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Final de primavera

1 dez

Um cineasta mal conhecido entre nós é o japonês Yasujiro Ozu (1903/1963). Nem os cineclubistas dos anos 50 e 60 falavam nele. Cinema japonês, naquela época, era Kurosawa e Mizoguchi e ponto final.

Eu mesmo dele só tomei conhecimento tardio, já nos anos oitenta, quando o SESC fez uma mostra providencial de seus filmes mais significativos. Fiquei tão impressionado com sua temática intimista e sua câmera baixa que lhe dediquei ensaio em jornal, mais tarde incluído em meu livro “Imagens amadas” (São Paulo, Ateliê Editorial, 1995).

Agora, tanto tempo depois, revejo “Pai e filha” (1949) e, não tem jeito, vibro novamente. Acho que ninguém que faz cinema consegue ser, ao mesmo tempo, tão delicado e profundo quanto Ozu.

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A começar pelo enredo, que é quase nada. Solteira aos 27 anos, Noriko vive feliz com o pai viúvo. Parentes e amigos acham que ela está em idade de casar e a pressionam. Uma tia lhe arranja um pretendente, rapaz simpático, parecido com Gary Cooper, mas, mesmo assim, ela reluta. Reluta até quando vem a saber que o pai também casará – uma estratégia mentirosa, arranjada pela família, só para convencê-la a contrair matrimônio. Enfim, muito a contragosto, ela casa, e o filme termina com o pai sozinho, resignado à sua solidão de viúvo.

É um filme sobre um rito de passagem – a separação filial e a aceitação da velhice – mas, com que lirismo é composto! Uma pena que, no Brasil, a ele se deu esse título prosaico. O original é “Banshun”, ao pé da letra, ´final de primavera´, referência simbólica à situação de Noriko. Bem traduzido, o título internacional do filme é “Late Spring”.

Essa associação com a primavera vem bem ao caso, pois vários outros filmes de Ozu apelam para o simbolismo das estações do ano. No caso presente, Noriko seria a primavera que não quer se entregar, como se pudesse ser jovem para sempre. O casamento que se lhe impõem é a marca da maturidade esperada, em termos figurados, a chegada do verão. O pai, de 56 anos, vive o outono da existência e poderia ter a companhia da filha até o “inverno”, porém, isso – como ele mesmo tenta explicar a ela em momento dramático – não seria o natural. E a Natureza deve sempre ser respeitada.

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Mais que o simbolismo, o que fascina em Ozu é a suave apresentação da vida cotidiana num lar japonês, e o modo como o drama se esconde por trás de expressões faciais e movimentos corporais delicados. À simplicidade do roteiro corresponde o anonimato da câmera, que acompanha os personagens dentro de casa como se fora um amigo confidente, sem nunca se fazer notar ao espectador, extremamente discreta e elegante. Elegante como uma gueixa, eu diria.  Como deve ser numa casa japonesa onde se fazem as refeições ao rés do chão, os enquadramentos são baixos, e a movimentação é toda dentro do quadro, e nunca do próprio quadro. Do mesmo modo, a montagem é neutra, obediente às poucas ações, geralmente gestos domésticos simplórios, como tomar chá, trocar de roupa, ou ler. Um outro filme de Ozu chama-se “A rotina tem seu encanto”: acho que este título pode ser tomado como um mote para o estilo de Ozu.

Esse lirismo simples está em quase toda a filmografia de Ozu, e foi ele que conquistou a crítica, a japonesa e a internacional. Pois, segundo os estudiosos de sua obra, “Pai e filha” resume todas as suas qualidades, tanto é assim que, na última lista (2012) dos 100 melhores filmes do mundo, organizada pelo criterioso British Film Institute e publicada na revista Sight & Sound, o filme ocupa o privilegiado décimo quinto lugar.

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Há também quem faça de “Pai e filha” uma leitura contextual. Tratava-se do Japão do pós-guerra (1949), ocupado pelas tropas Aliadas, e o jogo todo seria entre tradição (representada por Noriko) e modernidade (aquela imposta pelas forças de ocupação). Nessa leitura, é sintomático que o pretendente de Noriko seja parecido com Gary Cooper, e que, no passeio da moça pela praia deserta, se ressalte, em primeiro plano, a placa da Coca-Cola.

O único ponto favorável que vejo nesta interpretação é que ela nos alerta para a riqueza de significação de que está impregnado o filme de Ozu. Para dar exemplo mais setorizado, na longa peça do Teatro No a que Noriko e o pai assistem, o tema da flor de Iris aquática e suas metamorfoses aponta, com certeza, para sentidos fílmicos que nos escapam. Outro exemplo ostensivo de polissemia misteriosa é o plano final do filme, em que se vê o mar convulso, imagem inusitada para o pacato cenário doméstico prevalecente.

Enfim, um filme que recomendo de coração e de mente.

