Tag Archives: Vladimir Carvalho

Documentários brasileiros

21 mar

A lista sugestiva dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos você já conhece do livro que a ABRACCINE e a Editora Letramento publicaram e lançaram o ano passado (2016), onde os filmes estão devidamente comentados, cada um por um especialista da área.

Agora é a vez dos documentários.

Previsto para estar pronto ainda este ano de 2017, o livro vai se chamar “Documentário brasileiro – 100 filmes essenciais”, e a lista dos títulos eleitos já está sendo divulgada na imprensa.

“Cabra marcado para morrer”, o melhor documentário brasileiro.

Sem surpresa, o cineasta mais assíduo é Eduardo Coutinho, com nove filmes contemplados, dos quais dois estão no topo da lista, em primeiro e segundo lugares, e um outro, no quarto. Vejamos, por enquanto, quais foram os dez mais votados:

 

Cabra marcado para morrer, Eduardo Coutinho, 1984

Jogo de cena, Eduardo Coutinho, 2007

Santiago, João Moreira Salles, 2007

Edifício Master, Eduardo Coutinho, 2002

Serras da desordem, Andrea  Tonacci, 2006

Ilha das flores, Jorge Furtado, 1989

Notícias de uma guerra particular, João Moreira Salles e Katia Lund, 1999

Ônibus 174, José Padilha e Felipe Lacerda, 2002

Di, Glauber Rocha, 1977

Aruanda, Linduarte Noronha, 1960

“Aruanda”, de Linduarte Noronha, em décimo lugar.

 

Com relação à lista completa (veja adiante), nota-se a diversidade de propostas, quando curtas e longas se revezam, com temáticas e enfoques os mais variados. Um fato a ser notado é – contraditoriamente – a presença do elemento ficcional. Alguns dos documentários listados contêm esse elemento, mas o protótipo dessa mistura de realidade com ficção é, com certeza, o filme “Jogo de Cena”, de Coutinho.

Chama também atenção o número enorme de documentários realizados no Novo Milênio. Curiosamente, entre estes “novos” estão os muitos filmes sobre música, enfocando movimentos, cantores, compositores, ou outros aspectos da atividade musical. São tantos que não resisto em citá-los em conjunto: “Uma noite em 67”, “A música segundo Tom Jobim”, “Loki – Arnaldo Batista”, “Dzi Croquetes”, Simonal – ninguém sabe o duro que dei”, “Cássia Eller”, “Nelson Cavaquinho”, “Vinicius”, “As canções”, “Os doces bárbaros”, Raul – o início, o fim e o meio”, e “Bethânia bem de perto”.

De minha parte, não posso deixar de observar que a Paraíba está bem representada. Com certeza é honroso para nós constatar que o “Aruanda” de Linduarte Noronha se encontra entre os dez mais. Um outro paraibano bem situado é Vladimir Carvalho: o seu “O país de São Saruê” (1971) ocupa o décimo segundo lugar na lista, e “Conterrâneos velhos de guerra” (1991), o vigésimo primeiro. Não nos passa despercebido tampouco que o documentário do topo da lista trata de assunto paraibano, com cenário e personagens paraibanos.

“Uma noite em 67”, um dos muitos musicais da lista.

Enfim, confira a lista completa, e veja se seus documentários preferidos foram contemplados:

