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Shakespeare e o cinema

3 jun

No ano do aniversário de morte de William Shakespeare (1564-1616) vale perguntar: quantas vezes foram as suas 37 peças adaptadas à tela?

Tantas que os órgãos responsáveis pelas estatísticas perderam a conta. O livro Guiness de Recordes registra 410 vezes, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) o aumenta, e afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

Segundo consta, a primeira adaptação shakespeariana aconteceu no remoto 1900, uma produção francesa de “Hamlet” em que o herói atormentado pela dúvida é interpretado por uma mulher: Sarah Bernhardt.

Desse ano em diante não se parou mais de filmar Shakespeare. E vejam que as estatísticas citadas – suponho – só computam as adaptações das peças, ficando de fora filmes inspirados nos sonetos shakespearianos, como o “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation’, 1985) de Derek Jarman.

"Hamlet", de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

“Hamlet”, de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

E mesmo tratando-se de peças, o conceito de adaptação fica elástico para caber experiências as mais díspares. Nem todos são fiéis ao texto original, como o foi o cineasta Kenneth Branagh, no seu “Hamlet” (1996), que – único caso conhecido – reproduz o diálogo inteiro da peça, palavra por palavra, por isso tendo que estender seu tempo de projeção para quatro horas (Vide cópia em DVD).

Um caso inusitado é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Cena de "Ran", de Akira Kurosawa, 1985.

Cena de “Ran”, de Akira Kurosawa, 1985.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) são homens e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

Estes são casos especiais. No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Aqui não pretendo analisar as adaptações da obra de Shakespeare, até porque não vi todas e não teria espaço para tratar das muitas que vi. Ao invés disso, prefiro encerrar esta matéria tentando lembrar quando foi, ou quando foram meus primeiros contatos com os filmes shakespearianos.

Shakespeare em versão soviética: "Otelo", 1955.

Shakespeare em versão soviética: “Otelo”, 1955.

Acho que minha primeira vez foi a produção soviética de “Otelo”, que é de 1955, dirigida por Sergei Yutkevich, exibida no Cine Sto Antônio por volta de 1957. Um filme tenebroso que, nos meus onze anos de idade, não entendi muito bem. Pelo mesmo tempo, o mesmo Sto Antônio, re-exibiu o “Romeu e Julieta” de Renato Castellani (a primeira exibição inaugurara o cinema, em 1955), com Laurence Harvey e Susan Shantall no elenco, filme bem mais digerível para meu espírito infantil.

Não sei o que veio em seguida, mas desconfio que foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewics que é de 53, mas deve ter chegado em João Pessoas com anos de atraso. Eu já estava mais crescidinho e me impressionei com a cena do assassinato no Senado romano, e com as interpretações de James Mason como Brutus, e Marlon Brando como Marco Antônio.

Até então, eu nunca havia lido Shakespeare, e na medida em que assistia a novas adaptações de sua obra, fui construindo uma visão cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema. No dia em que, pela primeira vez, final dos anos sessenta, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos.

Claro, era teatro, mas que teatro poético!

Marlon Brando como Marco Antônio, em "Júlio César", 1953.

Marlon Brando como Marco Antônio, em “Júlio César”, 1953.

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O esgrimista

20 maio

Com assinatura do finlandês Klaus Härö, o filme “O esgrimista” (“Miekkailija”, 2015), disponível em dvd, mistura bem veracidade histórica e drama pessoal, e pode ser visto com prazer.

Sigamos as linhas mestras de seu roteiro. A estória começa na Estônia do início dos anos cinquenta, quando este país ainda fazia parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. À pequena cidade de Haapsalu chega o desconhecido e meio arisco Endel Nelis para assumir, na Escola local, o posto de professor de esportes.

Apesar de mal recebido por uma direção desconfiada, logo ele funda o clube da esgrima, ao qual acorrem alunos das várias séries, fascinados por um esporte que oscila entre a destreza da luta e a elegância da dança. Dadas e recebidas com rigor e dedicação, as aulas fazem efeito e daí a pouco, a equipe esgrimista já está bem consolidada. Sempre antipática ao novo professor, a direção da escola tenta extinguir a esgrima do currículo, porém, o corpo docente em peso, considerando o interesse evidente do alunado, vota pela permanência.

