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Limite

11 jul

Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos, o mais perfeito já feito, a nossa obra prima cinematográfica insuperável?

Os americanos têm lá o seu “Cidadão Kane”, e nós?

Se, para eleger tal filme, uma enquete fosse feita com os espectadores, não tenho a menor ideia do resultado a que chegaríamos, porém, se os votantes forem críticos, historiados e cineastas, o palpite é fácil: o nosso “Kane” iria ser “Limite”, o longa mudo que Mário Peixoto (1908-1992) lançou em 1931.

Lançou é exagero. Houve uma estreia no Cine Capitólio, na Cinelândia, Rio de Janeiro, e pronto: ninguém mais viu o filme, que continuaria desconhecido para sempre, não fossem as facilidades eletrônicas de hoje em dia.

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Restaurado por uma equipe de pesquisadores nos anos setenta, “Limite” foi, mais tarde, lançado em VHS e cheguei a comprar uma cópia, que, lamentavelmente, o fungo, inimigo da cinefilia, destruiu. Por sorte, ao montar o vídeo “Imagens amadas”, com 100 cenas de filmes, para celebrar o centenário da Sétima Arte em 1995, incluí uma cena de “Limite”. Como, mais tarde, o vídeo foi transposto para DVD, a cena está salva.

Mas, de que trata a nossa suposta obra prima?

Resumir seu enredo é tarefa a que não me arrisco, até porque não parece existir, em “Limite”, uma estória com começo, meio e fim. Há, no melhor das hipóteses, uma extensiva situação dramática: num barco à deriva, em extremo desolamento, um homem e duas mulheres, sem aparente relação entre si, relembram momentos passados de suas vidas. Quase tudo se resume a um conjunto de imagens que mostram essas pessoas desoladas, sem rumo num mar misterioso, por fim parando de remar e aceitando um fim comum. E isso, durante quase duas horas de silêncio. A fotografia preto e branco de Edgar Brasil é bela, mas, para o espectador acostumado com o cinema narrativo, a suprema e difícil abstração plástica e filosófica de “Limite” – convenhamos – pode se tornar pouco digerível.

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Contam que, ao escrever o criativo e inovador roteiro, Peixoto teria procurado gente do mundo cinematográfico para dirigir o filme, e todos (entre eles, Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga) lhe disseram que um roteiro com aquele nível de invenção, só poderia ser rodado pelo próprio autor. E foi o que ele fez: com apoio financeiro da família, juntou uma pequena equipe, e se mandou para os lados de Mangaratiba, praia fluminense que lhe serviu de cenário.

Recém chegado da Europa, onde passara praticamente toda a sua juventude, o inquieto Mário havia bebido nas fontes vanguardistas que eclodiam naquele tempo no velho mundo, e o roteiro de “Limite” brotou de sua imaginação com a força de uma brain storm. É ele mesmo quem explica a temática do filme, alegando que o realizou para provar que o tempo não existe. Aliás, é o que afirma literalmente a epígrafe: “Em nenhum lugar existe tempo algum”.

Mário Peixoto fez “Limite” em 1931, e nunca mais fez mais nada em cinema. Não que não tenha tentado.

Quem conta toda a frustrada trajetória do cineasta carioca, é Sérgio Machado no seu filme de 2001, “Onde a terra acaba”.

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Esse título, “Onde a terra acaba”, foi, na verdade o nome do filme que Peixoto tentou rodar depois de “Limite”. A atriz principal e produtora era a então famosa Carmem Santos, cujo estrelismo serviu primeiramente de estímulo à produção, e em seguida, de empecilho. É que, no meio das filmagens, a atriz, afundada em problemas pessoais, afastou-se e sua ausência terminou por instaurar o desânimo, de forma que o filme nunca foi concluído, dele restando hoje breves tomadas.

O filme de Sérgio Machado relata as outras poucas e frágeis tentativas cinematográficas de Peixoto, seu isolamento no “Sítio do Morcego”, a partir de 1966, e suas igualmente frustrantes experiências com outras artes, entre as quais a literatura. O seu romance “O inútil de cada um”, por exemplo, só veio a ser publicado em 1984, e apenas o volume I.

Pelo menos três cineastas – Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Walter Salles – depõem sobre Mário Peixoto no filme de Machado, todos ressaltando sua importância para a história do cinema brasileiro, mas, quem sugere uma boa pista para o sentido de “Limite” é Diegues, ao formular a suposição de que “aquele era o rumo que o cinema teria tomado, não fosse o advento do som”.

Voltando à questão do melhor filme brasileiro de todos os tempos, faltou dizer que, na verdade, “Limite” já foi agraciado com este prêmio duas vezes: em 1988, concedido pela Cinemateca Brasileira, e em 1995 – ano do centenário do cinema – concedido a partir de um inquérito nacional do jornal Folha de São Paulo.