  1. Cabra Marcado para Morrer
    2. Jogo de Cena
    3. Santiago
    4. Edifício Master
    5. Serras da Desordem
    6. Ilha das Flores
    7. Notícias de uma Guerra Particular
    8. Ônibus 174
    9. Di
    10. Aruanda
    11. O Prisioneiro da Grade de Ferro
    12. O País de São Saruê
    13. Viramundo
    14. ABC da Greve
    15. Jango
    16. Garrincha, Alegria do Povo
    17. Imagens do Inconsciente
    18. Estamira
    19. Santo Forte
    20. Janela da Alma
    21. Conterrâneos Velhos de Guerra
    22. A Opinião Pública
    23. Martírio
    24. Cidadão Boilensen
    25. Entreatos
    26. Maioria Absoluta
    27. Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos
    28. São Paulo – Sinfonia da Metrópole
    29. Uma Noite em 67
    30. Corumbiara
    31. Elena
    32. Justiça
    33. Peões
    34. Cinema Novo (2016)
    35. A Música Segundo Tom Jobim
    36. Memória do Cangaço
    37. Arraial do Cabo
    38. O Poeta do Castelo
    39. Que Bom Te Ver Viva
    40. A Paixão de JL
    41. Terra Deu, Terra Come
    42. Carro de Bois
    43. Socorro Nobre
    44. Mato Eles?
    45. Lixo Extraordinário
    46. A Cidade É uma Só?
    47. Soy Cuba, o Mamute Siberiano
    48. Os Anos JK – Uma Trajetória Política
    49. Tudo É Brasil
    50. Iracema, uma Transa Amazônica
    51. Loki – Arnaldo Baptista
    52. O Fim e o Princípio
    53. Nelson Freire
    54. Doméstica
    55. Braços Cruzados, Máquinas Paradas
    56. Dzi Croquettes
    57. Brasília – Contradições de uma Cidade Nova
    58. Triste Trópico
    59. O Dia que Durou 21 Anos
    60. Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei
    61. Pan Cinema Permanente
    62. Diário de uma Busca
    63. Theodorico, o Imperador do Sertão
    64. Os Dias com Ele
    65. Um Passaporte Húngaro
    66. Mataram Meu Irmão
    67. Juízo
    68. Pacific
  2. 69. Branco Sai, Preto Fica
    70. Maranhão 66
    71. No Paiz das Amazonas
    72. Cássia Eller
    73. Linha de Montagem
    74. Nelson Cavaquinho
    75. O Porto de Santos
    76. O Mercado de Notícias
    77. Vinícius
    78. Orestes
    79. Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil
    80. Moscou
  3. 81. Andarilho
    O Céu sobre os Ombros
    83. 33
    84. As Canções
    85. Os Doces Bárbaros
    86. Já Visto Jamais Visto
    87. Esta Não É a Sua Vida
    88. Raul – O Início, o Fim e o Meio
    89. Subterrâneos do Futebol
    90. Wilsinho Galileia
    91. O Tigre e a Gazela
    92. A Alma do Osso
    93. Hércules 56
    94. Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz
    95. Homem Comum
    96. As Hiper Mulheres
    97. Lacrimosa
    98. Imagens do Estado Novo 1937-1945
    99. Nem Tudo É Verdade
    100. Bethânia Bem de Perto

Mistura de ficção e realidade em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho.

Cicero Dias e Vladimir Carvalho

21 dez

Após exibição no Fest Aruanda, entrou em cartaz nos cinemas do Mag Shopping o belo documentário de Vladimir Carvalho “Cicero Dias – o compadre de Picasso” (2016).

Com depoimentos instrutivos de professionais do ramo, imagens de arquivo e outros recursos menos óbvios, o filme conta uma espécie de biografia poética do pintor pernambucano. Digo ´biografia poética´ porque o filme está longe de ser meramente informativo: ele próprio é também poético, até o ponto em que um documentário pode sê-lo.

Com efeito, parece ter ocorrido uma espécie de empatia entre assunto e direção, de tal forma que o resultado é – no bom sentido – uma obra híbrida, com traços estilísticos de ambos, Cicero Dias e Vladimir Carvalho – traços estes nem sempre claramente distintos.

Cicero Dias e Picasso, os compadres.

Cicero Dias e Picasso, os compadres.

Não há dúvida de que há, no filme, o desenho de uma linha temporal – do nascimento à morte do pintor – porém, esse desenho, como na pintura do biografado – é solto, livre, indistinto.

Para começo de conversa, o filme já se abre com o final, quando se mostra o túmulo de Dias, em Montparnasse, Paris, com a inscrição “j´ai vu le monde… Il commençait à Recife”, tradução para o francês do título de uma de suas obras mais famosas, o painel do Salão Revolucionário, de 1931.

De qualquer forma, é possível acompanhar a trajetória do pintor, do seu nascimento, no Engenho Jundiá, na pequena Escada, Pernambuco, até a definitiva consagração, no Brasil e no mundo, quando se torna – como diz o título do filme – o compadre de Picasso. E é óbvio que o termo ´compadre´ aqui não se restringe ao seu sentido literal: designa também a comunhão de estilos entre esses dois mestres das artes plásticas.

Baile no campo, 1937, de Cicero Dias.

Baile no campo, 1937, de Cicero Dias.

