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CINEMA E PINTURA

6 maio

Neste 8 de maio celebra-se o Dia do Artística Plástico e a proximidade da data me fez pensar na relação entre o cinema e a pintura, duas artes tão profundamente ligadas, até porque o cinema, entre outras coisas, também é plástico.

Tanto é assim que quando, em 1927, o som chegou às telas dos cinemas, houve reclamações: ele, o som, estimulava a vocação narrativa da sétima arte, constituindo-se numa quebra da autonomia da imagem. Dois “reclamantes” famosos, como se sabe, foram Charles Chaplin e o nosso Vinicius de Moraes.

De fato, alguns dos filmes mudos, mesmo quando contavam estórias, como o “Aurora” de Murnau (1927), ou o “Metropolis” de Fritz Lang (1927), comungavam com a plasticidade da pintura. Agora, com o advento do som, toda a ênfase passava a ser posta no desenvolvimento do enredo. Sem coincidência as duas primeiras décadas da era de ouro do cinema clássico – anos 30 e 40 – fizeram, mais ou menos, vista grossa ao parentesco entre a pintura e o cinema.

Um quadro constante em Ford: o Monument Valley

Claro que houve as exceções, se você pensar em cineastas “plásticos” como William Wyler, George Steves, e sobretudo, John Ford. Como não lembrar as panorâmicas de Ford na paisagem do Velho Oeste americano, especialmente aquelas tão recorrentes do deslumbrante “Monument Valley”? Se você porventura não esqueceu o preto-e-branco do belíssimo “O mensageiro do diabo” (Charles Laughton, 1955), deve recordar como suas paisagens, em certos planos especiais, recriam pinturas do Impressionismo francês.

Um dos primeiros filmes americanos a tratar diretamente o tema da pintura acho que foi “O retrato de Dorian Gray”, 1945, de Albert Lewin, com o ator Hurd Hatfield no duplo papel-título. Sem coincidência, o filme levou o Oscar de melhor fotografia, trabalho especial de Harry Stradling. No mesmo ano, Fritz Lang rodou “Almas perversas” (“Scarlet Street”, 1945), só que aqui o pintor é um amador que vende seus quadros com assinatura alheia. Em 1948 William Dieterle lançaria o seu “Retrato de Jennie” (“Portrait of Jennie”), com Joseph Cotten como um pintor em crise que, ao meio da Depressão americana, procura uma musa – e a encontra, em pleno Central Park, na figura do título, desempenho de Jennifer Jones.

O ator Kirk Douglas como Van Gogh em “Sede de viver”

Até aqui os pintores eram fictícios. Nos dez filmes que, em ordem cronológica, cito em seguida, os pintores são criaturas do nosso mundo, que deixaram obras para a posteridade. Na impossibilidade de discutir mais extensivamente estes filmes, acrescento apenas rápidas notas informativas para cada caso. O número de filmes sobre pintura e pintores é, atualmente, bem maior que a minha lista e assumo a responsabilidade das escolhas:

MOULIN ROUGE (John Huston, 1952), com José Ferrer no papel do pintor Toulouse-Lautrec, vivenciando as delícias e os tormentos da Belle Époque.

SEDE DE VIVER (Lust for life, 1955, Vincente Minnelli) com Kirk Douglas e Anthony Quinn como, respectivamente, o convulso Van Gogh e o amigo fiel Gauguin.

O MISTÉRIO DE PICASSO (Le mistère de Picasso, 1956, H. G. Clouzot) com Picasso, ele mesmo, pintando em transparência e sendo filmado no ato.

AGONIA E ÊXTASE (The agony and the ecstasy, 1965, Carol Reed) com Charlston Heston na carne de Michelangelo, em voltas com o Papa da época para a pintura da Capela Sistina.

VERDADES E MENTIRAS (F for fake, 1973, Orson Welles) com o falsário Elmyr de Hory, nesse documentário irônico sobre quadros originais e imitações.

MEU PÉ ESQUERDO (My left foot, 1989, Jim Sheridan) com Daniel Day-Lewis como o deficiente irlandês Christy Brown e seus genais quadros pintados com um dos pés.

FRIDA (2002, Julie Taymor) com Salma Hayck, fazendo a sofrida pintora mexicana, sua saúde precária e sua luta com o companheiro Diego Rivera.

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA (Girl with a pearl earring, 2003, Peter Webber) com Colin Firth no papel de Vermeer, e Scarlett Johansson no da fictícia empregada doméstica Britt, que teria sido a modelo do quadro famoso.

SOMBRAS DE GOYA (Goya´s ghosts, 2006, Milos Forman) com Stellan Skarsgard desempenhando Francisco Goya, ao tempo em que foi réu da Inquisição espanhola, por causa da amante Inês.

COM AMOR, VAN GOGH (Loving Vincent, 2017, Dorota Kobiola e Hugh Welchman), uma fase da vida do pintor holandês em forma de poético cartoon.

