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O que aconteceu ao cinema?

23 set

De acordo com estatísticas recentes, somente cerca de 2% da população do planeta freqüentam salas de cinema. Considerando-se que esse percentual ultrapassava os 90% na época áurea do cinema – anos 30, 40 e 50 – não seria o caso de se perguntar o que aconteceu ao cinema?

Uma resposta possível pode ser encontrada no livro do historiador americano Edward Jay Epstein, que a Summus editou no Brasil neste ano de 2008: “O grande filme: dinheiro e poder em Hollywood”.

Mas, antes, um esclarecimento: o percentual de 2% citado não indica propriamente o número de pessoas que assistem a filmes no mundo: indica apenas os que o fazem em salas de projeção, pois, bem mais elevado é o percentual de pessoas que vêem filmes em casa, em VHS, DVD, televisão paga, televisão convencional, ou outros meios menos legais.

Na verdade, segundo Epstein, o que aconteceu não foi tanto uma queda no consumo cinematográfico, mas, muito mais, um deslocamento, no caso, das salas de exibição pública, para o recinto doméstico. Usando uma metáfora da Moda, o autor explica que, hoje em dia, as estréias nos multiplexes funcionam como espécies de “desfiles”, preparatórios para o verdadeiro consumo – aquele que efetivamente dará lucro às companhias produtoras: o doméstico.

Como foi possível esse deslocamento? Acho que há duas palavras que podem resumi-lo, embora Epstein não faça uso delas. A primeira é (desculpem o palavrão) eletronicização. Sim, tudo começou com o invento da televisão que, nos EUA, já nos anos quarenta, passou a ameaçar o sistema de estúdios de Hollywood. De início, os donos de estúdios reagiram à ameaça com recursos novos, como o cinemascope, e se recusaram a veicular os seus filmes na telinha. Vencida a batalha financeira pela televisão, os filmes hollywoodianos terminaram indo parar nos aparelhos domésticos. Além de tirar o público das salas de cinema, a televisão sub-nivelava o produto cinematográfico, misturando-o com programas de humor, reportagens, etc.

A situação estava nesse pé quando, da mesma parafernália eletrônica que gerara a televisão, surgiu um novo meio que – pelo menos isso – resguardava a autonomia do cinema: o vídeo-cassete. Com a expansão das locadoras de vídeo, apareceu um novo interesse público pelo cinema, até porque, os acervos das grandes companhias do passado, passaram a ser selados nesse novo formato, e o espectador que tinha visto, um dia, “Casablanca” em cinema, podia agora revê-lo em sua televisão caseira, e podia até comprá-lo. Bem, o resto da estória vocês conhecem, quando o surgimento do DVD veio aperfeiçoar a técnica do registro, e a transmissão via satélite tornou possível, para a televisão paga, um nível de qualidade impressionante.

Segundo Epstein, a distribuição e exibição cinematográficas há muito obedecem a uma lógica impensada nos velhos tempos, que está centrada em uma cadeia de “janelas”. Assim, cronologicamente falando, a primeira janela para os filmes produzidos atualmente é o referido “desfile” nas salas de projeção dos multiplexes; terminado esse desfile, começam os reais lucros, quando eles vão para a segunda janela, as locadoras de DVD; a terceira janela, igualmente lucrativa, são os canais de TV paga; e, finalmente, última janela não menos lucrativa, os canais de televisão convencional. O espaço de tempo entre as janelas é uma média de dois a três meses, do contrário o esquema entraria em colapso.

Uma segunda palavra para indicar o deslocamento da recepção cinematográfica pode ser “infantilização”, que começou em 1936, com o desenho animado “Branca de Neve e os sete anões”. Sim, foi Walt Disney quem primeiro teve a idéia de que muito mais lucro do que um filme realizado e exibido dariam os sub-produtos dele derivados, como bonecos, brinquedos, jogos, guloseimas e parques temáticos. Com o sucesso absoluto dos sub-produtos Disney, as outras companhias começaram a pensar em público infantil (antes, só se pensava em espectadores adultos!) e na possibilidade de estender, e até eternizar, a renda de um filme, através de seus sub-produtos. Que Disney estava economicamente correto, comprova-se ainda hoje quando se vêem crianças brincando, fascinadas, com o boneco do Homem Aranha, ou adolescentes sonhando em conhecer Orlando. Para os exibidores, essa infantilização também implicou um lucro “deslocado”: como se sabe, os donos de cinema de hoje ganham mais com a venda de pipoca e refrigerante do que com a venda de ingressos.

Da segunda metade do século XX em diante, com a queda do sistema clássico de estúdios, as grandes companhias cinematográficas (Columbia, MGM, Paramount, Fox, Warner, Universal, RKO…) foram sendo vendidas a conglomerados multinacionais (alguns completamente estrangeiros, como a Sony), porém, ao contrário do que se pensaria de chofre, não foi este o principal fator que fez o cinema mudar.

Evidentemente, a eletronicização não mudou somente a maneira de distribuir, exibir e formar mercado, mas mudou também a maneira de fazer cinema. Para dar um exemplo único, no filme recente “O gladiador”, as cenas na arena foram realizadas com uma cabeça virtual do ator Russell Crowe, construída em computador a partir de algumas tomadas, cabeça esta colocada nos corpos de mais de noventa dublês, que lutam, na arena do Coliseu, no lugar do ator. O espectador à antiga pode se indagar se isto ainda é cinema, mas não pode mudar a direção eletrônica/cibernética que a arte cinematográfica tomou.

Para Epstein, há duas Hollywoods distintas: a do passado com o seu sistema clássico de estúdios, e a de hoje, completamente eletronizada/informatizada e financeiramente sustentada pela cadeia de janelas acima referido.

