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Filosofia e crime

3 set

Aos 79 anos de idade, o cineasta americano Woody Allen não para de filmar. Depois de longa peregrinação europeia, volta aos Estados Unidos e comete este “O homem irracional”, com algumas idéias e situações requentadas de filmes anteriores, seus ou alheios.

Recém contratado para o departamento de filosofia em uma universidade de Rhode Island, o professor Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive entediado e, em sala de aula, passa aos alunos o seu tédio. Filosofia, segundo ele, seria masturbação intelectual, e Kant, com sua noção de um mundo sem mentiras, seria um grande mentiroso, desmascarado todo dia pela realidade mais banal. Encantadas com o seu tédio e seu charme as mulheres se entregam fácil, mas, ele, depressivo, prefere roleta russa. Até o dia em que descobre a saída, e a saída é o crime perfeito… e útil. O turning point de sua vida também vai ser o turning point do filme, que, no momento dessa descoberta, passa de drama existencial a thriller.

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Um dia ele está numa lanchonete com uma aluna, e, por acaso, entreouve a conversa na mesa vizinha: uma mãe está sofrendo horrores por causa de um juiz de má fé que não lhe concede a guarda dos filhos. Pronto: nesse momento Abe decide que o mundo será melhor sem o juiz Spangling, e ele mesmo – um completo desconhecido de todos os envolvidos no caso – será o autor de um crime, não apenas perfeito, mas também ético. É claro que o fato de a vítima vir a ser um representante da justiça tem significação especial, que não lhe ocorre, mas ocorre ao espectador.

Praticado exatamente como planejado, o crime deixa o professor Abe de bem com a vida e o tédio vai embora, como se nunca tivesse existido. Até o dia em que… E o exercício de fazer thriller prossegue.

Com certeza os comentaristas de “O homem irracional” vão apontar o seu pano de fundo literário (Dostoievski, aliás, referido no diálogo), porém, a mim chamou-me a atenção a dívida do filme para com o gênero noir, em especial para com três filmes antigos que Allen com certeza conhece muito bem, embora deles possa não ter lembrado no gesto de confeccionar o roteiro.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Vejam bem. Há, no filme em questão, três situações dramáticas bem particulares, já construídas em três clássicos noir do passado, a saber:

(1) A disposição de praticar um assassinato baseada no fato de que o seu autor jamais será descoberto porque a vítima lhe é desconhecida, além de não ter ele interesse pessoal em sua morte (o álibi dos álibis, já que não existe o chamado “motivo”!). Tal situação já estava em “Pacto sinistro” (Alfred Hitchcock, 1951).

(2) Depois do assassinato praticado, a situação em que o autor vai se achar entre amigos que com ele fazem suposições sobre o modo como o assassino teria agido, e ele próprio, querendo ou não, é levado pela conversa a ajudar nas pistas que conduzem à solução do caso. Se vocês lembrarem bem, essa mesma situação já estava no noir “Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944).

(3) No decorrer das investigações, a polícia chega, erroneamente, a um outro suspeito – este com motivos para o crime – que, tudo indica, será condenado e pagará por um crime não cometido, livrando assim o verdadeiro culpado da prisão perpétua ou da pena de morte. Mais uma vez, esta situação também já esteve em um dos grandes noir do passado, “Dúvida” (Robert Siodmak, 1944).

Além desses intertextos alheios, há os próprios, por exemplo, a idéia de que tudo na vida depende do acaso, explicitamente formulada em “Match Point”. Vejam que o que vai condenar Abe à morte não será algum processo judicial, e sim, um flashlight ganho no tiro ao alvo.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Já afirmei alhures que Allen é um desses cineastas de estilo forte, onde as redundâncias, formais ou temáticas, são coisas positivas. Mas ora, repetições sempre trazem riscos, principalmente quando soam viciosas, ou mesmo preguiçosas.

É o caso neste “O homem irracional”, por exemplo, com as entregas amorosas entre os personagens, todas fáceis demais, como se fosse para não perder tempo de tela; como se o cineasta estivesse nos dizendo: ´vocês já viram isso em outros filmes meus e, portanto, pulemos detalhes e vamos ao que interessa´. O resultado é que os relacionamentos entre os personagens soam esquemáticos, para não dizer que o ´tédio´ da parte inicial também já soara esquemático, manjadamente woodyalliano.

No mais, é só mais um Woody Allen em nossas telas, para chatear os antipatizantes e satisfazer os fãs. Um filme mediano que nem melhora nem piora a brilhante carreira do autor.

Em tempo: “O homem irracional” (“Irrational man”, 2015) está em cartaz na cidade e no país.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

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Um clássico a lembrar

26 abr

Neste 2014 comemora-se o aniversário de sessenta anos do filme que dá nome à minha coluna no Jornal Contraponto, “Janela indiscreta” (Rear window, 1954), e, portanto, não posso deixar de anotar o evento. Para tanto, reproduzo parcialmente matéria que está no meu livro virtual “Emoção à flor da tela” (Conferir neste blog, a categoria LIVROS acima).