Em tempo: este post é oferecido a Glória Gama.

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Música de filme

24 jun

Para muita gente boa, cinema sem música não é cinema. E a prova alegada é que, mesmo no tempo do cinema mudo, já havia um pianista em ação por trás da tela. Que seja.

O fato é que, desde 1927, quando o som foi agregado à película, a música passou a ser um dos ingredientes básicos da linguagem cinematográfica, tão importante quanto fotografia, montagem, interpretação, direção, etc.

Um outro fato inegável é que, em muitos casos, a música do filme pode se impor como um elemento tão forte que, eventualmente, adquire o mesmo poder de repercussão do filme, ou, em alguns casos particulares, até mais.

Que músicas tão especiais são essas?

Tenho e sempre tive meu rol privado de trilhas musicais preferidas, mas, quis saber de um que não fosse só meu. Para tanto, entrei em contato com cinéfilos que conheço de perto, todos com idade suficiente para lembrar trilhas que recobrissem toda a história do cinema falado. Não de todo aleatoriamente, escolhi dez – um número redondo – e a cada um pedi que me desse uma lista das dez trilhas musicais que mais amam. Acreditei – e acertei – que, no total das cem músicas citadas, haveria recorrências e essas recorrências me permitiriam chegar a uma espécie de cânone.

Eu sei: são restritos, tanto o número de votantes (apenas 10) quanto o espaço geográfico (João Pessoa, Paraíba), porém, suponho que essas limitações não impedem que o resultado da pesquisa possa vir a ser ilustrativo, já que saído da preferência de reconhecidos cinéfilos, entre os quais tomei a liberdade de me incluir.

Adiante cito as listas completas dos votantes, com seus nomes e escolhas, mas, antes, vai a lista das músicas eleitas, ou seja, as que tiveram maior número de votos, de seis a três. Como se vê, não pôde ser dez, mas foram nove as mais votadas. Ao lado do título da música, adiciono o compositor, ou se for o caso, o arranjador, seguido, entre parênteses, do título do filme, diretor e ano de produção. O número no final indica a quantidade de votos que a música teve, e no caso dos empates optei pela ordem cronológica de lançamento:

"Casablanca" e sua trilha musical inesquecível

“Casablanca” e sua trilha musical inesquecível

AS TRILHAS MUSICAIS MAIS VOTADAS POR UM GRUPO DE DEZ CINÉFILOS PARAIBANOS:

AS TIME GOES BY – Max Steiner (Casablanca, Michael Curtiz, 1942) (6)

MOON RIVER – Henry Mancini (Bonequinha de luxo, Blake Edwards, 1961) (5)

SUMMER OF 42 – Michel Legrand (Houve uma vez um verão, Robert Mulligan, 1971) (4)

AMARCORD – Nino Rotta (Amarcord, Federico Fellini, 1973) (4)

OVER THE RAINBOW – Herbert Stothart (O mágico de Oz, Victor Fleming, 1939) (3)

SINGING IN THE RAIN – Nacio Herb Brown (Cantando no chuva, Stanley Donen e Gene Kelly, 1952 (3)

JOHNNY GUITAR – Victor Young (Johnny Guitar, Nicholas Ray, 1954) (3)

THE APARTMENT – Adolph Deutsch (Se meu apartamento falasse, Billy Wilder, 1960) (3)

THE SOUND OF MUSIC – Oscar Hammerstein e Richard Rodgers (A noviça rebelde, Robert Wise, 1965) (3)

Para a curiosidade do leitor que também gosta de música e de cinema, e sobretudo das duas coisas juntas, eis a relação completa dos dez votantes, com suas respectivas listas pessoais. Neste caso, por economia de espaço, cito apenas os títulos das músicas, seguidos dos títulos dos filmes e datas. Quando a escolha da trilha musical refere-se ao filme como um todo, cito apenas o título do filme.

"Moon river" foi a segunda colocada na preferência dos 10 cinéfilos paraibanos

“Moon river” foi a segunda colocada na preferência dos 10 cinéfilos paraibanos

Joaquim Inácio Brito

Over the rainbow – O mágico de Oz, 1939; As time goes by – Casablanca, 1942; Love´s a many-splendored thing – Suplício de uma saudade, 1955; Takes my breath away – Ases indomáveis, 1986; Three coins in the fountain – A fonte dos desejos, 1954; Summer place – Amores clandestinos, 1959; Johnny Guitar, 1954; Where is your heart – Moulin Rouge, 1952; O mein Papa – A rainha do circo, 1954; The sound of music – A noviça rebelde, 1965.