Mas vamos por etapas, ou melhor, por fases, e por enquanto, fiquemos no Brasil dos anos vinte e trinta, com o jovem Dias encantando a intelligentsia brasileira com sua pintura onírica, feérica, exuberante, sensual, cheia dos motivos nordestinos e mulheres desnudas – uma pintura que, malgrado as supostas raízes regionalistas, conquista facilmente os nossos cosmopolitas modernistas.

Em 1937 Dias muda-se para Paris e tem início sua fase internacional, e o diálogo com Braque, Léger, Matisse, Miró e, inevitavelmente, Picasso. Mais tarde, esse convívio crítico lhe fará abrir mão um pouco do figurativo e passará a assumir elementos da arte abstrata tão em voga.

A rigor, não adere completamente à abstração, mas, com ela vai ensaiar um namoro, como comprovarão alguns de seus quadros mais polêmicos dos anos quarenta, cujo melhor exemplo deve ser aquele “galo ou abacaxi”, em que, não apenas na imagem, mas também na conjunção ´ou´ do nome do quadro, deixa no ar a indefinição proposta, entre o figurativismo de sempre e a abstração namorada.

Como não podia deixar de ser, o filme refere episódios marcantes na vida do pintor, sobretudo os relacionados a sua arte.

Galo ou abacaxi - entre o figurativo e o abstrato.

Galo ou abacaxi – entre o figurativo e o abstrato.

Um dos mais marcantes deu-se durante a Segunda Guerra, com Paris ocupada, e ele, preso em Baden-Baden, para depois ser trocado por prisioneiros alemães. Junto com o escritor Guimarães Rosa, devia ser deportado ao Brasil, mas, opta por ficar em Portugal, país que considera uma rica fonte para estudo de nossas origens.

Um dos casos mais comoventes de sua vida europeia está na amizade com o poeta surrealista Paul Éluard. Exilado em Portugal, toma a iniciativa de enviar o seu poema “Liberté” (com aquele refrão “j´écris ton nom”, lembram?) a uma editora inglesa, que dele imprime milhares de cópias, e, com a ajuda da força aérea britânica, as lança no ar por sobre toda a França ocupada.

Outro episódio digno de nota é, já nos anos quarenta, o da Exposição na Faculdade de Direito do Recife – a primeira manifestação pública de arte de tons abstratos no Brasil – que tanto escândalo causou junto aos setores mais conservadores da sociedade, e mesmo junto à elite pensante e à imprensa.

Pessoalmente Cicero Dias foi um irreverente, espirituoso, descontraído, brincalhão, um boêmio mal comportado e mulherengo… e o filme não esconde nada disso, ao contrário refere suas peripécias e aventuras no viés sub-reptício de que vida e obra se assemelham.

Em suma, “Cicero Dias – o compadre de Picasso” nos mostra o esperado: um Vladimir Carvalho no topo de sua maturidade cinematográfica; elegante, sóbrio, equilibrado, refinado, e, mas mais que isso, nos seus oitenta anos de idade, com um saboroso viço de juventude.

Não percam.

O cineasta  documentarista Vladimir Carvalho.

O cineasta documentarista Vladimir Carvalho.

Divinas divas e o Fest Aruanda

17 dez

De 8 a 14 deste mês tivemos, em João Pessoa, a décima primeira versão do Fest Aruanda, festival de cinema e vídeo que divulga e celebra a atividade cinematográfica, local e nacional.

Com longas, médias e curtas, documentais e/ou ficcionais, concorrendo em mostras competitivas, ou não, a programação do festival foi, como sempre, extensa, e aqui não cabe repassá-la.

Registro apenas as homenagens, duas delas póstumas: a Péricles Leal e ao recém falecido cineasta Manfredo Caldas. Sobre aquele primeiro, foi reprisado o documentário de João de Lima “Péricles Leal – o criador esquecido”, e mais que isso: o personagem de gibi Falcão Negro, criação de Péricles, foi adotado como a logomarca desta edição do festival. Daquele segundo foi reapresentado o longa “Romance do vaqueiro voador”.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Já o mais que vivo Wills Leal recebeu o Troféu Aruanda e a Comenda da Academia Paraibana de Cinema, pela compleição de seus bem curtidos oitenta anos de idade. Além disso, foi exibido o filme “Wills Leal, mais que oitenta – La dolce vita” homenagem especial e afetiva do cineasta Mirabeau Dias.

