Tag Archives: Viva Zapata

Brando

28 abr

Fazer um filme sobre Marlon Brando? Dizer o que já se sabe sobre esse ícone cinematográfico e ser irrisório, ou dizer o que não se sabe e ser sensacionalista?

O documentarista Stevan Riley optou por um terceiro caminho, mais honesto, criativo, e ousado. Tentou fazer, não um documentário, mas um ensaio fílmico em que a voz fosse só de Brando. E fez. Só lhe foi possível porque, por sorte e empenho, teve acesso a centenas de gravações e fitas privadas do ator, que montou de uma forma a fazer o próprio Brando contar sua estória, sem interferência de depoimentos alheios.

poster

Riley emoldurou tudo isso com o recurso ficcional de uma ´auto-hipnose´, a partir da qual o ator mergulharia no seu passado mais íntimo, e chamou o conjunto de “Listen to me Marlon” (2015), que no Brasil ganhou o péssimo título de “A verdade sobre Marlon Brando”.

Apesar dos vai-e-vens no tempo, a viagem subjetiva de Brando segue a cronologia de sua vida, da infância à velhice. Muitos desses fatos já são conhecidos para quem leu suas biografias publicadas, e viu seus filmes, porém, aqui há muito mais emoção, pois é a voz de Brando que se escuta, e, consequentemente, o seu ponto de vista.

O garoto Marlon

O garoto Marlon

O apego a uma mãe “poética” e o ódio a um pai grosseiro e violento, eis a dicotomia dramática essencial, fantasma que o perseguiu a vida inteira. Seu amor à natureza, sua sensibilidade, sua timidez, seu sentido de desajuste e absurdo, sua ânsia de liberdade… tudo aparece para compor uma personalidade complexa e atormentada, que a fama conquistada não apaziguou, muito pelo contrário. Um momento sintomático no filme está no seu desabafo sobre o horror que sente pelas multidões de fãs que o transformam em algo que ele não é, e de que não gosta.

Em várias ocasiões, cenas de seus filmes ilustram seus sentimentos, especialmente aqueles filmes do início de carreira, como “Espíritos indômitos”, “Uma rua chamada pecado”, “Sindicato de ladrões”, “Viva Zapata”, ou “O selvagem”… Na segunda fase de sua carreira, anos setenta, o mais evocado é, naturalmente, “O poderoso chefão”, cuja cena da morte de Don Corleone, por ele comentada, é reproduzida por inteiro.

A street car named desire

A street car named desire

Se os grandes filmes que levaram sua carreira aos píncaros da glória são os mais citados, também vamos ter referências suas aos problemáticos, e, como sabemos, Brando fez – geralmente por dinheiro – muitos filmes problemáticos. Há, por exemplo, um depoimento relativamente longo sobre o desastre que foi “O grande motim” (1962), como também – outro desastre – “A condessa de Hong Kong” (1967). Ao rodar o debochado e sem sentido “Candy” (1968) o ator estava no auge da impopularidade, de crítica e de público.

Os posicionamentos ideológicos do ator não podiam faltar, e vemos a sua defesa da causa negra, e, com um pouco mais de ênfase, sua luta pelos índios americanos, inclusive, recusando o Oscar, como forma de protesto pelo que a civilização americana havia cometido com as comunidades indígenas. Os escândalos familiares aparecem na medida de sua dor, e, a esse propósito, a imagem a ficar é Brando, já idoso, chorando em público em duas ocasiões: no júri do filho e na morte da filha Cheyenne.

Brando em O selvagem

Brando em O selvagem

Uma questão obrigatória tinha que ser o seu conceito de interpretação. Com honestidade, Brando confessa a sua dívida para com o Actor´s Studio, porém, não deixa de estender o conceito para a vida: ‘atuar é sobreviver`, afirma, e passa a dar exemplos de como, no dia a dia, as pessoas ´interpretam´ sem consciência do que fazem.

Por falar em interpretação, vem ao caso o amor de Brando por Shakespeare, várias vezes mencionado e mesmo declamado. Aliás, as declamações ocorrem de forma inusitada. É que o filme abre e fecha com uma experiência a que Brando se submetera e agora apresenta: o seu rosto fora computadorizado, ganhando movimentos que as ondas eletrônicas conduzem. Pois sua primeira “fala eletrônica” é de “Macbeth”, aquele trecho famoso que se inicia em “Amanhã e amanhã e amanhã…” e termina em “nada”. No final do filme,  ele recitará o soneto 29, aquele que começa “When in disgrace with fortune and men´s eyes…”.

o rosto computadorizado...

o rosto computadorizado…

Experiência curiosa e estimulante, o filme de Riley enriquece a lembrança que guardamos de Brando e faz jus a sua grandeza.

Depois de vê-lo dei-me conta de uma pequena ironia: o quanto a carreira de Marlon Brando – querendo ele ou não – confunde-se com a própria Hollywood, onde ele sempre trabalhou. Os seus primeiros filmes, todos dos anos cinquenta, coincidem com o melhor da era ainda clássica; os seus desastres dos anos sessenta, do qual “Candy” é o ápice, coincidem com o fechamento geral dos grandes estúdios; e, finalmente, a sua retomada, na segunda metade do século (com “O poderoso chefão”, etc) vai coincidir com o ressurgimento de uma “nova Hollywood”, a que está aí, de pé até hoje.

brando 0 for the face

Anúncios

Anthony Quinn

22 out

Neste 2015, se vivo fosse, Anthony Quinn teria completado cem anos de idade. Acho que o fato merece nota e convido o leitor a recordar esse que foi um dos maiores atores do Século XX.