Digamos, primeiramente, que “Janela indiscreta” pertence àquele tipo raro de filme que tanto funciona para platéias menos instruídas, quanto para cinéfilos empertigados. Não é sem razão que pode passar na televisão sem problemas, do mesmo modo que sua referência e análise constam em sofisticados compêndios de teoria da linguagem fílmica.

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Aliás, tão frequentemente tem sido “Janela indiscreta” objeto de estudo de especialistas e pensadores da sétima arte, que as suas interpretações concorrem, em fama, com o próprio filme. A mais conhecida é a tese da metalinguagem, segundo a qual o filme inteiro seria uma representação do próprio cinema, a condição de voyeur de seu protagonista equivalendo à posição natural do espectador.

A tese é fascinante, mas, mais fascinante é o filme. Num setor pobre de Greenwich Village, um repórter acidentado, de perna engessada, passa o seu tempo ocioso espreitando a vida dos seus vizinhos pela janela de fundos (cf título original), até descobrir um crime: um homem esquartejara a esposa, enterrando suas partes em partes diferentes da cidade.

Resumida assim, a estória parece mórbida e escatológica, e, no entanto, quem lembra o filme sabe o quanto tudo isso é contado com irresistível charme e humor.

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Sem espaço para maiores análises, aqui aproveito as dicas do par antonímico morbidez e humor para abordar um aspecto do filme pouco discutido pela crítica, a saber, o da roteirização, empreendida em cima do original adaptado, o conto homônimo de Cornell Woolrich.

Acontece que o conto de Woolrich se limita praticamente ao que resumimos acima, ao passo que o filme de Hitchcock lhe faz um acréscimo que não é apenas considerável, mas também significativo: todo o sub-enredo do caso amoroso entre Jeffrey, o repórter, e Lisa, sua namorada ricaça, e com ele, todas as discussões em torno da instituição do casamento. Na verdade, o roteiro de Hitchcock não fez só um acréscimo no sentido quantitativo da palavra: ele desenvolveu a diegese numa direção temática oferecida pelo núcleo em Woolrich. De alguma forma o cônjuge que mata o outro também mata o casamento, assunto que, em Janela indiscreta, passou a ser um segundo tema, tão importante quanto o primeiro.

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Vejam bem, fosse o crime de outra ordem e a roteirização seguramente não teria tomado esse caminho. Mas é o esposo que mata a esposa e, sem querer, suscita todas as questões sobre a instituição que os unira, como se perguntasse: vale a pena casar, se o casamento pode terminar com o casal se matando? Em várias instâncias, o filme brinca com a pergunta, inexistente no conto.

Assim, sonhadora e apaixonada, a ricaça Lisa (Grace Kelly) só pensa em casamento; pobre e prático, o repórter Jeffrey (James Stewart) é contra a ideia. O crime descoberto pelos dois, na vizinhança, parece apontar para uma visão desfavorável do casamento; só que, no desenrolar da estória, o seu desvendamento une Lisa e Jeffrey como nada no universo ficcional do filme fora capaz de fazer antes: aquela cena em que, no apartamento do assassino, ela põe no dedo a aliança da mulher vitimada é, conforme já demonstrado pela crítica, um simbolismo favorável. Bem entendido, favorável ao casamento Lisa\Jeffrey, mas não necessariamente à instituição em si, já que, afinal de contas, se trata da aliança de um cônjuge assassinado por outro.

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Não apenas Jeffrey e Lisa discutem o assunto da (in)viabilidade do matrimônio, mas também outros personagens, inexistentes no conto de Woolrich, como a enfermeira Stella e o policial amigo Tom, para não falar dos vizinhos que o fazem apenas graficamente, mas o fazem.

E conclui-se o filme sem respostas. Depois de tudo passado, a vida na vizinhança de Greenwich Vilage retoma seu rumo normal: por exemplo, a Srta “coração solitário” e o pianista frustrado se encontram, o que parece favorável à ideia de casamento, mas em compensação, os recém-casados do outro lado brigam porque ele não tem emprego, o que parece desfavorável. Nos fotogramas finais, Jeffrey, agora com as duas pernas quebradas, cochila ao lado de Lisa, o que parece favorável à noção de casamento, mas ela, por trás do sério periódico em que o namorado trabalha, lê revistas de moda, o que, no contexto da estória a dois, parece desfavorável.

Ao contrário do conto, que é monossêmico e monótono, “Janela indiscreta” trabalha o tempo todo com ambiguidades dessa e de outras ordens, sem, em nenhum momento, deixar que a bola caia para quaisquer dos lados, e sem permitir decidir se estamos vendo um sombrio e trágico “noir” ou uma comédia romântica de final feliz. Coisa de gênio!