Poster do filme, com o título internacional, "The fencer"

Poster do filme, com o título internacional, “The fencer”

O impasse aparece no dia em que divulga-se o grande Evento Nacional de esgrima competitiva, a acontecer em data próxima, em Leningrado. Entusiasmados, os alunos querem participar, mas, o professor Endel, não. Ele é, como se diz nos resumos de “movie guides” americanos, “a man with a past” (´um homem com um passado´).

Ocorre que, ao tempo em que, antes dos soviéticos, a Estônia encontrava-se sob domínio alemão, Endel, como muitos outros jovens de sua faixa etária, fez, inocentemente, parte do exército daquele país. Com a vitória dos Aliados, esses jovens passaram a ser perseguidos como inimigos da pátria: muitos foram enviados a campos de concentração na Sibéria por Stalin, e Endel, miraculosamente, escapara, mudando então o sobrenome de Keller para o atual Nelis.

Sob o duro regime stalinista, retornar a Leningrado era um perigo que ele não podia correr e, por outro lado, não participar da competição nacional de esgrima seria uma atitude que os alunos, sem conhecer os seus motivos, iriam repudiar. Ir a Leningrado como técnico da equipe e ser preso, ou ficar e decepcionar uma turma de adolescentes tão estimulados ao esporte?

o esgrimista 2

O que torna o dilema maior é que, sendo quase todos os alunos da escola órfãos da guerra, o professor Endel havia se tornado, para eles, querendo ou não, uma espécie de ´figura paterna´, que supria o afeto inexistente em casa. Na estação de trem, no momento da partida, é isso que lhe diz a namorada, também professora, querendo argumentar em favor de sua desistência. A resposta de Endel é, contudo, inequívoca: ‘por isso mesmo, eu tenho que ir´. E vai.

Durante a realização do torneio, já chegada ao Ginásio a polícia que deverá levar o subversivo treinador do time de Haapsalu, o diretor da escola, a sós com ele num pé de escada, ainda tem a surpreendente fineza de lhe oferecer a fuga. Diz ele, “a URSS é um país enorme”, o que Endel ouve, treme e cala. Mas não foge.

A estória do desportista estoniano Endel Nelis (1925-1993) é um caso real, historicamente datado, porém, não quer isso dizer que o filme de Härë lhe tenha sido subalterno.

A simples forma de narrar evidencia a invenção que está nos enquadramentos, na montagem, na fotografia, no uso da música, nas interpretações, nas escolhas dos cenários, enfim, em toda a mis-en-scène. Com certeza, a própria roteirização apelou para lances que transcendem a estória real, modificando-a ou lhe fazendo acréscimos.

Aulas de esgrima, para crianças...

Aulas de esgrima, para crianças…

Coisas assim ficam claras na caracterização de pelo menos dois dos alunos de Endel, a irrequieta Marta e o contido Jaan. É Marta quem suscita as aulas de esgrima ao espiar o professor em seu exercício solitário; é ela quem ganha dele o amuleto e é ela quem o devolve num momento de decepção; é dela, mera suplente no jogo de Leningrado, de quem dependerá o sucesso do time. Já Jaan é o único aluno que divisamos em casa; o único que tem um avô entusiasta da esgrima; o único que perde um ente querido durante o período do curso; e o único que contesta o talento do professor em um momento de crise: “Você só está aqui porque não é bom”, diz ele, referindo-se à pequenez de Haapsalu, em oposição à grandeza de Leningrado”.

Pode-se perfeitamente dizer que “O esgrimista”, como tantos outros, é só mais um filme sobre a relação professor/aluno, ou sobre o espírito de grupo esportivo que leva à vitória, ou sobre a dureza do regime totalitário…. mas, acontece que o cineasta Härë soube juntar bem os três temas e nos oferece uma obra singela, mas convincente e honesta.

Enfim, o espectador pode sair dele com a sensação de “já ter visto esse filme”, porém, – suponho eu – também sairá com a sensação de ter gostado da “revisão”. Eu gostei.

Na estação, a caminho de Leningrado.

Na estação, a caminho de Leningrado.

 

Só para relembrar Omar Sharif

14 jul

A morte do ator Omar Sharif (1932-2015) foi assunto da imprensa nestes dias. Aqui o relembramos através do seu filme mais amado, “Doutor Jivago” (1965), que por sinal, neste 2015, está completando cinquenta anos.