E começo com Umberto Eco. Falando de rostos em um de seus “Diários Mínimos”, Eco relata que estava um dia em Nova Iorque, numa beira de calçada apinhada, tentando atravessar a rua, quando estira a cabeça para um lado e, lá adiante, divisa o rosto de uma pessoa que fizera o mesmo. Era o rosto de um desconhecido, que, no entanto, lhe pareceu incrivelmente familiar. Segundos adiante, a rua atravessada, lhe cai a ficha: era o rosto de Anthony Quinn, tão perdido no meio da multidão quanto ele.

O teórico da semiótica e o ator de cinema nunca se conheceram, mas, quem é que, tendo vivido o Século XX, não retém na mente as feições de Anthony Quinn?

3

Esse mexicano, descendente de irlandês pelo lado paterno, nasceu em Chihuahua, em 21 de abril de 1915. Durante a revolução mexicana seu pai foi soldado de Pancho Villa, mas, finda a revolução, em situação financeira difícil, a família muda-se para Los Angeles, onde o pai vai trabalhar de cameraman nos Studios Selig. Acompanhando o pai no trabalho, chega a conhecer e ficar amigo de mitos do faroeste primitivo, como Tom Mix.

Contudo, não foi nessa época que o cinema o pegou. Órfão aos nove anos, Quinn teve que lutar pela sobrevivência em muitos sub-empregos, como pregador de rua, magarefe, açougueiro e, mais tarde, boxeur. Tentou a escola, sem muito sucesso, e só muito tempo depois, já adulto feito, experimentou um curso de arquitetura.

No cinema começou em pontas, geralmente no papel de índio em filmes faroeste. Ao desposar, em 37, a filha do afamado diretor Cecil B. DeMille, sua carreira toma rumo mais regular, apesar de o sogro nunca ter simpatizado com seu lado latino. Para se ter uma idéia, até 1947, aos 32 anos, Quinn ainda era um imigrante mexicano, sem cidadania americana.

Seu prestígio de ator só veio mesmo nos anos cinquenta, depois de ter passado pela Broadway, onde impôs um nome, substituindo Marlon Brando no papel de Kowalski na peça “Um bonde chamado desejo”. O sucesso teatral de Quinn criou uma rivalidade entre Brando e ele, e contam que foi motivado por essa rivalidade que o cineasta Elia Kazan colocou os dois juntos em “Viva Zapata” (1952), filme que deu a Quinn o seu primeiro Oscar.

Quinn em "Vida Zapata" (Kazan, 1952)

Quinn em “Vida Zapata” (Kazan, 1952)

Depois disso vai morar na Itália, onde vem a filmar o felliniano “La strada” (1954). A rigor, fica revezando-se entre Europa e América, mas sua preferência era clara. “Na Europa um ator é um artista; em Hollywood, se você não estiver trabalhando é chamado de vagabundo”: chegou a desabafar. Um exemplo típico dessa mistura de continentes está em “Sede de viver” (1956), filme hollywoodiano sobre Van Gogh, onde ele faz o papel de Gauguin, e arrebata o seu segundo Oscar.

Foi essa internacionalização profissional que o levou ao ápice de sua carreira, no início dos anos sessenta, com sua inesquecível participação em “Lawrence da Arábia”, e no que até hoje é o seu filme mais cultuado pelos cinéfilos: “Zorba, o grego” (1964).

Nenhum ator de cinema americano revezou tão bem papéis principais e de coadjuvante, mas, a mim, o que me ocorre é que ninguém assumiu, na tela, tantas nacionalidades diferentes. Repassem a extensa carreira de Quinn (cerca de 137 filmes) e confiram suas muitas etnias fílmicas: esquimó, índio, mongol, ucraniano, huno, espanhol, francês, italiano, irlandês, americano, judeu, havaiano, grego, filipino, inglês, chinês, basco, árabe, e, naturalmente… mexicano.

No felliniano "La strada" (1954)

No felliniano “La strada” (1954)

Para fechar a homenagem, faço seguir, sem contar os filmes já mencionados no texto, uma lista de dez títulos em que Anthony Quinn, como ator principal ou coadjuvante, brilhou:

 

O corcunda de Notre-Dame (Jean Delannoy, 1957)

A fúria da carne (George Cukor, 1957)

A orquídea negra (Martin Ritt, 1958)

Minha vontade é lei (Edward Dmytryk, 1959)

Duelo de titãs (John Sturges, 1959)

Sangue sobre a neve (Nicholas Ray, 1960)

Retrato em negro (Michael Gordon, 1960)

Os canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1961)

A visita (Bernard Wicki, 1964)

A voz do sangue (Fred Zinnemann, 1964)

 

Em "Zorba, o grego" (1964), o ápice de sua carreira.

Em “Zorba, o grego” (1964), o ápice de sua carreira.