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Nagisa Oshima (1932-2013)

16 jan

Aos oitenta anos de idade, morreu nesta terça-feira, dia 15 de janeiro, o grande cineasta japonês Nagisa Oshima e, com sua morte, fico pensando no revival que, de sua obra, vão fazer as emissoras de televisão.

Com certeza, os canais pagos vão reprisar o seu filme mais conhecido, ainda hoje semi-censurado no Japão, “O império dos sentidos” (“Ai no corrida”, 1976), baseado no caso real, acontecido nos anos 30, entre um dono de hotel e sua empregada. Ao menos a vantagem é que, agora, vai-se poder (re)ver o filme fora do contexto pornográfico em que foi lançado na época, e a estória trágica desse casal atormentado pelo desejo vai certamente tomar um outro “sentido”.

o imperio dos sentidos

Outros que devem ser reprisados são provavelmente: “Furyo – em nome da honra” (1983), a única produção estrangeira de Oshima, onde um soldado inglês (o cantor David Bowie) é, durante a Segunda Guerra, prisioneiro em campo de concentração japonês; e, também provavelmente, “Max, meu amor” (1986) filme que, com roteiro de Jean-Claude Carrièrre, conta a estória de uma mulher que trai o marido com um chimpanzé.

O meu Oshima preferido, porém, é de longe “O império da paixão” (“Ai no borei”, 1978), esse drama fantástico sobre a entrega amorosa e a culpa. Vocês lembram, não é? O tema é o mesmo de filmes sobre crimes passionais como “O destino bate a sua porta” (1946), mas o enfoque é bem oriental: a mulher e o amante matam o marido dela, jogando o corpo num poço, e, mais tarde, o fantasma começa a aparecer e leva o casal à loucura e à admissão da culpa. Filmaço.

Espero que o revival Oshima remonte aos anos 50/60, aquele período que os historiadores batizaram de “nouvelle vague japonesa” (Conferir o livro de Lúcia Nagib, “Em torno da Nouvelle Vague Japonesa”, Unicamp, 1993), movimento cinematográfico – lá pronunciado “Nuberu Bagu”! – do qual Oshima foi o cabeça, com sua defesa radical de um cinema de autor, independente na produção, na temática e na expressão.

De minha parte, conheço mal essa fase nouvellevaguista de Oshima, pelo simples fato de que ela não chegou às nossas telas na época. De passagem, recordo dois nouvellevaguistas orientais, acidentalmente exibidos em cinemas locais, em suas estreias: O Hiroshi Teshigahara de “A mulher da areia” (1964), filme impressionante que nunca esqueci, com sua metáfora plástica da relação a dois como sendo uma cratera intransponível; e o Kaneto Shindo do poético “A ilha nua” (1961) e do fantasmagórico “Onibaba, o sexo diabólico” (1964), mas, se não me falha a memória, isto é só.

o imperio da paixão

Nascido de família aristocrática, Nagisa Oshima formou-se em direito, com especialização em história, pela Universidade de Quioto, e logo cedo demonstrou interesse pelo teatro e pela literatura. Aos 22 anos, em 1954, ingressou como assistente de direção para os poderosos estúdios Shochiku, onde rodaria o seu primeiro filme, “Uma cidade de amor e esperança” (1959).  Nesses estúdios de regras tradicionais e rigorosas, trabalhou até os meados dos anos sessenta, lá realizando, com determinação e ousadia, as suas primeiras películas “nouvelle vague” (ou seja, experimentais na forma e contundentes no tema), como “O túmulo do sol”, “Canto cruel da juventude” e “Noite e névoa no Japão”, que só conheço de referências. Suas influências, segundo ele mesmo, são todas ocidentais: Artaud, Sade e o cinema documental e/ou surrealista de, por exemplo, um Buñuel.

Pouco inspirado, o seu último filme, “Tabu” (1999) enfocava o homossexualismo entre os clássicos samurais. De qualquer forma, no viés de Fassbinder e Pasolini, Oshima é considerado um dos grandes “cineastas do corpo”.

Para a maioria dos espectadores, o cinema japonês se limita a dois nomes, Akira Kurosawa e Kenji Mizogushi. Talvez, com algum otimismo a tiracolo, possamos incluir um pouco de Yasujiro Ozu, conhecido ao menos dos cinéfilos. Tomara que o suposto revival de Oshima – se é que vai haver mesmo – amplie o quadro.

Em sua radicalidade peculiar, Oshima dizia que o ódio que sentia ao cinema de seu país não deixava nada de fora. Esperemos que o nosso amor a esse cinema não venha – por razões de falta de acesso – a deixar Nagisa Oshima de fora. Tenho dito.

nagisa oshima

Eu e Verônica

19 dez

Não costumo ler crítica de cinema antes de ver o filme. Fiz isso com relação a “Era uma vez eu, Verônica” (2012) porque supus que o filme de Marcelo Gomes nem fosse ser exibido localmente. Já que não ia vê-lo, não custava nada me informar sobre.

