de ódio, Vidas amargas, Um lugar ao sol, Os desajustados e Um corpo que cai não seriam obras com a mesma dimensão dos produtos artísticos do Impressionismo francês?

Em seu livro, Patrick Brion deixa transparecer uma queda passional por Hollywood clássica, e não pensem vocês que isto me escapou. Suas análises deslumbradas das filmagens de “O mágico de Oz”, “E o vento levou”, “Casablanca”, “Cantando na chuva”, etc, são relatos de um cinéfilo saudoso que parece alimentar a convicção de que o melhor do cinema já foi feito. Sintomático, por exemplo, é o seu relato da história da MGM, um estúdio que parece ter resumido o brilho e a excelência da produção hollywoodiana da época. Chega a ser comovente a parte final do livro em que Brion, com visível pesar, lamenta “a morte do leão”, o literal esfacelamento do estúdio, todo vendido, por partes, em leilões, nos anos setenta.

Tal admiração pessoal por esta fase da história do cinema, contudo, não compromete a sua formulação, que, como metáfora ou como insight histórico, no meu entender, não só é pertinente, como, a partir de agora, vira motivo de reflexão para os estudiosos da história universal das artes.

Enfim, continuo com raiva de não ter escrito a frase de Brion.

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Almas em leilão

22 nov

Fazia tempo que eu não avistava Simone Signoret. Dessa atriz francesa não sou apenas fã – ela foi/é uma das minhas musas do cinema, e nunca vou esquecer o seu belo rosto arredondado onde flutuava um par de olhos ao mesmo tempo grandes e apertados. Não era alta nem esbelta e seu peso parecia acima da média, porém, a expressividade do seu rosto e o seu enorme talento apagavam o que em outra atriz seria visível.

Pois agora a reencontro nesse “Almas em leilão” (“Room at the top”) a que re-assisti com gula saudosista, filme pelo qual ela recebeu o Oscar do ano de melhor atriz, dado pela primeira vez a uma francesa.

Não sei se vocês lembram – dirigido por Jack Clayton em 1958, o filme conta, com providencial fluência, uma estória trágica de ambição e paixões proibidas entre pobres e ricos no norte da Inglaterra.

Fugindo à miséria de sua aldeia natal, Joe Lampton (Laurence Harvey) chega a esta cidade industrial, Warley, para um emprego de funcionário numa grande empresa. Bonitão e charmoso, logo se envolve com duas figuras femininas que não poderiam ser mais diferentes – Susan é a filhinha mimada de uma família rica (Heather Sears), cujo pai, patrão de Joe, é um magnata da indústria local, enquanto que Alice (Signoret), dez anos mais velha que ele, é uma francesa sem muitos recursos que carrega as dores de um casamento sem amor.

Facilmente conquistada, Susan representa, para Joe, a chance de ascender socialmente e logo o plano de um casamento é acionado na sua cabeça ambiciosa. Só que, no meio do caminho, a relação escusa com Alice vai virando amor verdadeiro, e o desenlace – se vocês não viram o filme, imaginam – não poderia ser mais drástico.

O filme é baseado no romance do escritor John Braine, publicado em 1957, porém, revendo-o agora, não consegui me desvencilhar das semelhanças que ele (e o livro) traz com um filme da mesma década, “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”) que George Stevens havia dirigido em Hollywood, apenas seis anos atrás, em 1951.

Não vou aqui reconstituir o enredo de “Um lugar”, mas, é possível dizer, sim, que ambos os filmes lidam com uma situação dramática análoga – um jovem arrivista se envolve sexualmente com duas mulheres de classes sociais diferentes e se dá mal, quando uma delas, no caso a pobre, é vitimada por ele, que vai ter que enfrentar uma culpa insuportável.

Os meandros dos dois enredos, naturalmente diferem (em Stevens, George Eastman é condenado pela lei, em Clayton, Joe Lampton é condenado pela sua consciência), porém, as semelhanças dão na vista, e fico pensando se porventura o escritor Braine não conhecia o filme de Stevens, ou, em último caso, o romance de Theodore Dreiser em que é baseado. Um detalhe que me leva a crer que sim: em ambos os filmes, a mulher vitimada tem o mesmo nome, Alice.

De qualquer forma “Almas em leilão” não depende de intertextos. Em si mesmo, é um grande filme, forte, intenso, sincero, cortante, convincente, um belo melodrama no melhor sentido da expressão. Olhando para trás, dou-me conta de que foi um dos primeiros lampejos do que a crítica chamaria, mais tarde, de “Free Cinema Inglês”, movimento nacional que se somou às muitas vanguardas mundiais do começo dos anos sessenta.

Ao espectador de hoje deve parecer que há tabagismo demais na tela. E há mesmo. O caso Joe/Alice é todo pontuado por fumaça de cigarros, mas lembro um detalhe sintomático: ao chegar ao recanto isolado onde o casal vai passar um fim de semana idílico, ela recusa o cigarro oferecido por ele, alegando que não quer entorpecentes, para poder sentir tudo real. Quando, inesperadamente, a coisa desanda entre eles, ela volta a pedir um cigarro.