Se pudermos começar o nosso relato com um close, vamos nos centrar na mão iluminada de um grande poeta russo, que, debaixo da dureza do regime totalitário, rabiscava – e quando podia publicava – os seus poemas de tom místico e humanista que em nada batiam com a fechada ideologia vigente.

De repente, esse poeta inspirado, Boris Pasternak, decide escrever em prosa e produz – ironicamente – a obra pela qual ficaria internacionalmente conhecido: o romance semi-autobiográfico que conta a estória de um certo médico perdido entre a Revolução, a literatura e um amor adúltero.

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Inaceitável na URSS, “Doutor Jivago” é editado na Itália em 1957 e – surpresa! – ganha o prêmio Nobel, que Pasternak, evidentemente, é obrigado a recusar, vindo a falecer três anos depois, em 1960.

Uma estória dramática, um romance premiado, um autor injustiçado e morto… Os grandes estúdios americanos ficam de olho, até porque a grandiosidade da narrativa cabia nos parâmetros das superproduções a que a Hollywood decadente da época se agarrava com unhas e dentes.

Foi a já cambaleante MGM quem assumiu a realização da adaptação, chamada pelos comentaristas de “salada russa”, com referência à mistura das nacionalidades envolvidas: rodado na Finlândia, na Espanha e no Canadá, a companhia produtora foi a italiana de Carlo Ponti, e do elenco faziam parte alemães (Klaus Kinski), americanos (Rod Steiger), ingleses (Alec Guiness), e, claro, o egípcio Omar Sharif no papel-título. A trilha sonora foi para o francês Maurice Jarre e a fotografia para o inglês Freddie Young. Aliás, música e fotografia, as duas juntas, são um destaque estético que torna o filme memorável – acho que o leitor concorda comigo.

Omar Sharif e Julie Christie em "Doutor Jivago"

Omar Sharif e Julie Christie em “Doutor Jivago”

A direção vai para as mãos hábeis de um inglês que já provara ser bom em grandes produções. David Lean tinha feito “A ponte do rio Kwai” (1957), e em 1962 deslumbrara o mundo com o seu – também uma adaptação e também épico – “Lawrence da Arábia”, onde Sharif – vocês lembram – já estava. Ninguém melhor que Lean, sem contar que esse romântico inveterado já revelara, desde o intimista “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945) que, independente do tamanho da produção, a sua temática preferida, aquela em que mais rendia, era a da ´mulher apaixonada fora do casamento´, sim, aquela mesma dos grandes romances do século XIX.

Mas como adaptar à tela um romance tão vasto, apesar do lirismo, de escala épica, cuja narrativa se iniciava no início do Século XX e se estendia para além da Segunda Guerra Mundial? A missão do roteirista Robert Bolt (o mesmo de “Lawrence”) foi reduzir a extensão da história e centrar-se no caso de amor entre o médico Yuri Jivago e a sua bela enfermeira Lara – uma imposição dos estúdios que o diretor – imagino – deve ter abraçado de muito bom grado.

Não vou resumir o enredo de um filme que todo mundo conhece, mas, cabe referir as críticas que o filme recebeu na época de sua estreia: o de trair a dimensão lírica e mística do romance de Pasternak, de cujas páginas fazem partes muitos de seus poemas mais inspirados. O outro ponto crítico foi a exploração do lado melodramático da narrativa, no investimento que faz no desafortunado romance entre Jivago e Lara, a Revolução Russa e seus efeitos aparecendo como pano de fundo.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

O público é que não quis saber de nada disso e, não apenas acorreu aos cinemas, como, passado o tempo, incluiu o filme no imaginário da comunidade cinéfila do planeta. Hoje, quem tem dúvidas de que “Doutor Jivago” é um dos clássicos mais lembrados?

Do ponto de vista estrutural, uma mudança básica na adaptação está na escolha do foco narrativo, a estória inteira sendo contada a partir de um longo flashback, quando, tempos depois da Revolução de Outubro, o irmão do protagonista, Yevgraf (Guiness), encontra essa moça, operária nesse novo país, a URSS, que teria sido a filha do casal adúltero, Jivago e Lara.