Debates, workshops e lançamentos de livros completaram o programa desse festival que já se impôs como o grande evento cinematográfico do Estado.

A versão deste ano teve dois aditivos oportunos: o completo ineditismo dos filmes a serem exibidos nas Mostras competitivas, e mesmo daqueles exibidos fora da Mostra, no caso o da abertura “Axé – canto do povo de um lugar” e o do fechamento do festival “Pitanga”. O segundo aditivo foi a introdução de uma interessante rubrica, de nome ´Sob o céu nordestino´, exclusiva para a exibição alternativa de produções realizadas nesta ou sobre esta região do país. Um dos filmes mostrado dentro desta rubrica foi “Cícero Dias – o compadre de Picasso”, documentário do cineasta paraibano Vladimir Carvalho.

2-2

Meu modesto contributo foi estar entre os co-autores do livro “100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), livro organizado pela ABRACCINE (Associação brasileira de críticos de cinema) que foi lançado no festival, na tarde de sábado, dia 10 deste mês.

Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes exibidos no Fest Aruanda, mas, na Mostra Competitiva de Longas, um que me chamou a atenção foi esse “Divinas Divas” (2016) da estreante diretora Leandra Leal.

Com leveza, simplicidade, descontração e bom humor, o filme (re)agrupa oito artistas que fizeram estrondosos sucessos nos palcos do Rio de Janeiro dos anos sessenta e setenta, cada um a seu modo, mas todos quebrando tabus e driblando a rigorosa censura da ditadura militar. Hoje idosos, os travestis Rogéria, Jane di Castro, Valéria, Fujica de Holliday, Camille K, Eloína, Brigitte de Búzios e Marquesa nos contam suas histórias pessoais, relatando, sem papas na língua, seus casos privados, seus episódios mais pitorescos, mas, sobretudo, a difícil luta para a afirmação profissional.

Ao roteiro foi dada uma estrutura bem definida, com prólogo e epílogo formalmente estabelecidos: a narração propriamente dita decorre no entremeio destes dois momentos, e nela acompanhamos os ensaios para um show que o grupo todo fará no desenlace. Ao longo desse processo preparatório, intercalam-se os depoimentos dos artistas, sempre somados a uma performance individual de cada um dos depoentes.

As protagonistas de "Divinas Divas".

As protagonistas de “Divinas Divas”.

Só no fechamento – ou seja, no epílogo – o grupo atuará junto, no palco, em grande estilo, cantando e dançando a marchinha carnavalesta de Braguinha e Alberto Ribeiro “Yes nós temos banana”, com plumas e paetês, comme il faut. O contraponto desse grand finale já estava na abertura do filme – o prólogo -, quando, ao som da voz potente de Nelson Gonçalves, ouvimos a canção “Escultura” de Adelino Moreira, ao mesmo tempo em que vemos – por sobreimpressão de imagem – cada rosto masculino de cada artista transformar-se aos poucos no seu respectivo personagem feminino.

Originária de família desde sempre ligada ao mundo do show business (o seu avô, Américo Leal foi o criador e dono do teatro Rival), a atriz e diretora Leandra Leal teve lá suas razões sentimentais para conceber e realizar um filme desses, porém, isto, para o espectador não importa. Importa o resultado, que está aí e que é bom.

Descontraído como os seus personagens, mas ao mesmo tempo, intenso, o filme de Leandra Leal arrebatou o público presente na Sala 6 do Cinépolis, e recebeu aplausos calorosos que, visivelmente, não eram aqueles apenas formais, que são praxe em todo festival de cinema.

E para fechar, parabéns mais uma vez ao coordenador do Fest Aruanda, o incansável batalhador Lúcio Vilar, por mais esta.

A atriz e diretora Leandra Leal.

A atriz e diretora Leandra Leal.

Para Manfredo

30 nov

O cinema paraibano está de luto, com o falecimento, sexta-feira passada, dia 25, do cineasta e montador Manfredo Caldas (1947-2016).

A carreira de Manfredo Caldas eu acompanhei desde sempre, e admiro o seu cinema de cunho social, engajado, participativo. Escrevei sobre alguns de seus filmes, e aqui lhe presto homenagem póstuma, reproduzindo artigo que veiculei na imprensa, quando do lançamento local de seu filme “Romance do vaqueiro voador” (2007), sobre os efeitos colaterais da construção de Brasília.