Na impossibilidade de uma análise mais acurada, reporto-me ao expressivo processo narrativo do desenlace, conduzindo ao vazio espiritual do protagonista Joe, com que o filme se fecha; esse processo se inicia desde o momento em que, no alvoroçado ambiente de trabalho, ele, ao meio das congratulações pelo futuro casamento com a filha do patrão, tem a notícia da morte de Alice, ponto a partir do qual a câmera se empenha (em ângulos, movimentos, iluminação,) em descrever cinematograficamente a sua queda moral num impiedoso crescendo. A embriaguez e a surra que leva podem ser óbvias, mas, aquele carrinho de brinquedo que o garoto de rua joga em sua direção – metáfora do acidente automobilístico de Alice – é um pequeno detalhe diegético, imagem que diz mais do que diriam mil monólogos interiores.

Nunca mais Jack Clayton dirigiria um filme tão bom, mas esta é outra questão que fica para outra ocasião.

O prazer da influência

2 jan

O crítico e teórico americano Harold Bloom gastou um mar de energia para elaborar sua tese de que todo poeta (e artista, por extensão) sofre de uma essencial e inescapável ´angústia da influência´. Segundo a tese, todo criador é necessariamente influenciado pelos seus antepassados artísticos e a consciência disso pode ser um entrave ao processo criativo, sempre deixando resquícios legíveis na obra do autor, pontos de tensão para a crítica discutir.

Aqui para nós, o que Bloom deixou de ver é que a influência também pode muito bem ser bem-vinda, favorável, benéfica, assumida, curtida, celebrada, em suma, prazerosa – por que não?

Com efeito, tem sido assim com um número enorme de criadores consagrados que, a certa altura de suas bem sucedidas carreiras, em determinadas ocasiões, especiais ou não, declararam o seu apego sem grilo a obras alheias.

Para ficarmos no âmbito exclusivo do cinema, aqui passo a mencionar um certo número de cineastas – vinte, para ser exato – que nunca tiveram pruridos em revelar o seu ´prazer da influência´, no caso, citando um filme alheio que fez sua cabeça e marcou o seu gosto pessoal.

Vejam que, à parte a mera curiosidade biográfica, esse filme alheio amado pode até ser tomado, a depender do caso, como – quem sabe? – uma chave para a caracterização do estilo do cineasta em questão.

Assim, passo a citar esses vinte cineastas e seus filmes preferidos. Sem outro critério para a ordem, o faço pela idade, os mais idosos em primeiro lugar, com, em cada caso, a indicação do ano de nascimento entre parênteses.

O primeiro da minha lista é Charles Chaplin (1889), que um dia revelou ao mundo a sua predileção incondicional por “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”, 1951), o filme de George Stevens que, livremente baseadoem Theodore Dreiser, contava a estória desse rapaz pobre que, por amor ou ambição, era levado a cometer homicídio, matando a colega de trabalho que engravidara, sendo condenado à pena de morte. O que esse melodrama sombrio tem a ver com a filmografia de Chaplin? Bem, foram ambos Chaplin e Stevens grandes românticos, mas, de todo jeito, fica a pergunta.

Pela ordem, o nosso segundo cineasta é King Vidor (1894), que escolheu “Intolerância” (D.W. Griffith, 1916) como o seu filme preferido. Para quem não lembra, Vidor foi um dos mais prolíferos diretores da Hollywood clássica, desde o cinema mudo até os anos cinquenta, autor, entre outros sucessos, do melodrama “Stella Dallas”, 1937, do western “Duelo ao sol”, 1946, e do épico “Guerra e paz”, 1956. O seu filme preferido é, como se sabe, um dos maiores épicos da história do cinema, contando simultaneamente quatro estórias sobre o tema do título, cada uma decorrida em épocas históricas diferentes.

Em seguida vem Alfred Hitchcock (1899) que, suponho, dispensa apresentações. Qual teria sido o filme preferido do ´mestre do suspense´? Bem, tinha que ser algo sombrio e apavorante, não? Sim, o filme é “Pode o amor mais que a morte” (Fritz Lang, 1921) que, com toda aquela atmosfera de terror do expressionismo alemão, narra a estória dessa moça desesperada que inutilmente negocia com ´a morte cansada´ (título original: “Der Müde Tod”), a salvação de seu amado. Nada de admirar para quem faria, anos depois, “Um corpo que cai” e outros.

É a vez de Luis Buñuel (1900), cujo xodó era um drama policial, cheio de violência e corrupção, sobre o poder e a queda de um gangster da Chicago dos anos vinte; com o título original de “Underworld” (´Submundo´), o filme foi distribuído no Brasil como “Paixão e sangue” (1927) – direção do mestre alemão, residente em Hollywood, Josef Von Sternberg, o mesmo de “O anjo azul”. Para quem conhece a obra de Buñuel, não creio que haja surpresa.