Silvino Espínola

Amarcord,1973; Noites de Cabíria, 1957; As time goes by – Casablanca, 1942; Lawrence da Arábia, 1962; My favourite things – A novice rebelde, 1965; Johnny Guitar, 1954; Summer of 42 – Houve uma vez um verão, 1971; Runaway – Loucuras de verão, 1973; Sunrise sunset – O violinista no telhado, 1971; Goldfinger – OO7 contra Goldfinger, 1964.

Edward Lemos

Tammy – A flor do pântano, 1955; Charade – Charada, 1963; Secret Love – Ardida como pimenta, David Butler, 1953; River of no return – O rio das almas perdidas, 1955; The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Young at heart – Corações enamorados, 1955; Summer of 42 – Houve uma vez um verão, 1970; Singing in the rain – Cantando na chuva, 1952; Os brutos também amam, 1953; ´S wonderful – Sinfonia de Paris, 1952

Gustavo Urquiza

Era uma vez no Oeste, 1968; Paris-Texas, 1984; Love Story, 1970; Babel, 2006; A noviça Rebelde, 1965; Amacord, 1973; Dr. Jivago, 1965; Amelie Poulin, 2001; Concerto n 2 para piano – Desencanto, 1945; Por una Cabeza – Perfume de mulher, 1992

Ivan (Cineminha) Araújo

E o vento levou, 1939; Shane – Os brutos também amam, 1953; Luzes da ribalta, 1952; A estrada da vida, 1954; The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Moon river – Bonequinha de luxo, 1961; Dr Jivago, 1965; The sound of music – A noviça rebelde, 1965; O poderoso chefão, 1972; Cinema paradiso, 1989

Josafá Soares

Moon River – Bonequinha de luxo, 1961; As time goes by – Casablanca, 1942; Everybody is talking at me – Perdidos na noite, 1968; Summer of 42 – Era uma vez um verão, 1940; Amarcord, 1973; Raindrops keep falling on my head – Butch Cassidy, 1969; O poderoso chefão, 1972; Mrs Robinson – A primeira noite de um homem, 1969; Blue velvet – Veludo azul, 1986; Por uma cabeza – Perfume de mulher, 1992

Humberto Espínola

The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Un Homme, une femme – Um homem, e uma mulher, 1966; Limelight – Luzes da Ribalta, 1953; Love´s a many-splendored thing – Suplício de uma saudade, 1955; Moon River – Bonequinha de Luxo, 1961; As time goes by – Casablanca, 1942; Over the Rainbow – O Mágico de Oz, 1939; Singing in the rain – Cantando na chuva, 1952; A Flor da Pele – Dona flor e seus dois maridos, 1977; The third man – O terceiro homem, 1949

Rolf de Luna Fonseca

Que será será – O homem que sabia demais, 1956; My Darling Clementine – Paixões dos fortes, 1946; Laura – Otto Preminger, 1944; Three coins in the fountain – A fonte dos desejos, 1954; The bridge on the river Kwai – A ponte do rio Kwai, 1957; The third man – O terceiro homem, Carol Reed, 1949; As time goes by – Casablanca, Michael Curtiz, 1942; Do not forsake me – Matar ou morrer, 1952; Will you remember? – Primavera, 1936

José Mário Espínola:

Amarcord, 1973; Goldfinger – 007 contra Goldfinger, 1964; A doce vida, 1960; Moon river – Bonequinha de Luxo, 1961; A Pantera Cor de Rosa, 1963; Zorba, o grego, 1964; 2001, uma odisséia espacial, 1968; The hanging tree – A árvore dos enforcados, 1958; Com Jeito Vai, 1957; Um homme et une femme – Um Homem e uma Mulher, 1966.

João Batista de Brito

Over the rainbow – O mágico de Oz, 1939; As time goes by – Casablanca, 1942; Sansão e Dalila, 1949; Johnny Guitar, 1956; The magnificent seven – Sete homens e um destino, 1960; Moon River – Bonequinha de luxo, 1961; Days of wine and roses – Vício maldito, 1962; Goldfinger – 007 contra Goldfinder, 1964; The good the bad and the ugly – Três homens em conflito, 1966; Summer of 42 – Era uma vez um verão, 1971.

"Summer of 42", a terceira colocada (aqui cena do filme homônimo)

“Summer of 42”, a terceira colocada (aqui cena do filme homônimo)

X e Y sobre “Lincoln”

31 jan

Vejo “Lincoln” (2012) e saio do cinema meio às escondidas, apelando para não encontrar conhecidos e ter que de chofre emitir opinião sobre o filme de Steven Spielberg. Não se trata de um filme difícil – muito pelo contrário – mas, mesmo assim, ou por isso mesmo, precisava de um tempo para organizar minhas impressões.