A esse artigo dei o título intertextual de “CORPOS QUE CAEM”. Eis o texto, tal qual publicado, naquela ocasião, no jornal “O Norte”:

mc-1

 

Na canção de Chico Buarque, o operário que caía da construção atrapalhava o trânsito. Pois, no final dos anos cinquenta, na construção de Brasília, os corpos que caíam dos andaimes dos prédios em obra não atrapalhavam nada, nem ninguém. Conforme desejo do Presidente, a nova capital precisava ser inaugurada em 21 de abril de 1960, e não havia tempo para interrupções, fosse qual fosse o motivo.

Do Edifício 28, por exemplo, situado na área da Esplanada, era uma média diária de três operários que despencavam dos andaimes e se espatifavam lá embaixo. Como em um passe mágico, os corpos desapareciam. Aparentemente, eram enterrados ali mesmo, para que ninguém, além dos engenheiros e arquitetos, tomasse conhecimento.

Uma dessas vítimas da gênesis brasiliense ficou famosa. Era um candango de origem nordestina que, depois de desaparecido, ganhou a fama de ter sido “vaqueiro” e a estória de sua queda do 28 lhe deu o apelido eufemístico de “voador”.

Referência a esse “vaqueiro voador” aparece em imagens do americano Eugene Feldman, e depois no documentário de Vladimir Carvalho “Brasília segundo Feldman”. Mas a compleição da sua lenda vai surgir em forma de cordel no poema épico de João Bosco Bezerra Bonfim, com o título de “Romance do vaqueiro voador”.

Dirigindo Luis Carlos Vasconcelos na filmagem de "Romance do vaqueiro voador"

Dirigindo Luis Carlos Vasconcelos na filmagem de “Romance do vaqueiro voador”

“Quem em noite de lua, / Da Esplanada dos Ministérios / Se aproxima há de ouvir u`a / Voz que ecoa, entre blocos, / E um aboio assim sentido / De onde vem? Mistério…” Como se percebe do trecho citado, o folheto de Bonfim é, na verdade, um longo poema indagativo, com mais hipóteses do que respostas sobre a existência, o ofício, a sina e a morte “misteriosa” desse mito que – sente-se – quer representar todos os candangos cujos corpos caíram no mesmo “mistério”.

Fascinado com o potencial poético e social do folheto, o cineasta Manfredo Caldas resolveu roteirizá-lo, ganhando com isso, o prêmio que lhe permitiu a realização do filme homônimo, “Romance do vaqueiro voador” (2008) que estreou em João Pessoa, quinta-feira, dia 31 de julho.

Sobre o filme, digamos que tem o mesmo potencial do folheto e que deixa o espectador com a mesma vontade de fazer perguntas, uma das quais poderia muito bem ser sobre ele mesmo: trata-se de um documentário com poesia, ou de cinema poético com cenas documentais? Ou as duas coisas, de modo inconsútil? Ou outra coisa, ainda inominada?

Conhecido como documentarista, na linha nada ficcional que deriva do “Aruanda” de Linduarte Noronha, Caldas agora se exercita em um gênero livre, solto, híbrido e intertextual, onde até a metalinguagem é permita. Em certo trecho do filme, qual Hitchcock brasileiro, ele próprio aparece na tela, indo buscar no aeroporto de Brasília o ator Luiz Carlos Vasconcelos.

Manfredo em ação.

Manfredo em ação.

Compósito de muitos textos, verbais ou não-verbais, fotográficos ou cinematográficos, próprios ou alheios, e de muitos recursos, documentais e ficcionais, o filme mantém no geral a postura imaginária e misteriosa do folheto e, com isso, consegue um efeito mais perturbador do que se tivesse se limitado à denúncia explícita de um documentário tradicional. Um contributo chave para tal efeito é, com certeza, a bela e grave música de Marcus Vinicius, permeando com intervalos estratégicos a metragem, desde os créditos “voadores” (notaram?), até o final.

Para fechar com um exemplo de ousadia e criatividade, aponto o uso disso que é praticamente proibitivo em cinema, a saber, a repetição, recurso que aparece em “Romance do vaqueiro voador” de forma sistemática e, felizmente, positiva.