 

“Moça com brinco de pérola” – quando um quadro gera um filme

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Van Gogh em pintura animada

16 jan

Certo mistério envolve a morte de uma figura importante e alguém é incumbido de ir no encalço desse mistério, para tanto, entrevistando pessoas as mais variadas, que conviveram com o finado. Essas pessoas dão depoimentos contraditórios que não ajudam a desvendar o mistério e a estória se finda sem uma resposta muito clara.

Estou falando de “Cidadão Kane”? Que nada! Falo de “Com amor, Van Gogh” (“Loving Vincent”, 2017) filme que está em cartaz na cidade e no mundo.

Nesse maravilhoso longa de animação, o mistério a ser esclarecido é o da morte do pintor holandês Vincent Van Gogh, e o encarregado da busca é um homem comum, o filho de um carteiro local. Há uma carta do pintor, dirigida ao irmão, Theo, e é essa carta o fio condutor que levará, ou não, o investigador ao seu alvo…

Como num filme de Hitchcock, a carta é um mero macguffin para fazer a trama andar, e isto com direito a um certo suspense e tudo mais que dá a qualquer filme uma certa cara de thriller. “Macguffin” para quem não sabe, é o pretexto semiótico a partir do qual se inventa qualquer estória.

Mas aqui o que mais vale é o equilíbrio entre o interesse pela trama e o fascínio pela plástica. Sim, enquanto a estória se desenrola, somos tomados, o tempo todo, pela beleza do cenário e das cenas, que repetem o esplendor das pinturas de Van Gogh. Um leitmotif, por exemplo, são corvos que, aparecendo em momentos estratégicos da narração, mancham a paisagem amarelada, para nos lembrar um certo quadro emblemático do pintor. Beleza pura.

Diferentemente do esperado, não se trata propriamente de desenho animado, mas de “pintura animada”. Sim, o filme foi todo confeccionado a partir de pinturas feitas a mão, em telas, pinturas estas criadas por 100 exímios pintores que capricharam na imitação do estilo Van Gogh. Cerca de 66 mil fotogramas e 853 tomadas contam a estória e encantam o espectador. Coisa nunca vista.

Já que falei em Hitchcock, o mago do suspense chutava, com sua maledicência costumeira, que os melhores atores são os de desenho animado porque, quando o cineasta não gosta deles, simplesmente os rasga e joga fora. A boutade brincalhona de Hitch me faz pensar em como não deve ter sido difícil para os autores de “Com amor, Van Gogh”, justamente “dirigir” os atores. Em duas instâncias: numa, exigindo dos pintores, nos personagens pintados, as exatas expressões faciais e corporais que correspondessem aos momentos mais ou menos dramáticos; e noutra, cobrando dos atores que fazem as falas, a mesma correspondência emocional no nível vocal.

Quem assiste ao filme não tem dúvidas de que a dupla Dorota Kobiela e Hugh Welchman tiveram completo sucesso no empreendimento. Um fato impressionante, por exemplo, é haverem conseguido a sutileza – ao mesmo tempo plástica e narrativa – de mostrar como o personagem Armand, que procede à busca, cresce da indiferença pela figura do pintor… até um total envolvimento que o faz tomar o seu partido emocional de forma radical – e fisicamente, lutar por ele.

Igualmente impressionante como as cenas cumprem sua dupla função, de, de um lado, instruir a narrativa, e, de outro, alimentar o sonho plástico.

Nesse aspecto, relembrem o momento em que um médico da província de Auvers reconstitui hipoteticamente a cena do que ele entende ter sido um crime, já que o tiro que atingiu o corpo do pintor e o levou à morte veio de um ângulo afastado e inferior. Nesse momento estamos assistindo a um filme policial. E contraponham esta cena àquela em que a jovem Marguerite Gachet oferece seu depoimento de admiradora – ela, que diariamente coloca flores no túmulo do pintor, uma figura que vemos pela primeira vez, tocando piano, toda de branco, justamente como um dia a pintara Van Gogh, quadro que se conhece dos museus da vida. Nesse momento, é a plástica quem fala.

“A verdade é que só podemos falar através de nossas pinturas”.

A famosa frase de Vincent Van Gogh sobre o que um pintor teria a dizer ao mundo justifica a incompletude conceitual de sua própria estória, mas, mais que isto, justifica a própria existência desse belo, belo filme que promete perdurar em nossa memória fílmica por muito, muito tempo.

Acima mencionei Kane e Hitchcock, porém, assistindo a este “Com amor Van Gogh” o filme antigo que de fato vem à mente do cinéfilo é “Sede de viver” (“Lust for life, 1956) de Vincente Minnelli, com o hoje centenário Kirk Douglas no papel do pintor holandês. Pessoalmente, já o pus na frente da fila do “A REVER”…