Resultado: vi-o agora e não vou conseguir comentá-lo sem me referir às críticas lidas. Duas delas – de jornais do Sul – me chamaram a atenção, não tanto por serem antagônicas – uma francamente favorável, a outra, desfavorável – mas, por serem curiosamente complementares. Ambas afirmam que o roteiro de “Verônica” não bate com o modelo americano de cinema, aquele que, ao meio de viradas transformadoras, narra uma estória com começo, meio e fim. Para o primeiro crítico, isso é uma grande vantagem, e o principal motivo para o filme ser excelente. Já para o segundo crítico, isso é uma terrível desvantagem, e o principal motivo para o filme ser ruim.

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Bem, pelo menos os dois críticos sulistas apontaram uma verdade: “Verônica” não é narrativo, pelo menos predominantemente, não – o seu roteiro não consiste numa estória, mas numa situação e – já que os americanos foram o ponto de referência dos dois comentadores – uma ´situação´ no sentido inglês da palavra ´situation´, que o bom falante sabe que significa ´problema´ – nos termos do filme, ´crise´. E crise existencial.

É, portanto, um filme de personagem e o personagem é a Verônica, tão enfatizada na isotopia do título. Se formos atrás de estória, vamos ter pouco a dizer. Recém formada em psiquiatria, a recifense Verônica (Hermila Guedes) vai trabalhar num hospital público, enquanto, no lazer, se diverte com sexo livre, e, em casa, cuida do pai idoso e enfermo (W J Solha).

Turning points? Praticamente não os há ou os que há não têm peso transformador: Verônica se choca com os casos dos pacientes; dita a um gravador sua crise; firma um namoro; é repreendida pelos chefes; o pai adoece e ela fica sabendo que ele está terminal; o pai se recupera; ela encerra com o namorado; mudam de apartamento; o chefe lhe oferece emprego numa clínica particular; para agradar ao pai, ela compra a casa onde nasceu.

Ao apontar a não correspondência com o modelo americano de cinema, os dois críticos aqui comentados não disseram o que – para sermos simétricos – faltava dizer: que há um modelo, sim, o do cinema de arte europeu, onde fabulação é coisa secundária e só aparece na medida de aprofundar a temática. É este o caso em “Verônica”, e seus ancestrais – pouco importa se Gomes os conhece ou não – são pelo menos dois bons europeus, Michelangelo Antonioni (“O eclipse”, “Deserto vermelho”, etc) e Ingmar Bergman (“Cenas de um casamento”, etc) – ambos diretores de “situações” e, mais uma associação possível, de mulheres (e não homens!) em crise. Se me for permitido, faço um acréscimo oriental: o Yasujiro Ozu de “Pai e filha” (1949), em que a moça recusa o casamento e prefere estar ao lado do pai idoso.

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Em outras palavras, “Verônica” não tem estória porque não quer ter, e cobrar isto do filme é não considerar o seu código interno. Por outro lado, resumir sua qualidade a essa lacuna narrativa tampouco lhe faz justiça.

Não há dúvidas, o melhor do filme de Marcelo Gomes é a construção da personagem-título, e aqui cabe indagar o que há de original em Verônica. Ao seu gravador ela confessa ser uma pessoa em crise “como todo mundo” (grifo meu), expressão que ela repete várias vezes, porém, pelo que acompanhamos de sua intimidade, não é bem o caso. Verônica é uma mulher intensa, líquida e sólida ao mesmo tempo, fraca e forte, suave, bela e o filme, meio apaixonado, é uma declaração de amor a ela. Faltou dizer que ela, sem o saber, está um pouco adiante de seu tempo. Dois traços do imaginário mais convencional lhe escapam: não vive conflito de geração, como o fazem os rebeldes sem causa, e não anda em busca de um grande amor, como os eternos românticos de sempre: nesse aspecto, as cenas de sexo grupal com que o filme se abre e fecha são emblemáticas.

Seu sonho secreto e fugaz é ser cantora, e, aliás, a música é um curioso coadjuvante no filme todo: a paixão paterna pelo frevo é um dado revelador, e o refrão daquela canção repetido diz um bocado do drama da personagem: “está tudo padronizado”. A inserção de “O que me importa” num momento de intimidade pareceu querer acrescentar o radical ´melo´ no termo ´drama´, mas, por sorte, não o fez.

Por coincidência, o filme me pegou redigindo uma matéria sobre o melodrama como gênero, que deverá ser publicada neste espaço brevemente. Ora, dou-me conta de que “Era uma vez eu, Verônica” é justamente isto: um anti-melodrama que, para contrariar os freudianos e os românticos, não faz nenhum alarde de uma relação pai/filha, nem de uma busca estritamente erótica pelo prazer. Afeto, de um lado, e gozo, de outro, são dois de seus semas subjacentes e pacificamente co-existentes. Tudo isso sem muros e sem culpas, se possível for.

Enfim, espero que tenha dado para perceber que nem gostei tanto do filme quanto o primeiro crítico referido, nem desgostei tanto quanto o segundo.

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