Refiro-me à estrofe que descreve a morte liricamente idealizada do protagonista (“Peitoral, perneira, gibão, chapéu passado o barbichado, voou no rabo da rês, mas só chão havia embaixo”), repetida por Luiz Carlos em instâncias simétricas, ora como ele próprio, ora como o Vaqueiro Voador, ora em off, só que cada vez com uma entonação diferente, até, no final, atingir um efeito de clímax dramático e poético.

Nesse momento, mesmo sem esquecer o lado estritamente documental do filme, o espectador sente que não precisa (mais) de conceitos: o impacto lhe veio via estesis e isso lhe basta.

mc-4

Fest-Aruanda

13 dez

Começa hoje, dia 13, sexta-feira, o Fest-Aruanda, em sua oitava versão, e se estende até o dia 19, com uma rica e vasta programação, a acontecer, desta vez, nas salas de cinema do Mag Shopping, (João Pessoa, Paraíba) e – cuidado para não errar o endereço! – não mais no Hotel Tambaú.

Apesar do lapso do ano passado, quando não foi possível realizá-lo, o FestAruanda é um festival de cinema paraibano que vem crescendo a passos largos, inclusive, desta vez com dois dias a mais de atividade.

Não vou especificar a programação, que está devidamente divulgada na imprensa, escrita, falada e virtual, mas gostaria, sim de dar uns destaques.

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

Parece-me que a versão deste ano tem um certo peso político especial, com o tema recorrente “50 anos de ditadura militar no Brasil pelo olhar do cinema brasileiro”, com mostra retroativa de filmes que trataram do assunto, como PRA FRENTE BRASIL (Roberto Farias, 81), JANGO (Silvio Tendler, 88), BARRA 68 (Vladimir Carvalho, 2000), BOILESEN (Chaim Litewski, 2009) e O DIA QUE DUROU 21 ANOS (Camilo Tavares, 2012). Este último, em apoio ao Festival, é assunto da minha coluna semanal no jornal CONTRAPONTO.

O mesmo tema, digo A ditadura militar brasileira, será assunto de uma mesa redonda, com presença de alguns dos autores dos filmes mostrados e de outros documentaristas, além de jornalistas paraibanos e brasileiros, com mediação de Maria do Rosário Caetano.

Como é de praxe, o FestAruanda costuma prestar homenagens a figuras proeminentes do mundo cinematográfico ou cultural do país. Este ano os homenageados especiais serão o cantor Ney Matogrosso, o ator Lázaro Ramos, o documentarista Sílvio Tendler e o crítico Jean-Claude Bernardet, homenagens mais que merecidas.

E fecho este meu comentário com um pouquinho de Paraíba. Na primeira noite do Fest-Aruanda, hoje, portanto, logo após a solenidade de abertura, e em homenagem à memória do cinema paraibano, será exibido um curta-metragem curioso (12 min) que se chama O MURAL QUE O VENTO LEVOU, de autoria da dupla Wills Leal e Mirabeau Dias, sobre um certo encontro de cineastas paraibanos no dia 28 de dezembro de 1995, dia em que o Cinema completou 100 anos. O encontro foi na famosa e desejada casa de Leal, em Manaíra, João Pessoa, em cuja parede externa pintores paraibanos pintaram cenas cinematográficas, tudo seguido de uma monumental farra. Eu, claro, estava lá.

No mais, leitores deste blog que gostam de cinema, é ficar atento à programação e comparecer, que o FestAruanda é gratuito.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Rock Brasília

21 mar

Depois de “Conterrâneos velhos de guerra” (1991) e “Barra 68”(2000), o cineasta Vladimir Carvalho completa a sua documental trilogia brasiliense com o filme “Rock Brasília: era de ouro” (2011).

Para quem conhece o autor de “O país de São Saruê”, esse candango paraibano que carrega consigo a cultura e o imaginário do Nordeste brasileiro, não deixa de ser curioso vê-lo tratar de rock, especialmente este – como relatado pelos depoentes no filme – de assumida origem britânica, bem Punk, bem the Clash, bem Sex Pistols. De qualquer modo, um isótopo é, com certeza, a cidade de Brasília ela mesma, cenário do rock tratado e segunda paixão do cineasta.