Acho que o flashback funciona bem, agora, aqui para nós, o que nunca me pareceu apropriada foi a escolha de Rita Tushingham – uma das atrizes mais feias na história do cinema – para ser justamente a filha dos belos Julie Christie e Omar Sharif. Atriz talentosa, Rita esteve ótima naqueles filmes sobre ´gente como a gente´ do Free Cinema (Cf “Um gosto de mel”, por exemplo), porém, aqui lhe faltou o que a natureza não lhe deu: physique du rôle, ou seja, o físico apropriado ao papel.

Enfim, “Doutor Jivago”, um belo filme. Vamos ligar o aparelho de DVD e, entre outras coisas, relembrar Omar Sharif.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Walesa

19 fev

Quem ainda lembra Lech Walesa, o líder polonês que, nos anos setenta e oitenta, revolucionou o país com o movimento operário “Solidariadade” e, pela coragem de desafiar o regime soviético, ficou conhecido no mundo inteiro?

Pois é, ironicamente, depois do prêmio Nobel e da presidência, Walesa saiu da berlinda e dele não temos tido notícias há anos.

Agora o vejo biografado no filme de um cineasta tão “desaparecido” quanto ele. Introduzido à programação da televisão paga, o filme é “Walesa” (2013) e o diretor é o grande Andrzej Wajda, considerado pela crítica o maior cineasta da Polônia em todos os tempos.

lech o poster

Pelo roteiro, algum tempo depois do sucesso do “Solidariedade”, Walesa relata a uma jornalista italiana a sua vida de operário, desde o tempo em que não passava de um pobre pai de família, empregado nos estaleiros de Gdansk, até a liderança do movimento.

Na medida em que Walesa fala, as imagens substituem sua voz e aí passamos a ver os fatos como supostamente teriam acontecido: as muitas prisões, as seguidas demissões, os problemas domésticos, a querela com os poderosos, o catolicismo, a ascensão vertiginosa como líder em Gdansk e no país, etc…

Se o retrato fílmico do personagem for fiel, Walesa foi um líder inato, um pai de família dedicado, um cidadão consciente, mas, um pensador simplório, empírico, avesso a conceituações, e às vezes autoritário e arrogante por trás de seu cigarro sempre aceso.

Uma cena recorrente costura bem o lado privado do personagem com o público: nas muitas vezes em que a polícia batia em sua porta, Walesa, sabendo que o paradeiro de um prisioneiro era sempre incerto, tinha sempre, antes de entregar-se, o cuidado de deixar com a esposa, Danuta, seus pertences de mais valor, um relógio e um anel, para que ela vendesse, no caso de ele não mais voltar.

Cena do filme: as repetidas prisões.

Cena do filme: as repetidas prisões.

Numa dessas vezes em que é procurado pelos agentes, a família inteira, e mais a vizinhança, assiste na televisão caseira, o seriado americano que fez sucesso nos lares europeus da época, “Rich man, poor man”, com, entre vários outros astros de Holllywood, Dorothy Malone e Ray Miland – um pequeno sintoma de que o capitalismo exercia sua atração num país comunista.

Com o sucesso do movimento operário, quando Walesa retorna daquele que seria seu último cárcere, a cena em que a esposa, orgulhosa de si mesma e dele, lhe devolve o relógio e lhe põe no dedo de volta o anel de casamento… é quase um happy ending de seriado americano…

Trata-se de um filme importante por reconstituir uma parte da história do Século XX, porém, para dizer a verdade, nele não há novidades. Mesmo para quem não conhecia de perto a carreira de Walesa, o filme soa como algo previsível, conferindo com o que se imaginava da vida de um grande líder político, e pronto; não há choques, nem surpresas, nem impactos, muito menos arrebatamentos.

No fundo, é só uma homenagem – mais que merecida, é verdade – ao líder polonês que fez história… mas é só isso. Um filme que se vê por curiosidade (meu caso) e depois – suponho – se esquece.

A previsibilidade de “Walesa” incomoda mais ainda a quem conhece a brilhante carreira do diretor Andrzej Wajda. Hoje com 88 anos de idade, Wajda foi o representante do cinema polonês no mundo, bem antes de Polanski e Kielowski.

Um pôster que mostra Walesa e a esposa, Danuta.

Um pôster que mostra Walesa e a esposa, Danuta.