Surpresa talvez possa se dizer que há com o predileto de Billy Wilder (1906), nada menos que o revolucionário “Encouraçado Potemkin” (1925) do russo Sergei Eisenstein. Com efeito, fica difícil estabelecer relações entre o viés irônico, sarcástico, cômico de Wilder e a seriedade épica de Potemkin, mas, quem foi que disse que tais relações são obrigatórias?

O inglês Carol Reed (1906) – de “O terceiro homem”, lembram? – tinha como predileto o “Luzes da cidade” (1931) de Chaplin, e como veremos, não será o único a ter feito esta escolha.

O intelectivo e frio francês Robert Bresson (1907), que nada tem a ver com o gênero cômico, também preferia Chaplin, no caso, “Em busca do ouro” (1925). Mais surpresas.

Não sei a que altura da vida David Lean (1908) afirmou que seu filme preferido era “Intolerância”, mas, deve ter sido lá pelos anos sessenta, depois de ele mesmo já ter rodado suas “epopéias” do tipo “A ponte do rio Kwai”, “Lawrence da Arábia” e “Dr Jivago”. Bem, mesmo que tenha sido antes, não dá no mesmo?

Como Wilder, também Elia Kazan (1909) optava por “Encouraçado Potemkin” e, agora, as afinidades já parecem menos obscuras. Ou estou enganado? Só relembrando, Kazan dirigiu, entre outros: “Uma rua chamada pecado”, “Sindicato de ladrões, e “Vidas amargas”…

Que o autor do neo-realista “Ladrões de bicicleta” (1948), o italiano Vittorio De Sica (1911), tenha preferido um documentário não achei muito fora de propósito: o predileto de De Sica foi o belo e comovente “O homem de Aran” (Robert Flaherty, 1934), sobre a pesca do tubarão nas falésias da Irlanda, um clássico do gênero.

E Stanley Kubrick (1913), qual teria sido o filme preferido do diretor de “2001: uma odisséia no espaço”? É possível que os fãs de Kubrick se surpreendam em saber que era Fellini, não o grandiloquente de “Oito e meio”, mas aquele supostamente menor, o cronista da cidade pequena de “Os boas-vidas” (“I vittelloni, 1957). Não é curioso?

Como Reed, Orson Welles (1915) achava que o melhor filme a que tinha assistido em toda a sua vida era o “Luzes da cidade” de Chaplin… Sem comentários. Ou comentários em excesso. Deixo ao leitor…

O grande Sidney Lumet (1924), de “Doze homens e uma sentença” (1958), defende como o melhor filme de sua vida, o drama pós-guerra de William Wyler “Os melhores anos de nossas vidas” (“The best year of our lives”, 1946), aliás, título irônico para uma película que, de forma crua, denunciava os deletérios efeitos colaterais da Segunda Guerra nos lares americanos.

Para Milos Forman (1932) o melhor filme do mundo é o “Amarcord” de Fellini (1971), aliás, nisso endossando a lista dos dez mais da crítica internacional.

Já Sydney Pollack (1934) fica com o clássico “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), nisso endossando a preferência dos espectadores.

Quem também coincide com a lista da crítica internacional é o italiano Bernardo Bertolucci (1941), que acha que não há filme melhor que “A regra do jogo” (1939), a comédia-farsa de Jean Renoir sobre os bastidores domésticos da aristocracia francesa, um avatar do chamado ´cinema de arte europeu´.

Creio que sem surpresas para ninguém, Martin Scorsese (1942) escolhe Kubrick e o seu “Barry Lyndon” (1975) – um caso por demais óbvio de identificação.

Steven Spielberg (1946) pensa que “Lawrence da Arábia” (David Lean, 1962) seria o suprassumo do cinema. Previsivelmente?

E Jim Jarmusch (1953) se reporta aos franceses anos trinta para escolher esta pequena e obscura obra prima do precocemente falecido Jean Vigo “L´Atalante” (1934), um  filme desconhecido do grande público, daquele tipo que ou você viu em cineclube, ou nunca viu – enfim, xodó não apenas de Jarmusch, mas de muitos cinéfilos, críticos e cineastas.

Por fim, qual seria o “prazer da influência” de Quentin Tarantino (1963)? Pensaram? Chutaram? Acertaram? O diretor é o italiano Sérgio Leone e o filme é “The Good, the Bad and the Ugly” (“Três homens em conflito”, 1966), o terceiro faroeste-spaghetti de uma série que deslancharia todo um gênero.

Aí está uma relação de “influências prazerosas” para o leitor comparar e considerar.

Em direção diametralmente oposta a Harold Bloom, o argentino Jorge Luis Borges exagerava no conceito de “prazer da influência” propugnando que o escritor (o que podemos entender como: o artista) escolhe a sua influência e inventa, por conta própria, os laços afins. Se assim é, vale a pena o exercício de, em cada caso acima, investigar onde o cineasta influenciado já se fazia presente no influenciador, e vice-versa.

O que já haveria de Kubrick em “Os boas-vidas”? O que há de “Encouraçado Potemkin”em Billy Wilder? Boas perguntas que Borges maliciosamente nos instila, sem, contudo, ajudar nas respostas.