Em forma de entrevistas sequenciadas com os envolvidos, o filme conta a estória de toda uma geração brasiliense de músicos que despontou nos anos oitenta/noventa e revolucionou o cenário da MPB. A figura central talvez seja Renato Russo, mas o filme dá voz a toda uma vasta comunidade musical brasiliense, incluindo os respectivos parentes, amigos e profissionais de alguma maneira ligados à música.

Acompanha-se a formação de bandas como a incipiente e pouco conhecida Aborto Elétrico, e as famosas Legião Urbana, e mais tarde Capital Inicial, além de Plebe Rude e Paralamas do Sucesso, com depoimentos esclarecedores de seus integrantes.

Renato Russo (em entrevista inédita de 1988, mais entrevista de 1994 para a MTV), Fê Lemos, Flávio Lemos, André Mueller, Bi Ribeiro, Dinho Ouro Preto, Dado Villa-Lobos, Philipe Seabra, Marcelo Bonfá, Carlos Marcelo: a turma toda está lá, além de “periféricos” como Hermano Vianna, Herbert Vianna e Caetano Veloso.

Para o espectador, o documentário é um bom exemplo de como são necessariamente árduos, aleatórios, e as vezes selvagens os caminhos do show business musical, especialmente se os seus componentes são jovens idealistas sem costas quentes em que se amparar – e isto numa cidade historicamente nova e, portanto, sem grande tradição de música, ou de outra forma de arte.

Mas acho que o que mais ressalta, no filme de Carvalho, é a dimensão política desse “movimento musical” (se assim puder ser chamado) e, neste sentido, a canção “Que país é esse?” passa a ser emblemática dos dois, digo, do movimento e do filme. Aquele momento em que Renato Russo desabafa o seu desencanto com a situação política do país, listando cronologicamente os fracassos, de Tancredo a Collor, é um momento chave.

Aliás, suponho mesmo que – depois do motivo Brasília – deve ter sido essa dimensão política o que mais atraiu o nosso Vladimir Carvalho que, diga-se de passagem, nunca, que se saiba, lidara cinematograficamente com música, salvo para escolher trilhas sonoras para seus filmes.

Mas, claro, “Rock Brasília” não é só política. Embora o politicamente inquieto Russo seja uma figura de destaque, e os depoimentos de sua mãe e irmã, completem um quadro comovente de sua breve existência, o filme abre e fecha com o pessoal do Capital Inicial, o pai, Briquet de Lemos, e os dois filhos, Flávio e Fê. A cena final em que, de propósito, se repõem os três lado a lado e se pede, do pai, uma impressão, diz tudo, e esse tudo soma, à dimensão política, a existencial. Não vou descrever os detalhes, porém, a tomada daquela cadeira vazia enquanto os créditos do filme sobem é uma das melhores sacadas que conheço no cinema documental brasileiro dos últimos tempos.

Sim, é verdade, há pouco tempo de tela para as performances dos cantores, e o espectador, fã dos grupos de rock ou não, sente falta de música ao longo da projeção. No geral, as performances musicais ou são breves, ou se centram num outro problema, como o famoso quebra-quebra no show do Estádio Mané Garrincha em 1988. Ou, se for o caso, no show na Esplanada, a reação da platéia inteira, respondendo a pergunta “que país é esse?” com uma frase só: “é a bosta do Brasil”.

Se for para dar uma impressão pessoal, a minha é a de que o filme é – para o bem ou para o mal – a cara de seu autor, sem, curiosamente, deixar de ser a cara do movimento rockeiro de Brasília. Questões culturais e imaginárias à parte, nessa interface – de alguma forma, misteriosamente resolvida – reside a sua integridade, e não adianta ir procurar elementos fora disso.

Enfim, ao mesmo tempo informativo, curioso, engraçado, triste, nostálgico, questionador e emocionante, “Rock Brasília: era de ouro” nos oferece uma instigante revisão, artística e política, dos sofridos anos oitenta – tempo em que o Brasil, depois de longa trégua, deu, como se sabe, os seus primeiros, incertos e perigosos passos na direção da democracia.

Em tempo: prêmio de melhor documentário no Festival de Paulínea em 2011, “Rock Brasília: era de ouro” está lançado em DVD e, para quem perdeu sua estreia nos cinemas, disponível nas lojas do ramo.