Sem dúvida nenhuma, o filme em questão está longe de ter a força e a beleza que marcaram os filmes que Wajda rodou no passado, começando nos anos cinquenta, primeiramente sob a influência do neo-realismo italiano, e mais tarde, encontrando o seu particular caminho estilístico, onde temário e plástica se confundiam de modo genial. Refiro-me a filmes belos e fortes como “Canal” (1957), “Cinzas e diamantes” (1958), “Terra prometida” (1975), “O homem de mármore” (1977), “O homem de ferro” (1981), “Um amor na Alemanha” (1983)…

Lembro que, no meu primeiro texto publicado sobre cinema, (Revista Oficina, 1981) incluí “O homem de Ferro” no rol dos filmes que cabiam no paradigma de, sendo disfóricos, terminarem com uma cena “de esperança”, no caso, a primeira pedra lançada pelos trabalhadores contra a janela envidraçada dos patrões – uma promessa de mudança num filme que mostrava o desabrochar das lutas operárias no país. Outros filmes com final de alguma forma “esperançoso”, mutatis mutandis, eram: “A fonte da donzela” (Bergman), “Noites de Cabíria” (Fellini) e “Deus e o diabo na terra do sol” (Glauber Rocha).

Enfim, depois disso, a filmografia de Wajda parece ter perdido o vigor; ao menos é o que sugere esse simpático mas burocrático “Walesa”.

O Walesa verídico, no tempo do "Solidariedade"

O Walesa verídico, no tempo do “Solidariedade”

 

Um homem, uma mulher: “jamais vu”

4 ago

Em meados dos anos sessenta, com seis fracassos de público e crítica nas costas, o jovem cineasta Claude Lelouch estava andando, meio desiludido, pelas calçadas litorâneas de Deauville, Norte da França, quando avistou, ao longe, uma jovem senhora e sua filha pequena que, alegres e saltitantes, brincavam nas areias da praia.

Bem agasalhadas do frio, as duas pareciam curtir a tarde e, mais que isso, a companhia uma da outra. A alegre cena, cheia de rodopios e risadas, estimulou a imaginação do cineasta que passou a se indagar o que poderiam estar fazendo ali, quase únicas na paisagem, aquelas duas. E aí foi preenchendo o que não sabia por conta própria: a mulher bem que poderia ser viúva, e a filha, aluna do Orfanato local, por isso só se viam em fins de semana, quando a mãe vinha, de Paris, apanhá-la.

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Conta a lenda – e o cineasta a reforça – que foi daí que nasceu o roteiro de “Um homem, uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), o filme que, depois dos fracassos iniciais, deu novo rumo à carreira de Lelouch.

Nascido em Paris, em 1937, Lelouch aprendeu a gostar de cinema ainda criança, durante a guerra, na Paris ocupada, quando, judeu de origem que era, se refugiava dos alemães nas salas escuras dos cinemas.

Ao crescer, não deu outra. Entrou no métier logo que pôde, primeiramente como cameraman de atualidades e depois como co-autor de curtas publicitários.

Em viagem à URSS, em 1957, Lelouch caiu um dia, por acaso, num set de filmagem do cineasta Mikhail Kalatozov, e pôde então vivenciar de perto a efervescência do cinema russo que, naquele tempo, depois da morte e devassa de Stalin, já chamava a atenção do mundo, com filmes como “O quadragésimo primeiro”, “Quando voam as cegonhas”, “A balada do soldado” e outros. Foi nesse dia que Lelouch decidiu ser realizador de longas de ficção.

Anouk Aimée e Jean-Louis Trinttingnant

Anouk Aimée e Jean-Louis Trinttingnant

Mas, voltando à cena na praia de Deauville, com certeza naquela ocasião a tristeza de Lelouch tinha a ver com as fortes reações negativas da crítica a seus filmes de início de carreira. Uma dessas críticas foi, mais tarde, chamada por ele próprio de “assassina”.

“Souvenez-vous bien de ce nom: vous n´en entendrez plus jamais parler”. “Lembrem-se bem deste nome: vocês nunca mais ouvirão falar dele”. Foi com esta frase cruel que, em 1963, a revista de cinema “Cahiers du Cinéma” tentou descartá-lo do cenário cinematográfico.