A primeira impressão é certamente a de previsibilidade. Um filme de Spielberg sobre o Presidente Lincoln? Convenhamos: antes de comprar o ingresso a gente já tem uma idéia do que vai ver e, ao ver, inevitavelmente, confirma. No meu caso, antes de ouvir falar que o diretor escolhera o tema, já quase adivinhava que um dia na sua vida ele o escolheria. Ele tem o perfil para…

A segunda impressão não é uma impressão, e sim, um desejo. Não de me deter sobre o filme e analisá-lo – o que, para o meu leitor, iria também soar previsível. “João Batista de Brito escrevendo sobre “Lincoln”? Já sei no que vai dar” – antevejo meu leitor dizendo de si pra si.

Lincoln 1

O desejo, digo, não de analisar o filme, mas de proceder a uma pesquisa de campo com os espectadores e levantar opiniões. Isto, sim, seria algo que gostaria de fazer sobre “Lincoln”… e para o que diviso um resultado interessante. Como não dispondo dos meios para tanto, ponho minha imaginação a funcionar e realizo, mentalmente, um estudo de Estética da Recepção ficcional. Com certeza, vou me divertir muito mais…

Para simplificar, concebo dois espectadores que tivessem estado sentados comigo no cinema, X do meu lado direito, e Y do meu lado esquerdo.

X achou o filme excelente, seguramente merecedor das tantas indicações ao Oscar. A reconstituição de época é impecável, a direção perfeita, o roteiro fiel à história, as interpretações soberbas, sobretudo a titular, de Daniel Day Lewis. Mas X tampouco esquece a de Sally Field no papel da Sra Lincoln, angustiada com o destino do filho e o peso moral nas costas do marido; e ainda a de Thomas Lee Jones como Thaddeus Stevens, o líder dos republicanos, a de David Strathairn como William Seward, o Secretário de Estado, e a de Lee Pace como Fernando Wood, o grande rival democrata na tribuna. X gostou imensamente da fotografia quase sempre escura, centrada em ambientes fechados, para dar ideia do sufocamento do protagonista, premido entre sustar a guerra civil, onde centenas morriam por dia, ou fazer passar, por fim e à força, uma lei que sabia decisiva para o futuro do país. A música de John Williams, como esperado, veio a contento, na opinião de X, e fez o discreto comentário do temário. No geral, o esperado da confluência de um grande diretor, um grande ator, um grande personagem e um grande tema – a abolição da escravatura na primeira democracia do mundo. Em especial, X achou o final interessante, quando o roteiro evita a famosa (tantas vezes reconstituída) cena do assassinato do Presidente no Teatro Ford, fazendo a notícia chegar ao filho menor, Tad, que, noutro teatro, assistia a uma outra peça. Para X, a licença poética do discurso pos-mortem foi uma maneira bem adequada de fechar a homenagem a esse imenso vulto. Enfim, um filme inesquecível.

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Já Y não gostou: achou que o filme só está com tantas indicações porque o presidente enfocado é o americano – fosse o de um outro país e neco. Y cansou-se com as duas horas e meia de projeção. Pensou que fosse assistir à narrativa da empolgante vida desse proeminente americano e, para sua decepção, tudo girou em torno de intermináveis e cansativas discussões políticas sobre a aprovação, ou não, da Décima Terceira Emenda que abolia a escravidão no país. Até pareceu que a abolição foi o tema do filme, e não Lincoln, um mero coadjuvante em relação a ela. No filme todo, se se contarem empregados domésticos e eventuais soldados, são mais de cem personagens, todos com direito a voz, e numa situação em que quase tudo no desenvolvimento da estória depende da argumentação oral, pró ou contra, uma mesma questão. Republicanos, democratas, líderes de partidos, figuras secundárias… são tantos envolvidos no tema da escravatura que Y os confundiu e nem depois do filme findo foi capaz de reconstituir o quadro político descrito. Foi falação em excesso, para Y, que ficou de vista fatigada de ler a legenda. De Lincoln só se tem mesmo alguns momentos breves de seus últimos meses e mesmo assim nada que dê a dimensão de sua grandeza, nem as querelas com os familiares, muito menos aquelas piadinhas deslocadas que ele conta. Y achou a fotografia exageradamente escura e a música de John Williams foi somente correta. Em especial, o final lhe soou decepcionante – tão decepcionante quanto o filme, aliás – quando se substitui o cenário na noite do assassinato, de um teatro para outro, o que lhe pareceu gratuito. Para Y aquele discurso final, depois de Lincoln morto, é uma licença sem poética, óbvia e desnecessária. Enfim, um filme perfeitamente esquecível.

Caro leitor, quem lhe parece mais certo: X ou Y? Ou sua impressão do filme equivale a uma outra letra, Z talvez?

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