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A filmar

28 nov

`Dá um filme!`. Quantas vezes já não se disse esta frase, depois de se ouvir certas estórias da vida real. Eu mesmo já disse, pois muitas estórias ouvi, algumas boas, que nunca vi filmadas. Uma pena.

A mais recente, e das mais fortes e impressionantes, não a ouvi, mas foi como se tivesse ouvido, pois, embora rigorosamente verídica, está narrada em papel com a desenvoltura e a paixão de um autêntico contador de histórias.

Refiro-me ao livro “A morte do fotógrafo” (Casa da Memória, 2006) do historiador paraibano Humberto Fonseca, que devorei de um só fôlego, como se estivesse escutando tudo da boca do autor.

Ao terminar, fechei o livro com pena de ter chegado à última página, e, “no cinema dos meus olhos” (obrigado, Vinicius) passei a reconstituir o filme inteiro, com direito a flashback e tudo mais.

Araruna, PB, cenário do drama

Araruna, PB, cenário do drama

Na pequena Araruna de 1958 um crime é cometido, que abala a cidade. Numa traiçoeira emboscada de estrada, um cidadão mata outro, simulando acidente. O automóvel do criminoso teria se chocado com a motocicleta da vítima, e o choque foi fatal. Residentes em Araruna, ambos eram fotógrafos, mas, claro, não houve foto do acidente.

O criminoso é preso e o seu genro, co-autor do crime e presente na ocasião, foge. A partir daí, vamos acompanhar as descrições dos muitos júris, com as transcrições fiéis dos documentos processuais, em todos os seus detalhes, com nomes completos de juízes, promotores, advogados, jurados e demais envolvidos.

Nas primeiras sessões, o réu é condenado a vinte e quatro anos de reclusão, porém, depois disso os julgamentos seguintes vão tomando contornos diferentes. Lá para o quarto júri, o réu é, surpreendentemente, isentado de culpa, embora ainda vá permanecer preso por muitos anos, sem que a justiça alcance uma unanimidade.

Na prisão, definha a olhos vistos e o seu estado debilitado comove os habitantes do lugar, e, parece, também os membros dos júris seguintes. A família do réu se muda para uma casa perto da cadeia, de modo a dar melhor assistência ao parente.

Outra vista de Araruna

Outra vista de Araruna

Quanto à família da vítima, esta, sem recursos nem amparo depois dessa perda irreparável, deixa a cidade quando do acontecido: vai embora para Recife, e, com a ajuda de uma parenta, passa a viver nas dependências de uma casa de praia distante, praticamente como mendigos, sem ter o que comer, não fosse pela iniciativa de um dos garotos de ir ao centro de Recife, vender folhetos de cordel onde, em versos, relata a morte do pai. Mais tarde é que um militar encontra o cordelista na rua, faz amizade, se compadece e termina por ajudar a família toda.

Não vou contar o resto da história, para não tirar a graça de quem ainda não leu “A morte do fotógrafo”, mas devo apenas dizer que o autor – como é costume acontecer em um filme – a inicia pelo final, quando ele e a esposa, passando dias em um hotel em Recife, não muito tempo atrás, vem a conhecer um garçom – surpresa para todos! – que era casado com uma das filhas do fotógrafo assassinado em Araruna.

Segundo o próprio Fonseca, foi esse encontro casual e tardio (quase cinqüenta anos depois do episódio) que o instigou a ir atrás dos documentos do processo jurídico e, enfim, relatar imparcial e objetivamente, a história completa do crime e seus desdobramentos dramáticos, coisas de que ele só se recordava parcialmente, por ser, na época dos tristes acontecimentos, um adolescente em Araruna.

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Finda a leitura do livro de Fonseca, foi inevitável que me lembrasse de filmes que vi ao longo da vida e que marcaram minha imaginação de cinéfilo. Três pelo menos me vieram à mente, a saber, o francês “Dois são culpados” (André Cayatte, 1962), o americano “A visita da velha senhora” (Bernard Vicki, 1964) e o brasileiro “O caso dos irmãos Nave (Luis Sérgio Person, 1967).

Bem entendido, os enredos destes filmes sombrios são diferentes, tanto entre si, como em relação à estória de Araruna narrada por Fonseca, porém, o que os une no meu imaginário privado é o fato de, até certo ponto, possuírem, junto com “A morte do fotógrafo”, ao menos três ingredientes essenciais: (1) uma análoga situação diegética – crime e castigo em uma cidade pequena; (2) uma semelhança temática – a ambiguidade da lei na sua relação direta com os cidadãos de carne e osso; e (3) mais que qualquer outra coisa, uma mesma pesada atmosfera de disforia, desperdício e tragédia.

Fica, assim, feito o registro.

Se você é porventura um cineasta à cata de argumento, que se habilite. Não garanto que o autor do livro o queira filmado, mas, de todo jeito, não custa a tentativa.

De minha parte, eu adoraria ver esse livro na tela.

A capa do livro, que nos promete outras histórias

A capa do livro, que nos promete outras histórias