Ironia do destino – quatro anos mais tarde, em 1967, Lelouch ganharia a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original por seu novo filme – justamente aquele nascido em Deauville. Na França e em todo o mundo era só o que se escutava e do que se falava, do filme “Um homem, uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966).

A intimidade e a lembrança do luto

A intimidade e a lembrança do luto

De cara mexendo, o pessoal dos “Cahiers” quis voltar atrás e, na imprensa, François Truffaut ousou sugerir que “Um homem, uma mulher” se enquadrava no espírito da Nouvelle Vague, movimento de cinema, como se sabe, saído do seio da revista que criticara Lelouch. Dando o troco à altura, na mesma imprensa, Lelouch peremptoriamente declarou que seu filme não tinha nada, absolutamente nada a ver com a Nouvelle Vague.

Desde então ficou comprada a briga entre Lelouch e a crítica de uma maneira geral, briga que faz o cineasta jogar farpas famosas do tipo: “Um dia farei um filme para os críticos – quando tiver dinheiro para perder”.

A carreira de Lelouch deslancharia vertiginosamente depois do estrondoso sucesso de “Um homem, uma mulher”, e a frase dos Cahiers ficou registrada, no anedotário cinematográfico, como uma das grandes mancadas da crítica. A filmografia do cineasta já contém mais de cinqüenta títulos e seu nome há muito consta entre os grandes realizadores de seu país.

Só uma estória de amor...

Só uma estória de amor…

Para o bem ou para o mal, existe um “estilo Lelouch” e ele já estava todo prometido em “Um homem, uma mulher”: câmera móvel, em muitos casos, na mão ou no ombro, diálogos improvisados, voz over para as revelações mais íntimas dos personagens, flashbacks com imagens narradoras, no lugar dos diálogos, visual de clips publicitários, ritmo preso a uma trilha musical generosa, uso cronológico das cores… são alguns desses traços de estilo.

No caso de “Um homem, uma mulher” o enredo não poderia ser mais exíguo – talvez o único dado que difere da filmografia posterior do cineasta: um viúvo parisiense que, todo fim de semana, vai pegar o filho pequeno num orfanato em Deauville, conhece uma viúva que sempre vai pegar a filha no mesmo local. Um dia ela perde o trem, ele lhe dá carona e a amizade está garantida, logo virando amor. No primeiro encontro íntimo, os dois aprendem que o luto não passa fácil e que precisam de delicadeza para contorná-lo.

O jovem Lelouch nas filmagens de "Um homem, uma mulher"

O jovem Lelouch nas filmagens de “Um homem, uma mulher”

À simplicidade do enredo corresponde a simplicidade da forma. Nada de angústias existenciais, filosóficas ou metafísicas, apenas as angústias das pessoas comuns; nada de experimentos formais inovadores, salvo os que os espectadores comuns tenham condição de acompanhar e aceitar. Nesse sentido, a trilha sonora principal, é exemplar, com sua batida simples e sua melodia delicada. Embora já consagrados, os atores Jean-Louis Trintingnant e Anouk Aimée dão interpretações despojadas, como se vivendo a estória de verdade. O tom geral do filme, se não é eufórico, é alegre, como a mulher e a criança avistadas nas areias de Deauville. E o final, claro, tinha que ser feliz.

Não me recordo como a crítica doméstica reagiu a “Um homem, uma mulher”, mas lembro bem que o público adorou o filme, em especial, o seu lado brasileiro, com o emprego da música “Samba Saravá” de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Apesar da ditadura, era aquela uma época em que o Brasil estava em evidência, com a bossa nova, o futebol, o cinema novo, as misses, o boxe, a arquitetura de Brasília, etc, e a parcela brasileira do enredo massageava o nosso ego.

A crítica que se faz hoje a Lelouch é que ele redunda temas e fórmulas narrativas e plásticas, dando a impressão de estar, há décadas, rodando o mesmo filme. Desde o mega-sucesso “Retratos da vida” – e talvez antes – que os seus filmes são tachados pela crítica mais hostil com o rótulo de “dejà vu”

Pode até ser verdade, mas, quanto a “Um homem, uma mulher” ainda hoje parece “jamais vu”.

 

Em tempo: esta matéria foi apresentada no Cineclube “Usina Lumière”, em João Pessoa, em 21 de maio de 2014, quando da exibição de “Um homem, uma mulher”.

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