Aparentemente nada teria sobrado do passado de glória do cinema clássico, porém, para Epstein, não é bem assim. Por enquanto, por incrível que pareça, a cópia final de um filme – a que sai das companhias produtoras para as salas de exibição – ainda é em celulóide como as de antigamente. E uma coisa curiosa, que não pode deixar de ser mencionada: embora em número menor, cineastas reconhecidos junto à critica e ao público continuam “dando ordens” na produção de um filme, em alguns casos, até mais do que antigamente. E Epstein se dá ao trabalho de relatar como diretores prestigiados como Coppola, Scorcese e DePalma têm mais voz na produção do que um dia tiveram os grandes do passado. Para dizer a verdade, existe – assegura Epstein – um setor dessa Hollywood atual que, em nome do prestígio, pensa em cinema como arte e se dá ao luxo de perder dinheiro com filmes que nem são tão “eletrônicos” nem implicam sub-produtos.

Bem, deve ser esse pequeno setor que ainda faz os filmes a que um público adulto pode assistir hoje em dia, sem pensar em pipocas, refrigerantes, ou brinquedos eletrônicos. Ufa!

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Sem preço

21 jul

Não sei se vocês lembram o filme, mas, a estória é mais ou menos assim. Casados há cerca de oito anos, Will e Virgínia vivem felizes em sua mansão classe-média, na pequena Shrewsbury, arredores de Boston. Ele é um grande empresário e ela, dona de casa. O casal tem uma filha de três anos, criada com a ajuda de uma empregada fiel, Dalilah.

Quando o filme começa vemos cenas alternadas de: Will no seu escritório em Boston; Virgínia em casa, ocupada com alguma tarefa doméstica; e Dalilah no parque, onde a criança brinca na grama com outras crianças. De repente, Dalilah é abordada por esse desconhecido que parece querer alguma informação; só que a conversa se prolonga mais do que o esperado e quando Dalilah se dá conta, a menina não está mais por perto. Nem por perto, nem em lugar nenhum. Segundo depoimento das outras crianças, dois homens a haviam levado para um carro, enquanto Dalilah conversava. Ficou, assim, configurado o seqüestro, e o desconhecido que abordou Dalilah era – tudo indica – parte dele.

A partir daí o filme vai mostrar a agonia da família, com todos os detalhes, inclusive os remédios que a mãe agora precisa tomar. Sentindo-se culpada, a empregada fica depressiva, quase tão enferma quanto a patroa, e Will começa a ter problemas no trabalho. Espera-se um telefonema ou outra mensagem qualquer, pedindo o resgate, e nada. Depois de muita dúvida e hesitação, consulta a amigos e parentes, Will decide acionar a polícia, e o detetive Larry fica encarregado do caso.

Para encurtar a estória, o detetive consegue localizar o cara do parque, que, sob suborno, o conduz aos dois seqüestradores, os quais, por sua vez, incriminados e sob pressão, revelam o paradeiro da menina. No final das contas, uma mulher fora a mentora de tudo, e com ela a criança vivia, trancada no porão de sua casa, em um bairro luxuoso de Boston. Quem era essa mulher, o espectador só vai saber mais tarde, através de um flashback de Will: era a noiva que, dez anos atrás, ele abandonara no altar, no dia de um casamento que ele não quis assumir.

Gregory Peck está perfeito no papel de Will, e Deborah Kerr melhor ainda como a mãe desesperada. A empregada é feita pela ótima Thelma Ritter e o desconhecido com quem ela conversa, no parque, é Dan Duryea. O detetive Larry é Dana Andrews e, claro, a mulher meio louca que mantinha a criança presa no porão só poderia ser Bette Davis.

Ainda hoje não esqueço a cena, quase final, em que Bette Davis (não lembro o nome dela no filme) é indagada sobre a destinação que pretendia dar à criança – já que não houve proposta alguma de resgate – e, em apavorante close com iluminação contra-plongée que dá a seu rosto um aspecto fantasmagórico, ela responde, ameaçadora: “I haven´t got the faintest idea” / ´Não tenho a menor idéia´.

No original, o filme se chamou “Absence”, creio que sugerindo, duplamente, a ausência da criança no lar, e a ausência do noivo no dia do casamento que não houve. Os distribuidores brasileiros pensaram no valor do seqüestro e, bem ou mal, o intitularam de “Sem preço”.

Uma produção da Warner, com direção do grande Robert Siodmak, pouco tempo antes de ele deixar Hollywood e ir embora para a Europa, “Sem preço” foi rodado ao longo do ano de 1952, simultaneamente a “O pirata sangrento” (“The crimson pirate”).

Embora elogiado pela crítica, “Sem preço” passou despercebido do público. Chegou a ter duas modestas indicações ao Oscar, no caso, a fotografia de James Won Howe, e a montagem de William Lyon, que perderam para, respectivamente, Robert Surtees (de “Assim estava escrito”) e Harry Gerstad (de “Matar ou morrer”).

Não sei por que “Sem preço” nunca foi selado em VHS ou DVD e, que eu saiba, tampouco foi exibido em canais televisivos, pagos ou não. Vi-o em minha juventude, em uma desprestigiada sessão de terça-feira do Cine Brasil, imagino que por volta de 1958, e só com grande esforço mnemônico (mais a ajuda de dicionários e guias de filmes americanos) aqui o reconstituo.

Não sei dizer se, revisto hoje, resistiria ao tempo, porém, pelo menos na minha memória, “Sem preço” perdura como um grande clássico noir da história do cinema, inexplicável e injustamente esquecido pelo acaso, ou pelo descaso.

Em tempo: da primeira à última letra, o texto lido é completamente ficcional.